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Mundo

Chile polarizado decide futuro entre uma comunista e um fascista

Disputa entre Jeannette Jara e José Antonio Kast reflete avanço da extrema direita em um país às voltas com insegurança, imigração e memórias da ditadura

Publicado em 17/11/2025 11:52 - Semana On

Divulgação O ultradireitista José Antonio Kast e a ex-ministra Jeannette Jara, do Partido Comunista, disputarão o segundo turno pela Presidência do país - Reprodução AFP

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A história, como advertiu certa vez Karl Marx, costuma se repetir — primeiro como tragédia, depois como farsa. No Chile de 2025, a repetição ganha contornos dramáticos: mais de três décadas após o fim da ditadura de Augusto Pinochet, o país se vê novamente às voltas com uma eleição marcada por extremos ideológicos e pela reativação de temores e fantasmas do passado. No próximo dia 14 de dezembro, os eleitores chilenos decidirão entre Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho e primeira comunista a liderar uma coalizão de esquerda desde a redemocratização, e José Antonio Kast, candidato ultradireitista que não esconde sua admiração pelo antigo regime militar.

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A eleição ocorre sob uma atmosfera carregada de incerteza, rancores históricos e inquietações sociais. Trata-se, como definiu o sociólogo Manuel Antonio Garretón, de um momento de “reacomodação estrutural das forças políticas chilenas”, provocado por um duplo colapso: o da velha Concertación — coalizão que governou o Chile no pós-ditadura — e o do modelo neoliberal excludente herdado dos anos pinochetistas.

O cenário atual se constrói a partir de três pilares que impulsionaram a guinada conservadora: o crescimento exponencial da violência, o aumento da imigração irregular e o desgaste de um governo progressista que não conseguiu materializar a nova Constituição sonhada nos protestos de 2019.

O país entre dois mundos

Jeannette Jara, 51 anos, é militante do Partido Comunista desde a adolescência. Em sua trajetória, destaca-se o papel como ministra do Trabalho no governo de Gabriel Boric, onde articulou políticas de proteção social e valorização salarial. Sua candidatura representa uma frente ampla, que vai do centro moderado à esquerda radical — um espectro político que luta para preservar as conquistas sociais das últimas décadas. Ao vencer as primárias da coalizão governista, Jara rompeu uma barreira simbólica: é a primeira comunista com reais chances de chegar ao Palácio de La Moneda desde Salvador Allende, derrubado em 1973.

No polo oposto, José Antonio Kast, 59 anos, emerge como o símbolo do Chile conservador. Oriundo de uma família de imigrantes alemães, com laços históricos com o regime de Pinochet, Kast foi derrotado por Boric no segundo turno de 2021, mas nunca deixou de construir sua base política com um discurso autoritário, xenófobo e moralista. Seu Partido Republicano tem crescido em meio à insatisfação popular, alimentado por um discurso de “ordem e progresso” que encontra eco nas regiões mais afetadas pela insegurança e no eleitorado evangélico.

“A criminalidade tomou uma dimensão inédita no país”, afirma Lucía Dammert, especialista em segurança pública da Universidade de Santiago. Segundo dados do Ministério do Interior, os homicídios no Chile aumentaram 140% nos últimos dez anos, chegando a 6 por 100 mil habitantes — índice ainda inferior ao de muitos vizinhos sul-americanos, mas alarmante em uma sociedade historicamente pacificada. Além disso, sequestros aumentaram 76% desde 2021, e crimes antes impensáveis, como o sicariato, passaram a fazer parte do cotidiano urbano.

A equação da direita

Ao contrário da fragmentada esquerda, Kast chega ao segundo turno com a direita unificada. Após o primeiro turno, recebeu o apoio imediato de Evelyn Matthei e Johannes Kaiser, figuras-chave do conservadorismo chileno. A soma das votações dos três alcança cerca de 51%, conferindo à ultradireita uma vantagem numérica que pode ser decisiva. Além disso, a plataforma de Kast aposta na repressão à imigração, com promessas de deportações em massa, construção de barreiras físicas na fronteira norte e militarização das zonas urbanas.

A retórica do medo tem encontrado solo fértil. A chegada de imigrantes — sobretudo venezuelanos — tem sido apontada por parte da população como catalisadora da crise de segurança. Embora não haja correlação direta entre imigração e criminalidade em estudos sérios, o uso político do tema segue uma lógica populista conhecida, replicada por lideranças como Donald Trump e Jair Bolsonaro, ambos abertamente admirados por Kast.

Uma democracia posta à prova

Esta é a primeira eleição presidencial no Chile com voto obrigatório desde 2012, o que adiciona uma camada de imprevisibilidade ao pleito. Estima-se que cinco milhões de eleitores que normalmente se abstêm foram obrigados a comparecer às urnas, sob pena de multa. A medida, aprovada após a experiência de 2021, visa recuperar a legitimidade das instituições diante do crescente descrédito político — um fenômeno global, mas particularmente agudo na América Latina.

A conjuntura chilena não pode ser compreendida isoladamente. A ascensão da direita radical reflete um movimento regional, visível na eleição de Javier Milei na Argentina e no fortalecimento de discursos antiliberais e antiestablishment em todo o continente. Como advertiu o cientista político Steven Levitsky, da Universidade de Harvard, “democracias morrem não apenas por golpes, mas também quando líderes eleitos minam regras e normas democráticas por dentro”. Nesse sentido, a eleição chilena ultrapassa suas fronteiras nacionais: o que está em jogo é o futuro da democracia liberal em um tempo de transição.

O resultado do segundo turno poderá redesenhar os rumos do Chile — seja pela continuidade de um projeto social progressista ancorado em direitos e reformas estruturais, seja pelo retorno de uma agenda conservadora que resgata os valores da era Pinochet, agora reembalados sob o verniz democrático.

Diante do abismo, o país observa-se no espelho de sua própria história. O veredito, como sempre, caberá às urnas — mas o eco desse voto ressoará muito além da Cordilheira dos Andes.

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