Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Decisão envolve condenados a até 17 anos: outros 56 réus ainda aguardam julgamento de extradição no país vizinho
Publicado em 04/12/2025 2:23 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A Justiça argentina determinou ontem (3) a extradição de cinco brasileiros condenados por participação nos ataques de 8 de Janeiro de 2023, em Brasília, e que estavam foragidos no país vizinho. A decisão, emitida pelo Tribunal Criminal nº 3, ainda é passível de recurso junto à Suprema Corte argentina, que dará a palavra final, sem prazo definido.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Os réus – Joelton Gusmão de Oliveira e Wellington Luiz Firmino (condenados a 17 anos de prisão), Ana Paula de Souza e Rodrigo de Freitas Moro Ramalho (14 anos), e Joel Borges Correa (13 anos) – integram o grupo de 61 brasileiros condenados que fugiram para a Argentina após as sentenças impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Todos estão detidos em território argentino desde 2024, após prisões realizadas em diferentes circunstâncias: Souza violou a tornozeleira eletrônica e foi detida após atravessar a fronteira; Oliveira foi capturado em La Plata, após abordagem policial; Correa também foi preso na mesma cidade, e teve pedido de soltura negado em março; Ramalho foi identificado e detido durante um processo de imigração; e Firmino foi pego ao tentar cruzar de moto a fronteira com o Chile, pela província de Jujuy.
A decisão do juiz Daniel Rafecas, responsável pelos processos de extradição, é considerada emblemática diante das incertezas que rondavam a cooperação judicial entre os dois países. A proximidade política entre o presidente argentino Javier Milei e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro havia levantado dúvidas quanto ao avanço das extradições. Ainda em 2023, o porta-voz do governo argentino, Manuel Adorni, buscou dissipar suspeitas ao afirmar que “não haverá pactos de impunidade”, e que a Argentina respeitaria as decisões da Justiça brasileira.
O pedido de extradição foi formulado pelo ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos do 8 de Janeiro no STF. Durante a audiência, representantes da Advocacia-Geral da União (AGU) enfatizaram a legitimidade das condenações, ressaltando que “todas as garantias penais relativas ao Estado de Direito foram rigorosamente obedecidas”.
O julgamento dos cinco réus foi realizado de forma conjunta, após três adiamentos. A Justiça argentina tinha até três dias úteis para emitir uma decisão. Os condenados seguem detidos, e agora poderão apresentar recurso à instância máxima do Judiciário argentino.
Um processo ainda em curso
A extradição dos cinco brasileiros é o primeiro desfecho concreto de um processo mais amplo. Os demais 56 condenados ainda aguardam julgamento em solo argentino, e, segundo o juiz Rafecas, todos os pedidos serão analisados individualmente ao longo do tempo.
Além das ações judiciais, os foragidos tentam se proteger por vias administrativas: todos já solicitaram refúgio à Comissão Nacional para Refugiados da Argentina (Conare), órgão vinculado ao Ministério do Interior. Até o momento, não houve manifestação oficial sobre os pedidos.
Em 2024, o governo brasileiro havia solicitado formalmente a prisão preventiva dos foragidos, enviando ao Ministério das Relações Exteriores da Argentina uma lista com mais de 180 nomes de brasileiros suspeitos de envolvimento com os atos golpistas que poderiam ter cruzado a fronteira. Parte desse grupo se dispersou por países vizinhos.
Contexto internacional e responsabilização
A decisão judicial argentina reafirma um princípio central do direito internacional: a cooperação entre Estados democráticos na responsabilização de crimes contra a ordem institucional. O ataque às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, foi classificado pelo STF como uma tentativa de golpe de Estado. As penas impostas a dezenas de réus têm se baseado em crimes como tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado e associação criminosa armada.
Como aponta o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, “a democracia é o único regime em que o poder se submete ao direito, e não o contrário”. Nesse sentido, a atuação das instituições brasileiras e agora da Justiça argentina sinaliza um compromisso regional com a preservação do regime democrático e com a punição de seus agressores – independentemente de fronteiras ou afinidades ideológicas.
A decisão representa um revés para setores bolsonaristas que, nos bastidores, incentivaram a fuga e ofereceram amparo logístico a condenados. Ana Paula de Souza, uma das extraditandas, chegou a se queixar publicamente da ausência de apoio político, afirmando ter sido “esquecida” por deputados bolsonaristas enquanto esteve presa na Argentina – uma fala reveladora das divisões internas entre os militantes e seus líderes políticos.
O caso argentino reforça a ideia de que não há anistia para golpismo, e de que o sistema de Justiça – quando respaldado por instituições sólidas e cooperação internacional – pode efetivamente responsabilizar aqueles que atentam contra a ordem constitucional. O que se desenha, portanto, é uma nova etapa de um processo mais amplo de enfrentamento ao extremismo antidemocrático na América Latina.
Deixe um comentário