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Mundo
Defesa brasileira avalia cenário como o mais grave em décadas e aponta para impacto imprevisível nas fronteiras
Publicado em 16/10/2025 10:57 - Semana On
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Com a maior mobilização de tropas norte-americanas na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989, o governo de Donald Trump provoca alarme internacional e reacende o fantasma de uma intervenção militar na Venezuela. Documentos internos da ONU, obtidos com exclusividade pelo jornalista Jamil Chade, do UOL, indicam que potências globais e diplomatas classificam o momento como de “alerta máximo”, diante de evidências de uma possível operação ofensiva contra o regime de Nicolás Maduro.
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A movimentação ocorre sob o argumento do combate ao narcotráfico, mas a escala e o caráter das ações sugerem uma estratégia com objetivos políticos mais amplos. Pelo menos 10 mil soldados foram deslocados para o Caribe, com presença significativa em Porto Rico e Trinidad e Tobago. Embora insuficientes para uma invasão terrestre, as tropas estariam aptas a realizar ataques aéreos — uma possibilidade já cogitada publicamente pelo próprio Trump.
“Não queremos uma guerra no Caribe”, reagiu Maduro em pronunciamento oficial. O presidente venezuelano denunciou “uma covardia que vem de Miami” e fez referência aos golpes militares no Chile e na Argentina com apoio da CIA, lembrando que a agência norte-americana foi autorizada pelo governo Trump a realizar ações secretas no país.
Aliança de conveniência e racha regional fragilizam resposta coletiva
A escalada militar norte-americana chega em um momento de fragilidade política e diplomática na América Latina. Tentativas do Itamaraty de articular uma reação conjunta por meio da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) fracassaram: apenas 21 dos 33 países assinaram uma nota de repúdio à movimentação militar dos EUA. Entre os que se recusaram a aderir estão Argentina, Panamá, Peru e Trinidad e Tobago — todos países que, recentemente, estreitaram relações com Washington.
Segundo apuração do UOL, o governo brasileiro observa a situação com “enorme preocupação”. O presidente Lula tem acompanhado de perto o avanço da crise, mas reconhece, nos bastidores, o esvaziamento dos mecanismos regionais de integração que poderiam conter esse tipo de ofensiva estrangeira.
A ausência de uma frente diplomática unificada também reflete o avanço de uma nova ofensiva de influência dos Estados Unidos sobre governos aliados. Desde janeiro, o secretário de Estado Marco Rubio tem intensificado viagens à região, negociando apoio político e recursos financeiros em troca de alinhamento à estratégia norte-americana para a Venezuela.
Navios de guerra, caças e mortos
A dimensão da mobilização militar reforça os alertas. O Departamento de Defesa dos EUA já deslocou para a costa venezuelana navios com capacidade ofensiva significativa, como o USS Iwo Jima — embarcação anfíbia com 4.500 militares a bordo. O navio operava anteriormente no Oriente Médio, em ações contra rebeldes Houthis no Iêmen. Outro exemplo é o USS Minneapolis-Saint Paul, que patrulha a região desde maio.
Segundo a ONU, entre agosto e outubro, os EUA realizaram pelo menos cinco ataques aéreos contra embarcações suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas. Ao menos 27 pessoas morreram nessas operações. O governo norte-americano sustenta que os alvos operavam em águas internacionais, mas episódios como a detenção de um barco de pesca em águas venezuelanas por oito horas acirraram a tensão.
A resposta de Caracas veio com o decreto de estado de emergência e a mobilização de 4,5 milhões de membros da Milícia Bolivariana — força civil de apoio às Forças Armadas. Além disso, exercícios militares foram ordenados por Maduro nas principais comunidades do país.
Rússia e China reagem com veemência
A escalada militar também gerou forte reação de outras potências com interesses diretos na Venezuela. A Rússia, que atualmente preside o Conselho de Segurança da ONU, condenou duramente a “campanha descarada de pressão política, militar e psicológica” promovida pelos EUA.
“O ataque à Venezuela poderá afetar toda a região. Estamos falando de uma atividade militar em larga escala, a poucos quilômetros de sua costa, ameaçando diretamente a paz e a segurança internacional”, afirmou o embaixador russo Vasily Nebenzya, em sessão no Conselho de Segurança. O diplomata ainda exigiu que Washington “interrompa imediatamente a escalada sob pretextos forjados”.
A China também se posicionou. O embaixador Fu Cong repudiou o que chamou de “ações unilaterais e excessivas” dos EUA e defendeu o respeito à soberania venezuelana. “Rejeitamos o uso da força nas relações internacionais”, declarou o representante chinês.
ONU vê risco concreto de guerra
O tema se tornou prioridade na agenda da ONU. Miroslav Jenca, secretário-geral adjunto para as Américas, confirmou que desde agosto há um aumento contínuo da presença militar dos EUA na região, e que a tensão tem crescido proporcionalmente. Em seu relato, detalhou incidentes com caças, navios e violações do espaço aéreo — todos classificados como atos provocativos.
O secretário-geral António Guterres tem apelado por contenção e diálogo. “É imperativo que os Estados-Membros garantam que suas ações contra o narcotráfico estejam em conformidade com o direito internacional”, afirmou, em nota. Guterres também reforçou que a ONU rechaça qualquer tentativa de intervenção que viole a soberania dos Estados.
Desfecho imprevisível, riscos previsíveis
O acúmulo de forças militares, a retórica belicista de Trump e a ausência de uma resposta regional coesa traçam um cenário alarmante. Ainda que não haja confirmação de uma data ou plano definitivo de intervenção, os sinais são inequívocos de que uma operação está em curso — e de que o alvo é político.
O impacto de uma intervenção militar na Venezuela transcenderia as fronteiras do país. A instabilidade provocada por uma ação dessa magnitude poderia gerar ondas migratórias, crises econômicas nos países vizinhos, aumento da violência e o colapso de qualquer esforço de integração regional.
Para o Cone Sul, o risco não é apenas o de ver-se arrastado para um conflito armado às portas, mas também o de perder sua capacidade de autodeterminação e soberania diante do avanço de um unilateralismo armado.
Brasil entra em estado de vigilância máxima
A tensão crescente em torno de uma possível intervenção dos Estados Unidos na Venezuela acendeu o sinal vermelho dentro do Ministério da Defesa brasileiro. Segundo fontes militares e do governo, o cenário é avaliado como “o mais grave já enfrentado até aqui” na fronteira norte do país — um limite de mais de 2.100 quilômetros com a Venezuela, atualmente sob pressão migratória e risco de instabilidade.
O ministro da Defesa, José Múcio, e os comandantes das Forças Armadas manifestaram “preocupação máxima” com a possibilidade de uma escalada militar liderada por Washington. O temor principal é de que um eventual ataque dos EUA leve a um conflito armado de larga escala, com desdobramentos imprevisíveis para o Brasil e o Cone Sul.
“Uma vez que os EUA entrem na Venezuela, o que será da nossa fronteira?”, questiona uma fonte militar ouvida sob reserva. O país já administra um complexo sistema de acolhimento a milhares de refugiados que fogem da crise humanitária do regime de Nicolás Maduro — crise marcada por hiperinflação, escassez de alimentos, violência generalizada e colapso institucional. Um agravamento do cenário poderia transformar o atual fluxo migratório em uma onda massiva, sem precedentes.
O centro de recepção de refugiados em Roraima, coordenado pela Operação Acolhida, já opera no limite da capacidade. Um conflito armado — ainda que localizado — comprometeria a estabilidade da fronteira, exigiria reforço logístico, mobilização de tropas e ampliação imediata da estrutura humanitária brasileira.
Celso Amorim condena operações secretas e prega não intervenção
O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, classificou como “inconcebível” qualquer tipo de ataque militar ou operação clandestina que vise à derrubada de um governo soberano. “O Brasil é contra o uso da força e de operações secretas. Seguimos fielmente a política de não intervenção”, declarou o ex-chanceler.
Segundo Amorim, o posicionamento brasileiro está ancorado no direito internacional e na defesa da soberania como princípio estruturante das relações internacionais. Ele evitou comentar diretamente a operação autorizada por Trump que dá poderes à CIA para realizar ações letais na Venezuela, mas reforçou que qualquer tentativa de interferência externa “chega num momento delicado” para toda a região.
Intervenções americanas não são novidade, alerta especialista
Para Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, os Estados Unidos têm histórico de intervenções na América Latina e agem com uma lógica pragmática, alternando retórica agressiva e manobras diplomáticas. “Eles são useiros e vezeiros nesse tipo de processo. Foi assim no Chile, na Guatemala, no Panamá. A lógica é a mesma”, afirmou.
Trevisan vê o risco de conflito como real, mas pondera que os custos para os EUA — especialmente num contexto de eleição presidencial e polarização interna — seriam significativos. “Trump é imprevisível. A retórica serve para tapar buracos internos, mas não significa que ele vá recuar. É possível que ataque, sim.”
Segundo o professor, paradoxalmente, a ameaça de intervenção fortalece Maduro internamente. “Essa notícia tem o poder de fabricar adesão ao governo dele. Maduro está acossado pelo setor mais radical do chavismo, liderado por Diosdado Cabello, e a crise externa o ajuda a se consolidar.”
Nobel da Paz e pressão diplomática: o tabuleiro em movimento
Dentro e fora da Venezuela, a narrativa de confronto se intensifica. A nomeação de María Corina Machado, opositora histórica de Maduro, ao Prêmio Nobel da Paz foi interpretada como um gesto simbólico de legitimação internacional da oposição venezuelana. Ao mesmo tempo, governos alinhados aos EUA, como Argentina e Paraguai, vêm pressionando por investigações e sanções via OEA, enquanto o governo Trump amplia barganhas diplomáticas com aliados regionais.
A combinação de mobilização militar, pressões diplomáticas e campanhas de deslegitimação expõe um padrão já visto em outros momentos da história latino-americana: a construção gradual de um ambiente favorável à intervenção sob pretexto humanitário ou de combate ao narcotráfico.
Brasil entre a contenção e o risco iminente
Com a fronteira norte sob tensão e a diplomacia regional fragilizada, o Brasil se vê diante de uma encruzilhada geopolítica. O governo Lula tenta manter a tradição de neutralidade e defesa da paz, mas as circunstâncias exigem vigilância constante. O deslocamento militar dos EUA, os sinais claros de intenção política e o colapso dos mecanismos multilaterais na América Latina criam um ambiente propício à instabilidade.
Uma eventual guerra na Venezuela não será um problema isolado. Ela se tornará uma crise continental, com efeitos diretos sobre o Brasil: do aumento do fluxo migratório ao risco de incidentes fronteiriços e impactos econômicos indiretos. A ameaça de um novo ciclo de intervenções militares na América Latina, patrocinado por Washington, lança sombras sobre a soberania regional — e recoloca o continente no centro de uma disputa que não escolheu.
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