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Mundo

China e EUA selam trégua comercial e Xi sai fortalecido

Suspensão de tarifas e acordo sobre terras raras revelam mudança de força no tabuleiro geopolítico

Publicado em 30/10/2025 12:22 - Semana On

Divulgação Foto: Andrew Harnik/Getty Images

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Em um movimento que marca uma inflexão nas disputas comerciais entre as duas maiores economias do mundo, China e Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (30) a suspensão por um ano da guerra comercial que se arrasta desde 2018. O anúncio veio após uma reunião de 1h40 entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump, em Busan, na Coreia do Sul. Entre os principais pontos acordados estão a flexibilização nas exportações chinesas de terras raras — insumos estratégicos para setores de alta tecnologia — e a redução de tarifas sobre produtos como soja e fentanil.

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O gesto, classificado por Trump como “12 numa escala de 1 a 10”, representa mais que uma trégua comercial: aponta uma mudança de equilíbrio no jogo geopolítico. Xi Jinping, ao adotar uma postura de endurecimento prévio nas exportações de insumos essenciais e na importação de produtos agrícolas, forçou os EUA de volta à mesa de negociação. O presidente chinês, sem disfarçar o tom estratégico, afirmou que “divergências são normais” entre potências, mas reiterou que ambos os países devem “agir como parceiros e amigos”.

A reunião ocorre na véspera da cúpula da Apec, marcada para esta sexta (31), em Gyeongju, e é resultado de um processo diplomático silencioso. Segundo autoridades de Pequim, os termos básicos já haviam sido delineados em rodadas anteriores, realizadas em Kuala Lumpur, preparando o terreno para o encontro entre líderes.

Xi endurece, Trump cede

Segundo análise da colunista Amanda Klein, do UOL, a China conseguiu impor medidas duras e extrair concessões significativas de Washington. “Xi Jinping claramente se saiu vencedor nessa negociação”, afirmou Klein, apontando como decisivo o controle chinês sobre as terras raras — minerais essenciais para as cadeias produtivas de defesa, eletrônica, transição energética e indústria automotiva.

A China, responsável por cerca de 60% da produção mundial de terras raras e mais de 85% da capacidade de refino (dados da U.S. Geological Survey), havia restringido severamente as exportações desses materiais nos últimos meses, atingindo diretamente setores estratégicos dos EUA e seus aliados. Paralelamente, interrompeu as compras de soja americana, afetando uma das bases eleitorais mais fiéis de Trump: os produtores agrícolas do Meio-Oeste.

Esse cerco econômico produziu efeito. Em troca do alívio nas restrições de exportação e da retomada da compra de “quantidades tremendas” de soja — segundo Trump —, os EUA reduziram tarifas sobre produtos chineses de 57% para 47%, e a chamada “tarifa do fentanil” cairá de 20% para 10%.

Além disso, o governo Biden se comprometeu a suspender medidas da seção 301 — instrumento da legislação comercial americana — que investigavam setores sensíveis da economia chinesa, como logística, indústria naval e marítima.

Disputa pelas cadeias globais

As terras raras voltam ao centro da disputa global. A dependência dos EUA e da Europa desses minerais expõe uma vulnerabilidade estratégica. Em 2020, quando Pequim ameaçou cortar o fornecimento à indústria militar americana, o Pentágono passou a considerar as terras raras um ativo de segurança nacional. Desde então, investimentos em mineração e refino fora da China aumentaram, mas com resultados ainda limitados.

A trégua atual, com validade inicial de um ano e possibilidade de renovação, adia mas não resolve a disputa de fundo: o controle das cadeias produtivas globais. A indústria norte-americana segue altamente dependente dos insumos chineses, e, segundo relatório recente do Center for Strategic and International Studies (CSIS), “mesmo com esforços de diversificação, a supremacia da China no refino permanecerá dominante por ao menos mais cinco anos”.

Fentanil, TikTok e Ucrânia: a pauta lateral

O acordo também incluiu compromissos no combate ao fentanil, substância responsável por mais de 70 mil mortes por overdose nos EUA apenas em 2022. Trump afirmou que Xi se comprometeu a agir “muito duro” contra a produção e exportação de precursores químicos do opioide. O gesto, embora diplomático, responde à crescente pressão interna nos EUA sobre o impacto devastador da crise de opioides.

Houve ainda menções à cooperação sobre o TikTok, aplicativo chinês ameaçado de banimento nos EUA por motivos de segurança nacional, e um breve diálogo sobre a guerra na Ucrânia. Trump reconheceu a continuidade da compra de petróleo russo por parte da China, mas disse que o tema “não foi realmente discutido”. A questão de Taiwan também ficou fora da pauta.

Perspectivas e leitura crítica

O encontro em Busan inaugura um novo ciclo diplomático entre EUA e China, mas não encerra a disputa por hegemonia. A trégua tarifária de um ano abre espaço para negociações mais profundas — ou para novas tensões, a depender do cenário eleitoral americano e dos desdobramentos em Taiwan, no Mar do Sul da China e nas relações com a Rússia.

Xi Jinping, ao forçar Trump a vir até a Ásia e sair com um acordo sob medida para os interesses chineses, reforça sua imagem interna e externa como líder assertivo. É, como escreveu o especialista em relações internacionais Kevin Rudd (The Avoidable War, 2022), “uma guerra fria gerenciável, mas não evitável”.

Para os observadores, fica claro: o tabuleiro está longe de estabilizar.

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