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Mundo

China encara Trump e escala a crise tarifária

Bilionários criticam Trump e Brasil aposta na resiliência econômica

Publicado em 08/04/2025 10:19 - Semana On

Divulgação Semana On

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O cenário econômico internacional voltou a ser palco de alta voltagem geopolítica após a recente ameaça do ex-presidente americano e atual pré-candidato Donald Trump de aplicar uma tarifa adicional de 50% sobre produtos chineses. A retaliação chinesa, com tarifas de até 34% sobre bens importados dos EUA, não tardou. Pequim acusou Washington de “intimidação unilateral” e prometeu “lutar até o fim”. Os mercados reagiram com instabilidade, embora tenham registrado leve recuperação nesta terça-feira (08/04), com destaque para a alta de 6% em Tóquio.

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A retórica utilizada pelo Ministério do Comércio chinês remonta a uma tradição política que reflete o orgulho nacional e o temor de perda de soberania. A reação forte ao que chamou de “natureza chantagista” dos EUA é mais do que uma questão comercial: trata-se de um posicionamento estratégico em defesa de seu papel nas cadeias globais de valor e da sua crescente influência nos organismos multilaterais. A China, inclusive, acionou formalmente a Organização Mundial do Comércio (OMC), desafiando a legalidade do “tarifaço” de Trump.

O conflito não é novo. A chamada guerra comercial sino-americana teve seus primeiros capítulos em 2018, sob o próprio Trump, e representa uma inflexão no modelo de globalização liberal predominante desde os anos 1990. Segundo o sociólogo Giovanni Arrighi, em Adam Smith em Pequim, os EUA tentam, com medidas protecionistas, conter a ascensão chinesa à posição de hegemonia econômica global – o que revela, nas palavras do autor, um “declínio sistêmico do poder americano”.

Mas a atual investida de Trump encontrou oposição surpreendente até entre seus aliados. Bilionários como Ken Langone (Home Depot), Bill Ackman e Elon Musk criticaram abertamente as tarifas. Langone afirmou ao Financial Times que a política é “absurda” e “mal aconselhada”. Musk, por sua vez, defendeu um modelo de “tarifa zero” entre EUA e Europa. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, foi mais contundente: alertou que as tarifas aumentam a inflação e elevam os riscos de recessão. “Quanto mais rápido essa questão for resolvida, melhor”, escreveu em sua carta anual a acionistas.

A crítica unânime entre grandes nomes do capital financeiro e industrial americano evidencia um paradoxo do trumpismo: embora apoiado por segmentos do empresariado, seu nacionalismo econômico gera efeitos contrários aos interesses globais dessas mesmas elites. A guerra comercial, como alertou Jim Rogers, só traz ganhos momentâneos a poucos setores e tende a prejudicar amplamente o comércio e o investimento internacional.

Esse ambiente volátil tem impactos diretos sobre países emergentes. No entanto, o Brasil, sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adotou um tom de segurança. Em visita a Cajamar (SP), Lula declarou que o país tem reservas internacionais suficientes — cerca de US$ 355 bilhões — para enfrentar instabilidades globais. “Mesmo o presidente Trump falando o que quer, o Brasil está seguro”, disse o presidente, que também destacou os investimentos de R$ 34 bilhões do Mercado Livre e a geração de 14 mil novos empregos como prova de confiança na economia brasileira.

Lula aproveitou para criticar as análises pessimistas do “mercado” e reiterar que o crescimento do Brasil não depende de EUA ou China, mas da mobilização interna e da capacidade de consumo da população. A fala ecoa um ideário desenvolvimentista, em que o Estado tem papel central no estímulo à produção e ao crédito, em contraste com a ortodoxia liberal que teme os efeitos fiscais dessas políticas.

Ao contrário do que defende Trump, a soberania econômica não se constrói pela guerra tarifária, mas pela capacidade de gerar crescimento inclusivo e sustentável. A aposta brasileira, centrada no fortalecimento do mercado interno, na manutenção de reservas robustas e na atração de investimentos produtivos, pode não ser à prova de choques externos, mas representa uma resposta pragmática em meio à incerteza global.

O episódio em curso reafirma a tese do economista Dani Rodrik, da Universidade Harvard: “A globalização mal regulada gera tensões que, sem políticas compensatórias adequadas, corroem o tecido social e favorecem populismos autoritários”. A guerra de tarifas é sintoma disso. E, como tem mostrado a história, protecionismo agressivo raramente termina bem.

O mundo já viu esse filme antes. Nos anos 1930, o Smoot-Hawley Tariff Act foi um dos catalisadores da Grande Depressão, ao sufocar o comércio global com tarifas recordes. A repetição de erros históricos, agora em escala digital e financeira globalizada, pode ser ainda mais grave. A diferença, hoje, é que países como o Brasil parecem mais preparados — politicamente e economicamente — para navegar esse novo ciclo de turbulência.

INFÂNCIA ALVEJADA


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