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Mundo
Mortes, violações constitucionais e perfilamento racial ampliam apreensão entre imigrantes nos EUA
Publicado em 02/02/2026 2:44 - Semana On
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A intensificação de operações conduzidas por agentes federais de imigração em Minneapolis, no estado de Minnesota, transformou a rotina da cidade e provocou uma escalada de tensão que ultrapassa o debate migratório. A ação, que resultou na morte de cidadãos americanos, gerou protestos em diversas regiões dos Estados Unidos e colocou comunidades imigrantes — entre elas a brasileira — em estado permanente de alerta.
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Segundo a professora de Direitos Humanos e cônsul honorária do Brasil em Minnesota, Kathya Cibelle Dawe, o impacto dessas operações vai muito além de pessoas em situação migratória irregular. “O medo hoje é generalizado”, afirma. Famílias inteiras, trabalhadores que dependem do deslocamento presencial e estudantes relatam estresse constante diante da possibilidade de abordagens por agentes federais. “Há uma tensão contínua. Pessoas que antes circulavam livremente agora hesitam duas ou três vezes antes de sair de casa”, diz.
Dawe, que vive nos Estados Unidos há 16 anos, acompanha de perto os efeitos dessas ações sobre o tecido social da cidade. O temor, relata, alterou hábitos cotidianos e intensificou a procura por orientação consular, especialmente entre brasileiros que tentam entender seus direitos ou buscam alternativas para deixar o país.
Mortes, denúncias e questionamentos legais
O governo federal justificou a operação em Minneapolis como resposta a supostas fraudes em programas sociais envolvendo comunidades somalis. No entanto, Dawe ressalta que esse tipo de investigação não constitui atribuição central do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Na prática, segundo ela, a operação tem se caracterizado por detenções em larga escala e pelo uso de medidas agressivas, com consequências fatais.
Nos primeiros dias de 2026, ao menos oito pessoas morreram em confrontos com agentes federais ou sob custódia do ICE, de acordo com levantamentos de veículos internacionais, em meio a protestos e ao agravamento das tensões em cidades como Minneapolis. Esses episódios se somam a um dado alarmante: em 2025, foram registradas 32 mortes sob custódia do ICE — o maior número em mais de duas décadas, conforme registros de organizações que monitoram detenções relacionadas à imigração.
Além das mortes, acumulam-se relatos de violações de direitos constitucionais básicos. Queixas envolvendo detenções sem explicação clara, ausência de acesso a advogados e abordagens de cidadãos americanos chegam com frequência ao gabinete consular brasileiro. “Do ponto de vista dos direitos humanos e da própria legislação dos Estados Unidos, a principal preocupação é a violação do devido processo legal, garantido pela Quinta Emenda”, afirma Dawe.
Ela cita casos de entradas em residências sem mandado judicial válido, impedimento de apresentação de documentos e detenções de cidadãos americanos, apesar de o ICE não ter jurisdição sobre eles. Em um episódio recente, em St. Paul, agentes federais arrombaram a porta de uma casa sem mandado, algemaram um homem de 56 anos sob a mira de armas e o arrastaram para fora na neve vestindo apenas shorts e sandálias. Horas depois, ao constatarem que se tratava de um cidadão americano naturalizado, os agentes o liberaram sem apresentar justificativas ou pedidos de desculpa.
Documentos internos do ICE obtidos pela agência Associated Press indicam ainda uma tentativa de flexibilizar normas para permitir a entrada forçada em residências mesmo sem mandado judicial — uma mudança que especialistas veem como ruptura com orientações anteriores destinadas a respeitar limites constitucionais.
O cenário se agravou após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em setembro de 2025, que, por 6 votos a 3, autorizou agentes do ICE a considerar fatores como raça aparente, cor da pele e idioma — incluindo o uso de sotaque espanhol — em abordagens investigativas. A prática, conhecida como perfilamento racial, é alvo de forte controvérsia. Para Dawe, trata-se de um procedimento sem base legal. “O ICE aplica leis migratórias federais. Não tem autoridade para avaliar aparência física ou sotaque”, afirma.
Efeitos diretos sobre brasileiros
Entre brasileiros residentes na região, o impacto das operações é imediato. A cônsul honorária relata aumento expressivo no número de contatos de pessoas em estado de pânico após a detenção de parentes ou amigos, muitas vezes transferidos para centros de custódia em estados distantes, como Texas e Louisiana. O deslocamento frequente entre unidades dificulta a localização dos detidos e o acesso de familiares e advogados.
“Muitos brasileiros têm pedido ajuda para renovar documentos ou até para retornar ao Brasil, porque não enxergam mais segurança em permanecer aqui”, relata Dawe. A sensação de instabilidade, segundo ela, afeta tanto imigrantes quanto cidadãos americanos, ampliando o clima de insegurança jurídica.
Solidariedade em meio à crise
Apesar do medo, a resposta da sociedade local tem revelado outra face de Minneapolis. Redes comunitárias, grupos religiosos e organizações civis — com participação ativa de brasileiros — têm organizado mutirões para arrecadar alimentos, doações e prestar apoio a imigrantes que evitam sair de casa.
“Essa mobilização comunitária é fundamental. Ela envolve pessoas de várias nacionalidades e mostra um espírito de acolhimento que contrasta fortemente com o clima de medo gerado pelas operações federais”, destaca Dawe. Em meio à tensão e às incertezas, a solidariedade tem se afirmado como uma das principais formas de resistência social.
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