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Especial

VORCARO, RACHADINHA E MILÍCIA

Os fantasmas que rondam a campanha 'moderada' de Flávio Bolsonaro

Publicado em 15/05/2026 5:13 - BBC News, Semana ON

Divulgação

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A tentativa de transformar Flávio Bolsonaro em uma versão “moderada” do bolsonarismo esbarra, cada vez mais, nos fantasmas políticos, financeiros e morais que acompanham sua trajetória desde os tempos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Enquanto sua campanha investe numa imagem calculada de equilíbrio — o “Bolsonaro que tomou vacina”, que fala de feminicídio, dialoga com adversários e busca seduzir mulheres, jovens e setores da classe média —, o senador continua cercado por velhas e novas suspeitas que corroem justamente o ativo central de sua candidatura: a promessa de renovação sem ruptura com o legado do pai.

O escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de financiar com cifras milionárias um filme sobre Jair Bolsonaro, reativou denúncias de rachadinha, vínculos com milicianos e relações obscuras com personagens centrais da degradação política fluminense, ao mesmo tempo em que expôs fissuras profundas dentro do próprio bolsonarismo. Entre aliados que o consideram “moderado” e adversários que o definem como apenas um radical de linguagem mais polida, Flávio tenta equilibrar-se sobre uma contradição delicada: apresentar-se como herdeiro legítimo do capital eleitoral do pai sem carregar integralmente o peso político, judicial e simbólico do sobrenome Bolsonaro. O problema é que, à medida que a campanha avança, o passado parece decidido a disputar cada centímetro desse futuro.

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“Não é à toa que você é Bolsonaro moderado”. A fala é de Fernanda, esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um vídeo compartilhado por ambos nas redes sociais em abril.

“Reeduquei ele”, acrescenta ela, reforçando um certo distanciamento entre o marido e seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O conteúdo, que apresenta brevemente a história do casal e a rotina familiar com as duas filhas, faz parte da principal estratégia de campanha do parlamentar para alcançar o Palácio do Planalto: herdar o eleitorado do pai, ao mesmo tempo que busca atrair aqueles que o rejeitam por seu estilo e posições extremas.

No mesmo vídeo, Flávio também diz ser “o Bolsonaro que tomou vacina”, em contraponto à conduta do então presidente na pandemia de covid-19, quando levantou dúvidas sobre a eficácia da vacinação e se posicionou contra medidas preventivas, como uso de máscaras e o isolamento social.

Para muitos analistas políticos, a resposta do governo Bolsonaro à crise do coronavírus foi o principal motivo para ele ter perdido a tentativa de reeleição em 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, agora, deve enfrentar seu filho em outubro.

Ambos despontam como os candidatos mais fortes na corrida presidencial, após Flávio subir rapidamente nas intenções de voto, desde que anunciou, em dezembro, ter sido escolhido por seu pai para disputar a presidência pelo PL. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, os dois aparecem empatados em um eventual segundo turno.

Até aqui, o cenário de um segundo turno entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para as eleições de 2026. O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair e o petista em um eventual segundo turno.

Os planos de Flávio, porém, podem ter sofrido um abalo na quarta-feira (13), com a revelação de que manteve conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro cobrando aportes milionários em para a produção de um filme em homenagem ao seu pai.

Segundo o portal Intercept Brasil, o banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a obra no ano passado e Flávio teria feito contatos cobrando a liberação dos valores restantes do acordo de financiamento, que chegaria a R$ 134 milhões.

O senador nega qualquer ilegalidade, mas agora terá que responder na campanha pela proximidade com um dos nomes mais tóxicos da política brasileira — Vorcaro está preso negociando um acordo de delação premiada com potencial para atingir altas autoridades.

“No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. (…) Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, disse em nota.

A conexão com Vorcaro se soma a denúncias antigas que assombram o concorrente presidencial, como suspeitas de rachadinha (desvio de verba parlamentar) e vínculo com o miliciano Adriano da Nóbrega, ambas da época em que era deputado estadual no Rio de Janeiro — Flávio também nega as acusações.

Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o desafio para sua campanha aumentou.

“Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão”, afirma.

“Esse caso [envolvendo Vorcaro] vem como um balde de água fria nesse processo de desconstrução que estava sendo feito”, ressalta.

Bolsonarismo moderado?

Enquanto Flávio tenta construir uma versão suave do seu mentor, o lado petista investe na ideia de que “não existe Bolsonaro moderado” e que Flávio defende as mesmas agendas do ex-presidente.

Um vídeo compartilhado em abril pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) o acusa de ser de “extrema-direita” e “uma ameaça à nossa democracia e soberania”, citando falas do senador, como a sugestão de que um próximo presidente bolsonarista poderia ter que usar a força para garantir uma anistia ou um indulto a seu pai, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) considere a medida inconstitucional.

“É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes. Tudo que ninguém quer. E eu não estou falando aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça. Estou fazendo uma análise de cenário. É algo real que pode acontecer”, disse Flávio ao jornal Folha de S.Paulo em junho de 2025.

O vídeo petista cita também pedido feito por Flávio Bolsonaro em outubro para que os Estados Unidos bombardeiem navios na costa brasileira, repetindo o que fez contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas na Venezuela.

“O zero um é legítimo representante da extrema-direita carnívora e radical”, diz ainda a gravação, em referência ao primeiro filho de Bolsonaro.

Dentro da pré-campanha do Flávio, a leitura é que a mensagem de uma versão moderada estaria funcionando e contribuiu para sua rápida subida. Pesquisas internas captaram crescimento entre jovens, classe média e mulheres.

Esse movimento também apareceu nos levantamentos do instituto Quaest, quando comparados os resultados de um eventual segundo turno com Lula testados entre dezembro e abril. Pesquisa divulgada na quarta (13), porém, mostrou uma pequena reversão desses aumentos, ainda antes da divulgação das conversas com Vorcaro.

Com isso, no saldo de dezembro a maio, Flávio ganhou nove pontos percentuais entre eleitores de 16 a 34 anos, chegando a  45% contra 38% do atual presidente. Já na classe média, com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, subiu seis pontos para 44%, ante 40% de Lula.

Entre as mulheres, porém, o aumento foi mais modesto, subindo de 31% para 36%, ainda atrás do petista, que marcava 45% no levantamento de maio.

A estratégia nas redes

O senador tem apostado em conteúdos nas redes sociais para exibir sua moderação.

Em fevereiro, por exemplo, divulgou um vídeo exaltando a importância do Carnaval para a economia do país, em contraste com críticas conservadoras à festa.

Em 2019, primeiro ano de governo, seu pai criou polêmica ao compartilhar um vídeo de dois foliões em que um urinava no outro, seguido do comentário: “o que é golden shower?”.

Já em 8 de março, Dia da Mulher, Flávio compartilhou vídeos abordando problemas como a alta nos feminicídios e a falta de creches para que as mães possam deixar os filhos enquanto trabalham.

Em outra mensagem, celebrou figuras históricas da luta pelo direito das mulheres, como a feminista Berta Lutz, que liderou a conquista do voto feminino; Antonieta de Barros, primeira deputada negra brasileira; e Maria da Penha, ativista no combate à violência de gênero que dá nome a uma lei de proteção às mulheres.

Quando era presidente, Jair Bolsonaro chegou a ironizar a importância da lei, ao defender mais acesso a armas para mulheres se defenderem.

“Vamos supor que você está sozinha, à noite, numa estrada, e fura o pneu do seu carro. E, de repente, você percebe que está chegando gente que pode lhe causar algum problema. Você preferia sacar da bolsa a Lei Maria da Penha ou uma pistola?”, disse, em 2022.

Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), Flávio subiu rapidamente nas pesquisas, puxado pelo sentimento antipetista de parte do eleitorado e uma frustração com o desempenho econômico do governo Lula.

Na sua avaliação, ele não tenta ser uma versão moderada do pai, “ele é”, e isso é uma vantagem eleitoral.

“É uma vantagem porque a direita, que alguns chamam de extrema-direita, já percebeu que, pra governar, vai ter que ser assim. Vai ter que ser dialogando numa forma moderada e esquecer o radicalismo em algumas pautas que não nos levaram a nada”, disse à BBC News Brasil, citando como exemplo antigas críticas à política de cotas raciais e ao movimento sindical.

“O Flávio, quem acompanhou ele na Assembleia Legislativa [do Rio], já era o perfil parlamentar dele [de mais diálogo], inclusive sendo o contraponto do pai. Aqui [no Senado], ele está há sete anos com mandato, foi senador quando o pai era presidente, num período extremamente polêmico, de pandemia e tudo, e ele conseguiu dialogar, conseguiu acalmar muita coisa”, reforçou à reportagem, apontando para Flávio no plenário do Senado, quando conversava com um grupo de senadores.

‘Ele não é moderado, ele é fraco!’

No final de abril, repercutiram imagens do pré-candidato do PL conversando amistosamente com o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), durante a histórica sessão que barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Ao final, Flávio celebrou o resultado e disse que “o governo Lula acabou”, pois era a prova de que “não tem mais governabilidade”.

Por outro lado, ao responder a jornalistas sobre as articulações políticas por trás da rejeição a Messias, Flávio disse que não tinha qualquer responsabilidade nas negociações, levantando críticas ao seu estilo dentro da direita.

“Obviamente, para haver um placar desse, tem que haver a mobilização de algumas lideranças, mas não foi o meu caso”, disse.

A fala foi compartilhada pela vereadora Janaína Paschoal (PP-SP), seguida do comentário: “Amigos que abominam a esquerda desde sempre, vejam esse vídeo! Eu desejo muita saúde ao senador Flávio, mas ele não tem a menor condição de nos representar. Ele não é moderado, ele é fraco! Temos Caiado, temos Zema! Pelo amor de Deus, vamos mudar o rumo enquanto há tempo!”, disse, em referência a outros dois pré-candidatos presidenciais, os ex-governadores de Goiás e Minas Gerais.

Para Yuri Sanches, da AtlasIntel, Flávio se consolidou rapidamente como a opção principal dos eleitores bolsonaristas e antipetistas, mas segue em disputa uma faixa de 10% a 12% do eleitorado que não se alinha automaticamente com um dos lados da polarização política.

“Esse é o eleitorado que pode pender para um lado ou para o outro. Deu a vitória a Lula em 2022, mas, em momentos de fragilidade do governo, pode ser que esse eleitor tenda, ainda que momentaneamente, a pensar: ‘bom, acho que agora eu vou com o Flávio'”, analisa.

“Só que é um eleitorado que muitas vezes é apolítico ou é desengajado, não acompanha tanto [o noticiário] e deixa para tomar a decisão na reta final. Então, não necessariamente uma intenção de voto em Flávio Bolsonaro nesse momento vai se traduzir em uma migração completa”, pondera.

Uma pesquisa sobre rejeição aos candidatos da AtlasIntel realizada em março mostrou que os principais pontos de resistência ao senador vêm do eleitor que não quer um governo similar ao do pai e daqueles que consideram Flávio como alguém envolvido ou conivente com corrupção.

Um dos desafios da campanha, ressaltou Sanches antes da divulgação da conversa entre Flávio e Vorcaro, será responder sobre as antigas acusações de “rachadinha” em seu gabinete de deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde atuou por 16 anos, de 2003 a 2018, até se tornar senador.

É dessa época as suspeitas de desvio de verba parlamentar, compra de imóveis com dinheiro vivo e vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega, cuja mãe e esposa trabalharam no gabinete estadual de Flávio e teriam participado do esquema, segundo o Ministério Público — acusações que o senador nega e atribui à perseguição política contra o clã Bolsonaro.

A entrada na política aos 19 anos e o passado no Rio de Janeiro

Flávio Bolsonaro começou cedo na política, até mesmo antes de sua primeira eleição, em 2002, quando tinha apenas 21 anos e conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual, apoiado pelo pai, que já era deputado federal havia mais de uma década.

Ainda no ano 2000, aos 19 anos, foi nomeado para um cargo na Câmara dos Deputados, na função de assistente técnico de gabinete na liderança do PPB, então o partido de Jair Bolsonaro.

Segundo declaração do Imposto de Renda de Flávio, o cargo de assistente técnico de gabinete rendeu em 2001 o equivalente a R$ 4.712 por mês, ou R$ 13,5 mil em valores corrigidos.

Uma investigação da BBC News Brasil, porém, levantou indícios de que Flávio seria um funcionário fantasma.

Na mesma época em que estava lotado nesse cargo, que exigia presença em Brasília, o hoje senador tinha duas atividades presenciais no Rio de Janeiro: a faculdade de direito e um estágio voluntário na Defensoria Pública.

Procurado em 2019, quando a reportagem foi publicada, o senador não quis responder aos questionamentos da BBC News Brasil.

Anos após ter ocupado esse cargo na Câmara, Flávio se tornou alvo da denúncia de que teria servidores fantasmas em seu próprio gabinete.

O caso veio à tona no final de 2018, pouco depois de seu pai ser eleito presidente da República, após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar movimentação milionária na conta de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete de Flávio na Alerj, incompatível com seu salário.

Depois, em 2020, Queiroz foi acusado na denúncia do Ministério Público de ser o operador de um esquema que recolhia parte do salário dos funcionários do antigo gabinete de Flávio em benefício do parlamentar, o que configuraria a chamada rachadinha.

Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam, no total, R$ 6,1 milhões, em valores da época. Desse montante, o Ministério Público afirma que ao menos R$ 2 milhões foram comprovadamente para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados à organização criminosa por meio de saques em espécie.

Entre as ações suspeitas estavam depósitos fracionados em dinheiro vivo feitos por Queiroz na conta do atual senador e de sua esposa que, segundo a denúncia, coincidiram com o vencimento de parcelas de financiamentos para adquirir dois imóveis no Rio de Janeiro.

Além disso, os promotores identificaram que Queiroz pagou com dinheiro vivo 169 boletos referentes a pagamentos da escola das filhas de Flávio Bolsonaro e do plano de saúde da família entre 2013 e 2018, somando R$ 247 mil, em valores da época.

Durante as investigações, Queiroz admitiu que recebia parte dos salários dos funcionários, mas disse fazer isso sem anuência de Flávio, o que não convenceu o Ministério Público. Na versão de sua defesa, os recursos eram usados para contratar informalmente outras pessoas para atuar em apoio à atuação parlamentar do então deputado estadual.

“Nunca teve início um processo criminal contra mim. Eu nunca respondi criminalmente por isso. Foram mais de 30 assessores meus que foram investigados, quebra de sigilo de 11 anos para trás. Essa devassa”, disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda..

“O que o Queiroz tinha ali no gabinete, ele cuidava de uma parte da minha assessoria que trabalhava em rua, fazia panfletagem, fazia eventos e tal, e ele tinha autonomia sobre esse pessoal e ele fala que ele fazia isso”, continuou, repetindo a versão de Queiroz de que o dinheiro que recebeu de funcionários do gabinete de Flávio não era “rachadinha”, mas servia para ele contratar mais pessoas informalmente.

Para o filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para atingir o governo do pai.

“Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as narrativas”.

Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2019 pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das provas.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, anulou decisões da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro que permitiram a quebra de sigilo bancário e fiscal do parlamentar e de pessoas relacionadas a ele, porque considerou que a medida não foi devidamente fundamentada.

Já o STF anulou relatórios feitos pelo Coaf que embasaram a investigação e as provas decorrentes dele, porque entendeu que o órgão não poderia produzir relatórios de inteligência financeira contra suspeito que ainda não tenha sido incluído formalmente em procedimento investigatório.

Procurado pela BBC News Brasil, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após o ministro do STF Gilmar Mendes rejeitar um recurso pedindo a reabertura da investigação em fevereiro de 2025.

As acusações de vínculos com milicianos

Deputado estadual por doze anos na Alerj, quando conviveu com Flávio Bolsonaro, Marcelo Freixo (PT-RJ) diz que o filho mais velho teve um papel de coordenação na atuação da família Bolsonaro no Rio.

“Tanto é que as reuniões da família, que aconteciam todas as sextas-feiras, eram no gabinete do Flávio. E eu cansei de ver, o Jair e o Carlos [vereador carioca] estavam sempre lá, o Eduardo [então deputado federal por São Paulo] não. Eles sempre faziam reunião ali porque sempre tiveram um projeto familiar. E era no gabinete do Flávio que se organizava tudo, quem trabalhava para cada gabinete, e assim que deu origem a uma série de denúncias [sobre a rachadinha]”, continuou.

Para Freixo, a família não tinha ideia de que seria capaz de alcançar a Presidência da República um dia, o que teria levado Flávio a ter pouco cuidado no passado com os esquemas em seu gabinete ou a proximidade com milicianos — algo que Flávio também nega.

“Na questão comportamental, de fato, era diferente do pai, era educado, cumprimentava todo mundo. Mas ele representa exatamente o mesmo projeto político”, relembra.

“Ele e o Chiquinho Brazão [depois condenado pela morte da vereadora Marielle Franco] foram os únicos deputados que votaram contra a criação da CPI para investigar milícias”, disse, em referência à comissão parlamentar que investigou a atuação criminosa de policiais na Alerj, em 2008.

No site da Alerj, ainda existe uma página oficial sobre Flávio Bolsonaro, que detalha suas atividades como deputado estadual. O texto aponta como suas prioridades o combate a “políticas assistencialistas” e o fortalecimento da segurança pública.

Nessa agenda, homenageou, ao longo dos seus quatro mandatos, dezenas de polícias militares, incluindo duas vezes Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005. Ele foi expulso da Polícia Militar em 2014, acusado de atuar na segurança de contraventores do jogo do bicho e, depois, foi acusado de atuar como miliciano e chefiar o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por encomenda. Após ser denunciado em 2019, foi morto numa operação policial para capturá-lo quando estava foragido na Bahia.

Outro homenageado foi Ronald Paulo Alves Pereira, depois condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018.

Flávio afirma que não sabia de atuações criminosas desses policiais quando os homenageou.

No caso de Adriano da Nóbrega, houve vínculos duradouros — sua mãe, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam por anos no gabinete de Flávio na Alerj, até serem exoneradas em 2018, quando o escândalo da rachadinha veio à tona.

Segundo a denúncia do Ministério Público, a quebra de sigilo telefônico de Danielle mostra que ela enviou mensagens a Adriano da Nóbrega no dia da exoneração, pedindo para falar com ele “com urgência” e reclamando da falta de dinheiro após a demissão: “Tenho contas [a pagar]”, escreveu ela.

Quando questionado sobre isso, Flávio diz que se aproximou da mãe de Nóbrega quando ela atuava por direitos dos policiais e que manteve as duas no seu gabinete após as denúncias contra ele porque trabalhavam bem e não deveriam ser punidas.

“Você nunca teve alguém que, ao longo de 20 anos, mudou o que fazia, deixou de fazer o certo para fazer o errado? Eu não posso ser envolvido numa situação em que a pessoa era uma coisa, que eu tinha alguma proximidade, respeitava o trabalho dele, a pessoa depois muda, eu tenho que ser responsabilizado por isso? Desculpa, isso é uma grande injustiça”, disse, em entrevista ao programa Roda Viva, em 2024.

“Eu não defendo milícia. Nunca defendi que haja um poder paralelo para extorquir trabalhador em comunidades carentes”, reforçou.

Senadores aliados de Flávio, como Damares Alves (Republicanos-DF) e Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, minimizaram as acusações à BBC News Brasil, com o argumento de que toda figura pública é alvo de denúncias.

“Acusações são feitas [contra Flávio Bolsonaro] sem nenhuma base fática. O que existe de concreto é que o nosso opositor foi alguém que foi condenado em três instâncias por corrupção”, disse Marinho, em referência às condenações de Lula na operação Lava Jato que foram, depois, anuladas no STF, devido a ilegalidades no processo.

Segundo o aliado, monitoramento interno mostra que os ataques do PT contra Flávio sobre rachadinha e milícias se intensificaram nas redes sociais a partir de dezembro, assim que Flávio se anunciou para disputar o Palácio do Planalto.

“Eu sei que não está tendo efeito”, reforçou.

Vazamento ‘bombástico’ ameaça candidatura, diz The Economist

A revista The Economist, um dos principais veículos do mundo especializados na cobertura econômica, publicou na quinta-feira (14) uma reportagem afirmando que a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu milhões a Daniel Vorcaro para a produção de um filme em homenagem ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pode ameaçar sua candidatura à Presidência da República.

Segundo revelou o site The Intercept Brasil, o pedido foi de R$ 134 milhões, e R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos por Vorcaro, mas a Go Up Entertainment, produtora do longa-metragem, batizado de Dark Horse, e o deputado Mario Frias (PL-SP), roteirista da obra, disseram que não tiveram acesso à verba do banqueiro.

Vorcaro está preso, e sua defesa não esclareceu as doações até o momento. A Go Up afirmou que não pode revelar de onde veio seu orçamento, senão quebraria contratos de confidencialidade com os envolvidos no projeto.

“Partidos de direita imediatamente começaram a falar sobre a possibilidade de lançar um candidato alternativo. Nas casas de apostas, onde Flávio era o favorito para vencer a Presidência, ele despencou para o segundo lugar, perdendo por dez pontos percentuais”, publicou a The Economist.

A revista informou ainda que “o real e o principal índice da bolsa de valores caíram 2%, à medida que crescia a perspectiva de vitória para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda”.

Ligação com ‘banqueiro desonrado’

A reportagem explica a leitores estrangeiros que a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro caiu como uma bomba para a opinião pública sobre o senador, ao ponto não só de seus aliados pensarem em outras alternativas de candidatos para o pleito, marcado para outubro, mas também esperarem que os rivais do Partido dos Trabalhadores (PT) também sejam ligados ao banqueiro conforme as investigações avancem.

No dia seguinte à revelação do The Intercept, o senador deu entrevista à emissora GloboNews e negou que o valor pedido a Vorcaro tenha sido de R$ 134 milhões. Mario Frias também se manifestou novamente a respeito do pedido.

“Tentar imputar qualquer tipo de crime a aquisição de patrocínio privado em 2024 é apenas mais uma narrativa tosca que nasceu dentro da própria direita que tenta sabotar a candidatura do Flávio, aproveitada pela esquerda sem escrúpulo”, afirmou.

A reportagem da The Economist analisou ainda os passos mais recentes de Lula, o principal adversário de Flávio para as eleições em outubro, e citou o encontro que o petista teve com o presidente estadunidense Donald Trump na semana passada.

Na ocasião, “Lula elogiou a ‘química’ entre ele e Trump e disse que a relação foi como ‘amor à primeira vista’. Em um telefonema antes da reunião, Trump teria dito a Lula ‘eu te amo’, o que incomoda a família Bolsonaro, que se gaba de ser amiga de Trump”.

Impacto nas eleições

O impacto da conversa entre Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro nas eleições ainda é incerto. Nenhuma pesquisa de intenção de voto foi divulgada após a revelação de que ela tenha existido, mas, nas redes sociais, o cenário é de desgaste para o senador.

Segundo monitoramento realizado pela AP Exata Inteligência — empresa de ciência de dados que monitora narrativas nas redes — após as mensagens virem à tona, houve aumento das menções negativas a Flávio Bolsonaro e queda nos índices de confiança digital.

Até as 18h de quinta-feira (14/5), 64,3% das menções a Flávio monitoradas pela AP Exata nas redes tinham tom negativo — uma alta de 7 pontos percentuais desde a divulgação do caso.

O índice é o pior registrado pelo senador desde o início de sua pré-campanha à Presidência e também o mais negativo entre os presidenciáveis monitorados pela empresa.

A AP Exata utiliza um modelo próprio de inteligência artificial para interpretar o contexto emocional das conversas envolvendo candidatos e temas políticos no X e em publicações no Instagram. A ferramenta mede sentimentos como confiança, tristeza, alegria e medo para identificar mudanças na percepção do eleitorado no ambiente digital.

BolsoMaster fortalece Michelle e isola Tarcísio

A divulgação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro aparece cobrando R$ 134 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro — ou, segundo interpretações que circulam nos bastidores, para sustentar a articulação internacional conduzida por Eduardo Bolsonaro junto ao governo Donald Trump contra o Brasil — provocou uma reação em cadeia no núcleo bolsonarista. O episódio não apenas abriu uma nova frente de desgaste político para o senador como aprofundou a disputa interna pela herança eleitoral do ex-presidente.

Entre aliados do grupo, a repercussão do caso oscilou entre ironia, desconforto e preocupação aberta. O principal impacto ocorreu justamente no debate sobre quem representará o bolsonarismo em 2026 — discussão que já vinha rachando o entorno do ex-presidente antes mesmo do escândalo ganhar dimensão pública.

A principal beneficiada pelo desgaste de Flávio, segundo interlocutores da direita, seria Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama havia sido surpreendida quando Jair Bolsonaro decidiu indicar o filho mais velho como pré-candidato ao Palácio do Planalto. À época, Michelle, atualmente à frente do PL Mulher, travava uma disputa silenciosa dentro do próprio clã sobre os rumos do bolsonarismo pós-Bolsonaro. Enquanto ela demonstrava simpatia por uma eventual candidatura do governador paulista Tarcísio de Freitas — ou até pela possibilidade de concorrer pessoalmente — os filhos do ex-presidente defendiam que o comando político permanecesse restrito à linhagem familiar direta.

O movimento de Jair Bolsonaro, mesmo preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, consolidando Flávio como herdeiro político, alterou completamente o equilíbrio interno do grupo. Agora, porém, a exposição do áudio recolocou em dúvida a viabilidade da escolha. Entre bolsonaristas, cresceu a percepção de que será difícil apresentar Flávio como símbolo de moralidade pública caso ele não consiga esclarecer de forma convincente a relação financeira com um banqueiro envolvido em controvérsias e o destino exato dos recursos negociados.

Nos bastidores da direita, esse desgaste passou a alimentar novamente especulações sobre uma eventual candidatura de Michelle Bolsonaro. O próprio esforço para negar essa possibilidade acabou ampliando a leitura de que a hipótese ganhou força real dentro do campo conservador.

Enquanto Michelle sobe nas bolsas de apostas políticas, Tarcísio de Freitas atravessa um cenário oposto. Até a consolidação de Flávio como herdeiro preferencial, o governador paulista era tratado como o nome mais competitivo do bolsonarismo: alguém capaz de dialogar simultaneamente com a base ideológica do ex-presidente e com setores do mercado financeiro. Sua imagem era apresentada por aliados como uma versão mais institucional e menos explosiva do movimento bolsonarista, ainda que mantivesse alinhamento com pautas radicais, como a defesa de anistia aos envolvidos nos atos golpistas.

A decisão de Jair Bolsonaro de ungir o filho, no entanto, colocou Tarcísio numa posição politicamente delicada: a de um presidenciável sem autonomia para disputar a própria sucessão. Dependente do capital eleitoral do ex-presidente, o governador evitou confronto, aceitou o rearranjo interno e passou a operar como aliado subordinado ao projeto dinástico da família Bolsonaro. A avaliação em setores da direita é que, caso Flávio chegasse ao Planalto, trabalharia para manter o pai competitivo em 2030 e abrir caminho para Eduardo Bolsonaro em 2034, deixando Tarcísio permanentemente relegado ao papel de coadjuvante.

Com o avanço da crise envolvendo Flávio, parte da direita voltou a cogitar a substituição do senador por Tarcísio. Mas, na prática, essa alternativa encontra um obstáculo jurídico e político decisivo: o governador não se desincompatibilizou do cargo dentro do prazo legal de seis meses antes do primeiro turno, encerrado em 4 de abril. Sem cumprir essa exigência, ficou impossibilitado de disputar a Presidência em 2026.

O caso, apelidado informalmente por adversários como “BolsoMaster”, extrapolou o dano reputacional imediato e produziu uma reorganização do campo bolsonarista. Michelle emerge fortalecida como possibilidade eleitoral, Tarcísio aparece aprisionado pelas próprias escolhas estratégicas e Flávio tenta sustentar a narrativa de que a negociação milionária com Daniel Vorcaro se limitava ao financiamento de um projeto audiovisual sobre o pai — ou, ao menos, de que não houve irregularidade na operação.

Após a divulgação do áudio, Flávio afirmou ter recebido apoio direto do ex-presidente. Em mensagem enviada à jornalista Jussara Soares, da CNN, o senador relatou ter visitado Jair Bolsonaro na tarde de quarta-feira, na residência onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar, para alertá-lo sobre a exploração política do episódio por adversários. Segundo Flávio, o pai pediu que ele “ficasse firme” e sustentou que não havia ilegalidade no financiamento privado do filme Dark Horse.

Na mesma mensagem, Flávio também afirmou que Jair Bolsonaro descartou completamente a possibilidade de Michelle disputar a Presidência. Segundo o senador, o ex-presidente teria afirmado que “não existe nenhuma possibilidade” de a ex-primeira-dama ser candidata, apesar das especulações crescentes dentro da própria direita.

A declaração reforçou a tentativa do clã de conter o avanço de alternativas internas ao projeto sucessório centrado nos filhos do ex-presidente. Ainda assim, o episódio ampliou a percepção de turbulência dentro do bolsonarismo e escancarou o conflito entre interesses familiares, sobrevivência política e controle da narrativa moral que o grupo historicamente reivindicou para si.

E então?

No centro da disputa presidencial de 2026, o que emerge não é apenas a tentativa de sobrevivência eleitoral do bolsonarismo, mas uma batalha mais profunda sobre memória política, impunidade e controle narrativo. A candidatura de Flávio Bolsonaro revela o esforço da direita em reciclar um projeto que sofreu desgaste institucional severo após o governo do pai, substituindo a retórica explosiva por uma estética de moderação cuidadosamente produzida para ampliar alcance eleitoral sem romper com a base ideológica radical que sustenta o movimento. O problema é que a própria trajetória do senador funciona como limite concreto dessa operação de marketing político.

As denúncias de rachadinha, os vínculos históricos com personagens associados às milícias cariocas, as suspeitas sobre circulação de dinheiro vivo e, agora, a relação nebulosa com Daniel Vorcaro recolocam no debate público uma pergunta que a campanha tenta evitar: é possível separar o “Bolsonaro moderado” da estrutura política que ajudou a consolidar o bolsonarismo? Mais do que um desgaste individual, o caso expõe as contradições de um campo político que construiu sua identidade pública no discurso anticorrupção, mas se vê constantemente atravessado por suspeitas envolvendo financiamento obscuro, relações patrimonialistas e disputas dinásticas pelo poder. Ao mesmo tempo, a crise revela que a sucessão dentro do bolsonarismo talvez não esteja sendo decidida apenas nas pesquisas ou nas redes sociais, mas na capacidade — ou incapacidade — de convencer o eleitorado de que existe diferença substancial entre mudar o tom e mudar o projeto político.

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PF: Vorcaro pode ter bancado Eduardo Bolsonaro nos EUA


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