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Brasil

Protecionismo de Trump pode afetar setor de autopeças do Brasil

Lula critica impacto inflacionário e busca abrir mercado japonês para carne bovina

Publicado em 27/03/2025 10:18 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Washington impõe tarifas, Brasília reage, Tóquio negocia. A nova ofensiva protecionista do ex-presidente Donald Trump, agora de volta ao centro da política comercial americana, não é apenas um gesto de política interna voltado ao eleitorado industrial. Ela tem ramificações globais — e o Brasil está no caminho do furacão. Ao sobretaxar em 25% a importação de automóveis, autopeças e caminhões leves, os Estados Unidos não só desafiam parceiros comerciais históricos como abrem uma nova frente de tensão com países emergentes, especialmente o Brasil, cuja economia depende fortemente de exportações industriais e agrícolas.

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Com a medida que entra em vigor no dia 3 de abril, Trump pretende — em suas palavras — “recuperar o dinheiro que os países levaram” dos Estados Unidos. A fala, de forte apelo nacionalista e revanchista, faz eco ao discurso de 2016 que o levou à Casa Branca, reacendendo temores de uma nova escalada protecionista em um cenário internacional já marcado por disputas comerciais e instabilidade diplomática.

Segundo dados do Departamento de Comércio dos EUA, a participação americana na produção global de veículos caiu de 26% em 1985 para apenas 12% em 2017. Em paralelo, a China tornou-se, em 2023, o maior exportador de carros do mundo, com um mercado que movimentou 22 milhões de unidades em 2024, superando os 15 milhões vendidos nos EUA. Diante desse novo mapa geoeconômico, Trump tenta vender ao eleitor americano a ideia de um retorno à “era de ouro” industrial, mesmo ao custo de isolar seu país.

Impacto direto para o Brasil

Embora o Brasil não seja um grande exportador de veículos leves aos EUA — foram apenas US$ 6 milhões em 2024 — o impacto sobre autopeças é significativo. O setor movimentou US$ 1,3 bilhão em exportações aos EUA no ano passado, representando 17% do total exportado pelo país. Os EUA são o segundo maior mercado para o setor, atrás apenas da Argentina. A preocupação se intensifica com a promessa da Casa Branca de revisar a lista de peças que podem ser incluídas na nova tarifação.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em viagem oficial ao Japão, reagiu prontamente. “O que o presidente Trump precisa é medir as consequências dessas decisões”, afirmou. “Vai ficar mais caro para o povo americano comprar. E esse mais caro pode resultar no aumento da inflação, e esse aumento da inflação pode significar aumento de juros, e aumento de juros pode significar contenção da economia” — alertou Lula em entrevista coletiva.

Além da retórica, o governo brasileiro anunciou que pretende recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar não só as tarifas sobre carros e autopeças, mas também a já imposta sobretaxa de 25% sobre aço e alumínio brasileiros. Lula não descartou, ainda, aplicar a “lei da reciprocidade”, sobretaxando produtos americanos caso não haja avanço nas negociações multilaterais.

Um novo capítulo da crise do multilateralismo

A fala de Lula foi incisiva ao apontar o colapso da ordem multilateral. “No fundo, o livre comércio é o que está sendo prejudicado. Estou preocupado porque o multilateralismo está sendo derrotado e porque o presidente americano não é xerife do mundo, ele é apenas presidente dos Estados Unidos”, afirmou. A crítica não é isolada. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, também condenou a medida, classificando as tarifas como “ruins para as empresas, piores para os consumidores”.

As palavras de Lula remetem a um debate mais profundo na teoria das relações internacionais. Desde o final da Guerra Fria, a globalização foi sustentada por um consenso neoliberal que priorizava o livre comércio e a integração dos mercados. Com a crise de 2008 e a ascensão de lideranças populistas, esse modelo entrou em xeque. A volta do protecionismo — sob justificativas econômicas e até mesmo de “segurança nacional”, como alegado por Trump — marca um movimento regressivo no sistema internacional, que ameaça os próprios pilares do comércio global.

Carne brasileira no cardápio japonês

Enquanto enfrenta dificuldades no mercado americano, o Brasil encontra novas oportunidades no Oriente. Durante a mesma visita ao Japão, Lula obteve do primeiro-ministro Shigeru Ishiba um compromisso político para acelerar a abertura do mercado japonês à carne bovina brasileira — uma demanda que se arrasta há mais de duas décadas.

O Japão importa 70% da carne bovina que consome — cerca de US$ 4 bilhões por ano —, sendo 80% provenientes dos EUA e da Austrália. O Brasil, mesmo sendo o maior exportador mundial, ainda esbarra em exigências sanitárias. A recente conquista do status de país livre de febre aftosa sem vacinação, homologado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), abre caminho para mudar esse cenário.

Ishiba propôs a formação de um grupo de acompanhamento e se dispôs a enviar uma missão técnica ao Brasil para avaliar as condições sanitárias. A abertura do mercado japonês representa uma oportunidade estratégica para o agronegócio brasileiro, especialmente em um momento em que as tensões com os EUA colocam em xeque setores industriais sensíveis.

Caminhos cruzados

O atual cenário coloca o Brasil em uma encruzilhada geopolítica. De um lado, precisa defender seus interesses diante de uma potência que adota medidas unilaterais e imprevisíveis. De outro, deve ampliar sua inserção em novos mercados com base em uma diplomacia comercial ativa e multilateralista.

“A globalização está sendo desafiada pelo nacionalismo econômico”, escreveu o economista Dani Rodrik, da Universidade Harvard, em seu artigo “Straight Talk on Trade” (Princeton University Press, 2017). A frase resume bem o dilema que países como o Brasil enfrentam: como proteger seus setores produtivos sem recorrer ao isolacionismo, e como manter a relevância no comércio internacional em um mundo cada vez mais fragmentado.

A resposta, como mostra a atual política externa brasileira, parece passar pela diversificação de parceiros, fortalecimento dos organismos multilaterais e aposta em credibilidade sanitária e diplomática. O tempo dirá se esse caminho será suficiente diante de um mundo em que, mais uma vez, muros voltam a ser erguidos — não apenas físicos, mas tarifários, políticos e ideológicos.

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