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Mundo

A nova cortina de ferro

Putin ameaça com guerra e Europa se arma contra o expansionismo russo

Publicado em 03/12/2025 1:53 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em Moscou, Vladimir Putin eleva o tom. “Se a Europa quiser guerra, estamos prontos a partir de agora. Não há dúvidas disso”, declarou o presidente russo ontem (2), em mais um gesto calculado de intimidação geopolítica. A afirmação ecoa não apenas como uma ameaça direta, mas como um divisor de águas nas relações entre a Rússia e o Ocidente.

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Ao mesmo tempo, do outro lado do continente, a União Europeia selava um acordo histórico: o fim gradual das importações de gás russo até 2027, com o objetivo claro de “esgotar os cofres de guerra de Putin”, nas palavras de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.

A combinação dessas movimentações marca um novo capítulo da guerra que vai muito além da Ucrânia — uma disputa pela soberania energética, pela segurança territorial e, sobretudo, por narrativas de poder num mundo cada vez mais fragmentado.

O retorno do império

As palavras de Putin foram pronunciadas às vésperas de um encontro com representantes enviados por Donald Trump. A comitiva, liderada por Jared Kushner e Steve Witkoff, foi recebida em Moscou para discutir um possível plano de paz na Ucrânia, conflito que já se arrasta por quase quatro anos, desde a invasão russa em 2022.

Mas a retórica de paz mal resistiu à conferência de imprensa. Putin acusou os países europeus de sabotarem as negociações e de proporem cessar-fogos com “exigências absolutamente inaceitáveis à Rússia”. A estratégia é conhecida: projetar sobre o inimigo a responsabilidade pelo impasse, mesmo enquanto se alimenta a guerra — uma prática recorrente em regimes autoritários que, como dizia Hannah Arendt, necessitam de inimigos permanentes para manter sua coesão interna.

A reunião com os americanos, segundo o assessor do Kremlin Yuri Ushakov, foi “construtiva”, mas sem avanços concretos. O impasse permanece sobre as disputas territoriais — uma questão-chave que toca na própria lógica imperialista do regime de Putin, que desde 2008, com a guerra na Geórgia, adota uma política de expansão e “proteção de russos étnicos”, contestando fronteiras e soberanias estabelecidas.

A guinada da Europa

Ao mesmo tempo em que Putin inflamava a retórica bélica, Bruxelas agia silenciosamente — mas de forma contundente. O acordo fechado entre a Comissão Europeia, o Parlamento e os governos dos Estados-membros estabelece um cronograma definitivo para romper a dependência do gás russo: até o fim de 2026 para o gás natural liquefeito (GNL) e até setembro de 2027 para o gás via gasoduto.

A medida não é apenas econômica; é profundamente geopolítica. Antes da invasão da Ucrânia, 45% do gás consumido na Europa vinha da Rússia. Em outubro deste ano, esse número caiu para 12%. A nova política visa reduzir a zero essa fatia, com exceções controladas e sujeitas a autorização da própria UE.

“Estamos interrompendo essas importações permanentemente”, afirmou von der Leyen, em um gesto que alia pragmatismo energético à solidariedade política com Kiev. A retaliação econômica simboliza mais do que sanções: é uma tentativa de desmobilizar a máquina de guerra russa ao cortar seu principal financiamento externo. Uma estratégia que remete à doutrina de soft power e contenção, tão discutida por teóricos como Joseph Nye e Zbigniew Brzezinski, em tempos de Guerra Fria.

Alemanha se posiciona como novo pilar estratégico da Europa

Paralelamente à ofensiva energética, a Europa reforça sua postura militar. Nesta quarta-feira (3), a Alemanha integrou ao seu sistema de defesa o poderoso Arrow 3, um escudo antimísseis desenvolvido em parceria com Israel e projetado para interceptar mísseis balísticos de grande altitude antes mesmo de sua reentrada na atmosfera.

É a resposta alemã à chamada “Zeitenwende”, ou “virada de época”, anunciada pelo chanceler Olaf Scholz em 2022 — um redirecionamento drástico na política de defesa alemã, rompendo com décadas de contenção militar pós-Segunda Guerra. Pela primeira vez em décadas, Berlim reconhece a necessidade de liderar não apenas economicamente, mas também em segurança continental.

O Arrow 3 é a peça-chave da construção de um sistema de defesa aérea europeu em camadas. A lacuna de segurança apontada há anos pela OTAN começa, finalmente, a ser preenchida. Embora o risco de um ataque direto à Alemanha ainda seja considerado baixo, o gesto é simbólico e preventivo. Afinal, como ensina Carl von Clausewitz, “a guerra é a continuação da política por outros meios” — e a preparação militar é, por si só, uma forma de dissuasão.

O novo tabuleiro

O cenário que se desenha na Europa é o de um continente que se recusa a repetir os erros do passado. O expansionismo russo — cujas raízes podem ser traçadas desde os tempos czaristas até a nostalgia soviética encarnada por Putin — encontra hoje um bloco europeu mais coeso, mais assertivo e menos dependente.

Mas os riscos não são desprezíveis. A ameaça de uma guerra direta com a Rússia, embora remota, não é mais impensável. A militarização crescente da Europa, somada à retração diplomática russa e à fragmentação interna dos EUA — onde figuras como Trump ainda operam na sombra da geopolítica —, desenham um futuro incerto.

O que está em jogo é mais do que a soberania da Ucrânia ou o preço do gás: é a capacidade da Europa e do Ocidente de sustentar um modelo democrático e plural frente ao autoritarismo armado. Como advertiu Timothy Snyder, historiador americano e autor de Sobre a tirania, “a história não se repete, mas nos oferece lições. Ignorá-las é escolher a escuridão”.

A Europa, ao que tudo indica, decidiu acender a luz — ainda que tateando, ainda que sob ameaça.

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