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Ataque demonstra ofensiva para fortalecer a extrema-direita no continente
Publicado em 05/01/2026 9:26 - Semana On
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na noite deste domingo (4) que seu governo “está no comando” da Venezuela e declarou que o país sul-americano estaria “morto”. Em declarações a jornalistas, Trump também ampliou o tom de ameaça ao não descartar uma eventual operação militar contra a Colômbia e ao atacar diretamente o presidente colombiano, Gustavo Petro.
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Questionado sobre quem estaria no poder em Caracas após a captura de Nicolás Maduro, Trump disse que daria uma resposta “muito controversa” e, em seguida, foi direto: “Significa que nós estamos no comando. Nós estamos no comando”. Na mesma conversa, ao ser indagado sobre a possibilidade de ações militares na Colômbia, respondeu: “Parece bom para mim”, referindo-se ao país governado por Petro, a quem voltou a acusar, sem apresentar provas, de envolvimento com o narcotráfico.
Trump afirmou ainda que a Venezuela dependerá de grandes investimentos estrangeiros para se reerguer. Segundo ele, companhias petrolíferas americanas terão papel central nesse processo. “É um país morto neste momento. Precisamos reerguer, e isso exigirá grandes investimentos das companhias petrolíferas para que a infraestrutura esteja pronta para funcionar”, declarou.
O presidente americano também minimizou críticas feitas pela vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, à ação dos Estados Unidos. “Vocês ouvem uma pessoa diferente da que eu ouço”, disse Trump, acrescentando que ela seria necessária para garantir “acesso total” ao país.
No domingo, a Suprema Corte da Venezuela determinou que Delcy Rodríguez assuma a presidência de forma interina, enquanto o tribunal define a nova estrutura legal de poder. Após a decisão, as Forças Armadas venezuelanas reconheceram oficialmente a vice-presidente como chefe de Estado, em anúncio feito pelo ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López.
O governo brasileiro também reconheceu Delcy Rodríguez no comando do país. “Na ausência do atual presidente, Maduro, é a vice. Ela está como presidente interina”, afirmou Maria Laura da Rocha, que exercia interinamente a chefia do Ministério das Relações Exteriores.
Em entrevista por telefone à revista The Atlantic, Trump afirmou que Delcy enfrentará um “preço muito alto” caso não coopere com o governo norte-americano.
“Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro”, afirmou o presidente americano.
Mais cedo, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, declarou que o país está disposto a dialogar com os líderes remanescentes da Venezuela, desde que tomem o que chamou de “decisão correta”.
“Vamos avaliar tudo com base no que eles fizerem e observar quais serão os próximos passos”, disse Rubio em entrevista à emissora CBS News. Ele acrescentou que, caso não haja cooperação, os Estados Unidos continuarão a utilizar “diversas ferramentas de pressão”.
O secretário também afirmou que ainda é cedo para discutir a realização de eleições na Venezuela e destacou que há “muito trabalho pela frente” antes de qualquer avanço nesse sentido.
Após as ameaças, a presidente interina da Venezuela publicou um texto nas redes sociais em que defende uma colaboração com os EUA. Rodríguez citou a possibilidade de uma “coexistência comunitária duradoura” entre os países. “Estendemos o convite ao governo dos Estados Unidos para trabalhar conjuntamente em uma agenda de cooperação, voltada ao desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional, e que fortaleça uma convivência comunitária duradoura.”
A presidente interina citou nominalmente o presidente dos EUA, Donald Trump, e o ditador Nicolás Maduro. “Presidente Donald Trump, nossos povos e nossa região merecem paz e diálogo, não a guerra. Esta sempre foi a mensagem do Presidente Nicolás Maduro, e é a mensagem de toda a Venezuela neste momento.”
Colômbia na mira
As declarações de Trump sobre a Colômbia provocaram reação imediata em Bogotá. Gustavo Petro rejeitou as ameaças do presidente americano e classificou como infundadas as acusações de narcotráfico usadas, segundo ele, para justificar a captura de Maduro no fim de semana. A bordo do Air Force One, Trump disse que uma operação na Colômbia semelhante à realizada na Venezuela seria “uma boa ideia” e voltou a acusar Petro de produzir e enviar cocaína aos Estados Unidos.
Petro respondeu afirmando que a ação militar americana na Venezuela não tem base legal e representa uma violação do direito internacional. Em mensagem divulgada nas redes sociais, declarou que Trump “ignora a história colombiana” e erra ao criticar o país. O presidente colombiano afirmou que já colaborou, como senador, com especialistas americanos no combate ao narcotráfico e lembrou que a Colômbia foi vítima de um “genocídio” promovido por cartéis de drogas aliados a setores políticos.
A escalada verbal continuou no domingo, quando Trump chamou Petro de “homem doente” e afirmou que a Colômbia estaria “governada por um homem doente que gosta de fabricar cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”. “Gustavo Petro tem fábricas de cocaína e não vai fazer isso por muito tempo”, disse o republicano.
O Ministério das Relações Exteriores da Colômbia classificou as declarações como uma “ingerência inaceitável” e cobrou respeito. Desde o início do segundo mandato de Trump, os dois presidentes vêm trocando críticas públicas, sobretudo sobre tarifas comerciais e política migratória. Apesar de serem aliados militares e econômicos estratégicos, as relações entre Colômbia e Estados Unidos se deterioraram nos últimos anos.
Paralelamente, Trump afirmou que uma intervenção militar em Cuba provavelmente seria desnecessária, por avaliar que o país estaria próximo de um colapso interno.
Diante das ameaças, Gustavo Petro defendeu que a “América Latina deve se emancipar” dos Estados Unidos. A declaração foi feita após Trump dizer, no sábado, que o presidente colombiano “tem que ficar esperto”. Em outra manifestação pública, Petro reafirmou o compromisso da Colômbia com a Carta das Nações Unidas e rejeitou “qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar em risco a população civil”.
A crise também repercutiu fora dos círculos governamentais. O empresário Elon Musk, ex-conselheiro sênior da Casa Branca, provocou Petro nas redes sociais com a expressão “plata o plomo?” (dinheiro ou chumbo). O presidente colombiano respondeu: “Nem prata nem chumbo. Amor e liberdade para todos os seres humanos são uma distinção”.
Em meio à tensão regional, o governo colombiano mobilizou o Exército na fronteira com a Venezuela como medida preventiva. Após reunião do Conselho de Segurança Nacional na madrugada de sábado, foi anunciada a mobilização de cerca de 30 mil soldados, com prioridade para áreas consideradas críticas, dentro de um plano coordenado entre diferentes órgãos do Estado para lidar com possíveis repercussões da ofensiva americana sobre a segurança continental.
No sé si Maduro es bueno o malo, ni siquiera si es narcotraficante; en los archivos de la justicia colombiana, después de medio siglo de lidiar con las mafias más grandes de la cocaína, no aparecen los nombres de Nicolás Maduro ni de Cilia Flores. Quienes han llegado a denunciar…
— Gustavo Petro (@petrogustavo) January 5, 2026
Ataque demonstra ofensiva para fortalecer a extrema-direita
O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela demonstra uma ofensiva do presidente Donald Trump para fortalecer a extrema-direita transnacional na América Latina. A avaliação é da professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Clarissa explica que a aproximação de governos que se posicionam mais à extrema-direita já vem sendo parte do projeto do governo Trump na região. “Por outro lado, [há] uma ofensiva clara a governos que se colocam na contramão dessas ideologias de extrema-direita.”
“Isso reafirma esse aspecto estratégico que a gente observa no Trumpismo, que é a articulação das redes transnacionais de extrema-direita. Portanto, fortalecendo a extrema-direita na região e enfraquecendo possíveis governos ou partidos de oposição”, explicou a professora.
Além disso, Clarissa Forner aponta que os Estados Unidos se reafirmam como um fator de instabilidade regional e global:
“Pensando no território venezuelano, agora a tendência é que a gente observe esse cenário de instabilidade interna necessariamente e que dificilmente vai se solucionar com um período de intervenção ou de administração militar pela parte norte-americana, conforme colocado pelo Trump na coletiva”, disse, ao se referir ao pronunciamento do presidente estadunidense, no sábado (3).
Ela atribui ao governo Trump o modus operandi de produzir instabilidade como forma de viabilizar respostas que, muitas vezes, escapam à dimensão da legalidade:
“Então [há] o próprio uso da força e esse processo de sequestro do presidente Maduro e da sua esposa como sendo um exemplo desse tipo de ação que escapa a qualquer tipo de norma de legalidade e sendo legitimada por essa ideia de que há uma crise em curso, de que há um combate ao crime.”
A instabilidade sinaliza também, segundo Clarissa Forner, a potencialidade de futuras intervenções por parte dos Estados Unidos.
“Fica muito em aberto, no discurso da coletiva de imprensa, que a Venezuela não é o último caso, o último dos ataques possíveis, que há uma perspectiva de que outros casos possam a vir acontecer na região”, mencionou.
Así se defiende una Patria. Así se debe defender Colombia. pic.twitter.com/L8NDb21wpi
— Gustavo Petro (@petrogustavo) January 5, 2026
‘EUA querem zona de guerra na América Latina’, avaliam especialistas
Na avaliação da socióloga Rita Coitinho, doutora em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em integração latino-americana, a agressão coordenada por Washington na Venezuela “foi uma verdadeira ação de bandoleiros e de gângsters”, observando que “esses bandidos são a maior potência militar do planeta e dividem conosco o mesmo continente”.
Em entrevista a Opera Mundi, ela destacou a consternação generalizada da ofensiva no sábado e avaliou ser “inacreditável” a entrevista coletiva de Trump e seu staff, destacando, em particular, a figura do secretário de Estado, Marco Rubio, “sem sombra de dúvida, o cérebro por traz desse ato de absoluto desrespeito com a soberania e a autodeterminação do povo venezuelano”.
Coitinho observou que a presença de termos como “Doutrina Monroe” e “interesses” saíram com facilidade da boca dos mandatários, mostrando ao mundo que o “‘sistema internacional baseado em regras’ – que antes fora o canto de sereia com que os Estados Unidos propagandeavam o sistema internacional de que eram os principais fiadores – foi definitivamente abandonado”. Com isso, ressalta, “impõe-se para a América Latina a lei do mais forte, o ‘big stick’ de Theodore Roosevelt revisitado, reinaugurando em nosso continente a política sem véus”.
Nessa mesma linha, a analista de Relações Internacionais, Ana Prestes, avaliou que Trump pretende fazer da América Latina “um território de guerra”, desferindo também ameaças a países como Cuba e Colômbia, no âmbito de uma “escalada neocolonial” em sua agenda, composta de sanções unilaterais, ameaças públicas e, como vimos no dia anterior, até sequestros de presidentes eleitos de nações soberanas.
“E tudo isso está em consonância com a anunciada nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos que não passa de uma readequação da bicentenária Doutrina Monroe e um retorno à imposição de uma visão geopolítica de um mundo dividido em eixos ou campos de influência. Não deixa de ser também um ataque à Rússia, à China e aos países líderes do Sul Global”, explicou a especialista a Opera Mundi, criticando o ataque terrorista coordenado “pela dupla Trump e Marco Rubio”.
O professor Reginaldo Nasser, livre-docente na área de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), concorda com suas colegas e acrescenta que “desde setembro, quando o acordo de cessar-fogo em Gaza já era iminente, Trump já indicava a Venezuela como principal alvo dos seus ataques, dentro dessa premissa de que a América Latina deve ser mantida como uma área de influência dos Estados Unidos”.
“Essa é uma interpretação (da Doutrina Monroe) que foi seguida pelo (ex-presidente) Theodore Roosevelt (1901-1909), diferente da do (também ex-presidente) Woodrow Wilson (1913-1921), que é mais defendida pelo Partido Democrata, e que é mais voltada a buscar a hegemonia global”, acrescentou Nasser.
‘Terrorismo de Estado’
Membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Coitinho salientou que as mentiras usadas para “julgar Maduro” por um suposto tráfico internacional de drogas revelam “a nova faceta do terrorismo de Estado norte-americano, substituindo a ‘guerra ao terror’ das duas primeiras décadas deste século”.
Ela advertiu que os governos latino-americanos “que indiretamente contribuíram com a campanha de mentiras dos Estados Unidos, não reconhecendo o governo de Maduro e fazendo coro com as mentiras acerca de ‘tráfico internacional de drogas’ devem ficar atentos, afinal, não há nenhuma iniciativa soberana que esteja livre da possibilidade de ingerência dos Estados Unidos, agora de forma direta, sem rodeios”.
Por sua vez, do lado brasileiro, Prestes defendeu que o governo federal deve se posicionar “com muita iniciativa e protagonismo”, coordenando uma reação na América Latina como um todo, que incluam lideranças como o colombiano Gustavo Petro e a mexicana Claudia Sheinbaum, para impedir que a região se consolide como uma “zona de guerra”.
“Defender com altivez e contundência que os Estados Unidos não vão transformar nossa região em uma zona de guerra. Defender a soberania e a autodeterminação de cada país latino-americano. Defender nossa democracia, justiça, Parlamento e processo eleitoral das garras de Trump e Rubio, que querem promover um assalto às riquezas de nossas terras”, destacou.
Já Reginaldo Nasser acredita que, mesmo no projeto de Trump de reforçar sua influência na América Latina, “países como Brasil e México podem ter um tratamento diferenciado, pelo seu tamanho, por poder econômico e pela complexidade de ambas as sociedades, acho que são países que correm menos riscos, talvez mais ligados a sanções ou perseguições a personalidades específicas, como foi o caso do ministro (do STF) Alexandre de Moraes”.
Segundo o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, os países que devem se preocupar com o cenário surgido a partir do ataque à Venezuela são Colômbia e Cuba.
“Trump já deixou claro na entrevista deste sábado, deu um aviso diretamente ao (presidente Gustavo) Petro, dizendo que ele pode ser o próximo. Também há um recado muito forte a Cuba”.
Por fim, sobre os possíveis desdobramentos da recente ação norte-americana em Caracas, Coitinho avaliou que o cenário ainda está incerto.
“Há indícios de colaboração interna, mas por enquanto tudo são suposições. Trump anunciou que os Estados Unidos controlarão o petróleo venezuelano e tutelarão um governo provisório, aparentemente, da vice-presidenta, Delcy Rodriguez”, afirmou.
Nasser também levanta dúvidas sobre essa possível colaboração interna venezuelana com o ataque norte-americano. “Ainda não há informações detalhadas, mas a forma na qual ele foi capturado é muito estranha. A Venezuela gastou US$ 6 bilhões em equipamentos de defesa da Rússia e não vimos esse sistema funcionando neste episódio, e as primeiras notícias dizem que não foi disparado sequer um míssil, foram vistos helicóptero voando a baixa atitude, não teve nenhum tiro”, comentou.
Coitinho completa observando que “não é possível saber ainda qual será a reação das Forças Armadas venezuelanas, nem sobre a disposição de resistência das lideranças do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Há movimento nas ruas, populares que pedem a volta do presidente, mas é ainda muito cedo para se saber qual será o desfecho”, observou.
Cientista político e professor de relações internacionais da Faculdade São Francisco de Assis (Unifin), Bruno Lima Rocha diz que o ocorrido na madrugada de sábado, quando se deu a incursão, é, antes de tudo, um ataque dos Estados Unidos à soberania de um país.
“Primeiro, porque não existe, no direito internacional, um atestado para que os Estados Unidos operem como polícia do mundo”, diz Rocha.
“Em segundo lugar, porque, mesmo que as acusações contra Nicolás Maduro fossem verdadeiras – o que, de fato não são –, a ONU ou o sistema de instituições internacionais não delegaram para os Estados Unidos poder para sequestrar, capturar ou intervir em um país soberano”, argumenta o professor.
Entre as justificativas apresentadas pelo governo estadunidense para os ataques contra a Venezuela está a de que Maduro estaria ligado a grupos narcoterroristas que abastecem com drogas o mercado interno dos EUA.
“Do ponto de vista legal, isso foi um absurdo. Uma agressão imperialista pura e simples”, disse Bruno Rocha, que classifica como “sequestro” a ação contra Nicolás Maduro e alerta que os EUA ameaçam roubar o petróleo da Venezuela, cujas reservas são as maiores do mundo.
A ofensiva militar dos Estados Unidos foi interpretada cientista político Cláudio Couto como um recado direto do governo de Donald Trump à América Latina de que Washington se considera livre para agir na região conforme seus próprios interesses.
“Estamos sob risco neste momento. O governo Trump sinaliza que, por entender o Brasil e a América Latina como parte de sua zona de influência, acredita que pode fazer o que bem entender por aqui. Trata-se de uma nova derivação da Doutrina Monroe”, afirmou Couto.
Segundo o analista, a história recente mostra diferentes fases dessa interferência. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos atuaram de forma direta na região, apoiando golpes de Estado e operações de desestabilização, muitas vezes com envolvimento explícito da CIA — como no Chile, na derrubada do presidente Salvador Allende. “Agora, porém, isso parece ter assumido suas feições mais explícitas”, avaliou.
Para Couto, chama atenção o fato de que o discurso oficial americano sequer tentou se ancorar em justificativas tradicionais, como a defesa da democracia ou dos direitos humanos. “Não houve qualquer prurido em afirmar que o que estava em jogo seria a democracia na Venezuela. Esse aspecto simplesmente não foi mencionado. Trump foi direto ao ponto que realmente lhe interessa: a questão do petróleo”, disse.
O cientista político alertou ainda que o Brasil não está imune a esse tipo de pressão. “Aqui, historicamente, a Petrobras sempre teve papel preponderante na exploração do petróleo, o que nos diferencia da Venezuela. Mas não me parece que isso seja um fator suficiente para impedir Trump de avançar sobre o território brasileiro caso ele considere que há algum interesse americano — ou até mesmo pessoal — envolvido”, afirmou.
O cenário eleitoral brasileiro amplia, segundo Couto, o grau de preocupação. “Estamos em um ano de eleição e já vimos candidatos da direita e da extrema direita se alinharem ao intervencionismo americano, alguns chegando a saudar esse tipo de ação como algo grandioso”, observou.
Nesse contexto, ele defende vigilância redobrada. “Há motivos concretos para preocupação, inclusive no que diz respeito a possíveis tentativas de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. Precisamos estar realmente muito atentos”, concluiu.
A professora de Direito e Estudos Internacionais de Paz da Universidade de Notre Dame, Mary Ellen O’Connell, avaliou que o ataque deve aumentar a desconfiança em todo o mundo e não ajudará o país estadunidense a se consolidar como liderança global.
Há ainda, segundo ela, o risco de que o cenário na Venezuela permaneça fundamentalmente o mesmo.
“O princípio mais importante do Estado de Direito, que sustenta tudo e a própria razão pela qual temos leis, é oferecer uma alternativa à ilegalidade e à violência para pessoas que decidem fazer justiça com as próprias mãos, usando a força física para conseguir o que querem. Não permitimos que os países usem violência equivalente entre si para se destacarem no mundo. O mundo prospera na paz, na harmonia, num sistema bem ordenado onde os tratados importam.”
A professora lembrou que Trump ordenou um ataque de grandes proporções, executado por forças militares, que deixou mortos, destruição e medo entre o povo venezuelano, sem qualquer tipo de justificativa legal.
“É um tapa na cara de todas as leis [internacionais]. Como se, de alguma forma, o presidente Trump pudesse decidir o que fazer em relação ao direito de uso da força militar. Isso vai causar um grande desapontamento no mundo. Não vai ajudar, no curto prazo, a restabelecer a liderança norte-americana e o apoio a leis internacionais. Vai causar mais desconfiança. Vão ser necessários muitos anos até que os Estados Unidos consigam recuperar um senso de respeito como país que respeita o Estado de Direito e a democracia.”
Por fim, a especialista destacou que, no curso da história, países que cumprem as leis internacionais são os que de fato alcançam sucesso e eventualmente surgem como líderes globais.
“O presidente Trump está correto em se preocupar já que Maduro não é nenhum herói. Precisamos sim dar um jeito no tráfico de drogas e no tráfico humano em todo o mundo e nas Américas. Mas não faremos isso violando a lei, mas restabelecendo e apoiando a lei, criando tribunais que sejam corajosos o suficiente para e enfrentar quem não respeita as leis”.
América Latina rachada
A Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) não chegou a um consenso sobre a crise na Venezuela e a reunião realizada ontem (04) entre chanceleres da região termina sem consenso.
O racha no continente impediu que uma declaração final fosse adotada e escancarou a ruptura da existência de um projeto comum de segurança ou de garantia de zona de paz.
A divisão política da região estava no cálculo do governo de Donald Trump que, diante de uma América Latina sem uma posição conjunta, sabia que teria uma resistência menor ao realizar a operação contra Nicolas Maduro.
O encontro, em caráter ministerial, confirmou a falta completa de um consenso entre os governos latino-americanos sobre o que representou a ofensiva militar da Casa Branca. De um lado, aliados de Trump, como Argentina, Paraguai, Equador e El Salvador, foram contrários a qualquer condenação ao ato dos EUA e usaram a reunião para comemorar a queda de Maduro.
Durante o encontro, vários dos discursos desses países chegaram a usar os mesmos termos empregados por Trump para se referir ao ex-presidente Maduro, hoje detido em Nova York.
Já os chanceleres do Brasil, México, Uruguai, Chile e Colômbia insistiam em condenar os ataques dos EUA e alertar para o precedente que poderia ser aberto diante da operação.
Antes do encontro, um comunicado conjunto lançado por esses países apontou para ilegalidade da ofensiva.
Segundo Jamil Chade, o governo brasileiro admitiu que não esperava que um acordo fosse possível na CELAC. Mas fontes afirmaram que deixaram a reunião com uma noção clara da dimensão do racha na América Latina.
O fracasso da região em chegar a uma posição conjunta ocorre um dia antes de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. No encontro, que acontece hoje (5) em Nova York, a ação americana deverá ser questionada. Mas o encontro vai servir, acima de tudo, para que a comunidade internacional possa tomar a temperatura da dimensão da resistência que pode existir diante da ofensiva militar dos EUA.
Não se prevê a votação de uma resolução.
Já na terça-feira (6), será a vez de a OEA convocar sua reunião de emergência para lidar com a crise. Mas, seguindo o mesmo roteiro do encontro da CELAC, a possibilidade de um consenso é mínimo.
Após Venezuela, base de Trump mira novo alvo: Groenlândia
A ofensiva de Donald Trump sobre a Venezuela abriu uma pergunta incômoda pelo mundo: quem será o próximo? Neste final de semana, a Casa Branca sugeriu que não desistiu de uma anexação da Groenlândia, gerando uma reação enérgica por parte dos europeus e uma resposta de um governo dinamarquês visivelmente irritado.
No domingo, Trump foi questionado em uma entrevista se continuava a ter interesse pela região no Ártico, algo que ele citou no começo de seu governo. Sua resposta foi clara: “precisamos da Groenlândia, absolutamente”.
Ainda em dezembro, ele havia nomeado um enviado para Groenlândia, numa insinuação de que haveria uma ofensiva e pressão sobre o território. Ao receber o cargo, Jeff Landry, governador da Louisiana, afirmou que era “uma honra servir nesta posição voluntária para tornar a Groenlândia parte dos EUA”.
O fim de semana ainda foi marcado por uma forte movimentação da base mais radical de Trump, insistindo que a região dominada pela Dinamarca fosse o próximo alvo dos EUA, depois da Venezuela.
A podcaster Katie Miller – esposa de Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, postou no X um mapa da Groenlândia com as cores da bandeira americana e a legenda: “EM BREVE”.
No final do domingo, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, pediu que Trump parasse de fazer as ameaças. “Não faz absolutamente nenhum sentido falar sobre a necessidade dos EUA de anexar a Groenlândia. Os EUA não têm o direito de anexar nenhum dos três países do reino dinamarquês”, disse.
A reação também veio do primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen. “As relações entre nações e povos são construídas sobre o respeito mútuo e o direito internacional – não sobre gestos simbólicos que desconsideram nosso status e nossos direitos”, escreveu ele no X.“Não há motivo para pânico nem para preocupação. Nosso país não está à venda e nosso futuro não é decidido por publicações em redes sociais”, completou.
O embaixador dinamarquês nos EUA, Jesper Møller Sørensen, tentou apaziguar a ofensiva, com uma postagem diplomática. “Somos aliados próximos e devemos continuar a trabalhar juntos como tal. A segurança dos EUA também é a segurança da Groenlândia e da Dinamarca”, disse ele. “O Reino da Dinamarca e os Estados Unidos trabalham juntos para garantir a segurança no Ártico”, completou.
Ele ainda disse a Dinamarca aumentou os gastos com defesa em 2025, para um total de US$ 13,7 bilhões. “E sim, esperamos total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”completou.
A avaliação americana é de que a região é alvo de uma disputa entre russos e chineses. O vice-presidente de Trump, JD Vance, visitou o território em março e o próprio chefe da Casa Branca alertou que “não descarta” a via militar para promover a anexação.
UE alerta sobre “integridade territorial”
Enquanto isso, nas capitais europeias, a ofensiva de Trump sobre a Venezuela levou os governos do bloco a emitir um comunicado no qual a UE “recorda que, em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas devem ser respeitados”.
“Os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas têm uma responsabilidade particular em defender esses princípios, enquanto pilar da arquitetura de segurança internacional”, alertaram.
Segundo o comunicado, a UE tem afirmado repetidamente que Nicolás Maduro não possui a legitimidade de um presidente democraticamente eleito e tem defendido uma transição pacífica para a democracia liderada pelos venezuelanos, respeitando a sua soberania.
O bloco também apontou para a necessidade de um combate ao crime organizado transnacional e ao narcotráfico. Mas alertou que isso não pode ser feito violando outros países.
“Ao mesmo tempo, a UE salienta que estes desafios devem ser enfrentados através de uma cooperação sustentada, em pleno respeito pelo direito internacional e pelos princípios da integridade territorial e da soberania”, completou.
Dinamarca condena ameaças
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, exigiu do governo dos Estados Unidos que pare com as ameaças contra um aliado por causa da Groenlândia.
“Devo dizê-lo muito claramente: É absolutamente absurdo dizer que os Estados Unidos devem assumir o controle da Groenlândia”, afirmou Frederiksen.
Também o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielssen, disse que chegou a hora de o presidente Donald Trump parar com as pressões sobre a anexação da região autônoma dinamarquesa no Ártico.
“Basta! Chega de pressões. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação. Estamos abertos ao diálogo. Estamos abertos a discussões. Mas isso deve ser feito através dos canais adequados e conforme o direito internacional”, afirmou Nielssen.
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