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Mundo

Argentinos escravizados no Brasil expõem crise social e política do governo Milei

Imigrantes argentinos são resgatados enquanto seu país afunda na crise e presidente enfrenta escândalo do “criptogate”

Publicado em 28/02/2025 10:19 - Semana On

Divulgação Imagem: SRTE/RS

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A Argentina vive uma das crises econômicas mais severas de sua história, e seus reflexos ultrapassam as fronteiras do país. O resgate de três argentinos submetidos a condições análogas à escravidão no Brasil, em Vacaria (RS), escancara a degradação social e a vulnerabilidade de trabalhadores empurrados à migração pelo colapso econômico. Sem dinheiro e sem perspectivas em sua terra natal, buscam no exterior um alívio para a miséria, mas encontram um destino ainda mais cruel.

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Os trabalhadores resgatados, incluindo um adolescente de 17 anos, haviam sido aliciados por um empreiteiro e trabalhavam em lavouras de cenoura, beterraba e cebola sem qualquer proteção legal. Segundo a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, além das ameaças armadas, os imigrantes viviam em um alojamento improvisado, sem camas, portas ou instalações elétricas. Nos campos, faziam refeições sob tendas de lona e tinham descontos abusivos nos salários, chegando a pagar pelo próprio alojamento precário e pela comida.

O caso não é isolado. Em 2025, este já é o terceiro resgate de argentinos submetidos a trabalho escravo no Rio Grande do Sul. Outras operações libertaram nove trabalhadores em Flores da Cunha e quatro em São Marcos. A maioria desses migrantes chega ao Brasil sem documentação adequada, tornando-se presas fáceis para empregadores inescrupulosos. “É um serviço que ninguém quer, que ninguém se dispõe a fazer, e eles se sujeitam justamente porque não têm documentos e têm medo da polícia”, explica o auditor fiscal do trabalho Rafael Zan.

O fenômeno remete a um processo histórico de exploração da mão de obra imigrante na América Latina. Desde o fim da escravidão formal no Brasil, em 1888, o país desenvolveu mecanismos informais de servidão, nos quais trabalhadores, especialmente estrangeiros em situação de vulnerabilidade, são forçados a aceitar condições degradantes por falta de alternativas. Segundo o artigo 149 do Código Penal brasileiro, o trabalho escravo contemporâneo é caracterizado por trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes e jornada exaustiva.

Desde 1995, mais de 65 mil trabalhadores foram resgatados no Brasil. A maior parte deles atuava na agropecuária, setor historicamente marcado pela exploração da mão de obra vulnerável. Os dados constam no Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil e mostram que, apesar dos avanços legais, a escravidão contemporânea persiste, agora alimentada pela crise econômica da Argentina.

A recessão argentina e a explosão da pobreza

A crise que empurra argentinos para o exterior e os submete à exploração tem raízes profundas na recessão severa que o país atravessa sob o governo do ultraliberal Javier Milei. Em apenas um ano de gestão, a economia argentina encolheu entre 3% e 4%, segundo projeções do economista Paulo Gala, do Banco Master. Milei celebra a queda da inflação – que despencou de 289% para 84% no acumulado de 12 meses –, mas especialistas alertam que essa redução ocorreu por meio da asfixia econômica e não pelo crescimento sustentável.

“O que Milei está fazendo é um choque clássico de contração de gasto público. Ele segurou os gastos ao máximo, fez um ajuste fiscal gigante, muito duro. A consequência é uma desaceleração econômica muito grande”, explica Gala.

Entre as medidas de Milei estão a suspensão de obras públicas, demissões em massa no setor estatal, cortes de repasses para províncias e redução de investimentos em educação e saúde. O resultado imediato foi o colapso da produção industrial, que caiu 9,4% ao longo de 2024, e um aumento expressivo da pobreza. No início do governo, 38,7% da população argentina vivia abaixo da linha da pobreza. Em apenas um ano, esse número saltou para 54,8%, conforme levantamento da Universidade Católica Argentina.

Ainda que os índices tenham registrado leve melhora no fim de 2024, os pesquisadores alertam que isso não significa uma recuperação real. “A queda do nível de pobreza não implica que as famílias tenham recuperado os níveis de consumo. O aumento dos custos fixos de serviços essenciais compromete ainda mais a capacidade de consumo de alimentos e outros bens básicos”, explica um relatório do Observatório da Dívida Social Argentina.

A chamada “pobreza multidimensional”, que inclui fatores como moradia, saneamento e acesso à educação, também piorou, atingindo 41,6% da população. Isso significa que, mesmo que algumas famílias tenham saído da linha de pobreza estatística, continuam vivendo em condições extremamente precárias.

O modelo econômico de Milei, inspirado no ultraliberalismo radical, gera debates intensos. Se, por um lado, estabilizou os índices inflacionários, por outro, devastou a estrutura social e agravou desigualdades. A crise argentina não é apenas econômica, mas humanitária, e o trabalho escravo de migrantes no Brasil é um de seus efeitos mais brutais.

O escândalo do “criptogate”: um governo sob suspeita

Enquanto o país afunda na recessão, o governo Milei enfrenta sua primeira grande crise política. O escândalo do “criptogate” envolve a criptomoeda $LIBRA, promovida pelo próprio presidente e que desmoronou em poucas horas, causando um prejuízo estimado em 250 milhões de dólares a 44 mil investidores.

O caso levantou suspeitas de fraude e tráfico de influência. Documentos divulgados pela imprensa argentina mostram que empresários ligados à moeda digital tinham acesso privilegiado ao governo e até mesmo pagavam propinas à irmã do presidente, Karina Milei.

O advogado Adolfo Suárez Erdaire, especialista em fraudes digitais, afirma que o presidente pode ser responsabilizado criminalmente após deixar o cargo. “Se houver provas de que Milei participou ativamente da operação para inflar artificialmente o valor da moeda, ele pode enfrentar penas de até seis anos de prisão”, explica.

No Congresso argentino, opositores já tentam abrir um processo de impeachment, embora as chances de destituição ainda sejam incertas. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) também está em debate, o que poderia expor Milei a perguntas diretas sobre seu envolvimento no caso.

O escândalo abala a já frágil estabilidade política do governo Milei, que se elegeu com o discurso de “moralizar” a economia e combater a corrupção. Agora, ele se vê no centro de uma das maiores crises financeiras e políticas da história recente da Argentina.

O futuro incerto da Argentina e o destino de Milei

A Argentina se encontra em um momento crítico. Seu presidente insiste que a economia está em “franca recuperação”, mas os dados apontam para um cenário alarmante: desemprego crescente, queda no consumo, fuga de trabalhadores para o exterior e agora um escândalo de corrupção que pode levar à sua destituição.

Os argentinos que buscam refúgio no Brasil encontram não uma terra de oportunidades, mas um novo tipo de opressão – a escravidão moderna. Enquanto isso, Milei luta para se manter no poder, cada vez mais cercado por denúncias e crises institucionais.

Se a promessa de um país próspero guiou a eleição de Milei, a realidade de um governo marcado pela miséria, recessão e escândalos pode determinar seu destino. E, ao que tudo indica, esse destino é cada vez mais incerto.

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