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Mundo

À sombra da guerra no Cone Sul

Tentativas de captura de Maduro, execuções sumárias e manobras militares no Caribe reacendem os fantasmas da intervenção

Publicado em 29/10/2025 4:11 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Com navios de guerra no Caribe, bombardeiros B-52 sobrevoando o litoral venezuelano e agentes federais tentando recrutar o piloto presidencial de Nicolás Maduro, os Estados Unidos sob Donald Trump retomam abertamente a doutrina da ingerência militar na América Latina. Em nome do combate ao narcoterrorismo — agora elevado ao patamar de “Al-Qaeda das Américas” —, Washington ameaça romper décadas de contenção diplomática e mergulhar o continente num novo ciclo de violência. A escalada bélica, ancorada em motivações eleitorais, geopolíticas e ideológicas, reedita perigosamente os velhos mecanismos imperiais travestidos de cruzada moral.

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Um plano secreto e uma oferta tentadora

Em abril de 2024, em um hangar discreto na República Dominicana, um agente federal dos Estados Unidos fez uma proposta explosiva: que o piloto presidencial venezuelano, o então coronel Bitner Villegas, desviasse o avião de Nicolás Maduro para um local onde as autoridades americanas pudessem capturá-lo. A revelação da Associated Press, publicada em outubro de 2025, expôs mais do que uma tentativa de cooptação: revelou uma operação de caráter clandestino, típica das estratégias de “mudança de regime” que marcaram a política externa dos EUA ao longo do século XX.

O agente, Edwin Lopez, ofereceu dinheiro e segurança nos Estados Unidos. Diante da recusa do militar, recorreu a chantagens — ameaçou divulgar uma foto do encontro entre ambos. Por fim, vazou as informações a Marshall Billingslea, ex-funcionário do Tesouro dos EUA e figura próxima da oposição venezuelana, que publicou o conteúdo nas redes sociais. A operação clandestina, embora mal sucedida, gerou pânico nos círculos mais próximos ao chavismo e empurrou Villegas para o centro de uma narrativa nacionalista. Ele reapareceu em um programa oficialista, saudado como herói leal.

Mas a tentativa de sequestro presidencial foi apenas a primeira peça de um tabuleiro muito mais amplo.

Guerra no Caribe: a volta da doutrina da força

Pouco tempo depois, o governo Trump avançou com um dos maiores desdobramentos navais no Caribe desde a invasão do Panamá em 1989. Três navios de assalto anfíbio, três destróieres, dois submarinos nucleares e mais de 8 mil militares posicionaram-se diante da costa venezuelana. Oficialmente, a missão é combater o narcotráfico. Na prática, a escala da operação e a retórica adotada indicam outra realidade.

No dia 2 de setembro, uma lancha suspeita de transportar drogas foi diretamente explodida pelas forças americanas — sem advertência, sem provas, sem processo judicial. Onze tripulantes morreram. Nenhum nome foi divulgado. Nenhuma evidência foi apresentada. “Matar membros de cartéis que envenenam nossos cidadãos é o maior e melhor uso de nossas forças armadas”, disse o vice-presidente J.D. Vance. Já o secretário de Estado, Marco Rubio, foi ainda mais incisivo: “Em vez de interceptá-lo, nós o explodimos. E voltará a acontecer”.

Essas ações marcam uma ruptura com os protocolos históricos da Guarda Costeira. Em lugar da contenção e da legalidade, prevalece a lógica da execução sumária. Um padrão que remete diretamente aos anos da “guerra contra o terror” — agora aplicada ao sul global.

O retorno da Al-Qaeda: agora na América Latina

A radicalização do discurso não parou por aí. Em declarações recentes, o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, equiparou os grupos de narcotráfico latino-americanos à Al-Qaeda. “Esses grupos terroristas são a Al-Qaeda do nosso hemisfério. Nós os encontraremos e os mataremos”, afirmou.

A retórica não é casual. Ao declarar organizações como o Trem de Aragua e o Cartel de los Soles como “entidades terroristas”, o governo norte-americano abriu um precedente perigoso: ações militares sem declaração de guerra, sem autorização do Congresso, e fora do escopo da legalidade internacional. O paralelo com o Iraque de 2003 é inevitável — mas agora os alvos estão no continente americano.

A metáfora da “Al-Qaeda das Américas” é potente. E perigosa. Ela fornece o pretexto moral para uma guerra sem regras, onde a soberania dos países e o direito internacional tornam-se obstáculos menores diante da suposta necessidade de “proteger o povo americano”.

Motivações eleitorais, simbólicas e geopolíticas

Como ressaltam analistas da plataforma VisualPolitik, há motivações eleitorais claras por trás da escalada. Com as eleições de meio de mandato se aproximando em 2026, Trump busca recompor sua base entre latinos anticomunistas, especialmente na Flórida. Além disso, enfrenta crises sucessivas: fracassos diplomáticos na Ucrânia e Irã, escândalos internos, insatisfação com sua política econômica. Uma intervenção militar “bem-sucedida” na Venezuela pode oferecer uma vitória simbólica em meio a uma gestão atribulada.

Há ainda uma dimensão ideológica. O trumpismo construiu sua retórica sobre a criminalização da imigração e a hostilidade à América Latina. A ofensiva atual permite reforçar a narrativa de que Trump “controla as fronteiras” e combate os “inimigos internos”, projetando uma imagem de força diante de sua base radicalizada.

No campo geopolítico, o objetivo é claro: conter a influência da China, da Rússia e do Irã na região. A Venezuela, que comprou caças Sukhoi e sistemas antiaéreos russos, tornou-se símbolo dessa presença incômoda. Sob a lógica imperial do governo Trump, Caracas é hoje a porta de entrada de uma “ameaça estrangeira” no quintal americano.

A encruzilhada venezuelana

Apesar do aparato militar, analistas como John Polga-Hecimovich, do Naval Academy dos EUA, e o Robert Lansing Institute concordam: uma invasão terrestre à Venezuela é improvável. Faltam tropas, apoio político e, sobretudo, memória histórica. A guerra do Iraque e a ocupação do Afeganistão ainda pesam sobre a opinião pública americana.

O mais provável, segundo o historiador Alan McPherson e o ex-oficial de inteligência Stephen Donehoo, é uma estratégia de “ataques cirúrgicos”, sabotagens ou ações clandestinas — exatamente como a tentativa de cooptação do piloto de Maduro revelou. Em outras palavras: não se trata mais de ocupar territórios, mas de neutralizar adversários à distância, com drones, comandos secretos e destruições pontuais.

Do lado venezuelano, a resposta tem sido ambígua. Após o ataque à lancha, o governo chegou a afirmar que a explosão havia sido forjada com inteligência artificial — uma alegação insustentável diante da existência dos corpos e da comoção pública. Posteriormente, Maduro recorreu à retórica clássica, denunciando a “máfia de Miami” e exaltando sua “milícia bolivariana”, que, segundo ele, soma 12 milhões de reservistas. Embora improvável em termos operacionais, a cifra cumpre função simbólica: projetar resiliência e desestimular uma ofensiva direta.

Paz, justiça e direitos humanos: o que está em jogo?

Diante da escalada, a comunidade internacional busca alternativas. Em outubro, María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua luta democrática. O Instituto de Georgetown premiou a ativista Sairam Rivas pela coragem diante da repressão. São gestos que reafirmam a urgência de uma saída negociada — mas com justiça.

Como afirmou o Comitê do Nobel: “A Venezuela evoluiu de um país relativamente democrático para um Estado brutal e autoritário”. Quase 8 milhões de venezuelanos abandonaram o país. A paz, portanto, não pode ser confundida com estabilidade sob opressão. Ela exige a libertação dos presos políticos, o reconhecimento dos resultados eleitorais de julho de 2024 e a restauração dos direitos civis.

O impasse entre dois abismos

A Venezuela vive hoje entre dois extremos: o risco da guerra e o peso de uma ditadura duradoura. A ameaça norte-americana, mesmo que em parte retórica, reforça a lógica de trincheiras e enfraquece os setores moderados. Já o regime de Maduro, ao resistir sem ceder, mantém um país paralisado, empobrecido e privado de liberdades fundamentais.

O futuro dependerá da capacidade dos atores internos e externos de evitar os dois abismos: a guerra imperial e a paz autoritária. O desafio, como sempre, é encontrar uma terceira via: democrática, soberana e justa.

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