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Washington tenta convencer aliados europeus da legitimidade do ataque
Publicado em 04/03/2026 11:55 - Semana On
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que construiu parte de sua trajetória política criticando o que chamava de “guerras inúteis” conduzidas por Washington, já interveio militarmente em ao menos sete países desde o início de seu segundo mandato.
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As operações, realizadas entre 2025 e 2026, ocorreram no Iêmen, Irã, Iraque, Nigéria, Síria, Somália e Venezuela, e revelam uma política externa marcada por ações militares frequentes, muitas vezes justificadas pela Casa Branca como medidas de combate ao terrorismo, defesa da liberdade religiosa ou proteção da segurança nacional americana.
Ao mesmo tempo, cresce entre analistas e parte da imprensa norte-americana a percepção de que essas operações indicam algo mais amplo: uma estratégia de pressão direta — e, em alguns casos, de mudança de regime — em países considerados hostis ou estratégicos para Washington.
A contradição entre discurso e prática
Durante anos, Trump apresentou-se como crítico da intervenção militar americana no exterior. Em discursos de campanha e entrevistas, repetia que os Estados Unidos haviam desperdiçado “trilhões de dólares em guerras que não tinham nada a ver com a América”.
A crítica dialogava com um sentimento crescente dentro da sociedade americana após décadas de conflitos iniciados depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Como observa o cientista político John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, “os Estados Unidos têm uma tendência histórica de superestender seu poder militar em conflitos periféricos, muitas vezes sem ganhos estratégicos claros”.
No entanto, desde que retornou à Casa Branca, Trump autorizou ou ampliou operações militares em várias regiões do mundo, muitas delas justificadas sob o guarda-chuva da chamada “guerra ao terror”, iniciada após o 11 de Setembro durante o governo de George W. Bush.
Irã: o ataque que matou o líder supremo
O episódio mais dramático ocorreu no Irã, após meses de escalada retórica entre Washington e Teerã.
Em 28 de junho, os Estados Unidos realizaram um ataque conjunto com Israel que matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei. A ofensiva também eliminou parte significativa da elite militar iraniana, incluindo o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, o chefe das Forças Armadas, Sayyid Abdolrahim Mousavi e o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Pakpour
Ao anunciar a operação, Trump afirmou que a ação era necessária para impedir o avanço do programa nuclear iraniano.
“Eles jamais poderão ter uma arma nuclear”, declarou o presidente americano ao justificar o ataque.
O governo iraniano sempre afirmou que seu programa nuclear tem fins pacíficos, embora especialistas internacionais apontem que o país enriquece urânio em níveis próximos aos necessários para armas nucleares.
O ataque criou um vácuo de poder em Teerã, aumentando a instabilidade no Oriente Médio.
Venezuela: captura de Maduro
Outra intervenção de grande impacto ocorreu na Venezuela, em 3 de janeiro, quando forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
A operação resultou em cerca de 80 mortes e ocorreu após meses de bombardeios contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico.
Maduro foi levado aos Estados Unidos para responder por acusações relacionadas ao tráfico internacional de drogas.
A liderança venezuelana passou então para Delcy Rodríguez, que assumiu como dirigente interina e iniciou uma aproximação com Washington.
Entre as mudanças ocorridas após a operação:
– redução do controle estatal sobre a indústria petrolífera venezuelana
– abertura ao investimento privado estrangeiro
– libertação de dezenas de presos políticos
Apesar disso, a estrutura central do regime chavista permaneceu intacta.
Síria: operações após a queda de Assad
Na Síria, as operações americanas ocorreram em meio à instabilidade política que se seguiu à queda do ditador Bashar al‑Assad, em dezembro de 2024.
Durante o segundo semestre de 2025, Washington realizou cerca de 80 operações militares no país.
Segundo o Comando Central dos EUA, as ações foram resposta a 11 planos ou ataques contra alvos americanos.
A ofensiva ganhou nova intensidade após um ataque em Palmira, em dezembro de 2025, que matou dois soldados americanos e um intérprete civil.
Trump responsabilizou o grupo jihadista Islamic State pelo ataque.
Em resposta, os Estados Unidos, em coordenação com a Jordânia e com cooperação do governo sírio, atingiram mais de 70 alvos em dezembro e ampliaram a ofensiva em janeiro, mirando 35 posições atribuídas ao grupo extremista.
Nigéria: bombardeio no Natal
Em dezembro de 2025, os Estados Unidos bombardearam alvos no noroeste da Nigéria.
A ação foi justificada por Trump como resposta ao que chamou de “massacre de cristãos” no país africano.
Meses antes, Washington havia incluído a Nigéria na lista de “países de preocupação especial” em relação à liberdade religiosa.
Especialistas em segurança africana, no entanto, afirmam que a violência no país atinge comunidades de diferentes religiões e está associada a conflitos étnicos, territoriais e à atuação de grupos jihadistas.
Apesar das divergências diplomáticas, o governo nigeriano cooperou com a operação, que atingiu 16 alvos considerados terroristas.
Iraque: continuidade da guerra ao terror
No Iraque, os Estados Unidos mantiveram a redução gradual de tropas iniciada durante governos anteriores.
A presença militar americana no país está ligada à operação Inherent Resolve, lançada em 2014 pelo presidente Barack Obama para combater o Estado Islâmico.
Ainda assim, Trump autorizou diversas operações antiterrorismo.
Uma das mais relevantes ocorreu em março de 2025, quando um ataque aéreo matou Abdallah Makki Muslih al-Rifai, conhecido como Abu Khadijah, apontado como um dos principais líderes do Estado Islâmico.
Somália: expansão das operações
Na Somália, o governo Trump ampliou significativamente os ataques contra grupos jihadistas.
Segundo dados da organização New America, os Estados Unidos realizaram 126 operações militares no país em 2025, resultando na morte de cerca de 200 combatentes.
Os alvos principais foram:
– o grupo Al‑Shabaab, afiliado à al-Qaeda
– o EI-Somália, ligado ao Estado Islâmico
Apesar da intensificação dos ataques, relatórios do Council on Foreign Relations indicam que o Al-Shabaab continua ativo e tem ampliado sua influência territorial, aproximando-se da capital Mogadíscio.
Iêmen: ofensiva contra os houthis
No Iêmen, os ataques americanos tiveram como alvo os rebeldes houthis, grupo apoiado pelo Irã que vinha atacando navios no mar Vermelho e cidades israelenses em solidariedade aos palestinos na guerra da Faixa de Gaza.
Em cooperação com o Reino Unido, Washington realizou mais de 800 ataques contra posições houthis, segundo dados do Exército americano.
A operação custou mais de US$ 1 bilhão, de acordo com membros do Congresso dos EUA, e foi encerrada abruptamente em maio de 2025.
Entre retórica populista e realismo geopolítico
O contraste entre o discurso eleitoral e as ações militares do governo Trump reflete uma tensão histórica da política externa americana.
O cientista político Samuel P. Huntington já observava, na década de 90, que os Estados Unidos frequentemente oscilam entre idealismo retórico e pragmatismo estratégico. “Os americanos gostam de acreditar que sua política externa é guiada por princípios morais, mas na prática ela é moldada por interesses nacionais e relações de poder”.
Para críticos, a atual política externa de Trump evidencia exatamente esse paradoxo.
O líder que prometeu retirar os Estados Unidos de conflitos prolongados no exterior agora comanda uma série de intervenções militares simultâneas, muitas delas com impacto direto na estabilidade de regiões já marcadas por guerras e crises políticas.
No fim das contas, a promessa de encerrar as “guerras inúteis” parece ter dado lugar a algo bem mais familiar na história americana: a persistência do intervencionismo como instrumento de poder global.
Europa hesita diante da escalada com o Irã
O governo de Donald Trump busca ampliar o respaldo político e logístico de aliados europeus. Do outro lado do tabuleiro geopolítico, Teerã aposta em uma estratégia de dispersão do conflito, direcionando ataques ou ameaças a países que hospedam bases militares americanas ou oferecem suporte às operações conduzidas pelos Estados Unidos e por Israel. O resultado é uma guerra que, embora centrada no Oriente Médio, já começa a reverberar de forma mais ampla no sistema internacional.
Segundo analistas de relações internacionais, o cálculo estratégico da Casa Branca passa menos por mobilizar tropas europeias em combate direto e mais por garantir apoio político, defesa aérea e capacidade logística. Para Danny Zahreddine, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o objetivo de Washington é consolidar uma rede de proteção regional para aliados no Oriente Médio.
“Ele quer um esforço coletivo para que países da Europa mobilizem suas áreas de defesa para atuar em prol de aliados árabes que estão sofrendo ataques do Irã”, afirma Zahreddine.
Na prática, isso significaria a mobilização de sistemas defensivos — aviões, navios e baterias antimísseis — capazes de interceptar drones e projéteis disparados por forças iranianas ou por grupos aliados de Teerã.
Pressão diplomática sobre aliados
A tentativa de ampliar esse apoio já gerou fricções dentro da própria aliança ocidental. Um dos episódios mais emblemáticos envolveu a Espanha.
Após Madri recusar a utilização de bases militares em seu território para ataques contra o Irã, Trump reagiu de forma contundente. Durante reunião com o chanceler alemão Friedrich Merz, o presidente americano acusou o país europeu de agir de forma hostil.
“A Espanha tem sido terrível. Vamos cortar todas as relações comerciais”, declarou.
O episódio também foi acompanhado de críticas de Washington à resistência espanhola em ampliar gastos militares dentro da NATO — aliança que os Estados Unidos pressionam para que os membros passem a investir até 5% do PIB em defesa.
A reação espanhola foi imediata. O primeiro-ministro Pedro Sánchez defendeu publicamente a posição de seu governo.
“Pode-se ser contra um regime odioso, como é o caso do regime iraniano, e ao mesmo tempo ser contra uma intervenção militar injustificada e perigosa, fora do direito internacional”, afirmou.
Após a decisão de Madri, diversas aeronaves militares americanas deixaram o país.
Apoio cauteloso das grandes potências europeias
Entre as principais potências do continente, a postura tem sido marcada por apoio político moderado e envolvimento militar limitado.
O Reino Unido autorizou o uso de duas bases britânicas para ataques classificados como “defensivos” contra instalações de mísseis iranianas. Londres também anunciou o envio de uma fragata e helicópteros equipados para interceptação de drones.
A França, por sua vez, reforçou sua presença militar no Oriente Médio depois que uma base francesa nos Emirados Árabes Unidos foi atingida por um drone iraniano.
Já a Alemanha tem mantido uma postura mais prudente. O governo de Merz declarou que suas forças armadas permanecem preparadas para medidas defensivas, mas descartou qualquer participação em ações ofensivas.
Apesar dessas diferenças de abordagem, os três países divulgaram uma declaração conjunta advertindo Teerã de que poderiam destruir sua capacidade de lançamento de mísseis e drones caso os ataques iranianos continuassem.
Uma Europa fragmentada
Mesmo com essa coordenação pontual, a resposta europeia ao conflito tem sido marcada por divisões políticas e dificuldades de coordenação.
Autoridades do continente já haviam acompanhado nas semanas anteriores o aumento da presença militar americana no Oriente Médio. Ainda assim, a velocidade da escalada surpreendeu governos europeus, que agora enfrentam pressões internas e externas.
Entre as principais preocupações estão:
– a segurança de milhares de cidadãos europeus que vivem ou trabalham na região;
– a possibilidade de operações de evacuação em larga escala;
– o impacto econômico da crise.
Os efeitos já são visíveis. Os preços do gás na Europa atingiram níveis comparáveis aos registrados no início da invasão russa da Ucrânia em 2022, alimentando temores de uma nova crise energética.
O dilema político europeu
Outro fator que contribui para a hesitação do continente é o temor de aprofundar tensões com Washington.
Desde o início das operações militares, líderes europeus têm evitado questionar diretamente a legalidade das ações dos Estados Unidos e de Israel sob o direito internacional. A própria chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, manteve um discurso cuidadoso em relação à ofensiva.
Essa cautela reflete uma preocupação estratégica mais ampla: evitar que o conflito no Oriente Médio desvie a atenção americana da guerra na Ucrânia, considerada prioridade de segurança para o continente.
Mudança no equilíbrio nuclear europeu
A escalada também reacendeu debates sobre segurança estratégica na Europa.
O presidente francês Emmanuel Macron anunciou uma revisão da doutrina nuclear da França e a ampliação de seu arsenal de ogivas. Segundo ele, a decisão reflete mudanças no equilíbrio global de poder.
“Nossos concorrentes evoluíram, assim como nossos parceiros”, declarou.
O anúncio ocorre em um momento em que a Europa enfrenta simultaneamente três desafios estratégicos:
– uma Rússia militarmente agressiva nas fronteiras orientais;
– uma China cada vez mais assertiva economicamente;
– e um aliado americano percebido como mais imprevisível.
Diante desse cenário, países como Suécia, Alemanha e Polônia já iniciaram conversas com Paris sobre a possibilidade de ampliar o chamado guarda-chuva nuclear europeu, tradicionalmente garantido pelos Estados Unidos.
Cooperação europeia sob pressão
Apesar das discussões sobre maior autonomia estratégica, transformar esse objetivo em realidade continua sendo um desafio.
Um dos principais obstáculos está na fragmentação das indústrias militares europeias. Enquanto os Estados Unidos operam cerca de 30 sistemas de armas diferentes, os países da Europa utilizam 178 modelos distintos, frequentemente redundantes.
A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, resumiu o problema de forma direta ao comentar o atual modelo de defesa continental: “Ineficiente, caro e lento.”
Uma nova era de alianças flexíveis
Diante dessas limitações, cresce a tendência de formação de coalizões menores e mais flexíveis entre países europeus e aliados externos.
Projetos militares conjuntos, pactos regionais de defesa e cooperação com países como Canadá, Japão e Coreia do Sul vêm se multiplicando nos últimos anos.
A lógica é simples: em um cenário internacional cada vez mais marcado pela rivalidade entre grandes potências, poucos governos acreditam que a segurança possa ser garantida apenas por estruturas multilaterais tradicionais.
O desafio, no entanto, permanece o mesmo que se evidencia na crise atual: conciliar interesses nacionais distintos dentro de uma estratégia comum. E, diante do conflito crescente entre Washington e Teerã, essa dificuldade tornou-se mais visível do que nunca.
Rússia desmente principal justificativa para guerra
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou na terça-feira (3) que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a inteligência dos Estados Unidos confirmaram que o Irã não estava tentando produzir armas nucleares – desmentindo a principal justificativa para a guerra.
Durante coletiva de imprensa conjunta com o vice-ministro das Relações Exteriores de Brunei, Erywan Yusof, Lavrov acrescentou: “Ainda não vemos nenhuma evidência de que o Irã estivesse desenvolvendo armas nucleares – o que era a principal, senão a única, justificativa para a guerra”.
O ministro afirmou que as consequências da agressão militar de Washington e Tel Aviv contra Teerã estão sendo sentidas em todo o Oriente Médio, onde, segundo Lavrov, uma “guerra virtual” está sendo travada. Ele observou que até países árabes da região estão “arcando com custos econômicos e algumas perdas humanas”.
Lavrov defendeu a cessação imediata das hostilidades por todas as partes. “Como primeiro passo, todos os esforços devem ser feitos para impedir quaisquer ações que causem vítimas civis, seja no Irã, onde mais de 150 meninas foram mortas em um ataque a uma escola, ou em qualquer outro país do Golfo”, declarou. Ele acrescentou que, em países árabes amigos, a infraestrutura civil também está sofrendo, e é essencial garantir que todas essas ações cessem.
A posição da China segue alinhada à da Rússia. Nesta terça-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, declarou que Pequim pede o fim imediato da agressão militar dos EUA e de Israel contra o Irã e a retomada urgente do diálogo sobre o programa nuclear iraniano.
Mao enfatizou que “o renovado ataque de Washington a Teerã durante o processo de negociação viola o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais, o que levou a uma escalada repentina da situação no Oriente Médio“.
A porta-voz afirmou que a China respeita o direito do Irã ao uso pacífico da energia nuclear e que Pequim tem defendido consistentemente uma solução pacífica para a questão por meio do diálogo.
Mao Ning observou que Teerã tem declarado repetidamente que seu programa nuclear tem fins pacíficos. “Observamos que o Irã reiterou que não tem intenção de desenvolver armas nucleares e que recentemente manteve negociações sérias e sinceras com os Estados Unidos”, enfatizou.
A porta-voz concluiu afirmando que a questão nuclear iraniana deve retornar ao caminho da resolução política e diplomática. “Exigimos a cessação imediata das ações militares, a retomada rápida das negociações e a manutenção do sistema internacional de não proliferação nuclear, bem como a paz e a estabilidade no Oriente Médio e no mundo.”
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