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Mundo
Brasileiros enfrentam prisão e censura ao denunciar genocídio em Gaza
Publicado em 10/06/2025 11:05 - Semana On
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Nos últimos dias, três acontecimentos separados por milhares de quilômetros revelam uma mesma ferida aberta: a incapacidade da comunidade internacional de proteger os princípios mais elementares da dignidade humana diante da violência institucionalizada. Um relatório contundente da ONU denuncia crimes de extermínio cometidos por Israel contra os palestinos. No Mediterrâneo, um brasileiro é preso por tentar furar o bloqueio de Gaza com ajuda humanitária. E nos EUA, uma curadora brasileira é demitida após denunciar, em um evento sobre o Holocausto, o genocídio em curso na Palestina. Três histórias conectadas por um eixo de impunidade, repressão e silenciamento.
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A Comissão de Inquérito da ONU apresentou um dos documentos mais graves já produzidos sobre o conflito israelo-palestino. Acusa o Estado de Israel de crimes de guerra e do crime de extermínio — categoria que, no Direito Internacional, refere-se à tentativa sistemática de aniquilação de um grupo populacional. “As forças israelenses cometeram o crime de extermínio contra a humanidade”, afirma o relatório, com base em centenas de testemunhos, imagens de satélite e provas documentais.
Segundo a Comissão, mais de 90% das escolas e universidades da Faixa de Gaza foram destruídas. A estimativa é de que 658 mil crianças estejam há quase dois anos sem acesso à educação. Mais da metade dos locais religiosos e culturais também foram reduzidos a escombros. Em muitos casos, não havia qualquer justificativa militar para os ataques. “Corroem os laços históricos dos palestinos com a terra”, declarou Navi Pillay, ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e presidente da Comissão de Inquérito, em entrevista coletiva.
Esse tipo de destruição deliberada do tecido educacional e cultural configura, segundo o artigo 8 do Estatuto de Roma, uma violação grave do Direito Internacional Humanitário. A alegação de que grupos como o Hamas tenham utilizado estruturas civis para fins militares, embora reconhecida no relatório, não isenta o Estado de Israel da obrigação de distinguir entre alvos civis e militares.
A prisão de Thiago Ávila e o cerco à solidariedade
Enquanto isso, a repressão à solidariedade humanitária ganha contornos dramáticos. O ativista brasileiro Thiago Ávila foi detido por Israel após tentar romper o bloqueio naval à Faixa de Gaza a bordo do barco Madleen, em missão da Freedom Flotilla Coalition. A embarcação levava arroz e medicamentos e foi interceptada por forças navais israelenses em águas internacionais — o que especialistas em Direito Marítimo já qualificam como ilegal.
“Estamos para ser atacados pelo mais cruel e odioso exército do mundo”, disse Ávila em vídeo gravado antes da interceptação, num gesto de denúncia e auto-sacrifício típico das ações de desobediência civil pacífica. A declaração foi compartilhada com seus 780 mil seguidores e viralizou. O Brasil exigiu oficialmente a libertação do ativista, mas a diplomacia do Itamaraty ainda não indicou quais medidas jurídicas pretende adotar.
Em nota oficial, o governo israelense ironizou a ação humanitária: “A pequena quantidade de ajuda no iate que não foi consumida pelas ‘celebridades’ será transferida para Gaza pelos canais humanitários reais”. O tom desdenhoso revela uma estratégia que busca deslegitimar esforços civis internacionais e reforçar o monopólio militar sobre o sofrimento humanitário — uma prática historicamente associada a regimes autoritários.
Karolina Ziulkoski e o preço da memória
No mesmo mês, a curadora brasileira Karolina Ziulkoski foi escoltada para fora de um evento em Nova York e demitida do YIVO Institute for Jewish Research — instituição criada em 1925 para preservar a cultura judaica do Leste Europeu — após comparar o genocídio em Gaza ao Holocausto. Ziulkoski, que estudava há seis anos as razões pelas quais a memória do Holocausto deve ser preservada, ousou atualizar o lema “nunca mais” para além das fronteiras étnicas e geográficas.
“Ficar em silêncio é ser cúmplice”, afirmou, ao comentar o diário de Itskhok Rudashevski, adolescente judeu assassinado em Vilnius, que denunciava as atrocidades do nazismo. A frase ecoa a máxima de Primo Levi: “Aqueles que negam Auschwitz estariam prontos a repeti-lo”. Mas para o YIVO, a analogia entre vítimas históricas e contemporâneas foi “prejudicial à credibilidade da instituição”.
Esse episódio reflete uma tensão profunda entre a memória histórica e a política contemporânea. Segundo o historiador Enzo Traverso, autor de A História como Campo de Batalha (Editora UNESP, 2014), “o Holocausto tornou-se uma referência moral global, mas também uma moeda simbólica disputada por diferentes atores políticos”. A censura à fala de Ziulkoski explicita como essa disputa pode silenciar até mesmo aqueles que estudam a memória do genocídio para evitar sua repetição.
Democracia sob teste
O cerne desses três episódios não é apenas o conflito no Oriente Médio, mas a erosão de normas internacionais fundamentais: o direito à vida, à cultura, à expressão e à solidariedade. Quando as instituições falham em proteger os civis, e quando vozes críticas são caladas em nome da “neutralidade institucional”, o que está em jogo é a própria ideia de civilização democrática.
Ao acusar Israel de crimes de extermínio, a ONU não apenas lança luz sobre o sofrimento dos palestinos — também convoca o mundo a agir. Como alertou Hannah Arendt, ao estudar a banalidade do mal, “a desumanização não começa com as armas, mas com o silêncio que as precede”.
Hoje, esse silêncio se expressa na destruição sistemática da vida palestina, na prisão de ativistas pacíficos e na demissão de intelectuais que ousam nomear o inominável. Rompê-lo é, mais do que um dever moral, uma condição para que a promessa de “nunca mais” deixe de ser apenas um lema vazio — e se torne, enfim, um compromisso vivo com a humanidade.
Captura de navio com ajuda humanitária mostra que Israel quer matar palestinos de fome
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