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Mundo

Com brasileiros e Greta Thunberg, flotilha se dirige com ajuda para Gaza

Funcionários da ONU pedem declaração de genocídio; Trump barra delegação palestina

Publicado em 01/09/2025 1:28 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Uma flotilha internacional de dezenas de barcos partiu ontem (31) do porto de Barcelona, na Espanha, com o objetivo de romper o bloqueio naval imposto por Israel à Faixa de Gaza. A bordo estão ativistas de mais de 44 países, incluindo a sueca Greta Thunberg e uma delegação de 13 brasileiros, que denunciam o cerco como ilegal e responsável por agravar uma das mais severas crises humanitárias da atualidade. A missão tenta entregar alimentos, água e medicamentos à população palestina, vítima de bombardeios que já mataram mais de 63 mil pessoas, segundo autoridades de saúde de Gaza.

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O cenário no porto catalão foi de protesto e solidariedade. Milhares de apoiadores compareceram à partida da flotilha, agitando bandeiras palestinas e entoando palavras de ordem como “Libertem a Palestina” e “Não é uma guerra, é um genocídio”. Em discurso breve, Greta Thunberg criticou o sistema internacional: “Esta é uma missão para desafiar um sistema extremamente violento, que falha em defender o direito internacional”.

A Flotilha Global Sumud é considerada uma das maiores mobilizações internacionais de solidariedade a Gaza já organizadas por vias marítimas. Ela tem como principal objetivo romper, por meios pacíficos, o cerco naval imposto por Israel desde 2007 — restrição que, segundo a ONU, agravou a insegurança alimentar, o colapso do sistema de saúde e a destruição da infraestrutura básica no território.

Delegação brasileira marca presença

O Brasil está representado na flotilha por 13 integrantes. Entre eles estão militantes históricos, como Thiago Ávila — preso por Israel em junho durante uma missão anterior — e figuras públicas como a vereadora Mariana Conti (PSOL, Campinas) e a presidenta do PSOL no Rio Grande do Sul, Gabrielle Tolotti.

A participação brasileira foi organizada por entidades como a Freedom Flotilla Brasil e o Global Movement to Gaza Brasil. Em nota conjunta, os grupos afirmam que o objetivo é “romper, de maneira não violenta, o cerco ilegal imposto pelo regime de ocupação em Gaza, que limita ou proíbe o acesso de alimentos, água e medicamentos”.

A missão ganha ainda mais urgência diante do alerta da Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC), vinculada à ONU, que aponta fome instalada em Gaza, especialmente no norte do território.

Israel intercepta, prende e acusa

Israel mantém o bloqueio à Faixa de Gaza desde 2007, alegando necessidade de conter o envio de armas ao Hamas. A política de cerco, no entanto, tem sido denunciada por organizações internacionais de direitos humanos como punição coletiva. Em junho deste ano, a mesma flotilha foi interceptada por forças israelenses em águas internacionais. Os doze ativistas a bordo, incluindo o brasileiro Thiago Ávila, foram detidos e deportados.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do Brasil reagiu com veemência à ação de Israel, classificando-a como crime de guerra e pedindo ao governo brasileiro a suspensão das relações diplomáticas e comerciais com Tel Aviv. O Itamaraty, até agora, não atendeu à demanda.

Israel, por sua vez, classifica as missões como “ações de propaganda pró-Hamas”. Autoridades israelenses afirmam que o bloqueio é essencial para impedir o contrabando de armamentos e que os canais humanitários oficiais permanecem abertos — versão contestada por relatos no terreno e por agências da ONU, que enfrentam restrições severas para operar em Gaza.

Solidariedade internacional e omissão estatal

A missão de Barcelona se conecta a outras partidas previstas nos próximos dias. Em Gênova (Itália), foram reunidas 250 toneladas de alimentos por grupos locais, com parte já embarcada e o restante programado para sair do porto de Catania em 4 de setembro. Outros barcos devem partir da Grécia e da Tunísia, ampliando a pressão global sobre o bloqueio.

A ativista Yasemin Acar, membro do comitê de coordenação da missão, ressaltou que os líderes globais têm falhado de forma sistemática: “É a inação internacional que nos obriga a agir com os próprios corpos”.

Segundo levantamento recente da ONU, 100% da população de Gaza enfrenta insegurança alimentar aguda, e partes do território já entraram formalmente em estado de fome, segundo o IPC. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU informou que seus comboios têm enfrentado ataques, obstáculos logísticos e falta de garantias de segurança — o que praticamente inviabiliza o socorro por terra.

A Faixa de Gaza em escombros

Desde o início dos bombardeios em larga escala por Israel, em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, Gaza enfrenta destruição quase total. Mais de 63 mil palestinos morreram, segundo o Ministério da Saúde local, e a maioria das vítimas são civis, incluindo mulheres e crianças. Organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional acusam Israel de violações sistemáticas do direito internacional humanitário, incluindo ataques a hospitais, escolas e infraestruturas civis.

A pressão por um corredor humanitário marítimo tem crescido, dada a inviabilidade de rotas terrestres. A flotilha liderada por Greta e outras embarcações internacionais representam uma resposta direta à paralisia diplomática de governos e organismos multilaterais.

Desafio moral à comunidade internacional

A repetição de tragédias em Gaza, somada à inércia da maioria dos governos ocidentais, reforça o tom de urgência e indignação nas falas dos ativistas. O silêncio das grandes potências frente ao bloqueio — mesmo diante de alertas de fome e crimes de guerra — tem sido interpretado como cumplicidade.

Como afirmou Greta Thunberg no porto de Barcelona, “Não basta denunciar. É preciso agir”.

A flotilha que segue agora rumo a Gaza, cercada de incertezas e sob o risco real de nova interceptação armada, carrega mais que alimentos: carrega o peso simbólico de um gesto de desobediência civil contra a política de isolamento e extermínio de um povo.

Trump impede viagem de palestinos à cúpula da ONU

A duas semanas da abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o governo dos Estados Unidos anunciou a revogação dos vistos de entrada de autoridades palestinas, impedindo que membros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e da Autoridade Palestina (AP) compareçam ao encontro. A medida, adotada pelo governo do presidente Donald Trump, levanta questionamentos sobre o compromisso dos EUA com o Acordo da Sede da ONU, assinado em 1947, que obriga o país a conceder vistos a representantes estrangeiros em missão diplomática nas Nações Unidas.

Em nota oficial, a Casa Branca justificou a decisão afirmando que a OLP e a AP “não cumpriram seus compromissos” e “prejudicaram as perspectivas de paz”. Segundo o comunicado, a revogação dos vistos ocorre com base na legislação americana e tem como objetivo responsabilizar as entidades palestinas por sua suposta conivência com o terrorismo, mencionando diretamente o massacre de 7 de outubro. A nota acusa ainda os palestinos de recorrerem a “campanhas jurídicas internacionais” e de tentarem obter o reconhecimento unilateral de um Estado palestino, o que, segundo os EUA, teria dificultado as negociações com Israel.

Apesar da medida, a Casa Branca afirmou que a Missão da Autoridade Palestina na ONU continuará operando, com isenções previstas no acordo internacional que regulamenta a presença de delegações estrangeiras na sede da organização.

A decisão teve repercussão imediata no Itamaraty, que acompanha com preocupação os desdobramentos. O governo brasileiro teme que membros da comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também enfrentem obstáculos para obter vistos, num contexto de tensões diplomáticas com Washington.

Há receio de que o episódio envolvendo os palestinos seja um prenúncio de restrições semelhantes à delegação brasileira, especialmente diante da postura hostil adotada por Trump em relação a governos considerados aliados de regimes contestados por Washington. Ministros e assessores que integrarão a delegação de Lula já foram instruídos a solicitar vistos com antecedência, mas interlocutores do governo não descartam a possibilidade de entraves, sobretudo em caso de uma eventual condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro nas próximas semanas, o que poderia acirrar o clima político entre os dois países.

Entre os nomes sob atenção está o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que já teve seu visto americano cassado no passado devido à sua atuação no programa Mais Médicos, que envolveu a contratação de profissionais cubanos. Ainda assim, Padilha deve integrar a comitiva brasileira e terá um novo visto solicitado.

Apesar das garantias previstas pelo Acordo da Sede, que determina que os EUA concedam vistos “de forma célere e sem custo” para representantes em missão oficial na ONU, a prática recente mostra que Washington tem adotado medidas restritivas contra delegações de países sob sanções. Casos como os de Rússia, Irã, Sudão, Cuba e Venezuela são exemplos de uma estratégia informal conhecida como “operação tartaruga”, em que os vistos são concedidos de última hora, inviabilizando a logística de viagens de técnicos e diplomatas.

Em 2022, Moscou acusou os EUA de conceder apenas metade dos vistos solicitados para sua delegação. Já em 2019, Rússia e Irã chegaram a interromper trabalhos de comitês da ONU em protesto contra a negativa americana. Ao todo, mais de 70 diplomatas desses dois países foram impedidos de entrar nos EUA naquele ano.

A política de restrição a delegações estrangeiras não é nova. No fim da década de 1940, representantes do Partido Comunista Italiano foram barrados de entrar nos EUA. Um dos episódios mais emblemáticos foi a negativa de visto ao líder palestino Yasser Arafat em 1988. Na ocasião, a ONU transferiu sua sessão para Genebra, onde Arafat pôde discursar.

O episódio atual reabre o debate sobre a neutralidade dos EUA como país-sede da ONU e ocorre justamente no ano em que a organização celebra seus 80 anos. A presença de Lula como orador principal na abertura da Assembleia e a sequência do discurso de Donald Trump prometem tensionar ainda mais os bastidores diplomáticos, sobretudo diante da possibilidade de encontros inevitáveis entre as delegações nos corredores do edifício da ONU.

500 funcionários da ONU pedem declaração de genocídio em Gaza

Em um movimento sem precedentes, mais de 500 funcionários das Nações Unidas enviaram uma carta ao Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos pedindo que a organização reconheça oficialmente que o que ocorre em Gaza constitui um genocídio praticado por Israel contra os palestinos.

A iniciativa ocorre quase dois anos após o início da ofensiva israelense e num momento em que o número oficial de mortos ultrapassa 63 mil palestinos, segundo os próprios relatórios da ONU. A entidade também já reconheceu formalmente a ocorrência de fome na região, consequência direta da destruição da infraestrutura civil e do bloqueio à ajuda humanitária.

No documento, os funcionários criticam o silêncio da alta cúpula da ONU e cobram uma mudança de postura do alto comissário Volker Türk. Eles alertam que a omissão pode ser interpretada como cumplicidade institucional. “A ONU foi fundada após a Segunda Guerra Mundial, incluindo o Holocausto, com o objetivo de impedir que tais atrocidades se repetissem. Deixar de denunciar um genocídio em andamento compromete a credibilidade da ONU e do próprio sistema de direitos humanos”, afirmam.

Acusações internas de omissão

A carta destaca que os critérios legais previstos na Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio foram preenchidos. A partir de análises jurídicas e de extensos relatórios produzidos por mecanismos da própria ONU e por especialistas independentes, os signatários afirmam que os elementos constitutivos do crime de genocídio estão presentes no caso de Gaza.

Entre os apelos feitos à direção da entidade estão:

Reconhecimento jurídico do genocídio: Os funcionários pedem que o Escritório de Direitos Humanos da ONU reconheça publicamente que os atos cometidos em Gaza atendem ao limiar jurídico da definição de genocídio, conforme a convenção internacional.

Admissão do atraso: A carta cobra que o alto comissariado reconheça que o atraso em adotar uma posição clara enfraquece a confiança na liderança da instituição.

Embargo de armas: Os autores solicitam que a ONU pressione publicamente Estados e empresas a suspenderem vendas e transferências de armamentos, apoio logístico ou financeiro ao governo israelense, citando violação do direito internacional.

A carta lembra ainda que “o silêncio durante o genocídio de Ruanda é frequentemente citado como uma das maiores falhas morais da ONU” — e alerta que o atual episódio pode entrar para essa mesma lista.

Resposta institucional

Em resposta, o Escritório de Direitos Humanos da ONU reconheceu as dificuldades enfrentadas e declarou que continua monitorando a situação. “Estamos operando em circunstâncias muito difíceis, enfrentando acusações de parcialidade, antissemitismo, cumplicidade e duplo padrão”, afirmou o órgão em nota.

A ONU mantém a posição de que apenas tribunais internacionais têm competência para determinar juridicamente a ocorrência de genocídio. Ainda assim, a entidade admite que há riscos reais de crimes atrozes no território palestino ocupado. “Desde o início do conflito, o Alto Comissário tem alertado para o risco elevado e crescente de que estejam sendo cometidos crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio”, diz o texto oficial.

O órgão também reforça que o comissário Volker Türk tem apontado, de forma recorrente, a necessidade urgente de cumprir as determinações da Corte Internacional de Justiça, que já alertou para o risco de violações da Convenção sobre Genocídio por parte de Israel.

Pressões externas e precedentes

A pressão dos funcionários soma-se à de relatores independentes da ONU e organizações como a Anistia Internacional, que já qualificaram publicamente as ações em Gaza como genocidas. Até o momento, contudo, o alto comissariado limita-se a mencionar possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Em episódios anteriores, como durante os primeiros meses da ofensiva, membros da ONU já haviam se manifestado de forma crítica. Um diretor da organização, por exemplo, publicou uma carta no dia de sua aposentadoria denunciando o fracasso da instituição em classificar a situação em Gaza como genocídio.

A crescente mobilização interna representa um desafio à liderança das Nações Unidas e reacende o debate sobre o papel da organização diante de crises humanitárias de larga escala. Para os signatários da carta, Gaza se tornou “uma mancha na consciência coletiva da humanidade”. E a omissão, alertam, pode comprometer irremediavelmente a autoridade moral da ONU no cenário internacional.

“Nosso território não está à venda”

O grupo palestino Hamas reagiu com firmeza a informações de que o governo dos Estados Unidos estaria elaborando um plano para transformar a Faixa de Gaza em um centro turístico e tecnológico – sem palestinos –  após o fim da guerra. “Gaza não está à venda”, declarou Bassem Naim, integrante do gabinete político do Hamas, por meio das redes sociais.

Segundo reportagem do The Washington Post, o plano prevê a realocação voluntária de até dois milhões de palestinos para outros países ou para áreas consideradas seguras dentro do próprio território. Em troca, os moradores receberiam um pacote financeiro que inclui US$ 5 mil em dinheiro, assistência para quatro anos de aluguel e um ano de alimentos.

O projeto, não confirmado oficialmente pelo governo americano, teria sido discutido recentemente em Washington durante uma reunião que contou com a presença de Steve Witkoff, enviado especial de Trump para o pós-guerra em Gaza. A iniciativa faz parte de um plano que estaria sendo descrito como “muito completo” e que contaria com a gestão provisória do território por um período de dez anos por meio de uma entidade chamada GREAT Trust – Fundo para a Reconstituição, Aceleração e Transformação Econômica de Gaza.

O plano inclui ainda a distribuição de tokens digitais para proprietários de terra, como forma de financiar uma nova vida fora da Faixa ou como troca por moradias em seis a oito novas “cidades inteligentes movidas por inteligência artificial” que seriam construídas na região.

Resposta palestina e rejeição internacional

Além do Hamas, outros palestinos reagiram com indignação à proposta. “Rejeitamos todos os planos que deslocam nosso povo e mantêm o ocupante em nossas terras”, afirmou um dirigente do grupo sob condição de anonimato. Para ele, a ideia é “injusta e inútil”.

Moradores de Gaza ouvidos pela AFP também expressaram desconfiança. “Isso é um disparate”, afirmou Qasem Habib, de 37 anos, que vive em uma barraca no bairro Al Rimal, um dos mais atingidos pelos bombardeios. “Se querem ajudar Gaza, já sabem como: pressionando Netanyahu a interromper a guerra e os assassinatos.”

Wael Azzam, 60 anos, morador de Khan Yunis, disse desconhecer os detalhes do plano, mas foi taxativo: “Mesmo sem conhecê-lo, é um plano fracassado. Nascemos e crescemos aqui. Será que o presidente dos EUA aceitaria ser expulso da própria casa?”

Há também vozes mais pragmáticas. Ahmed al Akkawi, de 30 anos, disse que apoiaria o plano caso ele representasse o fim imediato dos combates. “É excelente se a guerra parar e nos transferirem para países europeus onde possamos viver uma vida normal, desde que existam garantias para reconstruir Gaza”, ponderou.

Proposta não é inédita

O projeto de “reconstrução” tem semelhanças com uma proposta apresentada ainda em fevereiro por Donald Trump, que declarou querer “assumir o controle de Gaza” e transformar a região na “Riviera do Oriente Médio”. Na ocasião, o plano foi amplamente rejeitado por países árabes, por governos ocidentais e pela própria ONU.

Procurado pela AFP, o Departamento de Estado americano não comentou o conteúdo da reportagem. A ausência de confirmação oficial não impediu, porém, uma forte reação política e popular, num contexto em que a Faixa de Gaza acumula quase dois anos de guerra, milhares de mortos e um colapso humanitário generalizado.

Especialistas em direito internacional alertam que qualquer proposta que envolva deslocamento forçado de população civil pode configurar violação grave das Convenções de Genebra, além de acirrar ainda mais um conflito já marcado por denúncias de crimes de guerra.

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