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Mundo
Trump perde apoio entre latinos e brasileiros sofrem com omissão do Itamaraty
Publicado em 11/06/2025 10:50 - Semana On
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No momento em que os consulados brasileiros nos Estados Unidos enfrentam uma crise sem precedentes — marcada por filas, lentidão e falta de funcionários —, a comunidade latina que, em 2024, ajudou a eleger Donald Trump, agora começa a se afastar do presidente norte-americano. É uma dupla tempestade: de um lado, o colapso da capacidade consular brasileira diante do aumento da demanda; de outro, a erosão do apoio latino a uma agenda que prometia prosperidade, mas entregou repressão. Entre promessas não cumpridas e políticas migratórias cada vez mais hostis, brasileiros e latino-americanos se encontram em um vácuo político e institucional, com efeitos profundos tanto nas relações bilaterais quanto no cenário eleitoral dos EUA e do Brasil.
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Segundo levantamento obtido pelo UOL a partir de dados oficiais e portarias do Itamaraty, 66% das embaixadas e 68% dos consulados brasileiros no mundo operam com déficit de pessoal. A situação é particularmente crítica nos Estados Unidos, onde vive a maior comunidade brasileira no exterior — cerca de 2 milhões de pessoas. Em 10 dos 11 consulados americanos, há falta de servidores. Na prática, significa que cidades como Houston (TX), que abriga mais de 100 mil brasileiros, não contam com nenhum Oficial de Chancelaria.
Em Boston, onde o ideal seria 13 servidores, há apenas sete. Em Los Angeles, são quatro para uma demanda que exige dez. O consulado em Miami registrou um crescimento de 187% no total de atendimentos entre abril de 2022 e abril de 2025 — um aumento de 140% na emissão de certidões de nascimento e 60% nos pedidos de passaporte. A embaixada em Washington também opera com equipe reduzida, impactando serviços fundamentais.
O Cônsul-Geral do Brasil em Nova York, em audiência no Senado em 27 de maio, admitiu que documentos que antes eram emitidos em 48 horas agora levam até dois meses. A lentidão compromete casamentos, registros de nascimento, acesso a benefícios e até repatriações — situações que, em sua maioria, envolvem cidadãos em contextos de vulnerabilidade.
A máquina emperrada: causas da crise
O desmonte não é recente. Desde 2008, não há concurso para a carreira de Assistente de Chancelaria, e o número de servidores caiu 46% desde 2012. Na carreira de Oficial de Chancelaria, das 1.000 vagas regulamentadas, apenas 769 estavam ocupadas em maio de 2025 (eram 905 em 2012). Em 27% das embaixadas e 24% dos consulados não há nenhum Oficial de Chancelaria em exercício.
Um agravante adicional: parte dos servidores foi repatriada ao Brasil para atuar na organização de eventos como o G20, os Brics e a COP 30, em 2024 e 2025. Essa drenagem de recursos humanos agravou ainda mais o colapso do atendimento consular.
O chanceler Mauro Vieira, em dezembro de 2023, reconheceu publicamente que o ministério enfrenta um déficit de cerca de 900 funcionários: “É dificílimo de administrar, um Ministério sem diplomatas e sem Oficiais de Chancelaria.”
Apesar disso, a nomeação de 50 aprovados em concurso realizado em 2023 segue bloqueada. A Portaria MGI nº 2.454/2023 autorizou a contratação de 100 oficiais: 50 foram convocados, mas os outros aguardam desde setembro de 2024 a liberação pelo Ministério da Gestão e da Inovação (MGI). O custo? R$ 4,8 milhões, ou 0,28% do orçamento para cargos vagos no governo. A inércia administrativa revela um problema de vontade política mais do que de limitação financeira.
Latinos recuam diante da repressão de Trump
Enquanto isso, do outro lado do balcão, a comunidade latina começa a se afastar de Donald Trump. A mais recente pesquisa do Global Strategy Group, divulgada em maio, mostra que o apoio entre latinos às políticas do presidente caiu de 43% em fevereiro para 29% no fim de maio. Apenas 19% acreditam que a economia dos EUA melhorou sob sua gestão.
Mais do que números, a pesquisa revela um sentimento de traição. Muitos votaram em Trump em 2024 com a expectativa de mudança econômica, não por adesão ideológica. O endurecimento migratório — que resultou em centenas de deportações de imigrantes latino-americanos, muitos dos quais viviam há anos legalmente nos EUA — frustrou essa esperança.
A decisão de revogar o Status de Proteção Temporária (TPS) para venezuelanos foi considerada “injusta” por quase 80% dos entrevistados, segundo pesquisa do Fórum Latino de Opinião Pública, focada em venezuelanos na Flórida. Quase metade dos eleitores latinos que votaram em Trump em 2024 afirmam se arrepender ou estar em dúvida sobre sua escolha.
O impacto eleitoral e o racha republicano
O efeito colateral já é sentido na base republicana. Marco Rubio, ex-senador e atual secretário de Estado de Trump, é rejeitado por 60% da comunidade venezuelana na Flórida. Deputados republicanos como Mario Diaz-Balart, Maria Elvira Salazar e Carlos Gimenez são criticados por 43% dos entrevistados por não terem defendido os imigrantes. 41% dizem que não votarão neles em 2026.
Até Ileana Garcia, senadora estadual da Flórida e filha de refugiados cubanos, se declarou “profundamente decepcionada” com Trump: “Não foi para isso que votamos. Isso é inaceitável e desumano.”
A deputada Maria Elvira Salazar, aliada do bolsonarismo nos EUA, também tentou se distanciar dos impactos negativos: “Sempre estarei ao lado da justiça e de nossa comunidade”, disse, prometendo interceder junto à Casa Branca.
A mudança de tom revela que, mesmo dentro do Partido Republicano, cresce a tensão entre a fidelidade partidária e a pressão do eleitorado latino.
O elo quebrado entre representação e realidade
O que une as duas crises — a dos consulados brasileiros e a do desencanto latino com Trump — é a ruptura entre a representação política e as necessidades reais das populações que deveriam ser assistidas. Em ambos os casos, a negligência institucional expõe populações migrantes a situações de desamparo, insegurança e invisibilidade. No plano filosófico e político, é o colapso do contrato social em sua dimensão mais básica: a promessa de proteção estatal em troca de confiança cívica.
Como alertava o sociólogo Zygmunt Bauman, “o mundo atual tem excesso de indivíduos e escassez de instituições que cuidem deles”. E é justamente essa escassez — material nos consulados, simbólica na política — que define o cenário de angústia vivenciado por milhões de imigrantes latino-americanos e brasileiros nos Estados Unidos.
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