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Mundo
Guerra expõe divisões nos EUA, na Europa, nos Brics e entre opinião pública
Publicado em 06/03/2026 1:23 - Semana On
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A ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tem aprofundado divisões internas entre os norte-americanos. Enquanto pesquisas de opinião indicam que a maioria deles rejeita a escalada militar, o debate em Washington revela um cenário fragmentado entre partidos, parlamentares e setores da mídia.
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No Congresso, iniciativas para limitar os poderes de guerra do presidente Donald Trump avançam lentamente. Ao mesmo tempo, o apoio republicano à operação militar ainda predomina, apesar de fissuras pontuais dentro da própria base do movimento Make America Great Again (MAGA). Entre os democratas, o principal foco de crítica tem sido a legalidade da intervenção, já que parlamentares argumentam que o presidente não obteve autorização prévia do Legislativo, exigência prevista na legislação norte-americana.
Nas ruas, a mobilização tem sido limitada. Pequenos protestos contra a guerra foram registrados em diferentes cidades dos Estados Unidos, mas os atos reuniram apenas algumas centenas de manifestantes. Paralelamente, também ocorreram manifestações de celebração pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, organizadas sobretudo por setores da diáspora iraniana contrários ao regime de Teerã.
Para o historiador e cientista político Rafael R. Ioris, professor da Universidade de Denver, a oposição interna à guerra ainda não ganhou força suficiente para alterar o rumo do debate político. Em entrevista à Agência Brasil, ele avaliou que as críticas partem majoritariamente de grupos que já se posicionam contra o governo Trump.
“A insatisfação contra a guerra no Irã é pontual e dentro das vozes já críticas ao governo Trump. Mas, se houver muitas mortes, as críticas podem aumentar. Tudo dependerá de como a guerra evoluir”, afirmou o pesquisador, também ligado ao Washington Brazil Office (WBO). Segundo ele, o controle republicano do Congresso reduz, no momento, a probabilidade de resistência significativa à estratégia militar.
O professor emérito da Universidade Brown e presidente do WBO, James N. Green, observa, contudo, que as divergências alcançam inclusive a base eleitoral do presidente. “A base de Trump se dividiu. O nacionalismo costuma aparecer com força em contextos de guerra, mas neste momento a maioria da população está contra a intervenção e há um setor minoritário, porém relevante, do MAGA que tem criticado a ofensiva”, afirmou.
Opinião pública majoritariamente contrária
Levantamentos recentes reforçam a distância entre a percepção popular e as decisões políticas. Pesquisa realizada pela Reuters em parceria com o instituto Ipsos, divulgada no domingo (1º), apontou que apenas 27% dos norte-americanos aprovam os ataques contra Teerã.
Outro levantamento, conduzido pela empresa SSRS e divulgado pela CNN na segunda-feira (4), mostrou cenário semelhante: 41% dos entrevistados apoiam a ofensiva, enquanto 69% se declaram contrários.
Questionado sobre os resultados, Trump minimizou o impacto das pesquisas. “Tenho que fazer a coisa certa. Isso deveria ter sido feito há muito tempo”, declarou ao jornal New York Post.
Mídia dividida e cautelosa
A cobertura da imprensa norte-americana também revela posições heterogêneas. De acordo com Rafael Ioris, até mesmo veículos tradicionalmente críticos ao governo têm adotado tom cauteloso diante do conflito.
Segundo o pesquisador, há receio de que críticas mais contundentes ao presidente em meio a um cenário de guerra sejam interpretadas como falta de patriotismo por setores da opinião pública. Essa lógica, explica, se baseia na ideia de que os Estados Unidos estariam acima das restrições do direito internacional por atuarem como garantidores da estabilidade do Ocidente.
Editorial do New York Times classificou a ação militar como “imprudente”, criticando o fato de Trump não ter apresentado justificativas claras nem buscado autorização do Congresso. Ainda assim, o texto considera “louvável” o objetivo de eliminar o programa nuclear iraniano, refletindo a visão de que Teerã representa uma ameaça internacional.
“Um presidente americano responsável poderia apresentar um argumento plausível para novas ações contra o Irã”, afirma o editorial, acrescentando que tal argumento deveria explicar a estratégia e a urgência de um ataque mesmo sem evidências de que o país estivesse próximo de produzir uma arma nuclear.
Em contraste, o Wall Street Journal adotou posição favorável à ofensiva. O jornal argumentou que o maior erro estratégico seria encerrar o conflito antes da completa destruição das forças militares iranianas e de grupos que o veículo classifica como organizações terroristas.
Já o jornalista Michael Arria, do portal independente Mondoweiss, sustenta que grande parte da mídia norte-americana tem atuado como suporte à narrativa governamental. Em análise publicada no site, ele afirma que os veículos estariam reproduzindo propaganda oficial, minimizando o papel de Israel no conflito e pressionando por uma mudança de regime no Irã.
Congresso debate limites ao poder presidencial
No Legislativo, duas resoluções buscam restringir a capacidade do presidente de conduzir operações militares sem autorização parlamentar. Uma delas deve ser votada no Senado na quarta-feira (4).
Iniciativas semelhantes já foram discutidas anteriormente. Em junho de 2025, durante a chamada “guerra de 12 dias” contra o Irã, o Senado rejeitou proposta com conteúdo parecido.
Democratas afirmam que o governo não apresentou explicações convincentes sobre os objetivos da guerra nem demonstrou qual ameaça imediata o Irã representaria aos Estados Unidos — condição que poderia justificar uma ação militar sem aprovação do Congresso.
Autor de uma das propostas, o senador Tim Kaine, da Virgínia, argumenta que a população norte-americana não deseja novas intervenções militares. “Esses ataques são um erro colossal, e espero que não custem a vida de nossos filhos e filhas fardados e em embaixadas por toda a região”, escreveu o parlamentar nas redes sociais.
Apesar das críticas, o partido também apresenta divisões internas. O senador John Fetterman, da Pensilvânia, manifestou apoio à ofensiva. “Todos os membros do Senado concordam que não podemos permitir que o Irã adquira uma arma nuclear. Fico perplexo com o fato de tantos se recusarem a apoiar a única ação capaz de alcançar esse objetivo”, declarou.
Entre os republicanos, o respaldo às ações de Trump ainda é predominante, embora alguns parlamentares indiquem cautela caso o conflito se prolongue. A deputada Nancy Mace, da Carolina do Sul, afirmou ao New York Times que votará contra a resolução que tenta barrar a guerra — pelo menos por enquanto.
“Por enquanto, serei contra. Mas, se isso se prolongar por mais de algumas semanas, terei muito mais preocupações”, afirmou.
Europa fecha fileiras com EUA e Israel: Espanha rompe consenso
A reação europeia ao conflito evidencia um alinhamento político significativo com Washington e Tel Aviv — ainda que com nuances diplomáticas. Entre as principais potências do continente, apenas a Espanha adotou uma posição claramente crítica à ofensiva militar. Reino Unido, França e Alemanha, por sua vez, têm evitado condenar os ataques contra Teerã e passaram a responsabilizar o próprio governo iraniano pela escalada das hostilidades.
O posicionamento europeu ocorre em um contexto em que o direito internacional estabelece que o uso da força só é legítimo quando autorizado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar disso, nenhuma das potências europeias com assento permanente no órgão — França e Reino Unido — convocou uma reunião emergencial para discutir a crise.
No plano prático, alguns governos europeus já oferecem apoio indireto à operação militar. O Reino Unido, por exemplo, condenou as retaliações iranianas contra instalações militares norte-americanas no Oriente Médio, mas evitou críticas à ofensiva inicial contra Teerã. Londres também tem disponibilizado suporte logístico por meio de bases britânicas na região.
A França adotou postura semelhante. Enquanto critica o programa nuclear iraniano — que Teerã afirma ter fins civis — o governo de Emmanuel Macron anunciou o envio de dois navios de guerra ao Oriente Médio para integrar missões descritas como “defensivas”. Paralelamente, Paris sinalizou que pretende ampliar seu próprio arsenal nuclear.
A Alemanha, por sua vez, manifestou apoio explícito aos objetivos estratégicos de Washington e Tel Aviv. Autoridades alemãs afirmaram que não seria o momento de “dar lições” aos aliados ocidentais e defenderam a necessidade de conter o governo iraniano. Berlim também indicou disposição de participar de uma eventual reconstrução econômica do país após o conflito.
Em declaração conjunta, Alemanha, França e Reino Unido criticaram os ataques de Teerã classificados como “imprudentes” e afirmaram estar dispostos a tomar medidas “defensivas” destinadas a neutralizar a capacidade iraniana de lançar mísseis e drones.
Outros países europeus também demonstraram alinhamento. Portugal autorizou o uso de instalações militares nos Açores por forças norte-americanas, ainda que o governo de Lisboa sustente não participar diretamente das operações. A Itália, por sua vez, intensificou a cooperação de defesa com países do Golfo e condenou a repressão interna do regime iraniano.
Críticas à postura europeia
Para o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a posição adotada pela maioria dos governos europeus representa, na prática, uma escolha política no conflito.
“Quando a Europa passa a caracterizar o Estado iraniano como criminoso em plena guerra, ela já tomou partido”, afirmou em entrevista à Agência Brasil. Segundo ele, ainda que não haja participação militar direta generalizada, o discurso diplomático revela um claro alinhamento estratégico.
O especialista também chama atenção para a ausência de iniciativas europeias no âmbito da ONU. França e Reino Unido, que integram permanentemente o Conselho de Segurança, não propuseram debates formais sobre a crise.
“Isso converge com a estratégia norte-americana de evitar levar a discussão para as Nações Unidas. Não houve sequer uma condenação ética da forma como a guerra começou”, avaliou.
Outro elemento que preocupa analistas é o impacto dessa postura sobre a credibilidade do direito internacional. O ataque ocorreu enquanto estavam em andamento negociações entre Washington e Teerã.
“Se um país pode ser atacado durante negociações diplomáticas, o próprio sentido da negociação internacional se enfraquece”, observou Teixeira.
A tensão também se reflete no plano estratégico. A Guarda Revolucionária iraniana advertiu que embarcações dos Estados Unidos, de Israel e de países europeus não deveriam atravessar o Estreito de Ormuz — passagem por onde circula parcela significativa do comércio global de petróleo.
Cálculo geopolítico
Na avaliação de Teixeira, o alinhamento europeu também pode refletir uma tentativa de preservar a relação estratégica com Washington em meio a tensões recentes. O presidente norte-americano Donald Trump já ameaçou rever compromissos com aliados europeus e chegou a mencionar a possibilidade de anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Para o historiador, parte da elite política europeia tenta demonstrar utilidade estratégica aos Estados Unidos.
“Os governos europeus procuram mostrar que continuam sendo aliados relevantes, apoiando Washington e Israel. A expectativa seria evitar pressões maiores sobre a Europa ou mudanças na estrutura da Otan”, disse.
Ainda assim, ele pondera que a influência europeia na política externa norte-americana pode ter diminuído. “Até agora, o que se vê é que os Estados Unidos se sentem cada vez menos dependentes da Europa.”
Entre os governos do continente, a Alemanha aparece como um dos mais alinhados à estratégia de Washington. Durante visita à Casa Branca em meio ao conflito, o chanceler Friedrich Merz classificou o governo iraniano como “assassino e bárbaro”, declaração que gerou críticas de setores da oposição europeia.
A dissidência espanhola
A principal exceção ao posicionamento majoritário europeu tem sido o governo espanhol. O primeiro-ministro Pedro Sánchez criticou abertamente a ofensiva militar e afirmou que a discussão central não deve girar em torno de simpatia ou antipatia ao regime iraniano.
“A questão é se estamos do lado do direito internacional e, portanto, da paz”, declarou.
Sánchez também evocou o precedente da Guerra do Iraque, iniciada em 2003 pelos Estados Unidos, como alerta sobre os efeitos de intervenções militares prolongadas no Oriente Médio.
Segundo ele, o conflito iraquiano contribuiu para a expansão do terrorismo jihadista, agravou crises migratórias no Mediterrâneo e provocou aumentos expressivos nos preços da energia.
A posição espanhola chamou atenção da imprensa internacional. O jornal britânico Financial Times destacou que o premiê espanhol teria dito ao presidente norte-americano “o que nenhum outro líder europeu se atreve a afirmar publicamente”.
A reação inicial de Washington foi dura. Donald Trump chegou a ameaçar rever relações comerciais com Madri. Posteriormente, autoridades norte-americanas afirmaram que a Espanha estaria cooperando com o esforço de guerra — afirmação que o governo espanhol rejeitou “categoricamente”.
Assim, enquanto a maioria das capitais europeias se aproxima da estratégia de Washington e Tel Aviv, a divergência espanhola evidencia que o consenso ocidental em torno da guerra está longe de ser absoluto.
Brics sem resposta conjunta
A escalada militar revelou divergências internas no Brics ampliado. O grupo, que hoje reúne dez países, ainda não conseguiu articular uma posição conjunta sobre o conflito — contraste marcante com crises recentes em que o bloco havia conseguido produzir declarações consensuais.
A ausência de um comunicado coletivo expôs diferenças políticas e estratégicas entre os membros. Enquanto alguns governos condenaram diretamente a ofensiva militar contra Teerã, outros concentraram críticas nas ações retaliatórias do Irã contra alvos no Golfo. Há ainda países que optaram por manifestações mais cautelosas, evitando apontar responsabilidades diretas.
Atualmente, o Brics é composto por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul — integrantes originais — além de Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. A Arábia Saudita foi convidada a integrar o grupo, mas ainda não formalizou sua adesão.
Entre os membros fundadores, Brasil, Rússia e China condenaram a ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel contra o território iraniano. Já a Índia adotou uma abordagem distinta, priorizando críticas às ações militares de Teerã que atingiram países do Golfo.
A África do Sul buscou uma posição intermediária. O presidente Cyril Ramaphosa afirmou que o conceito de “autodefesa preventiva” não encontra respaldo no direito internacional, mas enfatizou sobretudo a necessidade de uma solução diplomática e evitou mencionar diretamente os países envolvidos.
A diferença de posturas ficou ainda mais evidente após as retaliações iranianas na região. Teerã afirma que seus ataques tiveram como alvo exclusivamente instalações militares norte-americanas instaladas em países do Oriente Médio. “Não estamos atacando nossos vizinhos no Golfo Pérsico; estamos atacando a presença dos EUA nesses países”, declarou o chanceler iraniano Abbas Aragchi.
Apesar dessa justificativa, ataques atribuídos ao Irã provocaram danos também em infraestruturas civis — incluindo aeroportos, refinarias e empreendimentos imobiliários — ampliando a tensão regional.
A Arábia Saudita reagiu afirmando que se reserva o direito de responder ao que classificou como um “ataque covarde”. Os Emirados Árabes Unidos, por outro lado, descartaram uma reação militar direta e defenderam a atuação das Nações Unidas para buscar uma saída diplomática para a crise.
Analistas avaliam que a ampliação geográfica dos ataques pode integrar uma estratégia iraniana para pressionar monarquias do Golfo a cobrar dos Estados Unidos um cessar-fogo. Além da Arábia Saudita e dos Emirados, mísseis e drones também atingiram alvos em Bahrein, Catar, Omã, Jordânia, Síria, Iraque e Kuwait.
Expansão do bloco e desafios de coesão
A dificuldade de formular uma resposta comum também reflete a rápida expansão recente do Brics. O acrônimo original — Bric — foi criado em 2001 pelo economista Jim O’Neill para designar quatro economias emergentes com forte potencial de crescimento: Brasil, Rússia, Índia e China.
A cooperação política entre esses países se consolidou gradualmente e levou à realização da primeira cúpula oficial do grupo em 2009, na cidade russa de Ecaterimburgo. Em 2010, a África do Sul ingressou no bloco, dando origem ao formato Brics.
Entre 2023 e 2025, o grupo passou por sua maior ampliação, incorporando Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. A Arábia Saudita foi convidada no mesmo processo, mas tem evitado formalizar sua adesão.
A ampliação foi impulsionada principalmente pela diplomacia chinesa. O Brasil demonstrou cautela durante as negociações, temendo que um crescimento acelerado do bloco dificultasse a construção de consensos políticos. À época, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, chegou a alertar que uma expansão ilimitada poderia comprometer a coesão interna do grupo.
Sinais dessa dificuldade já haviam surgido anteriormente. Em abril de 2025, uma reunião de chanceleres terminou sem comunicado final. Meses depois, contudo, os líderes do bloco conseguiram superar divergências e aprovar uma declaração conjunta abordando temas como a reforma das Nações Unidas e a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino.
Índia sob os holofotes
No atual momento, a presidência rotativa do Brics está nas mãos da Índia, país que mantém relações estratégicas com Estados Unidos e Israel. Diplomatas avaliam que Nova Délhi dificilmente convocará uma reunião emergencial para tentar unificar o posicionamento do grupo sobre a guerra.
O primeiro-ministro Narendra Modi evitou comentar inicialmente o ataque que matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Em suas declarações públicas, concentrou críticas nas ações militares de Teerã que atingiram instalações em países do Golfo e classificou alguns ataques como violações da soberania de Estados da região, incluindo Kuwait, Catar e Omã.
No domingo (1º), Modi informou ter conversado por telefone com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, quando reiterou a necessidade de um fim rápido das hostilidades. O líder indiano não mencionou contatos com autoridades iranianas, o que gerou críticas de setores da oposição no país.
Rússia e China condenam ataques
Moscou e Pequim adotaram posicionamentos mais duros contra a ofensiva militar. O representante russo nas Nações Unidas, Vassily Nebenzia, classificou a operação como “um ato não provocado de agressão armada contra um Estado soberano membro da ONU”.
Em comunicado oficial, o governo russo descreveu a ação militar como “premeditada”, “irresponsável” e incompatível com os princípios fundamentais do direito internacional. A Rússia mantém relações estratégicas com Teerã e tem contado com drones iranianos no contexto da guerra na Ucrânia.
A China também criticou os ataques, ressaltando que não foram autorizados pelo Conselho de Segurança da ONU. Pequim, grande compradora de petróleo iraniano, afirmou que a operação viola normas básicas do sistema internacional.
Apesar das críticas, tanto Moscou quanto Pequim têm se limitado, até o momento, a condenações diplomáticas, sem sinalizar disposição para envolvimento direto no conflito.
O posicionamento brasileiro
Entre os integrantes originais do Brics, o Brasil foi o único país democrático a condenar explicitamente a ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel.
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que os ataques ocorreram enquanto estavam em curso negociações diplomáticas, destacando que o diálogo permanece como o único caminho viável para uma solução duradoura na região.
Dias depois, o governo brasileiro também criticou as ações retaliatórias do Irã contra países do Golfo. Em novo comunicado, o Itamaraty condenou ataques que atinjam a soberania de terceiros Estados e manifestou solidariedade a países afetados pelos bombardeios.
Reações entre os novos membros
Entre os integrantes que ingressaram recentemente no bloco, as respostas também foram heterogêneas.
A Indonésia adotou linguagem conciliatória, lamentando o fracasso das negociações entre Washington e Teerã e oferecendo-se como possível mediadora. A Etiópia manteve postura discreta e manifestou solidariedade ao Kuwait, alvo de ataques iranianos.
O Egito, aliado estratégico dos Estados Unidos, evitou comentar diretamente a ofensiva inicial contra o Irã, concentrando-se em pedir contenção de todas as partes e criticando ataques iranianos contra países do Golfo.
A diversidade de posições ilustra o desafio enfrentado pelo Brics ampliado: conciliar interesses estratégicos distintos dentro de um grupo que busca afirmar-se como voz relevante no sistema internacional, mas cuja heterogeneidade política se torna cada vez mais evidente diante de crises globais.
Limites do direito internacional
A ofensiva militar contra o Irã também desencadeou um intenso debate jurídico sobre a legalidade das ações conduzidas por Estados Unidos e Israel. Para grande parte dos especialistas em direito internacional, os bombardeios iniciados em 28 de fevereiro entram em choque direto com normas fundamentais que regulam o uso da força no sistema internacional.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, criticou publicamente os ataques e afirmou que a operação representa “uma grave ameaça à paz e à segurança internacionais”. Segundo ele, a Carta da ONU estabelece uma proibição clara ao uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outros Estados.
Essa interpretação é compartilhada por diversos juristas. A especialista em direitos humanos Gissou Nia, ligada ao think tank Atlantic Council, afirma que a operação militar dificilmente poderia ser considerada legal à luz do direito internacional.
“Trata-se de uma violação da Carta da ONU”, disse. “Estamos lidando com um ataque ao Irã que, obviamente, não é legal segundo o direito internacional nem segundo as próprias leis dos Estados Unidos sobre como entrar em guerra.”
Avaliação semelhante foi apresentada pelo professor Christoph Safferling, especialista em direito internacional da Universidade de Erlangen-Nuremberg. Em entrevista ao portal alemão Tagesschau, ele destacou que as normas internacionais estabelecem uma proibição abrangente ao uso da força.
“A independência territorial e a integridade política de um Estado soberano devem ser respeitadas. E não é isso que estamos vendo neste caso”, afirmou. Segundo ele, ataques diretos contra o território iraniano caracterizam violação dessas normas.
A controvérsia da legítima defesa
Autoridades norte-americanas e israelenses justificaram a operação alegando necessidade de neutralizar ameaças estratégicas representadas pelo Irã, especialmente relacionadas ao seu programa nuclear.
No entanto, especialistas questionam se essas justificativas atendem aos critérios exigidos pela Carta da ONU. O Artigo 51 estabelece que um Estado pode recorrer à força apenas em caso de legítima defesa após sofrer um ataque armado.
Alguns juristas admitem uma interpretação mais ampla, que permitiria ação militar diante de uma ameaça iminente. Ainda assim, essa leitura permanece controversa e exige demonstração clara de risco imediato.
Embora líderes iranianos tenham feito declarações hostis contra Israel ao longo dos anos, analistas ressaltam que retórica agressiva, por si só, não constitui base legal suficiente para justificar ataques preventivos.
Além disso, há divergências nas próprias declarações do governo norte-americano sobre o avanço do programa nuclear iraniano. Dias antes do ataque, o enviado especial dos EUA Steve Witkoff afirmou que o país poderia estar a apenas uma semana de produzir material apto à fabricação de bombas. Essa avaliação contrasta com declarações anteriores do presidente Donald Trump, que havia afirmado que instalações nucleares iranianas haviam sido “obliteradas” em bombardeios realizados meses antes.
O debate sobre a morte de Khamenei
Outro ponto sensível do ponto de vista jurídico é a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, durante os ataques. A eliminação deliberada de líderes políticos estrangeiros é extremamente rara e levanta questionamentos complexos no direito internacional.
Embora combatentes militares possam ser alvos legítimos em conflitos armados, o assassinato intencional de chefes de Estado ou líderes políticos costuma ser classificado como assassinato político — especialmente quando a própria guerra é considerada juridicamente controversa.
Para Gissou Nia, o caso envolve dilemas adicionais. Ela lembra que o líder iraniano foi responsabilizado por graves violações de direitos humanos ao longo de décadas de governo.
Segundo a especialista, muitos iranianos veem sua morte como o fim de um governante associado a repressão e violência. Outros, porém, argumentam que ele deveria ter sido levado a julgamento internacional para responder judicialmente por seus atos.
Limites legais também para os Estados Unidos
O episódio também reacendeu discussões sobre as próprias regras internas dos Estados Unidos. Desde 1976, uma ordem executiva assinada pelo então presidente Gerald Ford proíbe funcionários do governo norte-americano de participar de assassinatos políticos.
O texto determina que “nenhuma pessoa empregada pelo governo dos Estados Unidos ou agindo em seu nome deve participar ou conspirar para participar de assassinato político”.
Ao longo das décadas, porém, interpretações mais flexíveis dessa norma foram adotadas. Segundo o professor Luca Trenta, da Universidade de Swansea, operações realizadas sob a justificativa de legítima defesa passaram gradualmente a ser consideradas compatíveis com essa regra.
“A linha já era muito tênue desde o início”, afirma. Ele observa que ataques contra centros de comando ou infraestruturas militares que resultem na morte de líderes estrangeiros deixaram de ser classificados automaticamente como assassinato político.
O que diferencia o episódio atual, acrescenta, é que autoridades norte-americanas assumiram explicitamente a responsabilidade pela morte de Khamenei.
O direito de resposta do Irã
Após os bombardeios iniciais, o governo iraniano lançou mísseis e drones contra Israel e contra instalações militares norte-americanas no Golfo, alegando exercer seu direito de autodefesa.
Pelo direito internacional, um Estado que sofre um ataque armado pode responder militarmente. No entanto, essa resposta também precisa respeitar limites claros, sobretudo no que diz respeito à proteção de civis e à proporcionalidade das ações.
Relatos de danos a infraestruturas civis em diferentes países da região levantaram questionamentos sobre a legalidade de algumas dessas operações. O direito humanitário internacional proíbe ataques contra populações civis e também restringe ações militares contra Estados que não participam diretamente do conflito.
Analistas têm descrito parte das operações iranianas como uma forma de “legítima defesa mal direcionada”, sobretudo quando os ataques atingiram territórios de países que abrigam bases norte-americanas, mas não participaram diretamente da ofensiva inicial.
Reações internacionais e preocupações jurídicas
A reação internacional ao debate jurídico tem sido heterogênea. Alguns governos ocidentais evitaram questionar diretamente a legalidade da ofensiva inicial, concentrando críticas nas ações retaliatórias do Irã.
O chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que as normas internacionais estão sendo cada vez menos respeitadas, mas ressaltou que não seria o momento de “dar lições” a aliados.
Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, limitou-se a declarar que a situação é “profundamente preocupante” e destacou a necessidade de proteger civis e preservar o direito internacional.
Entre os líderes europeus, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez adotou posição mais crítica. Ele afirmou que tanto os ataques iniciais quanto as respostas militares posteriores representam violações da Carta das Nações Unidas.
Fora da Europa, países como Austrália e Canadá manifestaram apoio político a Washington, enquanto Rússia e China condenaram a operação militar.
Um possível ponto de inflexão
Para especialistas, a controvérsia jurídica em torno do conflito pode refletir um processo mais amplo de erosão das normas internacionais criadas após a Segunda Guerra Mundial para restringir o uso da força entre Estados.
Segundo Luca Trenta, o comportamento recente de grandes potências sugere um afastamento crescente dessas regras.
“Estamos vendo o surgimento de um tipo mais impiedoso de intervenção estrangeira, com pouca preocupação com limites legais domésticos ou internacionais”, afirmou.
O acadêmico alerta que a normalização de operações unilaterais — especialmente aquelas que incluem a eliminação de líderes políticos estrangeiros — pode abrir precedentes perigosos.
Se essa lógica se consolidar, argumenta, outros Estados poderão sentir-se autorizados a adotar práticas semelhantes, ampliando o risco de escalada de conflitos e enfraquecendo ainda mais o sistema jurídico internacional.
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