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Mundo
Reação europeia aponta tentativa de extorsão e interferência explícita na política brasileira
Publicado em 11/07/2025 11:01 - Semana On
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A diplomacia internacional testemunhou nesta semana um episódio raro e revelador: o uso explícito do comércio exterior como instrumento de pressão política direta sobre uma democracia soberana. O protagonista, como de costume, é Donald Trump — ex-presidente e novamente candidato à Casa Branca — que anunciou uma tarifa alfandegária de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, a maior entre os 22 países-alvo de sua nova cruzada protecionista.
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A justificativa, pasme-se, não está nos desequilíbrios comerciais (já que os EUA têm superávit com o Brasil), mas no que Trump chama de “ataques insidiosos do Brasil às eleições livres”, em referência ao julgamento e à derrota eleitoral de seu aliado ideológico, Jair Bolsonaro.
A medida foi imediatamente lida por analistas internacionais como uma tentativa descarada de ingerência nos assuntos internos do Brasil, o que remete a práticas de interferência típicas da Guerra Fria, quando superpotências recorriam a sanções, bloqueios e “operações de mudança de regime” para moldar o cenário político de países periféricos ao seu gosto.
“É uma espécie de soft imperialism”, define o historiador americano Greg Grandin, autor de Empire’s Workshop (2006), livro que explora como a América Latina foi por décadas o laboratório das políticas externas mais agressivas dos EUA. “Trump apenas dá continuidade a essa tradição, mas de maneira mais crua e personalista.”
Com a retórica de um capo mafioso, como notou o colunista Thomas Legrand no francês Libération, Trump condiciona a isenção tarifária à suspensão de julgamentos judiciais no Brasil e à não regulação de plataformas digitais que propagam desinformação política — uma clara chantagem contra o sistema democrático e jurídico brasileiro.
A China reage: “coerção e intimidação”
A reação internacional não tardou. Em Pequim, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, foi taxativa: “Tarifas não devem ser usadas como coerção, intimidação ou interferência”. Citando princípios da Carta das Nações Unidas, como a soberania estatal e a não intervenção, ela sublinhou que a decisão de Washington transgride fundamentos essenciais da convivência entre nações.
Esse gesto chinês não é trivial. A China, maior parceiro comercial do Brasil, tem interesse direto na estabilidade das relações sul-americanas e vê com preocupação o uso de tarifas como armas geopolíticas. O gesto também ecoa uma tensão maior: a disputa entre o modelo multipolar dos BRICS e o sistema de hegemonia centrado nos Estados Unidos e no dólar.
Europa: de perplexidade à denúncia
Na Europa, a reação foi ainda mais veemente. O jornal francês Libération apelidou Trump de “mafioso internacional”, dizendo que ele “transforma as relações internacionais em um vasto campo de prevaricação, extorsão e ameaças violentas”. O Les Echos, por sua vez, classificou a atitude como “tentativa de extorsão para interferir na política interior do Brasil”, ressaltando que a tarifa tem como pano de fundo o incômodo de Trump com a atuação do Brasil nos BRICS e sua aproximação com a China e a Rússia.
A jornalista Caroline Loyer, da BFMTV, foi direta: “Será que Trump está realmente cogitando interromper o julgamento de Bolsonaro ou esse é apenas um pretexto para encher os cofres dos Estados Unidos?”. A dúvida é retórica, mas a pergunta evidencia o tamanho da distorção introduzida na ordem internacional quando o comércio deixa de ser uma arena técnica e se torna um campo de batalha política.
A economia como arma política
Historicamente, sanções econômicas têm sido usadas como mecanismos de dissuasão ou punição a regimes autoritários. O ineditismo do caso atual está no fato de se aplicar tal ferramenta contra uma democracia plena, que passou por eleições livres e está seguindo seus trâmites institucionais. O índice de democracia da The Economist, de 2024, classificou o Brasil como “democracia funcional” — em recuperação após os anos de erosão institucional durante o bolsonarismo.
A lógica de Trump, porém, subverte esse quadro: para ele, a legitimidade democrática do Brasil depende de manter a impunidade de um ex-presidente que tentou minar o processo eleitoral. A medida cria um precedente perigoso: a economia como extensão da guerra cultural.
Lula reage e aponta reciprocidade
O governo brasileiro, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu com firmeza: “O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”. Lula evocou a lei de reciprocidade comercial e indicou que tarifas contra os EUA estão em estudo.
O gesto não é apenas defensivo, mas simbólico. Trata-se de uma reafirmação da soberania nacional em tempos de ofensivas transnacionais que tentam submeter democracias à lógica geopolítica das grandes potências. Como afirma a cientista política Monica de Bolle (Johns Hopkins University), “estamos vendo o retorno de uma política externa americana centrada no uso punitivo do dólar e do acesso ao mercado como armas políticas — o que enfraquece a credibilidade do próprio sistema internacional que os EUA ajudaram a construir após 1945”.
O contexto: BRICS, dólar e novo equilíbrio global
A tensão também se insere no contexto mais amplo de reconfiguração da ordem mundial. O Brasil, como membro ativo dos BRICS+, tem participado de esforços para desdolarizar o comércio internacional e criar instrumentos financeiros alternativos ao FMI e ao Banco Mundial, instituições historicamente controladas pelos EUA e seus aliados.
Essa movimentação é vista com ceticismo em Washington, que enxerga os BRICS como uma aliança de contestação à hegemonia liberal ocidental. Para Trump, ideologicamente avesso ao multilateralismo, o fortalecimento do eixo Sul-Sul representa uma ameaça. Por isso, segundo analistas, o tarifaço também é uma retaliação velada ao protagonismo brasileiro no tabuleiro internacional.
O risco de normalização da exceção
O mais perigoso neste episódio talvez não seja a tarifa em si, mas a normalização da coerção política por meios econômicos. Quando se naturaliza que líderes internacionais possam impor sanções a países democráticos com base em simpatias ideológicas ou alinhamentos pessoais, abre-se uma brecha grave para o retorno da diplomacia imperial. Como alerta o filósofo italiano Antonio Negri, “o império não precisa mais de invasões militares quando controla fluxos financeiros e cadeias de valor”.
Se a comunidade internacional não reagir com clareza, o precedente pode se espalhar: sanções a países que regulem redes sociais, que julguem políticos extremistas, ou que escolham alianças regionais que desagradem a potências. A fronteira entre diplomacia e dominação se tornaria porosa.
Soberania não se negocia
O caso das tarifas de Trump contra o Brasil é um teste crucial para o sistema internacional. Revela os limites da retórica democrática quando posta à prova por interesses geopolíticos. Expõe o uso da economia como instrumento de chantagem ideológica. E convoca as democracias periféricas a reafirmarem que soberania, justiça e pluralismo não estão à venda.
Como ensinava o jurista norueguês Hans Kelsen, defensor do direito internacional como base da paz entre as nações, “nenhuma ordem será justa enquanto não respeitar a igualdade entre os Estados e a não intervenção em seus assuntos internos”. Eis um princípio que parece, hoje, mais atual do que nunca.
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