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Mundo

A nazificação dos Estados Unidos

Propaganda supremacista pede que americanos “denunciem” estrangeiros

Publicado em 12/06/2025 12:32 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Sob o retorno do discurso nacionalista e xenófobo que marcou sua primeira gestão, o ex-presidente Donald Trump reinstalou nos Estados Unidos um sistema oficial de delações contra imigrantes, impulsionando prisões em massa, perseguições e violações de direitos humanos. Em resposta, a comunidade brasileira — já duramente afetada — organizou sua primeira ação coordenada desde 2016, denunciando que está sendo “caçada como animal” e pedindo apoio ao governo Lula diante do colapso dos consulados e da omissão diplomática frente ao avanço do autoritarismo migratório.

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O retorno da delação como política de Estado

No centro da nova ofensiva anti-imigrante está uma campanha promovida pela Casa Branca, com clara inspiração nos métodos de controle social dos regimes totalitários do século XX. O cartaz oficial, publicado nas redes do governo, traz a figura do Tio Sam — símbolo das campanhas de guerra americanas — conclamando: “Ajude seu país e a si mesmo. Delate todos os invasores estrangeiros.”

O uso da delação como instrumento de vigilância e punição civil remete, com desconcertante familiaridade, a práticas da Inquisição Espanhola e do nacional-socialismo alemão, onde o medo do “outro” e a mobilização do cidadão como braço do Estado moldaram as estruturas de opressão. Como aponta a filósofa Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (1951), uma das marcas centrais de regimes autoritários é “a destruição do espaço público como local de confiança entre iguais”, substituído pelo terror cotidiano e pela denúncia entre vizinhos.

A caça aos indocumentados — e a todos os outros

O governo norte-americano estabeleceu metas explícitas de deportação: 3 mil pessoas por dia, incluindo indivíduos sem qualquer histórico criminal. Para alcançar tal número, a repressão tem sido intensificada em locais que antes gozavam de certo resguardo moral e institucional, como igrejas, hospitais, escolas, campos agrícolas e cortes judiciais.

Esse avanço da política de imigração como aparato de punição generalizada expande o alvo para além de “criminosos perigosos” — retórica comum nos discursos trumpistas — atingindo agora qualquer pessoa fora de status migratório, inclusive famílias inteiras e trabalhadores há décadas nos EUA. Em muitos casos, empresas estariam sendo estimuladas a colaborar com o governo mediante incentivos ainda não esclarecidos.

Brasileiros organizados: a dor vira denúncia

Frente a esse cenário, a comunidade brasileira nos EUA organizou uma ação histórica: uma coletiva de imprensa em Boston com dezenas de entidades e lideranças civis, denunciando prisões arbitrárias, maus-tratos, tortura, algemas em crianças, detenções prolongadas sem acesso a água potável e violação do habeas corpus.

“Hoje somos caçados como animais. Não somos animais. Somos seres humanos. Precisamos agir e precisamos do apoio de nosso governo”, diz Álvaro Lima, do Instituto Diáspora Brasileira.

A denúncia ganhou corpo em uma carta oficial enviada ao governo Lula, na qual são feitas quatro exigências centrais:

1 Adoção de mecanismos diplomáticos para exigir o cumprimento da Convenção Contra a Tortura (ONU);

2 Fortalecimento urgente dos consulados brasileiros, incapazes de responder à demanda exponencial;

3 Audiência pública no Congresso Nacional para discutir a situação da diáspora brasileira;

4 Estabelecimento de canais permanentes de interlocução com a sociedade civil nos EUA.

Consulados em colapso e famílias sem documentos

Os relatos revelam um apagão institucional dos serviços consulares brasileiros. Em Boston, por exemplo, a demanda por atendimentos emergenciais cresceu sete vezes desde 2024. Há consulados com mais de 20 mil pedidos de passaportes e 5 mil certidões de nascimento parados. O impacto humanitário é direto: famílias não conseguem registrar filhos, renovar documentos ou retornar ao Brasil por falta de documentação.

“Temos filas de pessoas para registrar crianças. Há famílias querendo voltar ao Brasil, mas sem documentos”, afirma Lenita Reason, diretora do Brazilian Worker Center.

A ausência de ação mais contundente do Itamaraty levou lideranças como Patrick Garcia a exigir que os consulados deixem de julgar quem pede repatriação: “Não cabe a ninguém julgar o nível de medo. Se a família decide voltar, precisa respeitar a escolha.”

Violência institucional e o silêncio cúmplice

Entre os episódios relatados, há casos de pessoas presas por questões banais — como faróis queimados — e imigrantes detidos ao tentarem regularizar sua situação em escritórios oficiais. Muitos foram presos sem tempo sequer de se despedir dos filhos. O advogado Antonio Massa denuncia que há uma política deliberada de intimidação e invisibilização dos imigrantes: “O governo Trump tem cotas e precisa prender 3 mil pessoas por dia. Nem o habeas corpus está sendo respeitado.”

Além disso, aponta-se uma queda no fluxo de brasileiros em comércios e restaurantes, com desaparecimentos súbitos de trabalhadores, o que tem afetado economicamente comunidades locais.

A força da diáspora brasileira e o papel do Brasil

Estima-se que existam mais de 2 milhões de brasileiros vivendo nos EUA, dos quais cerca de 57% estão em condição migratória vulnerável. Segundo Álvaro Lima, a comunidade movimenta bilhões de dólares na economia local e é responsável por mais de 82 mil empregos diretos e indiretos.

A deputada estadual Priscila Souza, de Massachusetts, afirmou que até parlamentares republicanos estão constrangidos com a violência dos métodos utilizados: “Eles não imaginavam que seria assim.”

Em meio à escalada autoritária no campo migratório e à tentativa de normalização do terror como política pública, a atuação do Brasil não pode ser de silêncio diplomático. A pressão internacional, a denúncia nos fóruns multilaterais e o reforço da presença consular são deveres de um Estado que se diz defensor da democracia e dos direitos humanos.

Como já dizia o sociólogo Zygmunt Bauman, “em tempos de incerteza, os muros crescem e os pontes se tornam escassas”. Resta ao Brasil escolher se pretende ser muro ou ponte diante da diáspora que clama por socorro.

Crise nos consulados expõe abandono de brasileiros nos EUA


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