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Mundo
Trump isola os EUA ao rejeitar resolução da ONU sobre nutrição
Publicado em 27/03/2025 10:53 - Semana On
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Em pleno século XXI, a fome ainda se impõe como uma das maiores contradições da humanidade. Enquanto o mundo produz alimentos suficientes para todos, cerca de 735 milhões de pessoas ainda passam fome, segundo o The State of Food Security and Nutrition in the World 2023, publicado pela ONU. Foi nesse cenário alarmante que líderes globais se reuniram em Paris para a cúpula Nutrition for Growth (N4G), reafirmando que combater a desnutrição não é um ato de caridade, mas de justiça. Um compromisso ético e político com a dignidade humana.
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Durante o encontro, a primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, sintetizou a urgência do momento com uma declaração que ecoou forte na sala: “Apenas juntos e juntas seremos capazes de construir um mundo mais justo, solidário e sustentável, que não deixe ninguém para trás — um mundo com menos armas e mais alimentos.” Seu discurso reforçou a centralidade da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa brasileira lançada no G20 de 2024, que já conta com 170 adesões e terá novo encontro em maio, no Brasil. Trata-se de uma resposta coletiva a um problema que, como lembrou o rei de Lesoto, Letsie III, é “uma questão política e moral”.
A geopolítica da fome: entre cooperação e negacionismo
O pano de fundo dessa mobilização global é marcado por contrastes políticos reveladores. Se por um lado a resolução da ONU que prorroga a Década de Ação para a Nutrição até 2030 obteve apoio de 158 países, por outro, teve a oposição solitária dos Estados Unidos sob o governo Donald Trump. Foi o único voto contrário. A recusa americana ilustra uma visão isolacionista que rejeita o multilateralismo e nega a legitimidade da Agenda 2030 da ONU — a mesma que articula a erradicação da pobreza, da fome e da desigualdade como pilares do desenvolvimento sustentável.
O contraste é revelador: enquanto o Brasil defende que “a erradicação da fome não é caridade, é justiça”, os EUA, sob Trump, se afastam dessa concepção solidária de mundo. Como afirmou o presidente francês Emmanuel Macron em discurso na Assembleia da ONU em 2023, citado pela delegação brasileira: “Esses são os alicerces da dignidade, da paz e do verdadeiro desenvolvimento, que só podem ser alcançados por meio de um multilateralismo eficaz.”
Uma década renovada para transformar o futuro
A decisão da Assembleia Geral da ONU de prorrogar a Década de Ação para a Nutrição por mais cinco anos, celebrada conjuntamente por Brasil e França, não é apenas burocrática: ela representa a continuidade de um impulso político que visa erradicar todas as formas de má nutrição. Segundo dados divulgados na nota conjunta dos dois países, 45 milhões de crianças sofrem de má nutrição aguda, enquanto 150 milhões enfrentam quadros crônicos. E os desafios não se limitam à subnutrição: o sobrepeso, a obesidade e a desnutrição entre idosos estão em ascensão — um reflexo direto da precariedade alimentar global.
A escolha de Paris como palco para a cúpula N4G é simbólica. A França, que já sinalizou o Brasil como parceiro estratégico nessa luta, compartilha a visão de que a má nutrição compromete o “capital humano” das nações. Isso significa que o combate à fome não é apenas uma pauta humanitária, mas uma estratégia de desenvolvimento que interliga saúde, educação, igualdade de gênero, acesso à água, saneamento e proteção social.
Brasil em destaque: entre diplomacia e liderança moral
O protagonismo do Brasil na N4G e na ONU marca um retorno à tradição diplomática multilateralista que foi interrompida nos últimos anos. A política externa do governo Lula resgata o compromisso com os direitos humanos, a justiça social e a solidariedade internacional, como já ocorrera em iniciativas como o Fome Zero e a criação do Programa Mundial de Alimentos da ONU.
Como observou Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, em Desenvolvimento como Liberdade (1999): “A fome não é apenas um problema de produção de alimentos, mas de acesso, de distribuição e, sobretudo, de liberdade.” Essa perspectiva ajuda a entender por que o Brasil insiste que “crianças não podem aprender se estiverem com fome” e que “uma comunidade não pode prosperar se seus membros estiverem desnutridos”.
Um pacto civilizatório pela dignidade
O combate à fome, como se vê, não é uma questão técnica. É uma escolha civilizatória. Ao afirmar que “a luta contra a fome é um desafio global que exige o compromisso de todos”, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tocou no cerne da questão. Um mundo sem fome não é utopia — é uma opção política. Uma opção que exige, como ele disse, “mobilização política e financeira inédita, para transformar, de forma duradoura, nossos sistemas alimentares”.
Neste contexto, a atuação brasileira se alinha a um projeto de mundo que valoriza a vida sobre a violência, a comida sobre o conflito, a dignidade sobre o descaso. E, como concluiu Janja da Silva, “todos nós temos responsabilidade e capacidade de contribuir para que milhões de crianças e adultos tenham seu direito humano à alimentação adequada assegurado”.
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