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Poder

Maioria quer Bolsonaro preso, mostra Datafolha

Enquanto população rejeita anistia, projeto patina no Congresso e revela enfraquecimento da extrema direita

Publicado em 08/04/2025 9:26 - Semana On

Divulgação Semana On

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Em um país ainda marcado pelas cicatrizes de 8 de janeiro de 2023, a justiça e a democracia se encontram em uma encruzilhada delicada. Segundo o mais recente levantamento do Datafolha, 52% dos brasileiros acreditam que Jair Bolsonaro deveria ser preso por sua participação na tentativa de golpe de Estado, revelada pelas investigações da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Ironia histórica: o mesmo percentual acredita que ele não será punido. Essa dualidade reflete um país onde a sede por justiça convive com o ceticismo em relação às instituições — e onde o bolsonarismo, embora ainda ruidoso, começa a dar sinais de fadiga.

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A pesquisa Datafolha, feita com 3.054 pessoas em 172 municípios, revela que o apoio à prisão do ex-presidente é mais forte no Nordeste (59%) e entre católicos (55%), enquanto a oposição à medida é mais intensa entre evangélicos (54%) e moradores do Sul (49%). A clivagem política e ideológica do Brasil está nítida nos números: a percepção sobre a responsabilidade de Bolsonaro reflete, em grande medida, onde e como se consome informação, se pratica religião e se compreende o papel do Estado democrático de direito.

Essa percepção não é nova. Desde o ataque às instituições em janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram e depredaram os prédios dos Três Poderes, o país assiste a uma escalada retórica e simbólica por parte da extrema direita. Ainda que Bolsonaro negue envolvimento direto, os indícios levantados pela PGR e pela PF sustentaram a abertura de processo no Supremo Tribunal Federal (STF), que o tornou réu, junto com aliados próximos, por tentativa de golpe.

Um líder de massas à beira do desmonte

É inegável que Bolsonaro ainda conserva a capacidade de mobilizar parte do eleitorado. No entanto, os números não mentem: o carisma outrora irresistível tem perdido força. A manifestação pró-anistia organizada em fevereiro de 2024 reuniu 185 mil pessoas, segundo o Cebrap/USP. Já no ato mais recente, em abril, foram cerca de 45 mil. A narrativa de que “o povo está com ele” já não se sustenta com a mesma intensidade, embora ainda seja utilizada para pressionar o Congresso.

Essa estratégia, como aponta a cientista política Esther Solano (Unifesp), é típica do populismo autoritário: “Trata-se de transformar apoio minoritário em suposto consenso nacional, criando a ilusão de que há um clamor popular por impunidade” — como publicado em entrevista à Folha de S.Paulo, em fevereiro de 2024.

O projeto de lei que previa anistia aos envolvidos no 8 de janeiro — inclusive líderes e financiadores da intentona golpista — foi paralisado. Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, declarou que a proposta “não é a pauta única do Brasil” e recusou-se a colocá-la em votação. “Não vamos agravar uma situação do país que já não é tão boa. Vamos enfrentar com sensibilidade e responsabilidade”, afirmou durante evento na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em 7 de abril.

A chantagem da minoria barulhenta

O fracasso da tentativa de aprovar a anistia escancarou não apenas o desgaste político do ex-presidente, mas também o isolamento tático de sua base mais fiel. O PL, partido de Bolsonaro, não conseguiu reunir as 257 assinaturas necessárias para pedir urgência na tramitação. O recuo estratégico foi anunciado pelo deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), após pressões internas e o risco de expor parlamentares indecisos ou contrários à pauta.

As críticas públicas do pastor Silas Malafaia a Hugo Motta e a ameaça de convocar os paraibanos às ruas ilustram a escalada de tensão dentro da própria direita. A tentativa de impor a anistia na “marra”, como resumiram deputados da base governista, gerou reação adversa: “A chantagem saiu pela culatra”, destacou a jornalista Vera Magalhães em sua coluna no O Globo, em 8 de abril.

No campo jurídico, o desafio é ainda maior. A possibilidade de fuga de Bolsonaro — que já buscou abrigo na embaixada da Hungria quando teve o passaporte apreendido — segue no radar das autoridades. Caso condenado, poderá se tornar um mártir para a extrema direita global ou um fugitivo político internacional. Qualquer uma dessas alternativas representaria um desgaste institucional profundo, seja pela percepção de impunidade, seja pelo constrangimento diplomático.

A democracia à prova

A descrença de parte expressiva da população quanto à efetivação da Justiça revela o déficit de confiança nas instituições. Segundo o Datafolha, a maioria (52%) acredita que Bolsonaro não será preso, ainda que reconheça sua culpa. Isso reforça o alerta feito por Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, ao analisar democracias em crise: “Quando o sistema de justiça falha ou se omite, abre espaço para a justiça das ruas — e esse é o caminho da barbárie” (Democracia e seus limites, 2018).

A memória da Lava Jato e do encarceramento de Lula ainda pesa no imaginário popular. A diferença crucial, entretanto, é que Lula se entregou à Justiça, cumpriu pena e teve seus direitos restituídos após revisão das decisões. Já Bolsonaro, que jamais foi preso, já ensaiou a fuga e flerta com a impunidade travestida de perdão.

Enquanto isso, a elite política conservadora já se organiza para uma eventual sucessão. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, tenta se equilibrar entre o apoio à base bolsonarista e a necessidade de parecer “moderado”. Ainda assim, 79% de seus eleitores são contrários à prisão de Bolsonaro, e 62% acreditam que ele não será punido — o que limita sua capacidade de romper com o legado radical do ex-presidente.

Entre justiça e legado

O Brasil vive um teste de estresse democrático. A impunidade de Bolsonaro significaria um recado perigoso: a tentativa de golpe pode ser perdoada se tiver base popular. A punição, por outro lado, colocaria à prova a robustez das instituições republicanas — mostrando que ninguém, nem mesmo um ex-presidente com apoio de massas, está acima da lei.

O Judiciário tem diante de si a oportunidade de restaurar a confiança do povo e reafirmar a Constituição. Se falhar, o Brasil arrisca perder mais do que a chance de punir um homem: perderá um pedaço de si mesmo.

INFÂNCIA ALVEJADA


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