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Mundo
EUA sinalizam tarifaço, Planalto reage com ofensiva diplomática e crítica ao bolsonarismo
Publicado em 31/03/2025 12:03 - Semana On
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Washington volta a erguer muros no comércio global, e o Brasil se vê mais uma vez no centro de uma tempestade tarifária que mistura protecionismo, diplomacia fraturada e interesses eleitorais transnacionais. A ameaça de Donald Trump de impor tarifas a praticamente todos os países, inclusive ao Brasil, reacende o debate sobre os custos — econômicos e simbólicos — da submissão ideológica promovida pelo bolsonarismo em sua relação com os Estados Unidos. Em meio à tensão, o governo Lula tenta transformar a adversidade em trunfo político: denunciar o impacto das medidas sobre setores que tradicionalmente apoiam Jair Bolsonaro e mostrar que a “relação especial” com Trump nunca passou de miragem.
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Na tentativa de evitar o “tarifaço”, o governo brasileiro montou uma força-tarefa diplomática nas últimas semanas, com missões lideradas pelo Itamaraty e representantes do setor privado em Washington. O vice-presidente Geraldo Alckmin foi mobilizado, e negociações discretas chegaram a sugerir concessões parciais, desde que houvesse reciprocidade por parte dos EUA. Não houve.
No domingo (30), Trump endureceu o discurso. Contrariando seus próprios assessores, afirmou que as tarifas seriam estendidas a “essencialmente todos os países”. O Brasil, embora não conste entre os maiores responsáveis pelo déficit comercial americano — que chegou a US$ 1,2 trilhão em 2024 —, segue na lista de possíveis alvos. A retórica nacionalista e unilateral do ex-presidente americano tem criado incertezas nos mercados e isolado os Estados Unidos dos marcos tradicionais do comércio internacional, como alertou o economista Joseph Stiglitz em 2018: “O protecionismo de Trump não fortalece a economia americana; enfraquece o sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial”.
As contradições do bolsonarismo expostas
Enquanto o governo Lula corre contra o tempo para mitigar os danos econômicos e institucionais, o Planalto enxerga uma oportunidade política: desnudar a incoerência do bolsonarismo. Afinal, o personagem que agora ameaça setores estratégicos da economia brasileira — como o aço, o etanol e a madeira — é o mesmo idolatrado por Jair Bolsonaro e sua base.
O setor madeireiro, fortemente presente em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul — redutos eleitorais da direita — é um dos principais alvos das tarifas. O mesmo ocorre com o setor do etanol, afetando o agronegócio e produtores do Centro-Oeste. No campo siderúrgico, o impacto se concentra em Minas Gerais, onde o governador Romeu Zema (Novo), aliado de Bolsonaro, minimizou os riscos das sanções, ecoando a retórica trumpista de culpar a China pela crise de mercado.
A retórica bolsonarista contrasta com os fatos. Eduardo Bolsonaro afirmou que o pai havia evitado, em seu mandato, tarifas sobre o aço brasileiro graças à “boa relação” com Trump. A realidade é outra: em 2020, o então presidente dos EUA impôs barreiras ao aço do Brasil às vésperas de sua tentativa de reeleição. O governo Bolsonaro, alinhado ideologicamente a Washington, não reagiu. Nem sequer cogitou recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), atitude que seria protocolar em defesa do interesse nacional.
Um negociador brasileiro, ouvido pelo UOL, foi direto: “Abriram mão do interesse nacional para defender a eleição de Trump”.
A promessa frustrada da “relação especial”
Durante o governo Bolsonaro, a política externa brasileira foi redesenhada para se alinhar com Washington. O Brasil cedeu em áreas estratégicas: deu acesso ao trigo americano, abandonou o status de país em desenvolvimento, mudou votos históricos na ONU e esperou, em troca, favores comerciais e apoio político. Nenhum veio.
A crença na reciprocidade trumpista revela, segundo o sociólogo Christian Lynch, um vício da direita populista brasileira: “um anti-internacionalismo seletivo, que rejeita os organismos multilaterais mas se ajoelha diante de potências estrangeiras com quem compartilha afinidades ideológicas”.
Agora, com a possibilidade real de novas tarifas sobre produtos brasileiros e o esvaziamento da OMC — paralisada por obra do próprio Trump, que desmontou seu tribunal de apelação — o governo Lula se vê com poucas ferramentas institucionais. A eventual ação na OMC, já anunciada, seria mais simbólica do que efetiva, dado que um veredito só viria em dois anos, enquanto os danos econômicos seriam imediatos.
A geopolítica da reciprocidade
A ofensiva tarifária americana é apresentada como parte de uma nova doutrina: a da “reciprocidade”. Trump defende que, se um país impõe tarifas aos EUA, este deve revidar na mesma moeda. Trata-se de uma ruptura com a lógica cooperativa que sustentou o comércio internacional desde o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), de 1947.
No entanto, como observa a politóloga G. John Ikenberry, “a ordem liberal internacional foi construída sobre a premissa de que o poder deveria ser domado por regras, não pela força”. A lógica de Trump — e de seus seguidores no Brasil — inverte esse princípio.
Entre o nacionalismo econômico e a submissão ideológica
Ao apostar todas as fichas em uma suposta aliança ideológica com Trump, o bolsonarismo negligenciou os interesses estruturais do país. O “América First” de Trump sempre significou “Brasil depois”. A ideologia não resistiu à lógica implacável do mercado.
Agora, com os EUA mirando o Brasil como possível rota de evasão de produtos chineses — especialmente aço — e acusando o país de protecionismo no setor de etanol, as tensões aumentam. O Brasil, por sua vez, argumenta que os EUA mantêm superávit comercial conosco e que, dos dez produtos mais importados, oito entram no país sem tarifas. Ainda assim, sem um acordo, o impacto tarifário pode ser inevitável.
A lição da soberania
No tabuleiro geopolítico atual, onde as potências reescrevem unilateralmente as regras do jogo, soberania não se negocia com reverências ideológicas. O caso das tarifas de Trump revela, com crueza, os riscos de submeter a política externa à lógica da afinidade pessoal ou partidária.
Ao defender a retomada do multilateralismo e das instituições internacionais, o governo Lula não apenas busca preservar os interesses econômicos do Brasil, mas sinaliza uma reorientação diplomática: sair da sombra do trumpismo e voltar a atuar como protagonista no cenário global — com autonomia, racionalidade e senso estratégico.
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