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Mundo
Entenda como o país viu sua democracia destruída pelo ocidente, derrubou a ditadura monárquica e se transformou em uma teocracia tirânica
Publicado em 05/03/2026 1:45 - Semana On
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No último sábado, em Teerã, as Forças de Defesa de Israel lançaram uma operação militar sem precedentes contra o coração do poder iraniano. Cerca de 30 mísseis Sparrow — de fabricação norte-americana — atingiram o complexo onde se encontrava o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. A ofensiva foi acompanhada por bombardeios simultâneos contra integrantes da cúpula do regime e contra torres de telecomunicação, numa tentativa de impedir qualquer alerta prévio.
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A confirmação da morte de Khamenei só veio no dia seguinte. Até lá, imagens de iranianos celebrando nas ruas e em vídeos que rapidamente se espalharam pela internet sugeriam o encerramento simbólico de um ciclo político marcado por quase quarenta anos de poder concentrado nas mãos de um líder religioso.
A reação dentro do país, no entanto, revelou um cenário mais complexo do que o exibido nas redes sociais. Enquanto manifestações de comemoração ganharam visibilidade internacional, grupos leais ao regime ocuparam praças centrais em Teerã e em cidades históricas como Isfahan e Yazd para homenagear o que chamaram de “martírio” do líder.
Mesmo em seu momento de maior desgaste político desde a Revolução Islâmica de 1979, o sistema teocrático ainda mantém uma base de apoio estimada entre 10% e 20% da população — número significativo em um país de cerca de 92 milhões de habitantes.
Nacionalismo, memória histórica e desconfiança do Ocidente
Entre os setores que ainda apoiam o regime, o discurso anti-imperialista continua mobilizador. No entanto, interpretar a insatisfação popular com o governo como um endosso automático a intervenções estrangeiras ignora elementos profundos da história iraniana.
O Irã herda a tradição milenar do antigo Império Persa, uma civilização com mais de seis mil anos de continuidade histórica que alimenta um nacionalismo forte e disseminado. Trata-se de uma sociedade altamente politizada, especialmente nos centros urbanos. Nas universidades, por exemplo, mulheres ocupam cerca de 70% das vagas.
Paradoxalmente, a crise econômica agravada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos afetou de maneira desproporcional as iranianas. A participação feminina no mercado de trabalho caiu de aproximadamente metade da força laboral para apenas 15% na última década.
Mulheres na linha de frente da contestação
Apesar das restrições impostas pela República Islâmica, as mulheres se tornaram protagonistas de alguns dos maiores movimentos de contestação ao regime.
O episódio mais emblemático ocorreu em 2022, quando a morte da jovem curdo-iraniana Mahsa Amini, de 22 anos, desencadeou protestos massivos. Amini havia sido detida pela chamada Patrulha de Orientação — a polícia da moralidade — sob acusação de não usar o hijab conforme as regras estabelecidas pelo Estado.
No Irã, o véu islâmico é obrigatório por lei. Em voos que entram no espaço aéreo iraniano, tripulações frequentemente pedem às passageiras que cubram os cabelos antes do pouso. Nas ruas, não são raras as abordagens policiais contra mulheres que deixam parte do cabelo à mostra.
Ainda assim, ativistas insistem que a luta não se resume ao vestuário. A advogada Shirin Ebadi — primeira iraniana a receber o Prêmio Nobel da Paz — costuma afirmar que a reivindicação central é o direito de escolha, inclusive para aquelas que desejam usar o hijab.
A criatividade também se tornou forma de resistência. Em determinados períodos, mulheres passaram a interromper suas atividades ao meio-dia para observar um minuto de silêncio coletivo contra o regime.
Outra figura central da dissidência é Narges Mohammadi, laureada com o Nobel da Paz em 2023 por sua atuação em defesa dos direitos humanos. Grande parte da oposição organizada, no entanto, encontra-se hoje presa ou no exílio.
O peso das intervenções estrangeiras
A ideia de que os iranianos receberiam uma ofensiva militar ocidental como libertação encontra resistência em uma memória histórica marcada por interferências externas.
O episódio mais lembrado ocorreu em 1953, quando Estados Unidos e Reino Unido apoiaram um golpe que derrubou o primeiro-ministro eleito Mohammad Mossadegh após sua decisão de nacionalizar a indústria petrolífera. O movimento fortaleceu o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi, cuja monarquia autoritária acabaria derrubada pela Revolução Islâmica de 1979.
Inicialmente apoiada por diversos setores reformistas, a revolução liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini prometia instaurar um sistema mais representativo. No entanto, rapidamente se consolidou como um regime teocrático centralizado. Após a morte de Khomeini, em 1989, Ali Khamenei assumiu a liderança suprema e ampliou a concentração de poder, apoiado pela Guarda Revolucionária.
Estrutura institucional e reação do regime
Apesar do impacto do ataque que matou Khamenei, a estrutura do Estado iraniano demonstrou capacidade de reação imediata.
Entre os mortos nos bombardeios também estariam figuras-chave do aparato militar, incluindo o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Pakpour, o ministro da Defesa, Amir Nasirzadeh, e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Mohammad Bagheri.
Conforme previsto pela Constituição, um conselho de transição assumiu o governo logo após o ataque. O órgão reúne o presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário Mohseni-Ejei e o líder do Conselho dos Guardiães, Alireza Arafi.
Embora Arafi tenha sido indicado como líder supremo interino, grande parte das atribuições práticas foi transferida ao secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, político experiente e antigo negociador nuclear com o Ocidente.
Considerado pragmático, Larijani adotou um tom duro após os bombardeios, prometendo uma “lição inesquecível aos opressores internacionais”. Em resposta, o Irã lançou milhares de mísseis contra bases militares americanas em diversos países do Golfo, incluindo Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait e Omã.
A escalada amplia o risco de um conflito regional prolongado.
Reza Pahlavi e a disputa pelo futuro político do Irã
Enquanto o regime reorganiza suas estruturas internas, setores da oposição no exílio tentam ocupar o vazio político aberto pela morte de Khamenei. O nome mais visível nesse cenário é o de Reza Pahlavi.
Filho do último xá iraniano, Mohammad Reza Pahlavi, ele deixou o país em 1978, aos 17 anos, pouco antes da revolução que derrubaria a monarquia. Hoje com 65 anos e residente nos Estados Unidos, tornou-se uma das vozes mais conhecidas da oposição ao regime dos aiatolás.
Após os ataques que mataram Khamenei, Pahlavi afirmou nas redes sociais que a República Islâmica estaria “efetivamente no fim” e que o regime seria em breve “relegado ao esquecimento”.
Em entrevistas recentes, ele declarou possuir uma rede de apoiadores dentro do país e disse estar preparado para conduzir uma transição política. Apesar de rejeitar publicamente a restauração da monarquia, Pahlavi afirma estar disposto a liderar o processo rumo a um sistema democrático.
Especialistas, no entanto, destacam que a oposição iraniana permanece fragmentada. Mesmo entre críticos do regime, há desconfiança em relação ao herdeiro da antiga dinastia.
Analistas lembram que Pahlavi nunca condenou explicitamente os abusos cometidos durante o governo de seu pai, sustentado por uma repressiva polícia secreta, a Savak. Outros questionam sua distância da realidade iraniana após quase cinco décadas de exílio.
Além disso, o apoio explícito do ex-príncipe a uma intervenção militar estrangeira no país também gera resistência.
Um futuro ainda incerto
A morte de Ali Khamenei representa um choque profundo no sistema político iraniano, mas dificilmente significará o colapso imediato da República Islâmica.
O regime dispõe de instituições consolidadas, hierarquias bem definidas e forças de segurança leais — fatores que historicamente contribuíram para sua sobrevivência em momentos de crise.
A questão central agora não é apenas se o sistema resistirá, mas como ele sairá dessa ruptura: mais repressivo e militarizado ou pressionado a abrir espaço para reformas internas.
Em meio a tensões militares e disputas políticas, o destino do Irã permanece em aberto — e suas consequências podem ultrapassar, de longe, as fronteiras do país.
Do trono ao turbante
Antes da consolidação da República Islâmica, o Irã viveu décadas sob uma monarquia que combinava modernização acelerada, forte alinhamento com o Ocidente e repressão política sistemática. O regime dos Pahlavi — derrubado pela Revolução Islâmica de 1979 — moldou parte das tensões sociais e políticas que ainda influenciam o país.
A dinastia chegou ao poder em 1926, quando o militar Reza Khan, líder de um golpe de Estado, foi coroado como Reza Xá Pahlavi. Uma década depois, ele oficializou a mudança do nome internacional do país de “Pérsia” para “Irã”, numa tentativa de reforçar uma identidade nacional baseada nas raízes históricas do povo persa.
Seu governo promoveu um ambicioso programa de modernização inspirado em modelos europeus. Reformas administrativas, investimentos em infraestrutura e um projeto de secularização buscavam transformar o país em um Estado moderno e centralizado. A política de abertura ao Ocidente, contudo, também gerou tensões internas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o alinhamento do xá com a Alemanha nazista levou à ocupação do país por tropas britânicas e soviéticas. Pressionado, Reza Xá abdicou em 1941 em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, que herdaria um país em rápida transformação, mas também atravessado por disputas políticas crescentes.
Nacionalismo, petróleo e o golpe de 1953
Nos anos seguintes, movimentos nacionalistas passaram a ganhar força. O principal deles foi liderado por Mohammad Mossadegh, político que se tornaria primeiro-ministro em 1951 com amplo apoio popular.
Seu governo protagonizou um dos episódios mais decisivos da história iraniana contemporânea: a nacionalização da indústria petrolífera, até então controlada por interesses britânicos. A medida provocou uma crise internacional. Londres respondeu com um bloqueio econômico, enquanto os Estados Unidos passaram a temer que a instabilidade abrisse espaço para a influência soviética em plena Guerra Fria.
Em 1953, um golpe articulado pelos serviços de inteligência britânico e americano — conhecido como Operação Ajax — derrubou Mossadegh e restaurou a autoridade do xá. O episódio deixaria marcas profundas na percepção iraniana sobre interferências estrangeiras.
Modernização econômica e repressão política
A partir de então, Mohammad Reza Pahlavi consolidou um regime cada vez mais centralizador. Seu governo lançou na década de 1960 um amplo pacote de reformas conhecido como “Revolução Branca”, que incluía redistribuição limitada de terras, expansão educacional e projetos de industrialização.
Essas mudanças tinham dois objetivos centrais: acelerar a modernização econômica e reduzir a influência política do clero xiita. Ao mesmo tempo, o país aprofundava sua parceria estratégica com os Estados Unidos, tornando-se um dos principais aliados de Washington no Oriente Médio.
O custo político dessas transformações foi elevado. A oposição — composta por nacionalistas, movimentos de esquerda, sindicatos e lideranças religiosas — passou a ser duramente reprimida pela Savak, a polícia secreta do regime. O órgão ficou conhecido por práticas de vigilância ampla, censura e perseguição a dissidentes.
Externamente, porém, o governo buscava projetar a imagem de um país moderno e em desenvolvimento. Para muitos governos ocidentais, o Irã representava um exemplo de modernização possível na região — visão reforçada por suas vastas reservas de petróleo e pelo papel estratégico no equilíbrio geopolítico da Guerra Fria.
Internamente, entretanto, crescia a percepção de que o crescimento econômico beneficiava sobretudo elites urbanas próximas à monarquia, enquanto amplos setores da população permaneciam em condições precárias.
Transformações sociais e a questão feminina
Entre os aspectos mais frequentemente lembrados do período pré-revolucionário está a maior flexibilidade de costumes nas grandes cidades. Em centros urbanos como Teerã, mulheres podiam circular sem véu e adotar vestimentas ocidentais — realidade que contrastaria fortemente com as normas impostas após a revolução.
Essa transformação havia começado ainda no governo de Reza Xá. Em 1936, o uso do véu foi oficialmente proibido como parte de uma política estatal de secularização. A medida buscava simbolizar a modernização do país, mas também restringiu a liberdade de escolha de mulheres que desejavam manter a tradição religiosa.
A ambivalência dessas reformas é frequentemente destacada por estudiosos. Para a pesquisadora Haleh Esfandiari, autora de Reconstructed Lives: Women and Iran’s Islamic Revolution, a proibição representou ao mesmo tempo um avanço e uma imposição: “Quando o véu foi abolido oficialmente, foi uma vitória para algumas mulheres, mas também uma tragédia para outras, que se sentiram obrigadas a abandoná-lo”.
Apesar das limitações políticas do regime, algumas mulheres alcançaram posições institucionais inéditas no país, incluindo cargos no Parlamento e no Judiciário. Ainda assim, especialistas apontam que sua participação na tomada de decisões permanecia restrita.
O desgaste do regime e a ascensão de Khomeini
Na década de 1970, o Irã vivia um paradoxo: enquanto o país acumulava receitas crescentes com a exportação de petróleo, a insatisfação social se ampliava. O contraste entre a ostentação da elite ligada à monarquia e as dificuldades enfrentadas por grande parte da população intensificou as críticas ao regime.
Em 1971, Mohammad Reza Pahlavi era considerado um dos homens mais ricos do mundo e governava com poderes praticamente absolutos. A repressão política, porém, tornava-se cada vez mais visível.
Entre o fim de 1978 e o início de 1979, protestos massivos tomaram diversas cidades iranianas. No centro da mobilização emergiu a figura do aiatolá Ruhollah Khomeini, clérigo xiita que havia sido exilado em 1964 após criticar o governo.
A partir do exterior, Khomeini passou a ser visto por muitos manifestantes como símbolo de resistência ao regime. Sua liderança ganhou força à medida que greves e manifestações paralisavam o país.
Em 16 de janeiro de 1979, diante da incapacidade de conter os protestos, o xá deixou o Irã. Poucas semanas depois, entre 10 e 12 de fevereiro, uma insurreição armada consolidou o colapso da monarquia.
A revolução e a construção do Estado teocrático
Com a queda do governo, forças revolucionárias assumiram o controle do país. Entre elas, destacou-se a Guarda Revolucionária Islâmica — milícia ligada ao clero xiita que rapidamente se tornaria um dos pilares do novo sistema político.
Embora a revolução tenha reunido inicialmente uma coalizão diversa de grupos — incluindo estudantes, trabalhadores, intelectuais e religiosos —, o poder se concentrou progressivamente nas mãos das lideranças clericais.
Pouco depois da vitória revolucionária, opositores não religiosos começaram a ser marginalizados ou reprimidos. O resultado foi a formação de um novo arranjo institucional: a República Islâmica do Irã, um sistema político que combina estruturas republicanas com a autoridade religiosa do líder supremo.
Desde então, o país redefiniu sua política externa, rompendo relações com diversos governos ocidentais e adotando um discurso fortemente crítico à influência estrangeira — posição que continua a moldar sua atuação no cenário internacional.
As rotas possíveis para o Irã no pós-guerra
Quando os primeiros bombardeios atingiram território iraniano em 28 de fevereiro, uma cena inesperada se repetiu em bairros de Teerã: moradores subiram aos telhados para comemorar. Em circunstâncias normais, ataques militares de potências estrangeiras — sobretudo de países historicamente tratados como inimigos pelo regime, como Estados Unidos e Israel — tenderiam a provocar mobilização nacional contra o agressor.
Mas o episódio expôs a profundidade do desgaste político da República Islâmica. Para parte da população, o sofrimento imposto por décadas de repressão e crise econômica alimenta a percepção de que mesmo uma guerra poderia abrir caminho para o fim do sistema teocrático.
Em Washington, declarações do presidente Donald Trump indicaram que a ofensiva militar poderia ter como objetivo uma mudança de regime. Em pronunciamentos públicos, ele apelou diretamente à população iraniana, lembrando os protestos antigovernamentais reprimidos meses antes e sugerindo que aquele poderia ser “um momento histórico” para a derrubada do governo.
Poucas horas depois dessas declarações, surgiria a notícia da morte do líder supremo Ali Khamenei. Ainda assim, o aparato estatal iraniano demonstrou capacidade de continuidade institucional — sinal de que o resultado político da guerra permanece incerto.
Analistas internacionais trabalham hoje com diferentes cenários para o futuro do país.
Mudança de liderança sem ruptura do sistema
Uma das hipóteses discutidas em círculos diplomáticos é a substituição da liderança máxima sem alteração estrutural do regime. Nesse modelo, a República Islâmica preservaria suas instituições fundamentais, mas passaria a ser comandada por uma figura considerada mais pragmática ou aberta ao diálogo externo.
O presidente norte-americano chegou a insinuar essa possibilidade ao afirmar, em entrevista ao New York Times, que considerava diferentes alternativas para a sucessão política no Irã. Em paralelo, Trump mencionou como referência uma operação conduzida recentemente na Venezuela, na qual a remoção do líder Nicolás Maduro teria sido acompanhada por um acordo com setores da própria elite governante.
Para o especialista em política iraniana Cornelius Adebahr, da Sociedade Alemã para Política Externa (DGAP), esse tipo de rearranjo poderia ocorrer se o sistema optar por reorganizar sua liderança sem alterar o núcleo do poder. Nesse cenário, a Guarda Revolucionária manteria papel central na estrutura política enquanto buscaria reduzir tensões externas, possivelmente abrindo espaço para negociações com o Ocidente.
A mudança, porém, poderia produzir efeitos limitados. “Troca-se o topo e, no fim, muda muito menos do que as pessoas esperavam”, observou Adebahr em entrevista à emissora alemã ARD.
Uma liderança pragmática e foco na reconstrução
Outra possibilidade discutida por especialistas seria uma espécie de “continuidade recalibrada”. Nesse caso, o sistema político permaneceria intacto, mas passaria por ajustes estratégicos após o impacto da guerra.
O pesquisador Peyman Asadzade, do Belfer Center da Harvard Kennedy School, avalia que a escolha de um sucessor pragmático pela Assembleia dos Peritos — órgão responsável por selecionar o líder supremo — poderia orientar o país para uma agenda de estabilização interna.
Nesse cenário, a prioridade do novo governo seria reconstruir a economia, reduzir tensões diplomáticas e implementar reformas limitadas que aliviem a pressão social.
A analista Burcu Ozcelik, do Royal United Services Institute (Rusi), considera que uma liderança mais pragmática poderia buscar uma política externa menos confrontacional. “Um curso moderado permitiria a redução das tensões com os Estados Unidos e abriria caminho para alívio econômico necessário à população iraniana”, afirmou.
Ainda assim, não está descartado o movimento inverso.
Radicalização e isolamento internacional
Uma terceira hipótese contempla o fortalecimento de setores ainda mais ideológicos dentro do regime. Após um ataque dessa magnitude, parte da elite política poderia concluir que a sobrevivência do sistema exige endurecimento interno e maior autonomia militar.
O correspondente Julian Borger, do The Guardian, alerta para a possibilidade de uma radicalização estratégica. Segundo ele, sobreviventes da liderança poderiam concluir que apenas a obtenção de armamento nuclear garantiria segurança contra futuras intervenções externas.
Esse cenário implicaria intensificação da repressão política, aprofundamento do isolamento internacional e aproximação com modelos de Estados altamente militarizados e fechados, como a Coreia do Norte.
A hipótese de uma transição democrática
Entre setores da diáspora iraniana, há também expectativa de uma transformação mais profunda do sistema político.
Duas semanas antes do início da guerra, cerca de 250 mil iranianos exilados e apoiadores reuniram-se em Munique para uma manifestação contra o regime. O evento foi marcado por forte apoio a Reza Pahlavi, herdeiro da antiga monarquia iraniana e figura proeminente da oposição no exterior.
Pahlavi afirma não defender o retorno da monarquia, mas sim uma transição para um sistema democrático. Durante protestos recentes dentro do Irã, seu nome reapareceu em slogans e manifestações, embora sua liderança permaneça controversa.
Analistas ligados à Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), em Washington, afirmam que o opositor teria desenvolvido propostas para uma eventual transição política. No entanto, eles ressaltam que planejamento institucional não equivale a poder político real.
Outro fator complicador é a diversidade étnica do país. A sociedade iraniana reúne diferentes grupos — como azeris, curdos, árabes e balúchis — cujas demandas políticas nem sempre convergem.
O risco de fragmentação interna
Entre os cenários mais preocupantes analisados por especialistas está a possibilidade de um conflito interno.
A estrutura militar iraniana possui duas forças paralelas: o Exército regular (Artesh) e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), criado após a Revolução de 1979 para proteger o sistema político. Embora coexistam institucionalmente, a Guarda acumulou influência militar, econômica e política considerável nas últimas décadas.
Até o momento, não há indícios de ruptura entre essas estruturas. Ainda assim, analistas observam que pressões internas poderiam gerar fissuras.
Para Burcu Ozcelik, tensões dentro da própria Guarda Revolucionária — associadas a críticas ao seu sistema de patronagem e privilégios — poderiam levar a disputas institucionais. Uma hipótese seria o surgimento de divisões entre a Guarda e o Exército regular, este último eventualmente projetando-se como símbolo de um novo nacionalismo estatal.
Em um cenário extremo, essas fraturas poderiam evoluir para confrontos internos, especialmente se combinadas com tensões regionais ou demandas separatistas.
Grupos curdos, por exemplo, anunciaram recentemente a formação de uma frente política comum contra o regime. Alguns deles rejeitam tanto a liderança atual quanto figuras da oposição exilada, o que indica que qualquer reorganização política no país poderá ser complexa.
Um futuro em aberto
Apesar das múltiplas hipóteses discutidas por analistas, o destino político do Irã permanece incerto.
A combinação entre pressão militar externa, disputas internas e demandas sociais cria um cenário altamente volátil. Reformas graduais, endurecimento autoritário, transição democrática ou mesmo fragmentação institucional são possibilidades que, hoje, coexistem no horizonte político do país.
O desfecho dependerá não apenas do resultado militar da guerra, mas também da capacidade das diferentes forças iranianas — dentro e fora do regime — de reorganizar o poder após o choque provocado pelo conflito.
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