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Colômbia rompe cooperação de inteligência com os EUA após ataques extrajudiciais no Caribe
Publicado em 14/11/2025 1:18 - Semana On
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O rugido metálico do USS Gerald R. Ford no mar do Caribe não é apenas o som da mais avançada máquina de guerra norte-americana em operação. É também o eco de uma estratégia política que remonta aos momentos mais controversos da história imperial dos Estados Unidos: a de usar a guerra externa como cortina de fumaça para crises internas. Com o lançamento da “Operação Lança do Sul”, anunciada por Donald Trump na quinta-feira (13), a Casa Branca retoma os velhos manuais da Guerra Fria, revestindo de retórica moralizante uma ação de força que se projeta sobre o frágil tabuleiro político da América Latina.
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A operação, sob a justificativa de combater o narcotráfico, foi orquestrada pelo Comando Sul — órgão que há décadas simboliza a presença militar americana no Hemisfério Sul. Sem oferecer detalhes concretos, o Secretário de Defesa Pete Hegseth declarou em tom bélico, pela plataforma X, que a missão visa “defender o território [dos EUA], retirar narcoterroristas do Hemisfério e proteger o país das drogas que estão matando” a população. Em paralelo, o presidente venezuelano Nicolás Maduro denunciou que Washington prepara uma invasão para depô-lo e tomar os recursos naturais da Venezuela, evocando memórias de décadas de intervenções encobertas pela CIA, inclusive contra seu antecessor Hugo Chávez.
Maduro elevou o tom, mobilizando juventudes e comitês populares para resistirem ao que chamou de “pressão política, militar e psicológica” dos EUA. “Quem quer ser escravo gringo?”, bradou, ao estilo bolivariano, convocando a defesa da soberania nacional. Ao mesmo tempo, adotou um discurso aparentemente conciliador: pediu “paz” aos Estados Unidos e enviou um recado em inglês a Trump — “Yes, peace” — apelando por uma trégua continental. Contradição aparente? Não. Estratégia de sobrevivência diante de um adversário que se move tanto pela força quanto pela manipulação midiática e diplomática.
A movimentação militar coincide com a reemergência pública do fantasma de Jeffrey Epstein — o financista e criminoso sexual que mantinha laços com figuras poderosas, incluindo Trump. Documentos recentemente divulgados por parlamentares democratas sugerem que o ex-presidente sabia dos abusos cometidos por Epstein e teria estado presente em situações comprometedoras. Sob pressão crescente, Trump resgatou um clássico expediente presidencial: mudar o foco da opinião pública, criando um inimigo externo para unificar os ressentimentos internos. Como escreveu o filósofo e historiador Michel Foucault, “o poder não reprime apenas, ele também produz discursos” — e Trump, hábil produtor de narrativas de guerra, optou por vestir sua nova ofensiva com o velho traje da “luta contra as drogas”.
No entanto, os dados revelam que a estratégia está longe de ser consensual nos Estados Unidos. Pesquisa da Reuters/Ipsos indica que apenas 35% dos americanos apoiam o uso da força militar na Venezuela sem autorização do governo local. Ainda mais preocupante para a Casa Branca, 51% se opõem diretamente às execuções extrajudiciais de supostos traficantes — prática já adotada em pelo menos 20 ataques militares no Caribe e no Pacífico Sul, que resultaram na morte de 79 pessoas. A Anistia Internacional e outras entidades de direitos humanos condenaram a ação como ilegal e contrária ao direito internacional. “Execuções extrajudiciais são uma grave violação dos direitos humanos”, afirmou Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia para as Américas (fonte: Anistia Internacional, 2024).
Mesmo entre os republicanos, a divisão é nítida: enquanto 58% apoiam os ataques extrajudiciais, 27% se opõem, refletindo uma erosão do apoio incondicional a Trump dentro de seu próprio partido. O apoio ao uso das Forças Armadas para remover Maduro é ainda mais tímido — apenas 21% da população o endossa, demonstrando que o apetite por intervenções unilaterais em solo estrangeiro é cada vez menor entre os norte-americanos.
A retórica da “guerra às drogas”, como bem analisa o sociólogo Loïc Wacquant, frequentemente serve mais como uma política de controle social e repressão do que como solução efetiva para o problema. Ao mirar a Venezuela, Trump ativa memórias históricas de golpes apoiados pela Casa Branca na América Latina — do Chile de Allende ao Brasil de 1964 — enquanto ignora deliberadamente o papel estrutural dos próprios Estados Unidos no ciclo da droga: da demanda interna ao financiamento de operações clandestinas que alimentam cartéis e milícias.
A hipótese de uma escalada maior não é remota. Com mais de 5 mil militares, aviões de guerra, oito navios, um submarino nuclear e aeronaves F-35 posicionados no Caribe, o cenário lembra uma pré-guerra de demonstração — um teatro bélico que pode, a qualquer momento, tornar-se real. A linguagem “fálica” da operação — como bem notaram analistas críticos — não é acidental: “Lança do Sul” projeta poder e desejo de dominação, em clara metáfora de conquista colonial, ecoando uma lógica imperialista que insiste em tratar a América Latina como quintal estratégico.
A reação de figuras políticas brasileiras, como o senador Flávio Bolsonaro — que em tom farsesco chegou a pedir bombardeios norte-americanos na Baía de Guanabara — revela o alinhamento ideológico de parte da elite local a essa lógica de submissão. Ao apoiar uma intervenção estrangeira no continente, ecoam os piores momentos do entreguismo político que marcou parte da história latino-americana.
A operação, portanto, não pode ser analisada apenas sob o prisma do narcotráfico. Ela deve ser lida como um capítulo de um drama maior: a tensão entre soberania e hegemonia, entre o direito internacional e o arbítrio das potências, entre os interesses geopolíticos e os direitos humanos. Como alertou Noam Chomsky em múltiplos trabalhos sobre a política externa dos EUA, “as intervenções militares sempre têm objetivos econômicos e estratégicos claros — a retórica humanitária vem depois”.
Neste jogo geopolítico de alto risco, onde o tabuleiro é o nosso continente, o Brasil — e todos os países latino-americanos — têm o dever de se posicionar com firmeza em defesa da paz, da soberania e do direito à autodeterminação dos povos. A sombra de Epstein pode assombrar Trump, mas são as bombas reais que ameaçam os corpos latino-americanos. E para esses, não há fantasma: há dor, destruição e morte.
Colômbia rompe cooperação de inteligência com os EUA após ataques extrajudiciais no Caribe
Em um movimento de forte repercussão geopolítica, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ordenou na terça-feira (11) a suspensão imediata da colaboração de inteligência com agências de segurança dos Estados Unidos, em protesto contra os recentes ataques promovidos por Washington a embarcações civis no Caribe e no Pacífico oriental — ações classificadas por organizações internacionais como execuções extrajudiciais.
O anúncio foi feito por meio do perfil oficial do presidente na plataforma X (antigo Twitter), onde determinou que “todos os níveis de inteligência da força pública colombiana devem interromper comunicações e negociações com agências norte-americanas” enquanto perdurarem as operações militares ordenadas pelo governo Trump. Petro justificou a decisão enfatizando que “a luta contra as drogas deve estar subordinada aos direitos humanos do povo caribenho”, condenando o que classificou como violações do direito internacional e da soberania regional.
A decisão surge em resposta direta à escalada bélica dos EUA na costa da Venezuela e em águas internacionais do Caribe, que já deixou um saldo de ao menos 75 mortos e 20 embarcações destruídas, de acordo com fontes militares e reportagens recentes. Utilizando mísseis de alta precisão contra barcos suspeitos de tráfico de drogas, os EUA romperam com a prática tradicional de abordagens e processos judiciais, optando por ataques letais — o que provocou forte repúdio internacional.
Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) descreveram tais ações como “execuções sumárias” e atentados ao direito humanitário. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, condenou publicamente os ataques, alertando para o grave precedente de violação de normas fundamentais do direito internacional.
A Colômbia não está isolada em sua reação. Segundo a CNN, o Reino Unido também decidiu interromper o compartilhamento de dados de inteligência com os EUA referentes a operações no Caribe. Fontes ouvidas pela emissora revelaram que Londres teme ser conivente com ações que considera ilegais, após anos de cooperação na localização e interceptação de “narcobarcos”.
Crítico recorrente da política antidrogas de Washington, Petro reafirma uma abordagem centrada em direitos humanos e soberania nacional, distanciando-se da lógica militarizada que, segundo ele, tem sido historicamente ineficaz e destrutiva. Em várias ocasiões, o presidente colombiano destacou a necessidade de reformar o paradigma global de combate às drogas, denunciando o fracasso do modelo punitivista adotado pelos EUA desde a década de 1970.
Os protestos de Bogotá se somam aos de Caracas e Havana, que também denunciam o atual desdobramento militar norte-americano como uma ameaça direta à paz na região. Desde agosto, os EUA mantêm cerca de oito navios de guerra no Caribe, incluindo seis destróieres, três navios anfíbios e um submarino, além de terem enviado o porta-aviões USS Gerald R. Ford com seu grupo de ataque completo, no que analistas consideram o maior deslocamento marítimo da potência desde a Guerra do Golfo.
Para os governos latino-americanos, a presença massiva de forças armadas dos EUA não tem como objetivo real o combate ao narcotráfico, mas sim o cerco político e militar a governos que adotam posturas soberanas ou críticas a Washington. Essa política de intimidação, alertam, reaviva os fantasmas de intervenções passadas e compromete o futuro de um continente que busca consolidar sua autonomia estratégica.
Neste contexto, ressurge o apelo ao compromisso firmado em 2014 na Segunda Cúpula da CELAC, realizada em Havana, que proclamou oficialmente a América Latina e o Caribe como “Zona de Paz” — princípio que rejeita qualquer forma de ingerência externa, ameaça ou uso da força para a resolução de disputas.
A decisão de Petro, portanto, não se restringe ao campo da diplomacia. Ela sinaliza um reposicionamento da Colômbia no cenário internacional e reforça uma agenda latino-americana voltada à defesa da soberania, dos direitos humanos e da paz regional — valores constantemente tensionados diante das ambições geoestratégicas das potências globais.
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