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Mundo

Cuba acusa os EUA de “ditadura globalizada” e alerta para crise humanitária

Escassez de combustível provocada pelo embargo aprofunda crise e impacta transporte, emprego e preços

Publicado em 25/02/2026 1:31 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em discurso proferido em 23 de fevereiro durante a 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, qualificou as políticas externas dos Estados Unidos como expressão de uma “ditadura globalizada”, denunciando uma deterioração da ordem internacional que, segundo ele, estaria sendo substituída por uma lógica de força e pilhagem.

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Rodríguez argumentou que a ordem mundial concebida após a Segunda Guerra Mundial, com o propósito de impedir novos conflitos, está sendo corroída por uma interpretação do poder estadunidense como direito supremo à conquista e ao uso contínuo da força. Esse cenário, disse ele, representa um perigo para todos os Estados-nação, independentemente de suas orientações culturais ou políticas.

No centro de sua crítica esteve a ordem executiva assinada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em 29 de janeiro, descrita pelo chanceler cubano como uma medida de “punição coletiva” destinada a gerar uma “catástrofe humanitária” por meio de um bloqueio energético contra Cuba. A iniciativa, segundo Rodríguez, implica pressão econômica sobre países que mantêm relações comerciais de energia com a ilha, reforçando limitações críticas ao abastecimento de combustíveis essenciais.

O diplomata também situou a denúncia num contexto geopolítico mais amplo, questionando o futuro de reservas estratégicas de recursos naturais — desde minerais críticos e terras raras até água, florestas tropicais e regiões polares — em face de pressões econômicas, tarifas e da aplicação extraterritorial das leis e jurisdições norte-americanas.

Rodríguez indagou se uma potência global pode legitimamente tentar “destruir uma nação pequena e pacífica”, provocar tragédias humanitárias e suprimir culturas nacionais sob o pretexto de segurança, e reafirmou que Cuba responderá com unidade interna e mobilização dos seus cidadãos, inclusive residentes no exterior, para defender seus direitos à autodeterminação, soberania e integridade territorial.

O chanceler cubano afirmou ainda que, apesar das dificuldades econômicas e sociais que podem advir, o país buscará evitar um colapso, ressaltando recursos internos, incluindo produção própria de energia e investimentos em fontes renováveis, bem como sistemas universais de educação e saúde.

Rodríguez terminou destacando a disposição de Havana para um eventual diálogo com Washington, desde que pautado pela igualdade soberana, respeito ao direito internacional e ausência de interferências internas, com o objetivo de alcançar uma relação “civilizada” apesar das divergências existentes.

Escassez de combustível aprofunda crise

A crise energética em Cuba deixou de ser um problema estrutural restrito ao setor elétrico e passou a redefinir a rotina da população. Com reservas de combustível incertas e medidas emergenciais previstas para vigorar ao menos até o início de março, o país enfrenta uma combinação de apagões, retração econômica e encarecimento do custo de vida que amplia a sensação de instabilidade social.

Em um país com cerca de 9,6 milhões de habitantes, o governo suspendeu a comercialização de diesel e limitou severamente a venda de gasolina. Proprietários de veículos particulares passaram a ter acesso a apenas 20 litros por meio de um aplicativo estatal que organiza a distribuição — processo que pode levar meses.

A redução drástica da circulação de ônibus agravou a dependência de alternativas privadas. Em Havana, as tarifas dos poucos táxis em operação e dos triciclos elétricos que funcionam como transporte coletivo duplicaram. A compressão da oferta e o aumento dos preços tornaram o deslocamento diário um desafio logístico e financeiro.

O pedreiro Yixander Díaz, 27, morador da periferia da capital, relata que voltou a percorrer longas distâncias de bicicleta para trabalhar no centro. Até recentemente, atuava como taxista, mas a escassez de combustível o obrigou a interromper a atividade. “Os tempos estão complicados”, afirmou à AFP.

Atividade econômica sob pressão

As restrições energéticas repercutem também no mercado de trabalho. O governo anunciou a adoção temporária de uma semana laboral de quatro dias e garantiu a manutenção integral dos salários do funcionalismo público por um mês. A medida busca amortecer os efeitos imediatos da desaceleração produtiva.

No setor privado, contudo, a incerteza é maior. Pequenas empresas, trabalhadores autônomos e informais enfrentam queda de demanda e dificuldades operacionais. Alexander Callejas, 49, manobrista em um restaurante na região histórica da capital, relata diminuição no fluxo de clientes que chegam de carro. “A qualquer momento fico sem trabalho e não sei como vou alimentar minha família”, disse à AFP.

Levantamento da consultoria privada Auge indica que 96,4% das pequenas e médias empresas cubanas — cerca de 8.904 negócios — sofrem impacto classificado entre “severo” e “catastrófico” em razão da escassez de combustível.

Queda na geração de energia

A limitação do abastecimento também compromete o sistema elétrico. A produção doméstica de petróleo, estimada em aproximadamente 40 mil barris por dia, é insuficiente para suprir as oito usinas termelétricas do país. A carência de diesel paralisa geradores complementares, agravando o déficit.

Entre 1º de janeiro e 15 de fevereiro, a disponibilidade de eletricidade caiu 20% na comparação com 2025, ano em que a ilha conseguiu atender apenas metade da demanda nacional por energia, segundo dados oficiais analisados pela AFP. Apesar disso, houve avanço na geração solar: desde o início de 2026, a produção a partir dessa fonte cresceu 42,3% em relação ao ano anterior, amenizando parcialmente a queda.

Na prática, porém, os cortes seguem frequentes. “Aqui cortam a luz todos os dias”, relatou à AFP um morador identificado apenas como Eduardo.

Inflação e risco de desabastecimento

O encarecimento do combustível e as dificuldades de transporte repercutem nos preços dos alimentos e produtos básicos, especialmente no comércio privado. Cuba importa cerca de 80% dos alimentos que consome, o que torna a logística interna ainda mais sensível às restrições energéticas.

O vendedor ambulante Luis Amauri Morales, 52, afirma que frutas e verduras têm registrado aumentos contínuos. Ele prevê que pode haver escassez caso a crise persista. Yordan González, 20, funcionário de um pequeno comércio em Centro Havana, relata que o estabelecimento precisa fechar poucas horas após a abertura por falta de mercadoria e combustível para reabastecimento.

A convergência entre restrições energéticas, queda de oferta e aumento de preços reforça um cenário de vulnerabilidade econômica. Para a população, a crise deixou de ser apenas uma estatística macroeconômica e passou a se manifestar na dificuldade diária de se locomover, manter o emprego e garantir alimentos à mesa.

Bloqueio coloca sistema de saúde próximo do colapso

O ministro da Saúde de Cuba disse que o sistema de saúde do país está à beira do colapso, devido ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos

Em uma entrevista à agência de notícias Associated Press, José Ángel Portal Miranda alertou que as sanções dos EUA já não estão apenas prejudicando a economia de Cuba, mas também ameaçando a “segurança humana básica”.

“Não se pode prejudicar a economia de um Estado sem afetar os seus habitantes”, disse o ministro. “Esta situação pode colocar vidas em risco”, acrescentou no último dia 20.

Segundo Miranda, cinco milhões de pessoas que vivem em Cuba com doenças crônicas poderão enfrentar escassez de medicamentos ou adiamento de tratamentos, incluindo radioterapia para 16 mil doentes oncológicos e quimioterapia para outros 12,4 mil pacientes.

Os serviços de cardiologia, ortopedia, oncologia e tratamento de doentes em estado crítico que necessitam de energia elétrica de reserva estão entre as áreas mais impactadas, afirmou o ministro.

Os tratamentos para doenças renais e os serviços de ambulância de emergência também foram incluídos na lista de serviços afetados pela falta de combustível, de acordo com o ministro.

O sistema de saúde de Cuba segue um modelo universal e gratuito, oferecendo clínicas locais em quase todos os quarteirões e medicamentos subsidiados pelo Estado.

Esses serviços, no entanto, também entraram em estado de crise nos últimos anos, sobretudo desde a pandemia de covid-19. Milhares de médicos emigraram do país e a escassez de medicamentos obrigou muitos pacientes a comprá-los no mercado paralelo.

O ministro admitiu que os problemas devem se agravar nas próximas semanas, embora tenha sublinhado que o governo cubano tem tentado adaptar-se à nova realidade, instalando painéis solares nas clínicas e dando prioridade no atendimento a crianças e idosos.

As autoridades impuseram restrições a tecnologias que dependem mais de energia, como as tomografias computorizadas e os exames laboratoriais, obrigando os médicos a recorrer a métodos mais básicos para tratar os doentes, privando efetivamente muitos do acesso a cuidados de alta qualidade, lamentou o ministro.

Divisões na América Latina

A intensificação das restrições energéticas impostas a Cuba pelos Estados Unidos produziu respostas desiguais na América Latina, revelando tanto solidariedades ideológicas quanto cálculos estratégicos. O cenário combina auxílio material pontual, manifestações diplomáticas e, em vários casos, silêncio.

Entre os governos que optaram por auxílio concreto, o México assumiu protagonismo. A presidente Claudia Sheinbaum informou que dois navios da Marinha mexicana desembarcaram em Havana com 814 toneladas de alimentos, enquanto mais de 1.500 toneladas aguardam envio. Até o início de janeiro, seu governo também fornecia petróleo à ilha, parte classificada como ajuda humanitária. Embora esses embarques tenham sido suspensos, Sheinbaum reiterou que continuará atendendo solicitações do governo cubano na área humanitária e criticou a ameaça de sanções tarifárias de Washington.

No Chile, o presidente Gabriel Boric anunciou a doação de US$ 1 milhão a Cuba. A decisão gerou contestação interna por parte do presidente eleito José Antonio Kast, representante da direita chilena, evidenciando que o tema também reverbera na política doméstica.

Brasil e Venezuela

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a ofensiva norte-americana, mas não divulgou medidas de assistência direta. A relação bilateral inclui o histórico programa Mais Médicos, operacionalizado por meio da Organização Pan-Americana da Saúde, que levou profissionais cubanos ao Brasil. A exportação de serviços médicos constitui a principal fonte de divisas de Cuba — US$ 7 bilhões em 2025, segundo dados oficiais.

Na Venezuela, o governo interino liderado por Delcy Rodríguez reiterou solidariedade política a Havana e mantém no país cerca de 13 mil profissionais de saúde cubanos. A cooperação entre os dois países remonta à gestão de Hugo Chávez e se aprofundou nas décadas seguintes, especialmente no setor energético.

América Central e região andina

Na América Central, a Nicarágua — governada por Daniel Ortega — condenou as sanções dos EUA, mas não anunciou ajuda material e restabeleceu a exigência de visto para cidadãos cubanos. A flexibilização migratória, vigente desde 2021, havia facilitado a saída de cubanos após os protestos daquele ano.

Guatemala e Honduras caminham em direção oposta. A Guatemala encerrou um acordo de 27 anos que permitia a atuação de médicos cubanos no país; os 412 profissionais remanescentes devem deixar o território nos próximos meses. Honduras, sob a presidência de Nasry Asfura, também planeja descontinuar as brigadas médicas.

Na América do Sul, Colômbia e Uruguai — governados por Gustavo Petro e Yamandú Orsi, respectivamente — não anunciaram medidas concretas. El Salvador, comandado por Nayib Bukele, tampouco sinalizou apoio, assim como Panamá e Costa Rica.

No Equador, o presidente Daniel Noboa não apresentou iniciativas de ajuda e, em 2025, o país se absteve pela primeira vez em mais de três décadas na votação anual da ONU que pede o fim do embargo norte-americano a Cuba. Já a Argentina, sob Javier Milei, recomendou que seus cidadãos evitem viagens à ilha.

Rússia entra em cena

Fora do eixo latino-americano, a Rússia indicou que pretende fornecer petróleo e derivados a Cuba como ajuda humanitária, segundo informações divulgadas pelo jornal Izvestia com base em declarações de diplomatas russos em Havana. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que Moscou discute formas de apoio, apesar das dificuldades logísticas.

A sinalização reforça o alinhamento político entre Moscou e Havana em um momento de pressão internacional. O movimento também amplia o tabuleiro geopolítico da crise: o que começou como um impasse energético regional ganha contornos de disputa estratégica mais ampla, envolvendo potências externas e redesenho de alianças no continente.

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