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Após fechar “acordo” com Trump, Milei envia aviões militares para Bolívia: peronistas pedem explicação
Publicado em 19/05/2026 1:02 - Semana On
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A escalada da crise política e econômica na Bolívia ganhou novo capítulo com o agravamento dos confrontos entre manifestantes e forças de segurança em La Paz. Cercada por bloqueios rodoviários que interrompem o abastecimento e dificultam a circulação de pessoas e mercadorias, a capital boliviana tornou-se o principal epicentro da insatisfação popular contra o presidente Rodrigo Paz.
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No poder há apenas seis meses, o líder de centro-direita enfrenta uma onda crescente de mobilizações impulsionadas por trabalhadores rurais, operários, mineiros e professores, que responsabilizam o governo pelo aprofundamento da crise econômica mais severa enfrentada pelo país desde os anos 1980. Aos protestos motivados pela inflação, pela escassez de combustíveis e pela falta de dólares somaram-se, nos últimos dias, setores ligados ao ex-presidente Evo Morales.
Durante a segunda-feira, grupos de manifestantes armados com pedras, bastões e explosivos artesanais tentaram avançar em direção à Praça Murillo, onde estão localizados o palácio presidencial e as principais instituições do poder boliviano. A repressão policial incluiu o uso de bombas de gás lacrimogêneo para conter a multidão.
Em meio aos confrontos, um escritório do Registro Nacional de Bens foi saqueado. Imagens divulgadas pelo governo mostraram manifestantes retirando computadores, móveis e equipamentos do prédio público. Segundo a emissora Unitel, mais de cem pessoas foram detidas ao longo do dia, enquanto diversos feridos foram registrados em diferentes pontos da capital.
O vice-ministro do Interior e da Polícia, Hernan Paredes, informou ainda que um manifestante morreu após cair em uma vala durante os confrontos. Paralelamente, o Ministério Público determinou a prisão de Mario Argollo, dirigente da Central Operária Boliviana (COB), principal entidade sindical do país. Considerado uma das lideranças dos atos, ele passou a responder por acusações de incitação pública à prática de delitos e terrorismo.
Além de Argollo, outros 24 dirigentes ligados às mobilizações tiveram mandados de prisão expedidos. O governo sustenta que os protestos fazem parte de uma tentativa organizada de desestabilização política e afirma que parte das ações seria financiada com recursos provenientes do narcotráfico.
Enquanto os confrontos se intensificavam na capital, uma marcha organizada por trabalhadores rurais e indígenas alinhados a Evo Morales chegou a La Paz após percorrer cerca de 190 quilômetros em seis dias. Os manifestantes se uniram a professores e outros setores organizados para denunciar o que classificam como uma agenda neoliberal conduzida pelo governo Rodrigo Paz.
Presidente da Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia, Feliciano Vegamonte criticou duramente a gestão econômica do atual governo. Segundo ele, as políticas implementadas desde a posse de Paz desmontaram a economia popular e ampliaram o descontentamento social no país.
Tras criminalizar la protesta social, el gobierno de Rodrigo Paz, está reprimiendo con fuerzas policiales y militares a miles de bolivianos que protestan contra el modelo neoliberal y estado colonial; e inició una brutal persecución y detención como el mandamiento de aprehensión… pic.twitter.com/Vwr0waNlzP
— Evo Morales Ayma (@evoespueblo) May 18, 2026
O discurso dos movimentos sociais também passou a incorporar críticas estruturais ao modelo econômico adotado pelo governo. Nelson Virreira, dirigente de uma organização camponesa, acusou a administração de promover privatizações e aprofundar desigualdades sociais ao favorecer setores mais ricos em detrimento da população pobre.
O Palácio do Governo, por sua vez, aponta diretamente Evo Morales como articulador político das mobilizações. O ex-presidente socialista, que governou a Bolívia entre 2006 e 2019, é investigado por exploração sexual de uma menor e vive desde 2024 recluso em seu reduto político no Chapare, região central do país.
Em entrevista à emissora Red Uno, o ministro da Economia, José Gabriel Espinoza, afirmou que os protestos são conduzidos por “operadores políticos” ligados a Morales com o objetivo de desestabilizar o governo e viabilizar seu retorno ao poder.
Entre os apoiadores do ex-presidente que se concentraram em La Paz, cresce o temor de uma eventual prisão de Morales. Em publicações na rede social X, o ex-mandatário manifestou apoio aos protestos e classificou a prisão de dirigentes sindicais, entre eles Mario Argollo, como resultado de uma “brutal perseguição”.
A tensão política ocorre em paralelo ao agravamento do colapso logístico no país. Há mais de duas semanas, bloqueios rodoviários promovidos por manifestantes interrompem os principais acessos à capital. Na noite de segunda-feira, a Administradora Boliviana de Rodovias registrava ao menos 32 pontos de bloqueio espalhados pelo território nacional.
No sábado (16), forças policiais e militares chegaram a liberar temporariamente algumas estradas após operações de desobstrução, mas os manifestantes retomaram rapidamente o controle de vários trechos ainda no mesmo dia.
Com La Paz praticamente isolada, o impacto sobre o abastecimento se tornou cada vez mais evidente. A escassez de combustíveis, alimentos e medicamentos se agrava em um cenário de inflação elevada e deterioração econômica acelerada. O governo anunciou uma nova operação para esta terça-feira (19), com o objetivo de abrir um “corredor humanitário” temporário de seis horas para permitir a entrada de suprimentos na capital.
A atual crise econômica boliviana é considerada a mais grave em quatro décadas. Sem reservas internacionais suficientes para sustentar os subsídios aos combustíveis, o governo encerrou o programa em dezembro passado. Desde então, o aumento dos preços intensificou a pressão social. Em abril, a inflação acumulada em doze meses alcançou 14%, ampliando o desgaste político de Rodrigo Paz e aprofundando o ambiente de instabilidade no país.
???? Presentamos un pedido de informes al gobierno de Milei por el envío de dos aviones militares Hércules C-130 a Bolivia, en pleno proceso de represión a la rebelión popular masiva contra el gobierno de Paz Pereira. El diputado opositor boliviano Rolando Pacheco (Alianza Popular)…
— Juan Marino (@JuanMarinoTPR) May 18, 2026
Milei envia aviões militares após fechar acordo com Trump
A crise boliviana passou a produzir efeitos diplomáticos e militares além das fronteiras do país, ampliando tensões regionais e colocando o governo argentino de Javier Milei sob pressão da oposição peronista. Parlamentares da coalizão União pela Pátria cobraram explicações formais do Executivo após o envio de duas aeronaves militares C-130 Hércules à Bolívia em meio ao endurecimento da repressão promovida pelo presidente Rodrigo Paz contra os protestos populares.
O pedido de esclarecimentos foi protocolado na segunda-feira (18) por deputados ligados ao peronismo, entre eles German Martínez, líder da bancada, e Cecilia Moreau, primeira vice-presidente da Câmara dos Deputados argentina. A iniciativa ganhou força após declarações do deputado boliviano Rolando Pacheco, da Aliança Popular, que afirmou publicamente que as aeronaves argentinas não transportavam ajuda humanitária, mas equipamentos destinados a apoiar ações repressivas do governo boliviano.
O deputado argentino Juan Marino, um dos autores do requerimento, sustentou que a operação ocorre em um contexto marcado por mortes, dezenas de feridos e detenções em massa durante os confrontos na Bolívia. Segundo dados divulgados pela Defensoria Pública boliviana em 16 de maio, ao menos 47 pessoas haviam sido presas até aquele momento. Marino também mencionou relatos de manifestantes atingidos por disparos que provocaram perda de visão.
A oposição exige que o governo Milei detalhe a natureza da carga levada pelos aviões militares, identifique o pessoal transportado e esclareça os termos de eventuais acordos de cooperação militar firmados com La Paz. O pedido inclui ainda informações sobre a participação argentina na operação denominada “Escudo das Américas”, iniciativa associada ao governo de Donald Trump.
Para os parlamentares peronistas, o histórico recente da região impõe cautela diante de operações militares envolvendo a Bolívia. Marino afirmou que “a mera palavra do governo argentino não basta”, numa referência indireta às denúncias relacionadas ao envio de armamentos argentinos durante a crise boliviana de 2019.
O deputado argentino também relacionou o atual cenário ao retorno de figuras vinculadas aos episódios mais violentos da repressão pós-golpe contra Evo Morales. Segundo ele, a nomeação do general Rodolfo Montero Torrico para o cargo de vice-ministro da Segurança Cidadã, em abril deste ano, representa um agravamento político significativo.
Montero Torrico comandava a Polícia Boliviana durante os massacres de Sacaba e Senkata, ocorridos em 2019, operações que resultaram em dezenas de mortes e se tornaram símbolos da repressão estatal após a queda de Morales. O oficial foi posteriormente apontado pelo Grupo Interdisciplinar de Peritos Independentes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos como integrante da cadeia de comando responsável pelas ações. Atualmente, responde a acusações de genocídio, homicídio e lesões corporais graves no Ministério Público boliviano.
As críticas ao alinhamento entre Buenos Aires e Washington também ganharam intensidade após o anúncio de um novo acordo militar firmado entre Argentina e Estados Unidos para atuação no Atlântico Sul. Batizado de “Programa de Proteção dos Bens Comuns Globais”, o pacto prevê cooperação estratégica em segurança marítima e deve se estender até 2030.
Embora apresentado oficialmente como uma iniciativa de defesa regional, o programa despertou preocupação em setores diplomáticos brasileiros, sobretudo por envolver operações na área marítima próxima ao território brasileiro e por sinalizar um aprofundamento da presença militar norte-americana no Cone Sul.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, a embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires informou que a parceria começará com a entrega de uma câmera especializada destinada ao monitoramento marítimo argentino. O plano também prevê transferência de equipamentos considerados avançados, treinamento especializado e suporte operacional voltado à interceptação de ameaças marítimas, embora sem detalhar quais seriam esses riscos.
MILEI LE MANDÓ AVIONES MILITARES AL GOBIERNO REPRESOR DE BOLIVIA
Tenemos que dar una lucha en toda América Latina en contra de la represión, en contra de las masacres, y en defensa de la rebelión popular del pueblo boliviano pic.twitter.com/pOw5BiuaZU
— Juan Marino (@JuanMarinoTPR) May 18, 2026
O acordo foi formalizado pelo contra-almirante Carlos Sardiello, do Comando Sul das Forças Navais dos Estados Unidos, e pelo almirante Juan Carlos Romay, da Marinha Argentina. A assinatura consolidou uma parceria estratégica de cinco anos voltada, segundo os governos envolvidos, à proteção dos chamados “bens comuns globais” e ao fortalecimento da segurança regional.
Nos bastidores diplomáticos, a aproximação crescente entre Milei e Washington tem sido acompanhada com reservas pelo governo brasileiro. Nas últimas semanas, o Itamaraty buscou retomar o debate sobre o Atlântico Sul como zona de paz e cooperação internacional — conceito historicamente apoiado pela própria Argentina antes da mudança de orientação política promovida pela atual administração argentina.
O avanço da influência militar norte-americana na região também inclui negociações recentes com o Paraguai. No início do ano, o governo de Donald Trump fechou um entendimento que prevê a possibilidade de instalação de uma base militar dos Estados Unidos em território paraguaio.
O alinhamento entre Milei e o governo norte-americano já vinha se tornando mais evidente desde abril, quando o presidente argentino participou de uma atividade organizada pelo Comando Sul dos Estados Unidos a bordo do porta-aviões USS Nimitz, posicionado próximo à costa de Mar del Plata. A presença do mandatário argentino no exercício foi interpretada como mais um sinal do reposicionamento estratégico de Buenos Aires no tabuleiro geopolítico regional.
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