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Ataques a civis no Líbano e no Irã são denunciados pela ONU e geram crise humanitária
Publicado em 17/03/2026 12:59 - Semana On
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A decisão de Joseph Kent, então diretor do National Counterterrorism Center, expôs fissuras dentro do aparato de segurança dos Estados Unidos em meio à escalada militar contra o Irã. Nesta terça-feira (17), o oficial anunciou sua renúncia ao cargo e declarou não poder apoiar, “em sã consciência”, a condução da guerra pelo governo de Donald Trump.
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Em uma publicação na rede social X, Kent afirmou que Teerã “não representava nenhuma ameaça iminente” à segurança norte-americana. Segundo ele, o conflito teria sido desencadeado principalmente por pressões políticas externas — em particular de Israel e de grupos de lobby pró-Israel em Estados Unidos.
O ex-diretor também acusou autoridades israelenses e setores influentes da mídia americana de promoverem uma campanha de desinformação no início do governo Trump. Para Kent, essa articulação teria enfraquecido a promessa política de “America First” e contribuído para a formação de um ambiente favorável à guerra.
Ele afirmou ainda que os argumentos mobilizados para justificar o confronto repetem padrões já vistos em episódios anteriores da política externa norte-americana. Kent comparou a narrativa atual às justificativas apresentadas antes da Guerra do Iraque, conflito que, segundo ele, custou a vida de milhares de militares dos Estados Unidos. “Não podemos cometer esse erro novamente”, declarou.
Trajetória e controvérsias
Antes de assumir o comando do centro de contraterrorismo, Kent teve carreira nas forças especiais e na inteligência. Ex-integrante dos Boinas Verdes e agente da Central Intelligence Agency, ele foi confirmado no cargo em julho do ano passado.
Sua nomeação, no entanto, foi cercada de controvérsias. Kent enfrentou críticas por sua proximidade com figuras associadas à extrema-direita norte-americana, incluindo o ativista Nick Fuentes. Relatos da imprensa também apontaram vínculos políticos com Joey Gibson, fundador do grupo nacionalista cristão Patriot Prayer.
À frente do National Counterterrorism Center, Kent era responsável por coordenar análises de inteligência e identificar ameaças terroristas contra os Estados Unidos. Paralelamente à carreira no setor de segurança, ele tentou ingressar na política eleitoral: concorreu duas vezes, sem sucesso, a uma vaga no Congresso pelo estado de Washington.
A renúncia amplia o debate dentro de Washington sobre os fundamentos estratégicos e políticos do conflito com o Irã — e evidencia divergências internas em um dos setores mais sensíveis do governo americano.
After much reflection, I have decided to resign from my position as Director of the National Counterterrorism Center, effective today.
I cannot in good conscience support the ongoing war in Iran. Iran posed no imminent threat to our nation, and it is clear that we started this… pic.twitter.com/prtu86DpEr
— Joe Kent (@joekent16jan19) March 17, 2026
Ataques ao Irã já destruíram mais de 54 mil casas
O custo humanitário da escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel começa a aparecer com maior nitidez. Um relatório divulgado no domingo (15) pela Iranian Red Crescent Society afirma que ao menos 54.550 residências foram destruídas desde o início dos bombardeios, em 28 de fevereiro.
O balanço foi apresentado pelo diretor da organização humanitária, Hossein Kolivand, que descreveu um quadro de danos generalizados em áreas urbanas. Segundo ele, parte significativa das ofensivas atingiu regiões civis, ampliando o impacto humano do conflito.
Kolivand classificou os ataques como uma violação direta de normas internacionais destinadas à proteção de populações não combatentes. Para o dirigente, a destruição de infraestrutura residencial e comunitária constitui um novo exemplo de possíveis crimes de guerra à luz do direito internacional humanitário.
Bombardeios e retaliações ampliam a crise
Enquanto o balanço humanitário era divulgado, a dinâmica militar da guerra continuava a se intensificar. De acordo com a rede de notícias Al Jazeera, forças norte-americanas e israelenses mantiveram ataques aéreos na segunda-feira (16), atingindo cidades como Teerã, Hamadan e Isfahan.
Em resposta, o governo iraniano realizou novas ações militares contra alvos considerados estratégicos. Autoridades iranianas afirmam que ataques retaliatórios provocaram danos em diferentes centros urbanos israelenses, ampliando o alcance regional da crise.
Ofensiva contra bases norte-americanas
No domingo, a Islamic Revolutionary Guard Corps anunciou uma série de operações contra instalações militares dos Estados Unidos no Oriente Médio. Segundo a força militar iraniana, os ataques tiveram como alvo estruturas utilizadas pelas forças americanas em diversos países da região.
Entre os locais mencionados estão a base aérea de Al Dhafra Air Base, nos Emirados Árabes Unidos; a instalação de Al Udeid Air Base, no Catar; a base aérea Ali Al Salem Air Base, no Kuwait; e a base Sheikh Isa Air Base, no Bahrein.
De acordo com a corporação militar, os ataques miraram centros de comando, torres de controle de voo, hangares de defesa aérea, depósitos logísticos e equipamentos militares. Para a operação teriam sido empregados mísseis balísticos de precisão, mísseis de cruzeiro com novas ogivas e drones de ataque.
A Islamic Revolutionary Guard Corps afirma ainda que, nos últimos dias, as forças iranianas conseguiram neutralizar grande parte dos radares estratégicos e de infraestruturas consideradas vitais nas instalações militares norte-americanas na região. Segundo a corporação, estimativas baseadas em inteligência militar e análise de imagens de satélite indicariam a desativação de mais de 80% desses sistemas — uma afirmação que não foi confirmada de forma independente.
ONU alerta para crise humanitária no Líbano
A ampliação do conflito no Líbano acendeu um novo alerta humanitário nas Nações Unidas. Em pronunciamento nesta terça-feira (17), autoridades da organização relataram um aumento acelerado no deslocamento interno de civis em meio à intensificação dos ataques israelenses contra áreas residenciais.
Segundo o coordenador humanitário da ONU no país, Imran Riza, o fluxo de pessoas que abandonam suas casas cresce em ritmo “incrivelmente rápido”. De acordo com ele, centenas de milhares de libaneses foram forçados a fugir, muitos levando apenas pertences básicos. “Muitos partem apenas com a roupa do corpo”, afirmou.
A nova onda de deslocamentos ocorre em meio à expansão das hostilidades na fronteira entre Israel e o Líbano. O país acabou envolvido diretamente na guerra regional no início de março, após o Hezbollah lançar ataques contra Tel Aviv. A ofensiva foi apresentada como resposta à morte do líder supremo do Irã, episódio que ampliou as tensões em toda a região.
Em reação, Israel iniciou uma campanha militar que, segundo autoridades libanesas e organismos internacionais, já deixou mais de 800 mortos e provocou o deslocamento de mais de 800 mil pessoas.
Cessar-fogo fragilizado e expansão dos ataques
Apesar da existência de um cessar-fogo firmado em 27 de novembro de 2024, autoridades libanesas e a própria ONU afirmam que o acordo foi repetidamente violado. Estimativas oficiais apontam mais de 15 mil infrações ao entendimento desde então, com novos episódios de violência e vítimas civis.
No terreno, as operações militares têm sido acompanhadas por ordens de evacuação em larga escala, que já atingiriam mais de 14% do território libanês. Entre as áreas afetadas estão o sul do país e os subúrbios meridionais de Beirute, especialmente a região conhecida como Dahiyeh.
Na segunda-feira (16), o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que parte dos deslocados no Líbano não poderá retornar às suas casas até que o norte de Israel esteja completamente seguro — sinalizando a possibilidade de uma campanha prolongada.
Entre os locais atingidos estão também campos de refugiados palestinos, como Rashidieh refugee camp, Burj Shemali refugee camp e El-Buss refugee camp, além dos campos de Burj al-Barajneh refugee camp e Shatila refugee camp.
Combates continuam no sul do país
A violência também segue ativa na linha de frente. O Lebanese Armed Forces informou que um ataque aéreo israelense no sul do Líbano deixou cinco soldados feridos, dois deles em estado grave.
Na mesma região, novos bombardeios atingiram a cidade de Bint Jbeil, provocando ao menos três mortes e vários feridos, segundo autoridades locais.
Em resposta, o Hezbollah anunciou ataques contra posições israelenses próximas à fronteira. O grupo afirmou ter atingido concentrações de tropas nas áreas de Jdeidet Mays al-Jabal e Maroun al-Ras, além de destruir dois tanques Merkava tank com um míssil guiado.
O agravamento da situação no Líbano reforça os temores de que o conflito, já disseminado por vários pontos do Oriente Médio, avance ainda mais para uma guerra regional de maior escala.
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