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Mundo
Riqueza de 1% mais ricos acumulada em 10 anos acabaria com a pobreza por 22 anos
Publicado em 27/06/2025 12:17 - Semana On
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Se apenas 1% da população mundial pode erradicar a pobreza por mais de duas décadas com o que acumulou desde 2015, por que seguimos imersos em desigualdades crônicas? Essa é a pergunta incômoda que emerge do relatório divulgado pela Oxfam Internacional ontem (26). Segundo a organização, os super-ricos acumularam, em menos de uma década, um valor que poderia sustentar a erradicação da pobreza global anual por 22 anos consecutivos. Enquanto isso, a ajuda oficial ao desenvolvimento está em retração histórica, e países de baixa renda enfrentam uma espiral de endividamento que compromete serviços básicos como educação e saúde.
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No documento intitulado Do lucro privado ao poder público: financiar o desenvolvimento, não a oligarquia, a Oxfam denuncia um “aumento astronômico” da riqueza privada entre 1995 e 2023, que somou US$ 342 bilhões — oito vezes o crescimento da riqueza pública no mesmo período. Só entre 2015 e 2023, os 1% mais ricos do planeta viram sua fortuna crescer US$ 33,9 bilhões, mesmo após o advento da pandemia de COVID-19 e os sucessivos choques econômicos globais.
O paradoxo do crescimento e a retração da solidariedade
Esses números ganham ainda mais dramaticidade quando se observa o outro lado da balança. A Oxfam destaca que os países do G7, responsáveis por cerca de 75% de toda a ajuda oficial ao desenvolvimento, estão reduzindo essa assistência em 28% até 2026, comparado aos níveis de 2024. É a maior retração desde o início dos registros da ajuda internacional, em 1960. Em paralelo, a crise da dívida impõe um estrangulamento financeiro aos países pobres, que gastam mais com credores privados do que com seus sistemas públicos de saúde ou educação.
Esses credores, segundo o relatório, detêm mais da metade da dívida dos países de baixa e média renda e frequentemente se recusam a renegociar os termos, impondo cláusulas punitivas que agravam ainda mais o ciclo da pobreza. Trata-se, nas palavras da Oxfam, de um sistema que transfere riqueza das nações mais vulneráveis para as mãos de uma elite financeira global, num movimento de “sangria organizada”.
A falência de um modelo e o apelo por reformas estruturais
A Oxfam propõe um redesenho radical do sistema global de financiamento do desenvolvimento. Entre as propostas estão a tributação progressiva dos ultrarricos, a rejeição da financeirização como panaceia para o crescimento e uma reforma profunda da arquitetura da dívida internacional. Também se propõe a revitalização da ajuda oficial e a formação de novas alianças estratégicas internacionais focadas no combate à desigualdade extrema.
“É necessário um rompimento com o dogma neoliberal que orienta as políticas globais desde os anos 1980”, afirma o economista Thomas Piketty, em linha com as preocupações do relatório. Em seu livro Capital e Ideologia (2019), Piketty defende que “toda desigualdade extrema é uma construção política e ideológica, e não uma consequência inevitável da economia de mercado”.
Um espelho do fracasso político global
O que se vê, portanto, é um colapso moral e político: enquanto alguns poucos acumulam fortunas equivalentes a 14,6% de todo o PIB mundial — como aponta o relatório ao destacar que apenas 3 mil bilionários concentram US$ 6,5 bilhões —, milhões seguem sem acesso a serviços básicos. “Estamos diante de um fracasso civilizatório que mina os próprios fundamentos da democracia”, alerta a cientista política Wendy Brown. Em Undoing the Demos (2015), ela argumenta que a lógica neoliberal captura as instituições democráticas e as reorienta para os interesses do capital privado.
Essa captura não é meramente teórica: é refletida nos orçamentos públicos, nas prioridades de investimento e na fragilidade institucional que impede reformas tributárias redistributivas, especialmente nos países do Sul Global.
Brasil e o Sul Global: entre a pressão e a resistência
O Brasil, um dos países analisados pela pesquisa conduzida pela empresa Dynata para a Oxfam, exemplifica as contradições desse modelo. Embora figure entre as maiores economias do mundo, permanece um dos campeões mundiais em desigualdade. Segundo o IBGE, os 10% mais ricos do país detêm quase 60% da renda nacional. Reformas tributárias progressivas seguem enfrentando forte resistência política e lobby empresarial, enquanto programas sociais são constantemente ameaçados por contingenciamentos orçamentários.
Ainda assim, o Brasil também tem sido palco de propostas alternativas, como a taxação de grandes fortunas e a ampliação do financiamento público de políticas sociais, temas que vêm ganhando espaço no debate político recente. O desafio, contudo, continua sendo estrutural: como reverter um modelo que, por desenho, privilegia a acumulação em detrimento da justiça social?
Democracia ameaçada pela desigualdade
Ao expor com dados robustos o abismo entre a riqueza acumulada e a miséria persistente, o relatório da Oxfam lança luz sobre uma crise ética global. A democracia, fundada no princípio da igualdade política, perde legitimidade quando convive com desigualdades econômicas tão grotescas. Como alertou o sociólogo Norberto Bobbio em A Era dos Direitos (1990): “A realização da democracia depende, antes de tudo, de uma distribuição equitativa dos recursos econômicos e culturais”.
No fundo, a concentração de riqueza extrema não é apenas uma distorção econômica: é uma ameaça sistêmica à democracia e à dignidade humana. Romper com essa lógica exige mais do que reformas técnicas — exige coragem política, pressão social e, sobretudo, um novo pacto ético global.
ONU alerta para risco iminente em 13 regiões do planeta
Gaza, Sudão, Sudão do Sul, Haiti e Mali estão à beira de uma catástrofe alimentar em escala jamais vista na última década. O alerta vem de um novo relatório das Nações Unidas, divulgado no último dia 16, que aponta o avanço da fome extrema em 13 pontos críticos ao redor do mundo. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e o PMA (Programa Mundial de Alimentos), esses territórios enfrentam, de forma combinada, o colapso de suas estruturas produtivas, o avanço da violência armada e o impacto brutal de eventos climáticos extremos.
“Este relatório é um alerta vermelho. Sabemos onde a fome está aumentando e sabemos quem está em risco”, declarou Cindy McCain, diretora executiva do PMA. “Sem financiamento e acesso, não podemos salvar vidas.”
Segundo os parâmetros da ONU, para que uma região seja oficialmente declarada em estado de fome, é necessário que 20% da população enfrente escassez extrema de alimentos, com 30% das crianças gravemente desnutridas e ao menos duas mortes por dia, para cada 10 mil pessoas, causadas por fome, desnutrição ou doenças relacionadas.
Gaza: a fome como consequência direta da guerra
A situação mais dramática ocorre em Gaza. Desde o início das operações militares de Israel, a região vive um bloqueio que impede o acesso contínuo a alimentos, água e ajuda médica. Quase toda a população — cerca de 2,1 milhões de pessoas — enfrenta insegurança alimentar aguda, e mais de 495 mil indivíduos já estão em risco iminente de fome até o final de setembro. A ONU e organizações humanitárias relatam dificuldades severas de acesso devido à destruição de infraestrutura e impedimentos impostos por Israel às rotas de ajuda.
O uso da fome como instrumento de guerra não é novo. Em Fome como Arma de Guerra (2022), a pesquisadora Alex de Waal afirma que “quando a fome é deliberadamente usada para privar populações civis como método de controle ou punição, estamos diante de um crime contra a humanidade”. Essa definição se encaixa no que diversos especialistas vêm chamando de “fome induzida” em Gaza.
Sudão e Sudão do Sul: conflitos que devastam o futuro
No Sudão, palco de uma guerra civil intensificada em 2023, a fome já é uma realidade. Quase 25 milhões de pessoas estão em risco, e os deslocamentos em massa agravam a incapacidade do país de produzir e distribuir alimentos. No vizinho Sudão do Sul, 7,7 milhões de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar nos próximos meses, com 63 mil delas em situação comparável à fome total, especialmente em regiões devastadas por inundações e instabilidade política.
Haiti e Mali: entre gangues e abandono
No Haiti, o avanço do controle territorial por gangues armadas expulsou milhares de famílias de suas casas e comprometeu o funcionamento básico do comércio e da agricultura. Atualmente, 8,4 mil haitianos já vivem em condição de fome catastrófica. No Mali, o aumento do preço dos grãos e os efeitos de conflitos armados internos colocam ao menos 2.600 pessoas sob risco até agosto, número que tende a aumentar com a aproximação da estação seca.
Outros países listados com preocupações graves incluem Nigéria, Mianmar, Iêmen e República Democrática do Congo — todos marcados por instabilidade política, presença de grupos armados, deslocamentos internos e falta crônica de assistência internacional.
Clima, economia e política: as três engrenagens da crise
O relatório atribui a crise alimentar a três fatores interligados: choques econômicos, riscos climáticos extremos e conflitos armados prolongados. Essa combinação, como mostra a FAO, afeta não apenas o acesso imediato a alimentos, mas destrói os meios de produção de comunidades inteiras, que perdem rebanhos, plantações e sistemas de irrigação.
“Proteger as fazendas e os animais das pessoas para garantir que elas possam continuar produzindo alimentos onde estão, mesmo nas condições mais difíceis e adversas, não é apenas urgente — é essencial”, afirmou o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.
A perspectiva de agravamento é reforçada pelo subfinanciamento crônico das missões humanitárias. A ONU aponta que o acesso a comunidades vulneráveis está sendo severamente limitado, tanto pela insegurança quanto pela escassez de recursos financeiros. Em um mundo onde trilhões circulam livremente nos mercados financeiros, a falta de US$ 10 bilhões para suprir necessidades básicas da população mundial mais vulnerável evidencia, mais uma vez, uma escolha política.
Democracia, direitos e o imperativo da solidariedade global
A fome extrema, em qualquer parte do mundo, não é um fenômeno natural, mas uma falha coletiva da governança global. Amartya Sen, economista indiano e Prêmio Nobel, escreveu em Desenvolvimento como Liberdade (1999) que “nenhuma democracia funcional jamais enfrentou uma fome de larga escala”. Sua tese continua válida: onde há instituições democráticas e participação popular real, as políticas de resposta são mais rápidas e eficazes.
No entanto, em uma era de retração da solidariedade internacional — como apontou recentemente a Oxfam em relatório complementar — a fome extrema deixa de ser um acidente e se consolida como produto do abandono deliberado. Segundo dados da ONU, mais de 282 milhões de pessoas vivem atualmente em níveis de insegurança alimentar aguda no mundo, número que pode crescer diante do avanço de guerras, mudanças climáticas e recessões econômicas.
Sinais de esperança e responsabilidade compartilhada
Há, ainda assim, sinais positivos. Países como Etiópia, Quênia e Líbano conseguiram ser retirados da lista de Pontos Críticos de Fome graças à combinação de apoio internacional, investimento em agricultura comunitária e políticas de estabilização. Esses exemplos mostram que a reversão é possível — mas exige vontade política, cooperação multilateral e, sobretudo, a recusa da fome como destino inevitável.
Enquanto isso, o mundo assiste, em tempo real, ao agravamento de crises alimentares que poderiam ser evitadas. O relatório da ONU, mais do que um alerta técnico, é um chamado moral: ignorar esses dados é aceitar que milhões morram de fome sob nossos olhos.
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