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Mundo
Estratégia pressiona cadeias energéticas, rotas eurasiáticas e a economia de Pequim
Publicado em 03/03/2026 1:56 - Semana On
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O fechamento do Estreito de Ormuz não é um episódio regional. É um teste de estresse no coração energético da China. Dos cerca de 20 milhões de barris que cruzam diariamente aquela faixa de 50 quilômetros, quase metade segue para portos chineses. A China consome 11 milhões de barris por dia e é o maior importador mundial; 80% do petróleo exportado pelo Irã — algo entre 80% e 90%, segundo diferentes estimativas de 2025 — tem a China como destino. E isso representa 13,4% das importações totais chinesas. Parece pouco isoladamente. Mas some-se Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos, cujos fluxos também passam por Ormuz, e chega-se a metade do petróleo consumido pela China atravessando aquele gargalo. Quando Trump autoriza ataques que culminam na morte de Ali Khamenei e, meses antes, captura Nicolás Maduro, o impacto secundário — ou não tão secundário — atinge diretamente Pequim.
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A leitura de que Irã, Venezuela e Ucrânia são frentes de uma mesma disputa estratégica não é retórica inflamada; é interpretação recorrente em círculos geopolíticos. O dado estruturante é a ascensão chinesa. Há trinta anos, a aposta ocidental era que a integração da China à globalização — leia-se, ao sistema moldado pelos Estados Unidos — produziria convergência política e dependência estratégica. O resultado foi outro. Jogando pelas regras da OMC, a China industrializou-se, acumulou reservas, construiu cadeias logísticas globais e manteve autonomia política sob o Partido Comunista. A reação começou a se desenhar com o “pivot to Asia”, anunciado por Barack Obama em 2012, deslocando o eixo militar para o Indo-Pacífico. Com Trump, vieram tarifas, protecionismo e a retórica de confronto.
No caso russo, o histórico é conhecido. A expansão da OTAN, ignorando alertas de figuras como George Kennan e Henry Kissinger, alimentou a percepção de cerco em Moscou. Em 2019, a RAND Corporation publicou “Overextending and Unbalancing Russia”, sugerindo formas de “estressar” a Rússia, incluindo o fornecimento de ajuda letal à Ucrânia. Após a anexação da Crimeia e a escalada posterior, Washington e aliados ampliaram o apoio militar a Kiev. Em 2023, Aaron Wess Mitchell advertiu que os EUA poderiam perder uma guerra se atuassem em três frentes simultâneas — China, Rússia e Irã — porque seus adversários precisariam ser fortes apenas em suas regiões. A conclusão prática foi dividir o tabuleiro: empurrar parte do ônus ucraniano para a Europa, concentrar pressão no Irã — o elo mais frágil — e manter o foco estrutural na China.
É nesse ponto que Venezuela e Irã deixam de ser peças isoladas. A invasão de Caracas em 3 de janeiro e a captura de Maduro retiraram de Pequim um fornecedor estratégico na América Latina. O petróleo venezuelano, antes direcionado majoritariamente à China, passou a abastecer prioritariamente o mercado norte-americano. Já no Oriente Médio, o Irã funciona como nó geográfico da integração eurasiática, conectando Ásia Central, Cáucaso e Golfo Pérsico. É membro da Organização para Cooperação de Xangai desde 2023 e do Brics+ desde 2024. Um colapso do regime significaria não apenas perda energética para a China, mas fratura simbólica nos mecanismos multilaterais que Pequim e Moscou tentam fortalecer.
O vínculo sino-iraniano é, antes de tudo, econômico. A China é o maior parceiro comercial do Irã e sua principal tábua de salvação sob sanções. Em 2025, comprou mais de 80% do petróleo exportado por Teerã, muitas vezes com desconto, via “frotas fantasmas” que contornam restrições ocidentais. As receitas ajudaram a estabilizar a economia iraniana e financiar gastos de defesa. Desde abril de 2025, parte dessas transações passou a ser liquidada em renminbi, após a exclusão do Irã do sistema Swift. É um movimento técnico, mas com implicações estratégicas: reduz a centralidade do dólar e testa alternativas ao sistema financeiro dominado pelo Ocidente.
Politicamente, a China tem atuado como escudo diplomático do Irã em fóruns internacionais, usando ou insinuando o uso de veto no Conselho de Segurança da ONU. Mas evita intervenção militar direta. Como observou o pesquisador Maurício Santoro, a ideia de uma China como potência global de intervenção ainda não se confirma; sua projeção militar permanece concentrada no espaço Ásia-Pacífico. Pequim subsidia aliados com equipamentos e informações — a apreensão, em 2025, de um navio com material militar chinês destinado a Teerã, noticiada pelo Wall Street Journal, é um exemplo —, mas não envia tropas. A estratégia é de longo prazo: manter canais abertos com quem estiver no poder e preservar interesses estruturais.
Do ponto de vista jurídico, a controvérsia é central. Para o jurista Christoph Safferling, da Universidade de Erlangen-Nuremberg, a Carta da ONU estabelece uma proibição abrangente do uso da força, salvo mandato do Conselho de Segurança ou autodefesa diante de ameaça iminente. No caso dos ataques ao Irã, EUA e Israel invocaram autodefesa. O problema é que havia negociações em curso sobre o programa nuclear iraniano. Se a noção de “ameaça iminente” se torna elástica, abre-se precedente perigoso. A própria China poderia, sob lógica semelhante, reivindicar direito de ação em Taiwan alegando autodefesa preventiva. A Rússia já utilizou argumento próximo ao justificar sua “operação militar especial” na Ucrânia.
A reação chinesa combina condenação moral e cálculo frio. Wang Yi classificou como “inaceitável” o assassinato do líder de um Estado soberano. Xi Jinping falou em ponto de virada histórico e defendeu fortalecimento das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, Pequim evita confronto militar direto e aposta na erosão gradual da hegemonia americana por meios econômicos, tecnológicos e financeiros. A aproximação com a Europa — reafirmando, com a Alemanha, a centralidade da Carta da ONU — faz parte desse esforço de diferenciação: apresentar-se como potência responsável, ainda que seus próprios interesses em Taiwan revelem tensões.
O fechamento de Ormuz expõe a vulnerabilidade chinesa. Se prolongado, pressiona preços globais, afeta cadeias industriais e pode desacelerar o crescimento da segunda maior economia do mundo. Mas também acelera incentivos para diversificação de rotas, estoques estratégicos e transição energética. A China já investe maciçamente em renováveis e veículos elétricos; cada choque no Golfo reforça a lógica de reduzir dependência de gargalos controlados por atores hostis.
No fim, a tentativa de esmagar a China pela via energética e econômica revela a natureza do conflito: não é apenas disputa territorial, é disputa sobre quem define as regras. Washington recorre a sanções, tarifas e força militar para preservar primazia. Pequim responde com comércio, moeda e redes de infraestrutura. A história sugere cautela. Hegemonias raramente cedem sem resistência; potências emergentes raramente aceitam contenção passivamente. Entre Ormuz e Caracas, o que se joga é menos o destino de regimes específicos e mais a arquitetura do poder no século XXI.
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