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Mundo
Brasil surge como alternativa estratégica no comércio global, especialmente no agronegócio
Publicado em 04/04/2025 11:31 - Semana On
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Quando Donald Trump anunciou um novo pacote de tarifas de 34% sobre produtos chineses, em mais um movimento agressivo de sua política comercial, o mundo assistiu à abertura de um novo capítulo na guerra econômica entre as duas maiores potências globais. A resposta de Pequim veio à altura: tarifas de igual valor contra produtos norte-americanos, aplicáveis a partir de 10 de abril.
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O embate tarifário, no entanto, transcende fronteiras e cifras. Ele encarna uma disputa profunda por hegemonia, escancara vulnerabilidades econômicas globais e coloca em risco a estabilidade do sistema internacional, como alertou o próprio Fundo Monetário Internacional: “claramente representa um risco significativo para as perspectivas globais em um momento de crescimento lento”.
A guerra comercial sino-americana é, em essência, a face mais visível de uma disputa estrutural entre dois modelos distintos de poder: de um lado, o nacionalismo econômico e a lógica unilateral de Trump; do outro, a China, que busca reposicionar-se como liderança global num mundo multipolar. No centro da contenda, estão a indústria, o agronegócio, as cadeias globais de valor e, mais do que tudo, o próprio sistema de comércio internacional, regido por regras que hoje os protagonistas preferem contornar a respeitar.
O protecionismo como instrumento de poder
As tarifas impostas por Trump não são novidade. Durante seu primeiro mandato, o ex-presidente já havia utilizado o protecionismo como ferramenta estratégica, apostando no lema “America First” para pressionar parceiros comerciais e, em teoria, reverter déficits históricos. Um relatório da Comissão de Comércio Internacional dos EUA (2023) chegou a afirmar que tais tarifas estimularam a produção nacional em setores como aço e manufatura.
Contudo, essa leitura é contestada por múltiplas análises econômicas. Um estudo do Peterson Institute for International Economics mostrou que as tarifas resultaram em aumento de custos para consumidores e empresas, além de perda de competitividade internacional. Agora, em 2025, a reedição da estratégia tem efeitos visivelmente mais dramáticos: colapso das bolsas, retração no comércio agrícola e um risco de recessão global que, segundo o JPMorgan, saltou de 40% para 60%.
Trump, por sua vez, mantém o tom triunfalista. “Este é um ótimo momento para ficar rico, mais rico do que nunca!!!”, escreveu no Truth Social, ignorando os alertas das instituições internacionais. Seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, endossou a escalada: “Meu conselho para todos os países neste momento é: não retaliem… se você retaliar, haverá uma escalada”. A frase traduz, com crueza, a lógica de intimidação que orienta a política externa americana sob Trump.
China reage: pragmatismo e força
A resposta chinesa foi calculada, mas firme. Classificando a ação americana como “intimidação unilateral”, Pequim anunciou tarifas de 34% sobre todos os produtos importados dos EUA. A decisão derrubou os preços internacionais do petróleo — o Brent caiu 6,1%, o WTI 6,6% — e fez os índices financeiros acumularem perdas de mais de 13% desde o anúncio das tarifas norte-americanas.
Mais do que retaliação econômica, a resposta chinesa sinaliza que o país de Xi Jinping não aceitará passivamente ser empurrado para a periferia do comércio global. A diplomacia chinesa tem evitado o confronto direto, mas a retaliação atual revela um movimento de autodefesa estratégica, consciente de que a guerra comercial pode servir também como catalisador de alianças alternativas no Sul Global — entre elas, com o Brasil.
Brasil na encruzilhada: ameaça ou oportunidade?
Para o agronegócio dos EUA, os impactos já são sentidos. Com 40% da produção agrícola destinada ao mercado externo, a ameaça de retaliação chinesa vem acompanhada de uma constatação incômoda: o Brasil pode ocupar o espaço deixado pelos EUA no mercado asiático, principalmente em setores como soja e milho. “As guerras comerciais do tipo ‘olho por olho’ não são benéficas, e a agricultura dos EUA não pode se dar a esse luxo”, alertou Caleb Ragland, presidente da Associação de Soja dos EUA.
Os agricultores norte-americanos, que enfrentam prejuízos consecutivos nos últimos três anos, pressionam o governo por subsídios emergenciais. A Casa Branca já discute pacotes de compensação, mas enfrenta resistência dentro do próprio partido Republicano. A situação expõe uma contradição clássica das políticas protecionistas: enquanto setores industriais podem, em tese, se beneficiar, a agricultura — fortemente integrada às cadeias globais — paga a conta.
Neste cenário, o Brasil aparece como potencial beneficiado. As importações chinesas de soja americana cresceram 84,1% nos dois primeiros meses do ano, reflexo de uma antecipação estratégica diante das tarifas. Mas com a confirmação das barreiras, o produto brasileiro deve substituir o americano em grande parte do mercado chinês. Resta ao Brasil agir com agilidade diplomática para consolidar essa posição, sem se alinhar cegamente a nenhum dos lados do conflito.
Crise global em gestação
O FMI alerta: tarifas unilaterais podem custar 0,5% do PIB mundial. Em um cenário de crescimento global já tímido, isso representa uma ameaça real. “É importante evitar medidas que possam prejudicar ainda mais a economia mundial”, reforçou Georgieva. O apelo da diretora-gerente é mais do que um chamado à moderação — é um lembrete de que o multilateralismo, por mais desgastado que esteja, ainda é a única via sustentável para resolver disputas no comércio internacional.
A guerra comercial, portanto, não é apenas um embate de cifras. Ela é uma disputa política, ideológica e estratégica sobre os rumos do capitalismo global. As tarifas são, nesse contexto, armas simbólicas e econômicas de um jogo que ameaça transformar desacordos comerciais em crises sistêmicas.
Entre a ruptura e a reconstrução
O mundo se vê diante de uma encruzilhada. De um lado, a imposição de uma ordem internacional baseada na força, onde grandes potências ditam regras à revelia de acordos multilaterais. Do outro, a defesa de um sistema baseado em normas, diálogo e interdependência.
Como ensina o sociólogo Zygmunt Bauman, “em tempos líquidos, o que não é flexível, quebra”. A rigidez protecionista, impulsionada por agendas nacionalistas, pode quebrar não só o comércio internacional, mas o próprio espírito de cooperação que sustentou a globalização nas últimas décadas.
O Brasil, país com forte vocação agrícola e tradição diplomática de não alinhamento automático, tem diante de si a chance de se reposicionar no xadrez internacional — com inteligência, prudência e defesa intransigente do multilateralismo e da democracia econômica. Oportunidade e risco caminham lado a lado. O desfecho dependerá de como o mundo — e seus líderes — interpretarão este momento histórico.