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Ágora Digital

Entre o verniz e o vazio

Tarcísio tenta se apresentar como renovação, mas é apenas o velho extremismo reempacotado

Publicado em 29/03/2025 8:56 - Victor Barone

Divulgação Montagem Semana On

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Em tempos de reconstrução democrática, há algo particularmente perverso na tentativa de sequestrar o vocabulário da conciliação para justificar a tolerância com o intolerável. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem se empenhado em vestir a fantasia da moderação, discursando sobre “pacificação institucional” como se isso bastasse para redimir o silêncio — ou pior, a cumplicidade — diante de ameaças reais ao Estado democrático de direito. Mas há um abismo entre o verbo e a ação, e nele se escondem as contradições que precisamos expor.

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Pacificação com golpistas: a normalização do inaceitável

A proposta genérica de “pacificação” defendida por Tarcísio é uma dessas ideias que parecem sensatas à primeira vista, mas que, analisadas com seriedade, revelam intenções menos nobres. Falar em deixar para trás a “agenda repetitiva” dos debates sobre o bolsonarismo e o julgamento dos atos golpistas de 8 de janeiro é, na prática, um chamado à anistia — não da paz, mas da impunidade.

Como pacificar com quem não aceita as regras do jogo democrático? A resposta, evidentemente, é que não se pacifica: negocia-se com adversários, não com inimigos da democracia. A história nos ensina isso com clareza. Na Alemanha do entreguerras, as tentativas de conciliação com os setores autoritários apenas fortaleceram o nazismo. No Brasil atual, fingir que é possível uma convivência institucional com quem atentou contra os Três Poderes não é ingenuidade — é conivência.

O próprio Tarcísio esteve ao lado de Jair Bolsonaro em momentos-chave nos quais se atacou o Supremo Tribunal Federal (STF) e se defendeu abertamente a anistia para os golpistas. Não se ouviu dele uma palavra de repúdio. Como escreveu o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, “democracia sem punição a quem tenta golpeá-la é democracia de papel”. Se Tarcísio realmente crê na pacificação, que o demonstre com coragem — não com evasivas.

A falsa moderação e o extremismo do centro

Ao tentar se posicionar como alternativa equilibrada no cenário nacional, Tarcísio de Freitas encarna um fenômeno conhecido na ciência política como o extremismo do centro, conceito desenvolvido por Seymour Martin Lipset nos anos 1960. Para o sociólogo, regimes autoritários frequentemente emergem não das margens, mas do centro político, especialmente quando este assume a aparência de neutralidade, rejeita conflitos sociais legítimos e passa a priorizar “ordem” a qualquer custo.

Como escreveu Lipset em Political Man: “O fascismo é um extremismo do centro: ele mobiliza principalmente a classe média, ressentida tanto com as elites econômicas quanto com os pobres organizados.”

O centro político brasileiro, ou aquilo que se autodenomina como tal, tem uma longa tradição de promover essa retórica apaziguadora — ao mesmo tempo em que naturaliza a desigualdade, silencia diante do autoritarismo e atua como ponte para a extrema direita. Tarcísio representa essa lógica: fala em pacificação, mas omite-se diante do golpismo; condena o radicalismo, mas exalta Javier Milei; nega a polarização, mas depende politicamente de Jair Bolsonaro.

Essa versão brasileira do extremismo do centro utiliza os códigos da “técnica”, da “eficiência” e da “gestão responsável” para esconder um projeto que, na prática, viabiliza políticas regressivas e esvazia o conteúdo democrático das instituições. Ao rejeitar a disputa política como algo “tóxico” ou “ideológico”, esse discurso busca deslegitimar qualquer crítica ao status quo — especialmente as vindas da esquerda — enquanto abre espaço para a radicalização conservadora.

Como alertou o filósofo francês Pierre Dardot, “a ideologia do centro não é neutra: ela é a máscara da ordem neoliberal, e seu desprezo pela política é o que a torna perigosa”. Tarcísio, ao seguir essa trilha, não apenas repete o erro da neutralidade cúmplice — ele o transforma em plataforma de poder.

O projeto econômico da desigualdade

No campo econômico, as contradições do governador não são menores. Sua crítica à proposta do governo federal de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil revela mais do que conservadorismo fiscal: revela uma visão de mundo profundamente desigual. Ao alegar que a medida “destrói a base de pagadores”, Tarcísio ignora deliberadamente que o sistema tributário brasileiro já é brutalmente regressivo, punindo os mais pobres e protegendo os mais ricos — especialmente os detentores de capital que vivem de lucros e dividendos, hoje isentos de IR.

Ao repetir o argumento de que taxar dividendos desestimularia investimentos, Tarcísio reforça uma lógica que perpetua privilégios. Como mostram estudos do economista Sérgio Gobetti, do Ipea, os 0,05% mais ricos do Brasil pagam proporcionalmente menos imposto do que a classe média assalariada. Que tipo de responsabilidade fiscal é essa que protege os donos do capital e sobrecarrega os trabalhadores?

E há mais: ao exaltar Javier Milei como exemplo a ser seguido, Tarcísio não apenas comete um erro técnico — ele expõe uma inclinação ideológica perigosa. A Argentina de Milei, longe da propaganda liberal, mergulhou em caos social. A inflação continua alta, os investimentos minguam e mais de 50% da população está na pobreza. O congelamento de obras públicas e os cortes brutais em educação e saúde aprofundam a tragédia. A ideia de importar essa cartilha para o Brasil revela um desprezo inaceitável pelas condições materiais da maioria da população.

Eleição antecipada e discurso reciclado

Tarcísio se apresenta como alguém que critica a antecipação do debate eleitoral, mas suas próprias movimentações desmentem o discurso. Aliado de Gilberto Kassab (PSD) e dependente de Jair Bolsonaro para consolidar sua candidatura à presidência em 2026, o governador já se movimenta claramente no xadrez político — mesmo enquanto acusa o governo Lula de eleitoralismo.

Esse jogo duplo não é novo na política, mas se torna particularmente problemático quando associado a uma tentativa de capturar o espaço do “centro” político com um discurso de moderação artificial. Tarcísio se vende como uma terceira via entre os extremos, mas nunca rompeu de fato com o bolsonarismo. Pelo contrário: continua orbitando seu núcleo, mesmo quando tenta se diferenciar dele — como na recente insinuação de que “é preciso saber sair do poder”, frase evidentemente direcionada ao seu “capitão”.

O problema é que, ao se recusar a romper com as práticas e os valores do extremismo, Tarcísio apenas reforça a normalização do autoritarismo. Sua retórica de renovação política esbarra em práticas velhas conhecidas: alianças conservadoras, ataques ao funcionalismo público, criminalização da política social e defesa de um Estado mínimo que nada oferece aos que mais precisam.

Entre o verniz e o vazio

O discurso de Tarcísio é polido, estratégico, calculado. Mas é também vazio, contraditório e, no limite, perigoso. Ao sugerir que punir golpistas é “insistir em uma agenda repetitiva”, o governador desconsidera um princípio elementar da democracia: a responsabilização dos que atentam contra ela.

Mais grave ainda é sua tentativa de se apresentar como moderado enquanto legitima ideias e práticas da extrema direita. A democracia brasileira, ainda fragilizada, não pode se dar ao luxo de aceitar esse tipo de ambiguidade como virtude. Como alertou a filósofa Marilena Chaui, “o discurso da neutralidade, quando se omite diante da injustiça, é sempre uma forma de tomar partido do opressor”.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a figura de um governador que ensaia sua candidatura presidencial. É a consolidação de um projeto que, travestido de centro e moderação, abre caminho para o avanço da extrema direita sob a capa da governabilidade. É o retorno da velha fórmula de sempre: o centrismo autoritário que finge apaziguar enquanto recalca os conflitos sociais e democráticos.

Contra esse tipo de projeto, é preciso reafirmar que a verdadeira moderação não está em se omitir — está em preservar as instituições democráticas, reconhecer os conflitos legítimos da sociedade e enfrentar os desafios da desigualdade com coragem política. Tarcísio pode tentar se apresentar como o rosto da renovação, mas sua agenda revela apenas o velho extremismo reempacotado.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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