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Mundo

China, UE e Canadá revidam ataque comercial americano

Trump debocha: “Estão puxando meu saco para negociar”

Publicado em 09/04/2025 11:23 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em uma escalada que remete aos períodos mais tensos do século XX, a guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump atinge um novo patamar, ameaçando não apenas os fundamentos do comércio internacional, mas a própria estabilidade econômica global. Ao elevar para 104% as tarifas sobre produtos chineses e ampliar barreiras contra dezenas de países, o governo norte-americano provocou uma reação em cadeia que envolve desde sanções retaliatórias até rupturas diplomáticas.

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A China respondeu com uma taxa de 84% sobre bens americanos e restrições a empresas estratégicas, enquanto a União Europeia e o Canadá anunciaram contramedidas direcionadas e articuladas. Em meio ao caos, Trump ironiza líderes mundiais e diz que todos “estão puxando seu saco” para negociar. A economia global, no entanto, parece pouco convencida do otimismo do presidente.

A destruição da ordem comercial pós-guerra

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo construiu um sistema de comércio multilateral baseado em regras, instituições e diplomacia. A criação do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) em 1947 e, mais tarde, da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995, buscou evitar justamente o tipo de protecionismo agressivo que devastou economias nos anos 1930 — como apontado pelo economista Paul Krugman, prêmio Nobel, “as guerras comerciais nunca tiveram vencedores reais; apenas sobreviventes mais pobres.

Ao impor tarifas unilaterais, Trump rompe com esse pacto tácito, promovendo uma espécie de “nacionalismo econômico” que despreza os custos sistêmicos e aposta em ganhos eleitorais domésticos. A retórica nacionalista do presidente — que inclui declarações como “este é um ótimo momento para transferir empresas para os EUA” — ecoa a política do “America First”, mas ignora os impactos sobre consumidores, investidores e parceiros comerciais estratégicos.

China responde à altura

A resposta chinesa, anunciada hoje (9), incluiu não apenas a elevação tarifária para 84% sobre produtos americanos, mas também sanções a 18 empresas, principalmente do setor de defesa, ampliando uma lista que já contava com 60 companhias. O Ministério das Finanças da China classificou a ação dos EUA como “um erro em cima de um erro” e reafirmou sua disposição de “lutar até o fim”.

Embora Pequim busque manter a estabilidade interna, com medidas como compra de ações por empresas estatais e incentivos ao mercado financeiro, o impacto da guerra comercial não pode ser subestimado. Historicamente, conflitos tarifários prolongados, como os observados entre Japão e EUA nos anos 1980, resultaram em profundas distorções comerciais e recessões setoriais.

Europa e Canadá entram no jogo

A União Europeia, por sua vez, optou por uma estratégia progressiva. O bloco aprovou sanções que atingem cerca de 22 bilhões de euros em produtos americanos, com tarifas de 25% sobre itens como soja, aço e motocicletas — escolhidos especificamente em estados americanos chave para Trump. “A escalada não é a resposta”, alertou o chanceler húngaro Péter Szijjártó, um dos poucos aliados europeus de Trump. Mas mesmo ele votou sozinho contra o pacote de retaliação aprovado por 26 dos 27 países da UE.

Já o Canadá, sob o comando do novo primeiro-ministro Mark Carney, impôs tarifas de 25% sobre veículos americanos fora dos acordos trilaterais da América do Norte. “Trump causou essa crise, e o Canadá está respondendo com propósito e força”, declarou Carney. O setor automotivo norte-americano já sente o impacto, com consumidores correndo às concessionárias para se antecipar à alta de preços.

Um presidente em guerra com o mundo (e com o próprio mercado)

Diante do colapso dos índices de ações — o S&P 500 registrou sua pior queda desde os anos 1950 —, Trump reagiu com deboche e desdém. Em jantar do Comitê Nacional Republicano, usou a expressão “kissing my ass” (beije meu traseiro) para descrever a suposta atitude dos líderes mundiais, dizendo que todos estão “desesperados” para negociar.

Enquanto isso, os mercados financeiros sinalizam pânico: o índice Taiex de Taiwan caiu 5,9%, a bolsa de Tóquio encolheu quase 4%, e o Stoxx 600 europeu caiu 2,7%. Até ativos considerados seguros, como os títulos do Tesouro dos EUA, perderam valor. O dólar recuou frente a outras moedas. Como observa o economista Nouriel Roubini, conhecido por prever a crise de 2008, “Trump está brincando com dinamite num armazém de pólvora global”.

Impacto global e dilemas democráticos

Mais do que uma disputa econômica, a atual guerra comercial coloca em xeque os princípios democráticos que sustentam o multilateralismo. O autoritarismo discursivo de Trump — seu desprezo pelas normas internacionais, sua retórica beligerante contra aliados históricos — revela uma política exterior movida por impulsos e interesses eleitorais, não por estratégia de Estado.

Em termos filosóficos, o pensador Jürgen Habermas já alertava, em obras como “A Constelação Pós-nacional” (1998), sobre os riscos da erosão das instituições transnacionais diante de projetos nacionalistas autorreferenciados. Para ele, a globalização sem regulação democrática conduz a conflitos sistêmicos e à regressão política.

A escolha por tensionar alianças, sabotar organismos multilaterais e concentrar decisões comerciais no Executivo, como faz Trump, representa não apenas um retrocesso técnico, mas uma ameaça à própria governança global.

Caminhos para além do confronto

Diante desse cenário, líderes mundiais ainda buscam saídas negociadas. A UE chegou a propor a eliminação mútua de tarifas sobre bens industriais — oferta prontamente rejeitada por Washington. Mas o desgaste cresce: novas sanções estão previstas para maio e dezembro, podendo atingir o setor tecnológico e digital dos EUA.

O futuro das relações comerciais globais está em disputa. A história já demonstrou que o protecionismo exacerbado é um caminho de empobrecimento mútuo. A reconstrução de um comércio internacional justo, sustentável e equilibrado exige diálogo, responsabilidade compartilhada e, sobretudo, uma liderança comprometida com o bem comum — algo cada vez mais raro na retórica de Trump.

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