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Mortes em Gaza e repressão na Cisjordânia expõem continuidade da política israelense de ocupação e extermínio
Publicado em 14/10/2025 10:21 - Semana On
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Nove palestinos foram mortos nesta terça-feira (14) por ataques aéreos israelenses, mesmo após cinco dias consecutivos de cessar-fogo oficialmente em vigor entre Israel e o Hamas. Segundo fontes médicas locais, os drones israelenses atingiram civis que inspecionavam suas casas destruídas em Shuja’iyya, bairro a leste da Cidade de Gaza. Outras mortes foram registradas em Khan Yunis, no sul do território.
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A informação, confirmada por correspondentes da agência estatal palestina WAFA, coloca em xeque a credibilidade do cessar-fogo, acordado sob intermediação internacional. O número de mortos na Faixa de Gaza desde o início da ofensiva israelense em 7 de outubro de 2023 já ultrapassa 67.869 pessoas, segundo autoridades locais de saúde — entre elas, milhares de mulheres e crianças. Há ainda 170.105 feridos. Muitos continuam sob escombros, enquanto equipes de resgate enfrentam bloqueios e destruição de infraestrutura básica.
Entre os mortos recentes está o jornalista palestino Saleh Aljafarawi, de 28 anos, atingido durante confrontos em Sabra. Conhecido por documentar os efeitos da guerra sobre civis, Aljafarawi havia relatado à Al Jazeera, em janeiro deste ano, viver “com medo a cada segundo”. A sua morte, ocorrida horas após o anúncio da trégua, evidencia o colapso prático dos acordos assinados.
“Honestamente, vivi com medo a cada segundo, especialmente depois de ouvir o que a ocupação israelense dizia sobre mim”, disse Aljafarawi em entrevista à Al Jazeera em janeiro.
Paz sob ocupação: violência, bloqueios e destruição
Mesmo longe das linhas de combate, a repressão continua. Na Cisjordânia, a Escola Kisan, a leste de Belém, foi invadida por tropas israelenses. Professores foram ameaçados de represálias caso mencionassem o tema dos prisioneiros palestinos. Na noite anterior, colonos israelenses destruíram cerca de 150 oliveiras em Bardala, no Vale do Jordão, uma região que há anos testemunha crescentes ataques de colonos armados sob proteção do Exército israelense.
Na vila de Al-Lubban, estradas permanecem bloqueadas desde outubro de 2023 por barreiras militares. A mobilidade de civis palestinos na Cisjordânia vem sendo sistematicamente restringida, o que contraria diretamente o direito internacional humanitário e os próprios acordos firmados nas décadas anteriores.
Um cessar-fogo de fachada
Apesar do rótulo de “trégua”, os fatos em campo indicam o que o jornalista norte-americano Chris Hedges, ex-correspondente do New York Times e Prêmio Pulitzer, descreve como “uma pausa para os comerciais” em um carrossel de morte. Segundo Hedges, os cessar-fogos servem apenas para que Israel reorganize seus objetivos militares e reforce sua legitimidade perante a comunidade internacional.
“Este cessar-fogo, como os do passado, é um intervalo para os comerciais. Um momento em que o condenado tem permissão para fumar um cigarro antes de ser metralhado.”, afirmou Hedges.
A atual proposta de paz, associada ao ex-presidente dos EUA Donald Trump, ignora pilares centrais do direito internacional: não menciona o direito dos palestinos à autodeterminação, não prevê desocupação de terras e tampouco aborda as decisões da Corte Internacional de Justiça, que reiterou, em julho de 2024, a ilegalidade da ocupação israelense.
Trump se recusou a defender abertamente a criação de um Estado palestino. “Teremos que ver”, disse, ao ser questionado durante viagem oficial, minimizando décadas de diplomacia internacional.
Paz sem justiça: o histórico de acordos quebrados
O atual cenário remete ao histórico de acordos não cumpridos por parte de Israel. Desde os Acordos de Camp David (1978) e Oslo (1993), passando pelo fracassado “Mapa do Caminho” (2003), sucessivos planos previam a criação de um Estado palestino, o fim da ocupação e o retorno de refugiados. Nenhuma dessas etapas foi implementada integralmente.
O colapso dos Acordos de Oslo, em particular, alimentou o ceticismo entre palestinos. O intelectual Edward Said definiu o acordo como “um Versalhes palestino”, apontando a submissão da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o abandono de direitos históricos.
Enquanto isso, o número de colonos israelenses na Cisjordânia saltou de 250 mil em 1993 para mais de 700 mil em 2025, ampliando a ocupação e inviabilizando qualquer proposta de viabilidade territorial para um futuro Estado palestino.
Uma trégua sob mira de drones
O cenário em Gaza hoje não é de reconstrução, mas de gestão de ruínas. A retórica de “ajuda humanitária” e “reconstrução” anunciada por Trump e aliados esbarra na realidade de drones patrulhando céus, rodovias destruídas e famílias vivendo entre escombros. A ideia de “desradicalizar” a população de Gaza, presente nos documentos diplomáticos americanos, levanta preocupações sobre reeducação forçada, censura ideológica e criminalização cultural.
Ao mesmo tempo, líderes israelenses mantêm discursos abertamente genocidas. O rabino Ronen Shaulov, por exemplo, defendeu publicamente que crianças em Gaza deveriam “morrer de fome”.
Ao manter bombardeios e repressões durante uma trégua, Israel reafirma sua estratégia de desgaste contínuo. O objetivo não parece ser a paz, mas a eliminação progressiva da presença palestina. Diante da cumplicidade ou inércia da comunidade internacional, especialmente dos EUA — que já destinaram mais de US$ 22 bilhões em ajuda militar a Israel desde outubro de 2023 —, a lógica de impunidade persiste.
A única paz oferecida aos palestinos, no fim das contas, continua sendo a paz da cova.
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