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Judiciário
Operação 'Ultima Ratio': magistrados seguem proibidos de acessar o TJMS
Publicado em 23/04/2025 2:29 - Semana On
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O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu prorrogar por mais 180 dias o afastamento de quatro desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), investigados por envolvimento em um dos mais graves escândalos de corrupção do Judiciário estadual. A decisão, assinada pelo ministro Cristiano Zanin, estende as medidas cautelares impostas desde outubro de 2024, quando a Polícia Federal deflagrou a operação Ultima Ratio. Apesar das acusações, os magistrados seguem sem uso de tornozeleira eletrônica.
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A operação, autorizada inicialmente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), investiga crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão, falsificação de documentos públicos e formação de organização criminosa. Entre os alvos estão os desembargadores Alexandre Aguiar Bastos, Marcos José de Brito Rodrigues, Sideni Soncini Pimentel e Vladimir Abreu da Silva, além do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Osmar Jeronymo, e seu sobrinho, Danillo Moya Jeronymo, servidor do TJMS.
As medidas cautelares mantidas incluem a proibição de acesso ao Tribunal, de uso de sistemas internos, e de qualquer contato com servidores da Corte. Segundo Zanin, a prorrogação foi necessária diante da ausência de manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre os relatórios da investigação.
Um Judiciário sob suspeita
A Ultima Ratio – nome que remete ao princípio jurídico segundo o qual o Direito Penal é a “última razão” do Estado para coibir crimes – desvelou um esquema que mina a credibilidade de uma das instituições mais essenciais à democracia: o Poder Judiciário. Com investigações conduzidas ao longo de três anos, a Polícia Federal encontrou mais de R$ 3 milhões em espécie, sendo R$ 2,7 milhões apenas na residência de um dos desembargadores. Armas de fogo também foram apreendidas.
“A confiança na imparcialidade da Justiça é o alicerce de qualquer Estado Democrático de Direito. Quando juízes se tornam réus, é a própria democracia que se fragiliza”, afirma o jurista Lênio Streck, professor de Direito Constitucional e crítico contundente do uso político das instituições. (Fonte: Revista Consultor Jurídico, 2023).
A gravidade do caso se reflete não apenas no volume dos recursos apreendidos ou na quantidade de envolvidos, mas na reincidência histórica de desvios dentro de instituições que deveriam zelar pelo cumprimento da lei. O filósofo francês Montesquieu já alertava, em O Espírito das Leis (1748), que “não há liberdade se o poder judiciário não for separado e autônomo”. A questão, no entanto, é quando a autonomia degenera em impunidade.
Um sistema que protege seus próprios desvios?
A suspensão do uso de tornozeleiras eletrônicas, determinada por Zanin após os primeiros dias da operação, gerou questionamentos sobre o tratamento privilegiado dado a agentes do Judiciário. Enquanto réus comuns permanecem sob vigilância constante, magistrados acusados de crimes graves mantêm certa liberdade, alimentando a percepção de que há uma “casta intocável” no sistema judicial brasileiro.
A defesa de Osmar Jeronymo afirmou, em nota, que não foi formalmente intimada da nova decisão e demonstrou estranhamento: “Parece que a prorrogação se deu de ofício, após o fim do prazo de 180 dias, e sem o Inquérito sequer estar no Gabinete do Ministro”.
Para a sociedade civil, os desdobramentos do caso levantam uma questão fundamental: como garantir que o combate à corrupção inclua também os setores mais protegidos do Estado? A ausência de mecanismos eficazes de controle externo do Judiciário é uma lacuna histórica no sistema brasileiro. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criado em 2004 com essa finalidade, frequentemente enfrenta resistências internas para investigar e punir seus membros.
O desafio da reforma institucional
Segundo relatório da Transparência Internacional (2023), o Brasil ocupa a 104ª posição no ranking global de percepção da corrupção, com destaque negativo para a morosidade e seletividade das punições. Casos como o do TJMS mostram que, sem reformas estruturais no sistema de Justiça, o combate à corrupção será sempre parcial.
A decisão do STF é um passo cauteloso, mas necessário. A prorrogação do afastamento evita a reintegração de agentes potencialmente corruptos ao coração do Judiciário. No entanto, é sintomático que a PGR ainda não tenha se pronunciado, mesmo após seis meses do início da operação.
Enquanto isso, o povo de Mato Grosso do Sul – e do Brasil – segue à espera de respostas, não apenas sobre a punição de culpados, mas sobre o futuro de um sistema judicial que precisa urgentemente recuperar sua legitimidade.