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Mundo

Crianças em Gaza morrem a um ritmo sem precedentes, denuncia Unicef

Nas últimas 24h, seis palestinos morreram de fome em meio ao bloqueio de Israel

Publicado em 04/08/2025 12:15 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O diretor executivo adjunto da Unicef, Ted Chaiban, denunciou nesta semana que as crianças da Faixa de Gaza estão a morrer “a um ritmo sem precedentes”. A declaração foi feita após sua quarta visita à região desde outubro de 2023, incluindo paradas nos Territórios Palestinianos Ocupados e em Israel.

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Segundo Chaiban, as condições no território são dramáticas. “Estamos numa encruzilhada. As decisões que forem tomadas agora determinarão se dezenas de milhares de crianças vão viver ou morrer”, afirmou em conversa com jornalistas. Ele ressaltou que há medidas possíveis e viáveis para reverter o cenário: “Sabemos o que se tem de fazer e o que se pode fazer. A ONU e as organizações humanitárias estão preparadas para agir.”

Entre os dados mais alarmantes apresentados, o dirigente da Unicef destacou que mais de 320 mil crianças pequenas estão atualmente em risco de sofrer desnutrição aguda. Em Gaza, 16,5% das crianças apresentam sinais de desnutrição aguda global, um indicador que já ultrapassou o limiar da fome. Além disso, uma em cada três pessoas na região passa dias sem acesso regular a alimentos.

As altas temperaturas e a escassez de água potável agravam ainda mais a crise. “Há um risco iminente de surtos de doenças em toda a parte”, alertou Chaiban.

Durante sua visita, ele relatou ter conhecido famílias que perderam filhos num ataque aéreo israelense enquanto aguardavam atendimento numa clínica nutricional em Deir el-Balah. Dez crianças morreram e outras 19 ficaram feridas. “Essas crianças que conheci não são vítimas de um desastre natural. Foram deslocadas e bombardeadas”, lamentou.

Chaiban também destacou o trabalho da Unicef na região, que atualmente fornece 2,4 milhões de litros de água por dia no norte de Gaza, restabeleceu a cadeia de frio para vacinas, oferece apoio psicossocial a crianças, cuida de recém-nascidos e distribui leite infantil. No entanto, o dirigente ressalta que a ajuda é insuficiente diante da magnitude da crise. “Há muito por fazer. Pedimos que mais ajuda humanitária e comércio possam entrar para estabilizar a situação e reduzir o desespero da população”, afirmou.

Ele condenou a situação em que crianças morrem em filas por comida ou água, e destacou que “as pausas humanitárias não são um cessar-fogo”. A Unicef, reforçou, continua a defender um cessar-fogo duradouro e a libertação de todos os reféns. “Isto já durou demasiado”, concluiu.

Mais seis morrem de fome em meio a bloqueio de Israel

O número de mortes por fome e desnutrição na Faixa de Gaza subiu para 175 pessoas, incluindo 93 crianças, segundo informou o Ministério da Saúde local no domingo (3). Somente nas últimas 24 horas, seis novas vítimas foram registradas. A tragédia ocorre em meio ao agravamento da crise humanitária, após quase dois anos de guerra e bloqueios impostos por Israel ao território palestino.

A escassez de combustível, essencial para o funcionamento de hospitais, padarias e cozinhas comunitárias, segue sendo um dos principais agravantes da crise. O ministério informou que a falta de energia tem forçado os hospitais a priorizarem apenas os casos mais graves, comprometendo a assistência médica básica.

Após meses de restrições severas, Israel permitiu a entrada de quatro caminhões-tanque com combustível da ONU, segundo a COGAT – o órgão militar israelense responsável pela coordenação da ajuda ao território. A medida, entretanto, é considerada paliativa diante da magnitude da emergência. A emissora estatal egípcia Al Qahera News TV relatou que outros dois caminhões, carregando 107 toneladas de diesel, estavam prontos para cruzar a fronteira, embora não haja confirmação de que tenham entrado em Gaza.

Desde março, a entrada de combustível tem sido duramente limitada por Israel, como parte da pressão sobre o Hamas para a libertação de reféns capturados durante o ataque de outubro de 2023. Embora Tel Aviv responsabilize o grupo palestino pelo sofrimento da população civil, a pressão internacional levou o governo israelense a adotar medidas pontuais, como cessar-fogos parciais em algumas áreas, liberação de rotas seguras para comboios humanitários e lançamentos aéreos de ajuda.

Contudo, as Nações Unidas alertam que os lançamentos aéreos são insuficientes e defendem o aumento do fluxo de ajuda terrestre. Com 2,2 milhões de habitantes, a maioria dos quais deslocada e vivendo em meio a escombros, Gaza corre o risco iminente de enfrentar fome em larga escala se o acesso à ajuda não for urgentemente ampliado.

Segundo a COGAT, mais de 23 mil toneladas de ajuda foram entregues por via terrestre na última semana, por meio de 1.200 caminhões. Ainda assim, centenas desses veículos continuam retidos, sem que a ONU ou organizações humanitárias consigam distribuir os suprimentos à população.

Em paralelo, a Bélgica iniciou no domingo o primeiro lançamento aéreo de pacotes de ajuda em Gaza, em cooperação com a Jordânia. A França também participou da mobilização internacional, com o envio de 40 toneladas de suprimentos por via aérea na última sexta-feira.

Apesar dos esforços, o cenário descrito por agências humanitárias e autoridades locais é de colapso humanitário, agravado por limitações logísticas e pelo bloqueio político-militar que impede uma resposta mais ampla e efetiva à crise.

Hamas diz que não se desarmará até que um Estado palestino seja criado

O Hamas afirmou no sábado (2) que não se desarmará a menos que um Estado palestino independente seja estabelecido – uma nova resposta a uma exigência israelense fundamental para acabar com a guerra em Gaza.

As negociações indiretas entre o Hamas e Israel com o objetivo de garantir um cessar-fogo de 60 dias na guerra de Gaza e um acordo para a libertação de reféns terminaram na semana passada em um impasse.

Na terça-feira (29), Catar e Egito, mediadores dos esforços de cessar-fogo, endossaram uma declaração da França e da Arábia Saudita que delineava os passos para uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino e que afirmava que, como parte disso, o Hamas deveria entregar suas armas à Autoridade Palestina, apoiada pelo Ocidente.

Em comunicado, o Hamas disse que não poderia ceder seu direito à “resistência armada” a menos que um “Estado palestino independente e totalmente soberano com Jerusalém como sua capital” seja estabelecido.

Israel considera o desarmamento do Hamas uma condição fundamental para qualquer acordo que ponha fim ao conflito, mas o Hamas tem afirmado repetidamente que não está disposto a abandonar seu armamento.

No mês passado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu qualquer futuro Estado palestino independente como uma plataforma para destruir Israel e disse que, por esse motivo, o controle de segurança sobre os territórios palestinos deve permanecer com Israel.

Ele também criticou vários países, inclusive o Reino Unido e o Canadá, por terem anunciado planos de reconhecer um Estado palestino em resposta à devastação de Gaza causada pela ofensiva e pelo bloqueio de Israel, chamando a medida de recompensa pela conduta do Hamas.

Esta nova etapa da guerra no Oriente Médio começou quando militantes liderados pelo Hamas invadiram o Sul de Israel em 7 de outubro de 2023, matando 1,2 mil pessoas e levando 251 reféns para Gaza.

O subsequente ataque militar de Israel a Gaza transformou grande parte do enclave em um terreno baldio, matou mais de 60 mil palestinos e desencadeou uma catástrofe humanitária.

Israel e o Hamas trocaram acusações depois que a mais recente rodada de negociações terminou em um impasse, com lacunas persistentes sobre questões como a extensão da retirada militar israelense.

Ministro de Israel gera crise após orar em templo muçulmano

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, realizou ontem (3) uma oração pública na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental — um dos locais religiosos mais sensíveis e disputados do mundo. O gesto, inédito para um ministro em exercício, rompeu um acordo histórico com a Jordânia que proíbe práticas religiosas judaicas no local e provocou duras reações da comunidade internacional.

A visita de Ben Gvir ocorreu durante o Tisha B’Av, data de luto no calendário judaico que relembra a destruição dos dois templos antigos localizados onde hoje se encontra o complexo de Al-Aqsa. Ao lado de colonos israelenses, o ministro orou abertamente no local, conhecido como Monte do Templo para os judeus e Haram al-Sharif para os muçulmanos, que o consideram o terceiro local mais sagrado do Islã.

Em vídeo gravado no local, o ministro de ultradireita defendeu que Israel exerça soberania total sobre a área e sugeriu ainda a “conquista de toda a Faixa de Gaza”, além de promover o que chamou de “emigração voluntária” de palestinos — declarações que elevaram a tensão política e diplomática no momento em que o país já enfrenta forte pressão internacional devido à crise humanitária em Gaza.

Rompimento do status quo

A oração pública de Ben Gvir representou a primeira ação explícita de um ministro do governo israelense a desafiar o chamado “status quo”: um acordo firmado em 1994 entre Israel e Jordânia, que garante o direito de visita de não-muçulmanos, mas proíbe orações judaicas no local, sob a tutela religiosa jordana. Embora nacionalistas israelenses tenham violado informalmente esse pacto nos últimos anos, nunca antes um membro do gabinete o havia feito de forma tão aberta.

O ato foi classificado pelo jornal israelense Haaretz como uma “provocação deliberada”. A Autoridade Palestina chamou a visita de uma “escalada perigosa”, enquanto Jordânia, Turquia e Arábia Saudita emitiram comunicados de repúdio.

“O Ministério das Relações Exteriores da Turquia condena veementemente a invasão realizada na Mesquita de Al-Aqsa por ministros israelenses, sob proteção policial e acompanhados por colonos”, afirmou o governo turco. A nota acrescenta que a proteção da identidade sagrada de Jerusalém é “uma responsabilidade da consciência coletiva da humanidade”.

Conflito religioso e político

Construído sobre as ruínas dos templos judaicos destruídos na Antiguidade, o complexo de Al-Aqsa foi ocupado por Israel em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. A comunidade internacional, em sua maioria, não reconhece a soberania israelense sobre Jerusalém Oriental, onde fica o local.

A visita de Ben Gvir também surge em meio a esforços diplomáticos para negociar um cessar-fogo em Gaza, onde a crise humanitária já provocou 175 mortes por fome e desnutrição, segundo autoridades locais. A ação do ministro pode dificultar negociações e aprofundar o isolamento internacional do governo Netanyahu, que enfrenta críticas pela condução do conflito.

Em resposta ao episódio, o premiê Benjamin Netanyahu tentou conter os danos e afirmou que “a política de Israel de manter o status quo no Monte do Templo não mudou e permanecerá inalterada”. No entanto, a declaração contrastou com as falas inflamadas de Ben Gvir, que, além de justificar a ação religiosa, usou a ocasião para defender uma ofensiva ainda mais agressiva contra Gaza, citando vídeos recentes divulgados por grupos palestinos com reféns israelenses em condições degradantes.

O episódio reforça a radicalização dentro do governo israelense e reacende o debate sobre o uso político de símbolos religiosos em um dos territórios mais explosivos do planeta.

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