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Mundo

A Venezuela não é o alvo. É o aviso!

Ataque de Trump à Venezuela e sequestro de Maduro viola direito internacional

Publicado em 03/01/2026 12:09 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O ataque dos Estados Unidos à Venezuela neste sábado (3) — com bombardeios, violação territorial e o sequestro de um chefe de estado — é o retorno explícito de uma lógica antiga, violenta e profundamente antidemocrática: a ideia de que a América Latina continua sendo um espaço disponível para intervenções imperiais sempre que interesses estratégicos de Washington se sentem ameaçados. A Venezuela, hoje, é menos o fim da história do que o início, um aviso recheado de ameaças para a região.

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É preciso dizer com todas as letras: a ação norte-americana é ilegal à luz do direito internacional. A carta das Nações Unidas é clara ao proibir o uso da força, salvo em casos de legítima defesa imediata ou com autorização do conselho de segurança. Nada disso ocorreu. O que se viu foi um ato de agressão comparável — em termos jurídicos e políticos — à invasão do Iraque em 2003 ou à agressão russa contra a Ucrânia em 2022. Quando grandes potências escolhem quais regras respeitar e quais ignorar, não estamos diante da defesa da democracia, mas da sua corrosão.

Condenar essa intervenção, no entanto, não exige — nem permite — absolver Nicolás Maduro. O governo venezuelano é autoritário, corroeu instituições, perseguiu opositores e fraudou processos eleitorais. Isso está fartamente documentado. Mas a crítica democrática perde toda coerência quando se transforma em pretexto para bombardeios, sequestros e mudanças de regime impostas de fora para dentro. Ditaduras não se combatem com guerras seletivas; combatem-se com pressão internacional multilateral, negociação política e fortalecimento de saídas internas. O resto é imperialismo com verniz moral.

A pergunta central precisa ser feita sem rodeios: se Donald Trump estivesse realmente interessado em defender a democracia, por que não começa por seus aliados autocráticos? Por que não bombardeia a Arábia Saudita, onde dissidentes são esquartejados? Por que recebe com honras de estado o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, acusado pela própria cia de ordenar o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi? A resposta é óbvia — e desconfortável: porque não se trata de valores, mas de interesses.

No caso venezuelano, o interesse tem nome, história e cheiro: petróleo. A Venezuela abriga uma das maiores reservas do planeta, estrategicamente localizada, muito mais próxima e logisticamente mais conveniente do que o turbulento oriente médio. A retórica do “narcoterrorismo”, assim como foram as “armas de destruição em massa” no Iraque, funciona como cortina de fumaça para justificar o que Eduardo Galeano descreveu com precisão cortante: “a divisão internacional do trabalho consiste em que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder”.

Essa intervenção inaugura algo ainda mais grave: um precedente perigoso para toda a região. A América Latina, historicamente submetida a golpes silenciosos, sabotagens econômicas e operações encobertas da cia, agora é confrontada com a possibilidade de ações militares abertas, escancaradas, normalizadas. Se isso passar sem resistência internacional consistente, o recado está dado: qualquer governo que desagrade Wwashington pode ser o próximo. México, Colômbia, Panamá, Brasil — ninguém está estruturalmente imune quando o arbítrio vira método.

O mais inquietante é que esse avanço ocorre num momento de fadiga democrática, medo social e desespero econômico, terreno fértil para soluções autoritárias vendidas como eficiência. Pesquisas recentes mostram parte da população latino-americana disposta a aceitar intervenções externas em nome da “segurança”.

A defesa da democracia exige coerência. Não há democracia possível sob mísseis estrangeiros, nem direitos humanos que sobrevivam a bombardeios “cirúrgicos”. Defender a soberania dos povos, o multilateralismo, o direito internacional, o antirracismo, a pluralidade política e a paz não é complacência com autocratas — é compromisso com princípios universais.

A Venezuela não é só o começo. É um teste histórico. Ou a América Latina reage com lucidez, memória e dignidade, ou aceitará, mais uma vez, que o futuro da região seja decidido em gabinetes estrangeiros, ao som de bombas travestidas de liberdade.

Lula condena ataque e cobra resposta da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se pronunciou na manhã deste sábado sobre os ataques. Ele condenou a ação militar e cobrou uma resposta vigorosa da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional. Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”, disse Lula, por meio das redes sociais.

“A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões. A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.”

Rússia condena interferências externas

O ataque também foi condenado pelo governo de Vladimir Putin, que chamou de “ato de agressão armada contra a Venezuela” pelos Estados Unidos, considerando “insustentáveis” quaisquer “desculpas” dadas para justificar tais ações.

“Reafirmamos nossa solidariedade com o povo venezuelano e nosso apoio à linha de ação da liderança bolivariana, que visa proteger os interesses nacionais e a soberania do país”, afirmou o ministério das relações exteriores. Para Moscou, a América Latina deve “permanecer uma zona de paz”.

“Na situação atual, é fundamental, antes de tudo, evitar uma escalada do conflito e concentrar esforços na busca de uma solução por meio do diálogo”, afirmou o Kremlin. “A Venezuela deve ter garantido o direito de determinar seu próprio destino sem qualquer interferência externa destrutiva, muito menos militar.”

Europa pede ‘desescalada’

Já os governos europeus optaram por não abrir uma confrontação direta com os EUA. O governo da Espanha, por exemplo, apenas pediu que o direito internacional seja respeitado.

Já Kaja Kallas, chefe da diplomacia da Europa, afirmou que conversou com o secretário de estado Marco Rubio. “A UE está acompanhando de perto a situação na Venezuela. A UE afirmou repetidamente que o sr. Maduro carece de legitimidade e defendeu uma transição pacífica. Em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e da carta da ONU devem ser respeitados. Apelamos à moderação”, disse.

Colômbia convoca conselho da ONU

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anunciou que está pedindo uma reunião de emergência do conselho de segurança da ONU. “Acabamos de concluir a reunião do Conselho De Segurança Nacional, que começou às 3h da manhã. Forças de segurança pública estão sendo mobilizadas para a fronteira, juntamente com todos os recursos de assistência disponíveis, em caso de um fluxo maciço de refugiados”, disse.

“A embaixada da Colômbia na Venezuela está respondendo ativamente aos pedidos de ajuda de colombianos na Venezuela. Como membros do conselho de segurança das nações unidas, já estamos buscando aqueles que desejam nos ajudar a convocar o conselho”, afirmou.

“O governo colombiano repudia a agressão contra a soberania da Venezuela e da América Latina. Conflitos internos entre povos são resolvidos pacificamente pelos próprios povos. Este é o princípio da autodeterminação dos povos, que é o fundamento do sistema das nações unidas”, completou.

Cuba condena: “ataque criminoso”

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, emitiu uma dura condenação nas redes sociais, acusando Washington de realizar um “ataque criminoso” contra a Venezuela e exigindo uma resposta internacional urgente.

Em uma publicação no X, Díaz-Canel afirmou que a chamada “zona de paz” de Cuba estava sendo “brutalmente atacada”, descrevendo a ação dos EUA como “terrorismo de estado” direcionado não apenas ao povo venezuelano, mas à “nossa américa” ​​em geral.

O governo do Irã também condenou os ataques contra a Venezuela. Para Teerã, trata-se de uma “flagrante violação da soberania nacional e da integridade territorial do país”.

Milei comemora

As informações foram imediatamente comemorada pela extrema direita americana e líder sul-americanos aliados ao governo de Trump. Javier Milei, presidente da Argentina, foi um dos primeiros a ir às redes sociais. “A liberdade avança”, escreveu o argentino.

Nos EUA, parlamentares republicanos também saudaram à queda de Maduro. Maria Elvira Salazar, congressista da Flórida e aliada de Eduardo Bolsonaro, também comemorou a ação militar dos EUA.

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