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Mundo
Escalada de prisões de brasileiros expõem a face brutal de um projeto de desumanização estatal
Publicado em 29/04/2025 12:12 - Semana On
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Em um episódio que revela o grau de brutalidade alcançado pelas políticas migratórias dos Estados Unidos sob Donald Trump, uma criança americana de apenas quatro anos, em tratamento contra o câncer, foi deportada para Honduras sem direito a levar seus medicamentos, ao lado de sua mãe e dois irmãos. O caso, denunciado pela American Civil Liberties Union (ACLU) e documentado em processo conduzido pelo juiz federal Terry Doughty, não é um fato isolado: ele ilustra uma engrenagem maior de desumanização que transforma vidas em estatísticas a serviço da retórica anti-imigração.
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Em paralelo, o número de brasileiros detidos na Nova Inglaterra praticamente dobrou desde a posse de Trump em janeiro de 2025: de 85 para 164 pessoas em poucos meses, conforme revelou investigação do UOL a partir de dados oficiais. O clima de medo, antes difuso, agora é palpável: famílias mudam suas rotinas, trabalhadores evitam circular nas ruas, e a sombra da deportação paira sobre toda uma comunidade.
O projeto político da exclusão
Desde o início de seu primeiro governo, Trump abraçou uma política migratória que transcende o combate à imigração irregular. Inspirado em conceitos do nacionalismo étnico, ele emprega a estratégia clássica de criar um “outro” ameaçador — no caso, o imigrante latino — para reforçar sua base política. Como alertava a filósofa Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (1951), “o primeiro passo na criação de um regime totalitário é transformar grupos inteiros em párias sem direitos”. O caso da criança com câncer deportada, portanto, não é um acidente administrativo: é a cristalização de uma lógica que visa, sistematicamente, desumanizar.
Em cem dias de governo, Trump já havia atacado o Estado de direito, a imprensa livre, a ciência, a educação e, agora, como observa a ACLU, avança sobre os mais vulneráveis: crianças doentes, mães imigrantes e trabalhadores brasileiros.
A defesa oficial da Casa Branca soou ainda mais insensível: Tom Homan, czar de fronteiras de Trump, declarou que a deportação da família foi uma “decisão dos pais”, tentando minimizar a responsabilidade do governo. A ironia do cinismo foi resumida na famosa frase de Tennessee Williams: “A única coisa pior do que o mentiroso é o mentiroso hipócrita”.
O impacto na comunidade brasileira
Dos cerca de dois milhões de brasileiros vivendo nos EUA, aproximadamente 400 mil concentram-se na região de Boston — Massachusetts, New Hampshire, Vermont e Maine — epicentro da nova política de caça a imigrantes. Segundo fontes oficiais brasileiras, de 9.800 brasileiros presos entre 2021 e 2025, quase metade (4.700) foi detida na Nova Inglaterra.
Após uma queda nas detenções nos anos de 2022 e 2023, o número voltou a disparar com a retomada das ações do ICE (Immigration and Customs Enforcement). Só no primeiro mês de 2025, 349 brasileiros foram presos — uma média de mais de 10 por dia. As notificações de deportação seguiram o mesmo ritmo alarmante: 877 casos apenas em janeiro.
Autoridades brasileiras tratam o tema com sigilo, receosas de provocar um incidente diplomático, enquanto organizações sociais tentam amparar famílias desfeitas e comunidades traumatizadas. O encerramento abrupto de rendas familiares, causado pela prisão de provedores, também tem consequências econômicas diretas e profundas.
A lógica da punição e do medo
Donald Trump não escondeu suas intenções durante a campanha: prometeu realizar a maior deportação em massa da história dos EUA, mirando 10 milhões de pessoas. Embora especialistas apontem que a meta é logisticamente inviável — como mostrou o New York Times em análise de 2024 —, a ofensiva já produz efeitos devastadores.
Em apenas 50 dias de 2025, o ICE realizou 32.809 prisões — quase o total de detenções efetuadas em todo o ano de 2024 (33.242). O endurecimento das práticas migratórias se alia a uma retórica que redefine a imigração não mais como fenômeno econômico ou social, mas como ameaça existencial.
O sociólogo Zygmunt Bauman já advertia em Medo Líquido (2006) que “o medo é o meio de governo mais barato e eficiente”. Ao disseminar o medo nas comunidades imigrantes, Trump não apenas cumpre sua agenda política, mas transforma a própria sociedade americana, corroendo seus princípios fundacionais de liberdade e dignidade humana.
Um retrocesso civilizatório
O caso da criança deportada, a explosão de prisões e a política de Estado baseada na exclusão mostram que, mais do que uma estratégia eleitoral, estamos diante de um retrocesso civilizatório. Como observa o historiador Timothy Snyder em Sobre a Tirania (2017), “quando o governo desrespeita os direitos de grupos vulneráveis, a liberdade de todos está em risco”.
A comunidade internacional, os defensores dos direitos humanos e os setores democráticos dos EUA devem encarar esses sinais com a gravidade que merecem. Ignorá-los seria compactuar com a erosão dos valores que sustentam a democracia moderna.