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Mundo
Medida rompe meio século de regras da OMC, isola os EUA e força nova reorganização das alianças econômicas mundiais
Publicado em 03/04/2025 2:24 - Semana On
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Em um movimento que reverberou como um abalo sísmico na estrutura da economia global, Donald Trump impôs tarifas generalizadas de importação que rompem décadas de regras sob o guarda-chuva da Organização Mundial do Comércio (OMC). A decisão unilateral desmantela o princípio da diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, desrespeita compromissos internacionais e inaugura uma nova era de tensões e rearranjos comerciais — com impactos diretos para o Brasil, que agora se vê entre o alívio de uma tarifa “branda” e o desafio de reposicionar sua economia no tabuleiro global.
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Desde a assinatura do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) em 1947 até a consolidação da OMC em 1995, o sistema de comércio internacional se pautou pela previsibilidade, reciprocidade equilibrada e estímulo à integração dos países em desenvolvimento no mercado global. A nova ofensiva tarifária de Trump, que impõe um piso de 10% para todos os produtos importados — chegando a 48% para países como Laos e Madagascar — ignora solenemente esses fundamentos.
“Trump coloca o sistema do comércio de cabeça para baixo”, afirmou o ex-embaixador e negociador Rubens Ricupero. Segundo ele, os Estados Unidos abandonam a competição segundo as regras que eles mesmos ajudaram a forjar — uma constatação incômoda que revela o esgotamento da hegemonia americana na globalização econômica.
Mais grave: a nova política rompe com o reconhecimento histórico das assimetrias entre países. A eliminação da diferenciação entre nações em desenvolvimento — direito assegurado pelo sistema da OMC — atinge de forma desproporcional economias frágeis como Angola, Bangladesh e Sri Lanka, que agora enfrentam tarifas mais altas que as impostas à União Europeia ou à Austrália. Uma inversão que desnuda o caráter geopolítico da medida, travestida de estratégia econômica.
O Brasil na corda bamba: entre alívio e oportunidade
Para o Brasil, as consequências são ambivalentes. A tarifa de 10%, embora indesejável, foi recebida como um “alívio” frente à sobretaxação de 34% imposta à China ou aos 46% dirigidos ao Vietnã. Como apontou Fernanda Brandão, professora de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o Brasil não está sendo visto como ameaça direta aos EUA, o que preserva certa margem de manobra.
Essa “brecha estratégica” pode favorecer a ampliação das exportações brasileiras de manufaturados básicos, como calçados e têxteis, especialmente nos segmentos onde concorrentes asiáticos perderão competitividade. “Pode dificultar alguma exportação, mas pouca coisa. Se administrarmos bem o custo de produção, teremos a chance de exportar mais que commodities, também manufaturados”, afirmou José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil).
O professor Adalmir Marquetti, da PUCRS, foi direto ao propor um reposicionamento do Brasil: “Esse é o momento de implementar o acordo Mercosul-União Europeia, e ampliar a pauta exportadora para além do agronegócio, agregando valor e tecnologia”. O alerta é estratégico: o risco de o país permanecer ancorado em produtos primários e de baixo valor agregado pode se agravar diante de um cenário mais competitivo e fragmentado.
Mato Grosso do Sul e o impacto local
As consequências concretas do tarifaço já se fazem sentir nos rincões do Brasil. Em Mato Grosso do Sul, que exportou 785 mil toneladas de produtos aos EUA em 2024 — com destaque para carne bovina, celulose e ferro-gusa —, a apreensão é imediata. Com 6,7% das exportações do estado destinadas aos Estados Unidos, qualquer retração desse mercado impacta diretamente a cadeia produtiva regional, que emprega milhares de trabalhadores em frigoríficos, madeireiras e indústrias alimentícias.
Segundo dados do governo americano, o Brasil está entre os três maiores fornecedores de aço aos EUA. Mas esse setor também entra no radar do protecionismo de Trump, que já havia adotado tarifas de até 25% sobre aço e alumínio nos anos anteriores. Com isso, o efeito poderá não ser apenas comercial, mas estrutural: retração de investimentos, redução de empregos e enfraquecimento do parque industrial brasileiro.
Pressão inflacionária, recessão global e retorno do isolacionismo
Economistas alertam que os efeitos das novas tarifas não se limitam à redistribuição de mercados: trata-se de um risco sistêmico. “A história já demonstrou que o caminho do protecionismo leva à recessão, como ocorreu nos anos 1930”, recorda Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP. A lógica é conhecida: aumento de tarifas gera encarecimento de importações, pressão inflacionária, retração do consumo e, por fim, recessão.
Além disso, as cadeias globais de valor — construídas nas últimas décadas com altíssimo grau de interdependência — podem se fragmentar, levando a perdas de produtividade e a encarecimentos sistêmicos. A tentativa de Trump de nomear o 2 de abril como “Dia da Libertação” econômica pode, ironicamente, ficar registrada como o “Dia da Escravidão” inflacionária para o consumidor americano.
A saída de capitais dos EUA para outros mercados, como Brasil e União Europeia, pode beneficiar momentaneamente o real, segundo o economista Renan Pieri, da FGV. Mas esse movimento financeiro é volátil e não substitui a urgência de reindustrialização e diversificação da pauta exportadora.
Reorganização geopolítica
O terremoto comercial também impulsionou rearranjos diplomáticos. Em resposta ao isolamento americano, China, Japão e Coreia do Sul reabriram diálogo econômico após cinco anos. Com foco na cooperação tecnológica e na segurança da cadeia de suprimentos, os três países sinalizam a emergência de um novo polo comercial regional — um contrapeso à instabilidade gerada por Washington.
Trata-se, portanto, não apenas de tarifas, mas de uma inflexão geopolítica. Como observa a teoria das relações internacionais, os momentos de crise comercial frequentemente precedem reacomodações de poder. O multilateralismo, ainda que enfraquecido, segue como uma âncora essencial para países como o Brasil, que dependem do diálogo institucional para garantir espaço no mercado global.
A encruzilhada brasileira
O Brasil está diante de uma oportunidade rara e perigosa. O tarifaço de Trump impõe desafios, mas também abre lacunas que podem ser ocupadas por uma diplomacia ativa, uma indústria renovada e uma política comercial estratégica. A aprovação recente do Projeto de Lei da Reciprocidade Comercial pelo Congresso brasileiro revela uma disposição inédita de resposta, ainda que simbólica.
Contudo, a história mostra que isolacionismos e guerras tarifárias não constroem prosperidade. Como advertiu o filósofo Karl Popper, “a verdadeira liberdade não é a liberdade de fazer o que se quer, mas a de se envolver num esforço coletivo de criação”. No cenário atual, esse esforço coletivo requer cooperação internacional, fortalecimento da OMC e compromisso com a democracia econômica.
O protecionismo de Trump não é apenas uma política comercial. É um sintoma de um mundo em transição, onde velhas certezas ruem e novas alianças precisam ser forjadas. Cabe ao Brasil decidir se continuará reagindo aos fatos — ou se finalmente tomará a dianteira na construção de uma inserção internacional mais justa, equilibrada e sustentável.