13/04/2024 - Edição 540

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Colômbia expulsa diplomatas argentinos após ofensa de Milei

Ajuste fiscal com custos sociais marca 100 dias do governo argentino: para analistas, presidente se tornou seu principal obstáculo

Publicado em 28/03/2024 1:20 - DW, Agência Brasil - Edição Semana On

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O governo da Colômbia ordenou a expulsão de diplomatas da embaixada da Argentina em Bogotá após o presidente argentino, Javier Milei, chamar de “assassino terrorista” o chefe do governo colombiano, Gustavo Petro, durante uma entrevista à rede de televisão CNN en Español.

A medida foi anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores colombiano em um comunicado no qual não revelou o número de funcionários envolvidos.

“O governo da Colômbia ordena a expulsão de diplomatas da embaixada da Argentina na Colômbia. O alcance dessa decisão será comunicado à embaixada argentina por meio dos canais institucionais diplomáticos”, diz a nota.

Milei chamou Petro de “assassino terrorista” e o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, de “ignorante” em uma entrevista à CNN en Español que será exibida na íntegra no próximo domingo, mas que teve uma prévia divulgada nesta quarta-feira.

No comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia disse que o governo do país “repudia as declarações feitas pelo senhor Javier Milei, presidente da Argentina (…) nas quais ele se expressa de forma degradante contra o principal mandatário dos colombianos, o respeitado senhor Gustavo Petro”.

“Não é a primeira vez que o senhor Milei ofende o presidente colombiano, afetando as relações históricas de fraternidade entre a Colômbia e a Argentina”, afirma a nota.

O texto ressalta que essas e outras declarações anteriores do presidente argentino “prejudicaram a confiança de nossa nação, além de ofender a dignidade do presidente Petro, que foi eleito democraticamente”.

Embora não tenha sido o primeiro confronto entre Milei e Petro, que são ideologicamente opostos, esse atingiu o ponto mais agudo da crise, já que a expulsão de diplomatas é uma medida raramente usada pelo governo colombiano.

O caso mais recente de que se tem notícia foi a expulsão, em dezembro de 2020, de dois diplomatas da embaixada da Rússia em Bogotá acusados de “atividades incompatíveis” com seu cargo por supostamente realizarem trabalho de inteligência militar.

Sequência de ofensas

Em 26 de janeiro, o governo colombiano chamou seu embaixador na Argentina, Camilo Romero, para consultas depois que Milei afirmou, em outra entrevista, que Petro “é um comunista assassino que está afundando” o próprio país. Na diplomacia, essa medida é um meio de demonstrar insatisfação com a atitude de outro país.

Na ocasião, o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia disse em um comunicado que essa declaração “desconsidera e viola os profundos laços de amizade, compreensão e cooperação que historicamente uniram a Colômbia e a Argentina”.

Um mês depois, em 24 de fevereiro, o governo colombiano expressou uma “rejeição enérgica” ao que descreveu como “declarações irresponsáveis” de Milei sobre Petro, a quem chamou de “uma praga”.

Naquela ocasião, a rede de televisão colombiana NTN24 entrevistou Milei quando ele saía da conferência anual da direita americana CPAC, realizada em National Harbor, nos EUA.

Respondendo à pergunta de um jornalista sobre o que achava de Petro, Milei disse: “Ele está afundando os colombianos, ou seja, é uma praga letal para os próprios colombianos”.

A relação entre Petro e Milei nunca foi boa e, quando o argentino ainda era candidato à presidência, o líder colombiano o atacou por seus comentários depreciativos sobre os socialistas, comparando suas ideias às de Adolf Hitler.

Durante a última campanha eleitoral argentina, Petro apoiou abertamente o adversário de Milei no segundo turno, Sergio Massa, e quando o ultraliberal foi eleito presidente, em outubro, o presidente colombiano descreveu a vitória dele como “triste para a América Latina”.

Além disso, o chefe do governo colombiano comparou Milei aos ditadores Jorge Videla, da Argentina, e Augusto Pinochet, do Chile, algo pelo qual ele também foi criticado na época.

Venezuelanos no escuro em embaixada argentina

O governo Milei está envolvido em outro incidente diplomático na América do Sul nesta semana. Seis membros da oposição venezuelana refugiados desde segunda-feira na residência oficial da embaixada da Argentina em Caracas declararam-se nesta quarta-feira “protegidos” pelo governo argentino, e denunciaram o “assédio” do regime venezuelano, incluindo o corte de eletricidade à representação diplomática.

“Somos seis dirigentes políticos perseguidos pelo regime de Nicolás Maduro, refugiados na embaixada da Argentina em Caracas (…) e desde que o regime tomou conhecimento da nossa presença aqui, depois de emitir um mandado de captura, iniciou um assédio à sede diplomática”, disse Omar González Moreno à Rádio Rivadavia OM630, da Argentina.

O ex-governador do estado venezuelano de Bolívar disse ainda que o corte de eletricidade causou constrangimentos à residência oficial da embaixada da Argentina em Caracas. Segundo González Moreno, foi registrado em vídeo os funcionários da empresa estatal de eletricidade da Venezuela a fazerem o corte seletivo à representação diplomática.

Gónzalez Moreno explicou que esta situação “faz parte da perseguição desencadeada contra quem defende a liberdade de voto dos venezuelanos”.

“É uma situação inédita. Ontem, o próprio Nicolás Maduro teve o descaramento de denunciar publicamente que (…) o partido fundado por María Carina Machado (candidata presidencial designada pela oposição mas impedida pela Justiça de concorrer), é um partido terrorista (…) para continuar a escalada brutal contra todo o tipo de dissidência”, frisou Gónzalez Moreno.

Ele explicou ainda, em declarações por telefone à Rádio Rivadavia OM630, que vários colegas do partido foram “detidos violentamente”, entre eles, uma colega deputada, por agentes com o rosto coberto, e que mais de uma semana depois continuam em parte incerta.

“São desaparecimentos forçados. Não permitiram nem aos seus advogados, famílias, amigos, colegas de partido saber onde estão detidos, nem qual o estado de saúde. Isto é parte do que estamos vivendo, a brutal tirania que há na Venezuela”, disse.

Nas últimas semanas, as autoridades venezuelanas detiveram nove opositores, dois do partido Causa R e sete do Vem Venezuela (VV), por alegadamente conspirarem contra o presidente e prepararem atos violentos no país antes das presidenciais de 28 de julho. Pelas mesmas acusações foram ainda emitidos outros sete mandados de detenção para membros do VV.

Tensão entre Buenos Aires e Caracas

Em comunicado, a diplomacia de Buenos Aires justificou o refúgio dado aos opositores venezuelanos na embaixada citando a Convenção de Viena e reclamou da falta de energia no prédio, recordando “a obrigação do Estado de acolhimento de salvaguardar as instalações da missão diplomática contra intrusões ou danos e de preservar a tranquilidade e a dignidade da missão”.

As relações entre Argentina e Venezuela, estreitas durante os mandatos dos peronistas Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015), pioraram desde a chegada à Casa Rosada em dezembro do ano passado do ultraliberal Milei, crítico ferrenho do presidente venezuelano.

Ajuste fiscal com custos sociais marca 100 dias do governo Milei

O presidente argentino, Javier Milei, completou no último dia 19 os primeiros 100 dias de governo, limitado pela ausência de leis aprovadas no Parlamento e desafiado a mostrar benefícios do esforço de um ajuste orçamentário com custos sociais.

“Depois de muitos anos, temos na Argentina um governo que tenta resolver os problemas sem adiar soluções nem empurrar as decisões antipáticas para debaixo do tapete. É um governo com diagnóstico correto e objetivo claro, mas com problemas de implementação devido à minoria no Parlamento”, afirma à Lusa o economista Luis Secco, diretor da consultora Perspectiv@s Econômicas.

“Vejo a opinião pública e o mercado dispostos a apoiar o governo porque, pela primeira vez, pretende baixar o déficit orçamentário, mas para estabilizar a economia e voltar a crescer, gerando empregos, precisa de uma mudança de regime que o Parlamento nega. Sem medidas, estamos perante uma mudança de regime incompleta, com um plano de estabilização parcial. Por enquanto, pagam-se os custos e não aparecem os benefícios”, adverte Secco.

Milei chegou à Presidência com 55,7% dos votos, apenas 10% do Senado e 15% da Câmara de Deputados. Devido à minoria parlamentar, não conseguiu ainda aprovar uma única lei.

“Este é um governo muito ambicioso, reformador e com objetivos maximalistas, algo que surpreende devido à assimetria com o seu poder real em termos institucionais, territoriais e legislativos. Milei tem vontade política muito definida, mas esbarra na sua personalidade agressiva e de confrontação. Pelos seus modos e pela sua inexperiência política”, diz o cientista político Sergio Berensztein. “É um presidente que se tornou seu principal obstáculo”.

No começo de fevereiro, diante da iminente derrota na Câmara, decidiu retirar do debate o pacote de leis chamado “Lei Ônibus”, devido aos 664 artigos iniciais. Na semana passada, o Senado reprovou decreto com 366 medidas, deixando os instrumentos de governo à mercê da decisão da Câmara dos Deputados.

Segundo Milei, essas mil medidas iniciais de reformas do Estado e desregulamentação da economia representam apenas 25% das previstas. “Restam outras 3 mil medidas à espera”, avisou.

Porém, se ainda não conseguiu aprovar nenhuma lei, também praticamente não perdeu capital político nem apoio popular, apesar da maior inflação do mundo neste momento.

Desde que assumiu em dezembro passado, o governo Milei acumula índice de inflação de 71,3%, consequência de uma desvalorização inicial de 120% e da liberalização de preços, muitos dos quais congelados durante o governo anterior de Alberto Fernández, apesar da inflação acumulada de 1.020%.

“Entre as razões dessa aparente contradição vemos que parte do eleitorado repudia o sistema político e vê na valentia do discurso presidencial um atributo positivo. Também há um cansaço social com a política tradicional e uma significativa parcela da população que entende as dificuldades atuais como herança do governo anterior. Essa compreensão baseia-se em que todos sabiam que os primeiros meses seriam difíceis, com custos significativos”, diz Berensztein.

“Os eleitores de Milei sabiam que seria assim. Como candidato, ele nunca mentiu. Sempre disse que haveria um ajuste e que haveria muita inflação no princípio. Por isso, manteve o apoio da opinião pública, apesar dos custos de medidas antipáticas”, lembra Luis Secco.

No entanto, durante a campanha, Milei prometia usar uma “motosserra” como símbolo do corte nos gastos públicos, prometendo que, desta vez, o ajuste seria pago pelo que chama de “casta política”, a elite do poder que mantém privilégios à custa do Estado. Porém, até agora, mais da metade do esforço vieram do efeito de diluição de salários e reformas.

Sob promessa de reverter o déficit orçamentário anual de 6,1% em 2023, Milei conta como vitória um superávit financeiro nos dois primeiros meses do ano. “A premissa de déficit orçamentário zero é inegociável”, garante o presidente.

Segundo a consultoria Empiria, com base nos dados oficiais, a média dos salários em janeiro ficou cerca de 7% abaixo do limiar de pobreza, evidenciando perda generalizada de poder de compra. Nos últimos três meses, os preços de produtos básicos ficaram acima dos praticados na Europa ou nos Estados Unidos, com salários dez vezes menores na Argentina.

“Se a inflação não diminuir de forma clara, provavelmente o apoio [a Milei nas pesquisas] cai porque as pessoas vão sentir que fizeram todo o sacrifício sem obter os benefícios. Quanto mais a inflação durar, mais problemático será”, aponta Secco.

O presidente promete à sociedade que, “desta vez o esforço vai valer a pena”, enquanto muda de estratégia. O fracasso inicial, com medidas ambiciosas sem negociação prévia com o Parlamento, ensinou a importância do ‘jogo de cintura’ político com governadores e legisladores, antes de reenviar os projetos de lei.

“Milei precisa mudar sua atitude, delegando e adotando maior flexibilidade. Tem de entender que ceder não significa custo de reputação. Nenhum acordo pode ser fechado com esse grau de obsessão”, afirma Sergio Berensztein.

“Se Milei tivesse adotado essa postura antes, talvez tivéssemos três ou quatro leis prioritárias aprovadas. Em vez disso, temos economia em recessão, com queda do poder de compra que leva a tensões e pressões sociais. Acredito que o governo ainda tenha chances de conseguir um plano econômico mais sustentável, mas estamos no limite e já começam a surgir demoras preocupantes”, observa Luis Secco.

“A pergunta dos agentes econômicos e da população em geral é quanto tempo isso aguenta. Nós, economistas, não sabemos por quantos meses vai durar a paciência social, nem mesmo o próprio Milei sabe”, questiona Secco.


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