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Especial
Uma ecologia sem povos tradicionais será miragem num planeta em colapso
Publicado em 24/10/2025 3:20 - Semana On
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Em meio aos preparativos para a COP30, que transformará Belém em palco central do debate climático global, uma mobilização paralela de proporções históricas ganha forma na capital paraense: a Cúpula dos Povos por Justiça Climática. Previsto para novembro de 2025, o evento reunirá milhares de representantes de movimentos sociais, organizações da sociedade civil, povos indígenas e comunidades tradicionais do Brasil e do mundo, reivindicando voz e protagonismo nas decisões sobre o futuro do planeta. Mais do que uma atividade paralela à conferência oficial da ONU, a Cúpula representa um contraponto político e simbólico à exclusão histórica dos territórios e populações mais afetadas pela crise ambiental. Esta reportagem, construída com base em extensas apurações dos sites O Joio e o Trigo e Repórter Brasil, mergulha nos bastidores dessa mobilização, revelando os impasses, estratégias e esperanças que cercam a maior articulação popular já planejada para uma COP em solo brasileiro.
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Nem o aumento nos preços de hospedagem e serviços nem a dificuldade de articulação com os governos federal e estadual impedirão a realização da Cúpula dos Povos por Justiça Climática, marcada para acontecer entre os dias 12 e 16 de novembro, em Belém (PA). O evento ocorre de forma paralela à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), programada para 2025, na capital paraense.
Com a participação prevista de cerca de 1,1 mil organizações da sociedade civil, movimentos populares e coletivos de base, nacionais e internacionais, a expectativa é reunir entre 15 mil e 20 mil pessoas ligadas a causas sociais, ambientais e de direitos humanos. Estarão presentes representantes de povos indígenas, juventudes, mulheres, agricultores familiares e ativistas socioambientais.
Criada em 1992, a Cúpula dos Povos é um espaço de articulação e denúncia dos grupos historicamente excluídos das mesas oficiais de negociação climática. O encontro funciona como uma plataforma para apresentar demandas concretas por justiça socioambiental, defesa dos territórios e preservação da vida em suas múltiplas formas.
A edição de 2025 será aberta com uma barqueata — manifestação político-cultural que percorrerá as águas da Baía do Guajará até o Rio Guamá, na região da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mesmo sem garantias formais de apoio institucional, a mobilização segue confirmada.
“O que temos dito ao governo é: com ou sem apoio, estaremos em Belém. Cabe a vocês decidirem se isso acontecerá com mais ou menos diálogo”, afirmou Ayala Ferreira, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante do colegiado político que organiza o evento. Segundo ela, o MST pretende levar cerca de 2 mil militantes, desde que haja estrutura de alojamento adequada.
Para Ayala, a resistência institucional ao evento não surpreende. “Mesmo com menos gente, o impacto é o mesmo. Os governos se incomodam com a presença de grandes setores populares ocupando espaços que tradicionalmente não são oferecidos a eles”, criticou.
Com atraso e limitações, governo garante alimentação
A participação do governo Lula na Cúpula dos Povos por Justiça Climática envolverá a oferta de alimentos para 30 mil refeições diárias – café da manhã, almoço e jantar – ao longo dos cinco dias de evento. A medida deve atender a um público estimado de 10 mil pessoas e será viabilizada por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), voltado à compra de produtos da agricultura familiar.
Além da alimentação, o governo federal foi acionado para garantir infraestrutura básica na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde acontecerão as principais atividades da Cúpula. A demanda inclui o repasse de recursos para montagem de tendas, palcos, sistema de som e aluguel de mobiliário.
A organização do evento tem enfrentado ainda o impacto da alta nos preços de hospedagem em Belém, inflacionados após o anúncio da COP30, previsto para novembro de 2025. O problema, já amplamente noticiado pela imprensa, preocupa também delegações internacionais, algumas das quais chegaram a sugerir a mudança da sede da conferência para outra capital ou, ao menos, a resolução urgente da crise logística.
Diante da perspectiva de receber 10 mil participantes, a primeira proposta foi utilizar um terreno dentro da própria UFPA para montar acampamentos. No entanto, o espaço exigiria obras estruturais como terraplanagem, instalação de piso, muros e sistema de drenagem. O prazo para início das obras expirou em abril, sem liberação dos recursos estimados em R$ 15 milhões.
Sem as condições mínimas de segurança e salubridade, os organizadores abandonaram a ideia de alojar os participantes no local. “Eles ficariam literalmente na lama”, afirmam.
A alternativa encontrada foi o aluguel de galpões ao longo da Avenida Bernardo Sayão, nas proximidades da universidade. Os espaços, no entanto, ainda precisam ser adaptados para garantir infraestrutura básica, com capacidade para acolher cerca de 7 mil pessoas. Estão previstas a montagem de cozinhas coletivas, instalação de banheiros e outras estruturas de apoio.
Sem apoio local, organização enfrenta impasses
Os organizadores da Cúpula dos Povos por Justiça Climática ainda enfrentam falta de apoio das autoridades locais em Belém. Nem o governo do Pará, liderado por Helder Barbalho, nem a prefeitura da capital, comandada por seu primo e aliado político Igor Normando — ambos do MDB — ofereceram suporte logístico para acomodar os milhares de participantes esperados para o evento.
Diante da ausência de alternativas viáveis, a coordenação da Cúpula ainda aguarda a liberação de escolas públicas localizadas nos arredores da Universidade Federal do Pará (UFPA), entre os bairros populares do Guamá e da Terra Firme, para abrigar ao menos 3 mil pessoas.
“Tem sido desafiador dialogar com o governo para garantir apoio à sociedade civil que organiza um processo com mais de 800 entidades nacionais e internacionais. A Cúpula dos Povos é o maior, mais diverso e mais inclusivo espaço paralelo à COP30. Reúne uma pluralidade de atores que se articulam em torno da justiça climática, mas vão além desse eixo”, afirmou Maureen Santos, coordenadora do Núcleo de Políticas e Alternativas da FASE, uma das organizações que integram o colegiado político da Cúpula, em entrevista concedida em julho.
À época, os impasses nas negociações com o governo estadual já eram visíveis, mesmo com tentativas do governo federal de intermediar o diálogo.
A postura das administrações estadual e municipal contrasta com o discurso oficial de celebração da escolha do Brasil — e, em particular, de Belém — como sede da COP30. Em tese, sediar a conferência em uma democracia consolidada deveria facilitar a participação ativa da sociedade civil nos debates sobre o futuro climático do planeta.
A contradição torna-se ainda mais evidente diante do investimento federal de R$ 4 bilhões em obras de infraestrutura urbana, mobilidade e espaços públicos voltados para a realização da COP. Os dados foram apresentados pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, à Agência Brasil.
No entanto, os preparativos enfrentaram obstáculos. Em setembro, cerca de 5 mil trabalhadores da construção civil entraram em greve, paralisando até 80% das obras em andamento. Ainda assim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou parte dos novos equipamentos urbanos no início de outubro, incluindo os Parques da Cidade e Linear da Doca, além do Museu das Amazônias.
A comitiva presidencial também incluiu, no dia 2 de outubro, uma visita do ministro Márcio Macêdo, da Secretaria-Geral da Presidência da República, à Casa da Cúpula dos Povos. Lá, ele se reuniu com representantes de movimentos sociais e redes da sociedade civil envolvidas na mobilização para o evento.
Durante a visita, o ministro afirmou que a Cúpula dos Povos será “um dos grandes momentos da COP30”. “Estamos realizando a COP na maior democracia dos povos, e não há políticas públicas sustentáveis sem participação social. Vamos construir, a muitas mãos, a COP com maior participação social da história”, declarou.
A promessa do governo federal é ampliar o diálogo com os governos locais e assegurar os serviços essenciais para o evento, como segurança, saúde, conectividade e estrutura de atendimento para os milhares de participantes esperados em novembro.
Desafios e expectativas
A proposta de ter Belém como sede da Conferência do Clima de 2025, impulsionada pelo governo brasileiro e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi recebida com entusiasmo por organizações e movimentos sociais de diversos países. A ideia de realizar o evento na Amazônia gerou expectativa de ampla participação internacional. No entanto, fatores como a alta especulativa nos preços de hospedagem, aluguéis e serviços na cidade, somados à demora do poder público em oferecer soluções, obrigaram muitos grupos a reverem seus planos iniciais.
A avaliação é de Iván Gonzalez, coordenador político da Confederação Sindical de Trabalhadores(as) das Américas (CSA), em entrevista ao Joio. Segundo ele, a tendência é de que a presença internacional no evento seja menor do que o inicialmente previsto.
“Percebo que, nas últimas semanas, o governo brasileiro tem demonstrado maior atenção ao problema. A presença do ministro Wellington Dias na Casa da Cúpula dos Povos, no dia 2 de outubro, e do presidente Lula em Belém, na mesma semana, indicam uma tentativa de resposta — que ainda não se traduziu plenamente em ações concretas. Mas acredito que há consciência, por parte do governo, da relevância da Cúpula dos Povos e da necessidade de apoiá-la”, avaliou Gonzalez. Ainda assim, ele ressalta que “as organizações mantiveram o compromisso político de comparecer, e muitas ainda buscam recursos para garantir sua participação”.
O sindicalista contextualiza os desafios dentro de um cenário mais amplo, marcado por divisões geopolíticas e pela retração de recursos destinados à sociedade civil para o enfrentamento das mudanças climáticas. Segundo ele, a crise na cooperação internacional tem impactado diretamente a capacidade de mobilização das organizações.
Apesar dos obstáculos e das críticas à morosidade dos governos em lidar com os impasses logísticos e financeiros, lideranças políticas envolvidas na organização da Cúpula reiteram a importância simbólica da escolha de Belém como sede do evento. Em meio ao avanço de interesses econômicos sobre os territórios amazônicos — como a exploração agropecuária, minerária e energética —, a realização da COP30 em solo amazônico é vista como uma afirmação política diante das pressões externas e dos conflitos históricos que marcam a região.
“Nos parece acertada a decisão do governo brasileiro de realizar a COP na Amazônia. Há um discurso constante sobre preservação e responsabilidade, e é preciso entender que a Amazônia é um sistema vivo — de natureza e de gente. É uma região a ser protegida, mas também um espaço habitado por milhões de pessoas, com atividades econômicas legítimas”, concluiu Gonzalez.
Cúpula fortalece o multilateralismo popular e internacionaliza lutas de base
Desde sua primeira edição, realizada em paralelo à Rio-92, e posteriormente à Rio+20, a Cúpula dos Povos tem se consolidado como um espaço estratégico de articulação política internacional. O evento reúne povos indígenas, comunidades tradicionais, sindicatos, associações e movimentos sociais de base da América do Sul e de diversas regiões do mundo, em torno de pautas comuns relacionadas à justiça climática, à soberania dos territórios e à crítica ao modelo dominante de desenvolvimento.
Mais do que um evento paralelo às conferências da ONU sobre o clima, a Cúpula é resultado de um longo processo de mobilização multilateral. Seu objetivo central é pressionar governos por mudanças estruturais e criar o que os organizadores chamam de “constrangimentos necessários” aos atores responsáveis pela crise climática global.
Para Pablo Neri, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o esvaziamento do multilateralismo institucional das Nações Unidas tem levado os movimentos sociais a investir mais energia na construção da Cúpula dos Povos. “Com o fracasso do multilateralismo da ONU, o internacionalismo, como entendimento universal das lutas dos povos, pode ser uma convocação global para a construção de algo diferente”, afirma.
A crítica ao modelo de desenvolvimento vigente também se manifesta nas denúncias de ameaças aos territórios no Brasil. Entre elas, estão projetos de infraestrutura como rodovias, hidrovias e ferrovias, a expansão da fronteira agropecuária, a exploração de combustíveis fósseis e o avanço da mineração, inclusive em áreas destinadas à geração de energia renovável, como parques eólicos e hidrelétricas.
A coordenadora nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Cleidiane Vieira, destaca que a Cúpula dos Povos se tornou um ponto de encontro dos principais movimentos populares brasileiros, que atuam tanto na resistência à destruição ambiental quanto no enfrentamento às agendas da extrema direita. “Hoje, na Cúpula dos Povos, se concentram e se mobilizam os principais movimentos de base popular do Brasil, que ao mesmo tempo fazem a luta contrária à devastação e às agendas da extrema direita que têm sido impostas no país”, afirma.
A fala foi registrada às margens do Rio Guamá, no final da tarde de 30 de maio, durante um ato político promovido pela Cúpula na Universidade Federal do Pará (UFPA), com a presença de representantes de movimentos nacionais e internacionais. Na ocasião, lideranças reforçaram a importância da articulação internacional para fortalecer as lutas em curso em seus respectivos países.
“A crise climática é algo que unifica todo mundo. Não é só uma questão do Brasil. Nos últimos anos, vivenciamos na pele o aumento dos eventos extremos. Não é brincadeira, não é só discurso — é uma realidade concreta. Olha o que aconteceu no Rio Grande do Sul, olha o que acontece na Amazônia todo ano, com secas e cheias cada vez mais intensas”, concluiu Vieira.
Luta dos povos indígenas reafirma defesa do território como eixo da justiça climática
A defesa da terra, do território e da natureza está no centro das alianças históricas entre os povos indígenas do Brasil. Para Paulino Montejo, coordenador do setor político da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), essa conexão vai além da noção ocidental de propriedade e reflete uma cosmovisão que reconhece rios, florestas e montanhas como entes vivos, sagrados e interdependentes com as formas de vida humanas e não humanas.
“É um fracasso civilizatório essa compreensão de que o lucro imediato, a acumulação sem freios e o consumo exacerbado não terão um custo cobrado pela própria natureza”, afirma Montejo. A crítica, direta, mira o modelo econômico dominante, baseado na exploração ilimitada dos recursos naturais e na desvalorização de formas de vida e saberes ancestrais.
A demarcação e a proteção dos territórios indígenas, segundo o representante da Apib, são ações estruturais no enfrentamento das crises climática, ambiental e social. São também, afirma, uma forma de reparação histórica após séculos de violências sistemáticas: genocídios, remoções forçadas, assassinatos, ecocídios e esbulho de terras.
Montejo lembra que a presença indígena na história do Brasil foi ativa e decisiva, embora frequentemente invisibilizada. “Não é de agora que os povos indígenas contribuem para a formação social do Estado brasileiro. Fizeram isso ao longo da história, muitas vezes com suas próprias vidas, inclusive na defesa das fronteiras, tanto no Norte quanto no Sul do país”, ressalta.
Com o objetivo de ampliar o diálogo e convocar a sociedade para uma corresponsabilidade global, a Apib lançou a campanha “A resposta somos nós”. A iniciativa convoca a população brasileira e internacional a proteger as florestas, os direitos fundamentais e a vida — não apenas dos povos originários, mas de toda a humanidade, diante de um colapso climático iminente.
Como parte desse esforço, o movimento indígena promoveu, em junho deste ano, a Pré-COP Indígena, realizada em Brasília e coordenada pela Coalizão das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). O evento reuniu representantes da Bacia Amazônica com o objetivo de elaborar a NDC Indígena (sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada) — um documento que reúne propostas concretas dos povos indígenas para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Entre os principais pontos da NDC Indígena estão a exigência de que a demarcação e a proteção dos territórios originários sejam tratadas como política climática prioritária; a implementação de planos de adaptação baseados em saberes tradicionais; o acesso direto e proporcional das organizações indígenas ao financiamento climático; e o fim da exploração de combustíveis fósseis e da mineração em suas terras.
Movimentos populares contestam “falsas soluções”
Críticas a programas e projetos tidos como “falsas soluções climáticas” ganham força entre os movimentos sociais reunidos em torno da Cúpula dos Povos. Na mira estão iniciativas sustentadas por lógicas de mercado — como o mercado de carbono e a financeirização da natureza — promovidas por governos e grandes corporações, muitas vezes sem diálogo com as populações diretamente afetadas.
A avaliação é de que tais mecanismos, ao ignorarem os direitos territoriais e culturais dos povos e comunidades tradicionais, aprofundam desigualdades históricas no acesso à terra, à água e a outros bens essenciais, agravando conflitos e invisibilizando alternativas construídas por quem vive nos territórios.
No entanto, as críticas vêm acompanhadas de propostas concretas. Os movimentos não se limitam à denúncia do modelo econômico dominante; também apontam caminhos possíveis e viáveis para um outro paradigma de desenvolvimento.
Ayala Ferreira, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destaca a experiência da produção de arroz agroecológico como um exemplo de alternativa real, sustentável e já em curso. Hoje referência mundial, o modelo desenvolvido pelo MST deve ser expandido para outras culturas, como o café e o cacau, com base nos princípios da agroecologia.
Além disso, o movimento tem estabelecido parcerias internacionais para ampliar a escala produtiva e reduzir o esforço físico exigido dos trabalhadores do campo. Um exemplo é a adaptação de colheitadeiras de arroz às condições específicas da região alagadiça de Açailândia, no Maranhão, por meio de colaboração com parques tecnológicos da China. A expectativa é que, com o uso das máquinas, um trabalho que hoje leva mais de um mês para colher um hectare possa ser feito em dois ou três dias.
Outra frente promissora do MST está voltada à solução de problemas urbanos: a produção de adubo orgânico a partir do tratamento de resíduos sólidos. Desenvolvido em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), o projeto emprega elementos naturais dos ecossistemas brasileiros para transformar grandes volumes de lixo — como os produzidos por uma cidade do porte de Belém — em adubo orgânico em apenas sete dias. Em métodos convencionais, o mesmo processo levaria cerca de seis meses e envolveria quantidades menores de resíduos.
As iniciativas do movimento demonstram que alternativas sustentáveis não apenas existem, como já estão em andamento. E mostram, também, que a transição ecológica, para ser justa e efetiva, precisa partir do chão dos territórios e do protagonismo das populações historicamente excluídas dos centros de decisão.
Mercado de carbono avança no discurso, mas encontra entraves no Pará
Enquanto evita declarações formais sobre a realização da Cúpula da Amazônia, prevista para novembro de 2025, o governador do Pará, Helder Barbalho, tem investido na promoção internacional do estado como vitrine da bioeconomia. Durante a Semana do Clima, em Nova York, dias antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Belém, Barbalho anunciou a ambiciosa meta de comercializar R$ 40 bilhões em créditos de carbono até 2028. A informação foi divulgada em reportagem da CNN.
A proposta do governo paraense aposta no potencial econômico da redução do desmatamento. A promessa é que os recursos provenientes da venda dos créditos sejam destinados, em parte, a comunidades locais e ao financiamento de políticas de mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
No entanto, a realidade nos territórios da floresta coloca em xeque o otimismo oficial. Diversos projetos de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) em andamento no Pará têm sido alvo de críticas, conflitos e denúncias. Em 2023, uma investigação conjunta dos veículos O Joio e o Trigo e Sumaúma revelou disputas envolvendo contratos de carbono assinados com ao menos cinco comunidades da Ilha do Marajó, evidenciando a fragilidade dos processos de consulta e consentimento.
Em abril deste ano, os Ministérios Públicos Federal (MPF) e do Estado do Pará (MPPA) recomendaram a anulação de um contrato bilionário firmado entre o governo estadual, a Companhia de Ativos Ambientais do Pará (Caap) e a coalizão internacional Leaf – que reúne governos como os dos Estados Unidos, Reino Unido, Noruega e Coreia do Sul, além de grandes corporações como Amazon, Bayer, BCG, Capgemini, H&M e a Fundação Walmart.
O argumento central dos procuradores era jurídico: os créditos de carbono negociados ainda não existiam como ativos do Estado à época do contrato, o que violaria a Lei Federal nº 15.042/2024, que proíbe expressamente a antecipação de venda de créditos futuros. Além disso, o parecer apontava a ausência de transparência no processo, a falta de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas e o risco de uso especulativo desses ativos ambientais.
Apesar da gravidade das questões apontadas, em maio, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) suspendeu os efeitos da recomendação dos MPs, após pedido da Caap. A decisão permitiu a continuidade da captação de recursos, mas o mérito do caso ainda será analisado de forma definitiva.
A agenda de Helder Barbalho nos Estados Unidos incluiu encontros estratégicos e uma foto simbólica ao lado do ex-governador da Califórnia e astro de Hollywood, Arnold Schwarzenegger. À imprensa, Barbalho afirmou que a viagem representou uma oportunidade de consolidar parcerias, apresentar o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará e reafirmar o protagonismo do estado no debate global sobre clima e economia verde, com vistas à COP30.
Enquanto isso, outro tipo de protagonismo é gestado longe dos grandes salões. Paralelamente à conferência oficial, movimentos sociais e povos da floresta preparam a Cúpula dos Povos, que promete transformar Belém em palco de resistência e celebração. A programação prevê um grande banquete coletivo, com alimentos produzidos nos próprios territórios, como gesto simbólico e político de partilha.
Mais do que um ato gastronômico, o evento pretende dar visibilidade às vozes que raramente são ouvidas nas negociações oficiais – povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que, na prática, sustentam a floresta em pé. Para os organizadores, é da experiência desses povos que surgem as verdadeiras alternativas diante da emergência climática e das profundas desigualdades que ela aprofunda. Em suas palavras, trata-se de “recriar o mundo pela via da solidariedade e da imaginação”.
Movimentos sociais articulam COP do Povo fora da “área VIP” da conferência em Belém
Fora dos espaços restritos da chamada Blue Zone — área oficial da COP30 onde circularão chefes de Estado, diplomatas, ministros, lobistas do agronegócio e da indústria fóssil —, Belém se prepara para sediar uma mobilização paralela de grande escala. Entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025, enquanto a capital paraense será palco da conferência climática das Nações Unidas, movimentos sociais, povos indígenas e comunidades tradicionais prometem ocupar outros espaços da cidade com agendas próprias, denúncias e propostas alternativas.
A poucos quilômetros do Parque da Cidade, onde ocorrerão as negociações oficiais, toma forma o que já vem sendo chamado por lideranças locais de a maior mobilização popular da história das cúpulas ambientais. A programação alternativa contará com debates públicos, atos simbólicos, manifestações culturais e intervenções políticas que pretendem colocar em evidência as vozes historicamente excluídas das decisões climáticas.
Três frentes se destacam nessa articulação popular: a COP do Povo, a Cúpula dos Povos e a Aldeia COP. A COP do Povo é puxada principalmente por organizações e associações de base da Amazônia, que buscam destacar o protagonismo dos territórios diretamente afetados pela destruição ambiental. Já a Cúpula dos Povos reúne uma ampla coalizão de entidades nacionais e internacionais comprometidas com a justiça climática e os direitos humanos. A Aldeia COP, por sua vez, será um espaço indígena autogerido, com autonomia para debates e ações que buscam incidir diretamente nas pautas da conferência oficial.
Mais do que eventos paralelos, essas iniciativas se propõem a tensionar os limites do processo multilateral da ONU, denunciando o que chamam de “captura corporativa” das políticas climáticas e apresentando alternativas baseadas na experiência de quem vive e resiste nos territórios ameaçados.
Tribunal simbólico contra o ecogenocídio
Programada para ocorrer entre os dias 10 e 22 de novembro, a COP do Povo, iniciativa paralela à COP30, terá como epicentro a Casa da COP do Povo, no bairro do Reduto, em Belém (PA), a poucos metros da Praça da República. O espaço foi alugado e reformado por uma rede de movimentos sociais, coletivos urbanos, pastorais e comunidades de base, com o objetivo de sediar oficinas, debates, exibições culturais, shows e mostras audiovisuais durante o evento.
O momento mais emblemático da programação será o Tribunal dos Povos contra o Ecogenocídio, marcado para os dias 13 e 14 de novembro. De caráter simbólico, o tribunal irá julgar 17 casos de violação de direitos humanos e destruição ambiental, identificados por comunidades afetadas em diversas regiões do país — com forte concentração de denúncias oriundas da Amazônia. A organização pretende realizar o julgamento popular ao ar livre, na Praça da República, e aguarda autorização da Prefeitura de Belém.
“O objetivo é dar visibilidade a problemas que muitas vezes ficam invisíveis. Será um momento coletivo de análise crítica e também de constrangimento público”, afirma Carlos Augusto Pantoja Ramos, engenheiro florestal e doutorando da Universidade Federal do Pará (UFPA), que integra o grupo organizador.
Além do caráter simbólico, Ramos destaca o impacto político do tribunal: “Vamos chamar atenção para as violações e responsabilizar governos e empresas diante da sociedade”, pontua. Ele também atuará como especialista em um dos casos julgados, que tratará dos efeitos do mercado de carbono. “Esse modelo é uma nova forma de expropriação das terras pelo capital. Precisamos denunciar isso abertamente”, afirma.
A segurança dos participantes é uma das preocupações centrais da organização. O advogado Nery Júnio, do coletivo Maparajuba, que presta assessoria jurídica a povos indígenas e comunidades tradicionais no oeste do Pará, ressalta a vulnerabilidade de muitos dos envolvidos. “Há defensores e defensoras ameaçados de morte. É essencial garantir condições mínimas para que possam relatar as violações com segurança”, destaca.
O tribunal será também um espaço de incidência política e jurídica, segundo Júnio. “A ideia é que as comunidades levem suas denúncias também à ONU e à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Não se trata apenas de protestar, mas de interferir nos processos internacionais com base em seus próprios relatos e vivências.”
Para Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria — criado em memória do casal de defensores da floresta assassinado em 2011 em Nova Ipixuna (PA) —, dar centralidade às vozes dos territórios é a missão principal do tribunal. “Essas pessoas precisam estar no centro do debate climático. São elas que enfrentam os impactos diretos e cotidianos da devastação”, defende.
Também confirmado na programação está José Batista Gonçalves Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que vê na COP do Povo uma oportunidade de ampliar o debate e fortalecer os laços entre os movimentos. “A conferência oficial da ONU é, na prática, um espaço pouco acessível para as comunidades locais. A COP do Povo será um lugar de encontro, escuta e mobilização para proteger a Amazônia e enfrentar os desafios da crise climática com protagonismo popular”, conclui.
Convergência global por justiça climática
Com a proposta de fortalecer articulações globais em torno da justiça climática, a Cúpula dos Povos será realizada entre os dias 12 e 16 de novembro, no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. A expectativa dos organizadores é reunir entre 10 mil e 20 mil participantes, representando mais de mil organizações brasileiras e internacionais.
Diferente da chamada “COP do Povo”, que também ocorrerá paralelamente à COP30, a Cúpula dos Povos tem uma trajetória mais consolidada. O evento retoma marcos históricos como o Fórum Global da Rio-92 e a Cúpula dos Povos da Rio+20, reafirmando sua posição como espaço tradicional de mobilização da sociedade civil diante das negociações climáticas oficiais.
Segundo Pablo Neri, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do comitê político da Cúpula, o encontro funcionará como “um espaço de convergência”, reunindo mais de 1.100 organizações em torno de uma carta de compromissos guiada por princípios anticoloniais, antipatriarcais e anticapitalistas.
Apesar das distinções organizacionais, Neri ressalta que há complementaridade entre os diferentes fóruns da sociedade civil: “A COP do Povo é formada por associações de base da Amazônia, enquanto a Cúpula agrega associações e federações de alcance global”, explica.
O governo federal reconhece a importância do evento. Em declaração recente, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macêdo, afirmou que a Cúpula dos Povos será “um dos grandes momentos da COP30” e destacou que “não existe política pública sustentável sem participação popular”.
A programação inclui uma série de atos simbólicos e políticos, como uma marcha pelas ruas de Belém, uma barqueata nos rios da região e um “banquetaço amazônico”, reunindo agricultores e cozinhas comunitárias. O encerramento será marcado pela entrega da “Declaração dos Povos” ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, que se comprometeu a apresentar o documento durante a plenária oficial do evento.
Aldeia COP será espaço de protagonismo indígena na COP30
Também no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, será instalada a Aldeia COP — ou Aldeia Indígena da COP30 — um espaço voltado à participação dos povos originários nas discussões climáticas globais. A estrutura está sendo organizada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em parceria com organizações da sociedade civil, e será montada na área da Escola de Aplicação da universidade. A expectativa é receber cerca de 3 mil indígenas, do Brasil e de outros países.
Com gestão autônoma, a Aldeia contará com alojamentos, refeitório, feira de saberes e programação cultural própria. As lideranças indígenas articulam a obtenção de 500 credenciais para participar das negociações oficiais da conferência. Um dos principais pontos defendidos é o reconhecimento da demarcação de terras indígenas como medida efetiva de enfrentamento à crise climática, dado que esses territórios concentram grande parte das florestas preservadas e das reservas hídricas do país.
“Estamos organizando tudo com muito carinho, com muito gosto, para ser um espaço bonito, digno, com ótimo acolhimento e com uma agenda totalmente conectada com as discussões dos outros espaços. Vamos construir a maior e melhor participação indígena na história das COPs”, afirmou a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara.
A ministra e outras lideranças também têm cobrado maior transparência na gestão de fundos climáticos, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que prevê a destinação de 20% dos recursos a povos indígenas e comunidades tradicionais. Elas reivindicam participação direta na gestão e no monitoramento desses recursos.
O debate em torno de mecanismos como o TFFF, no entanto, esbarra na linguagem técnica frequentemente usada nas negociações internacionais. A chamada “sopa de letrinhas” — repleta de siglas como NDC, IPCC e GST — torna o debate inacessível para quem não acompanha de perto as negociações climáticas. Em resposta a isso, iniciativas como o “Dicionário do Fim do Mundo“, produzido pela Repórter Brasil, buscam traduzir o chamado “climatiquês” e aproximar o público das discussões ambientais.
Para Pablo Neri, coordenador da Cúpula dos Povos, é hora de romper essa barreira técnica. “As mudanças climáticas deixaram de ser algo distante, das calotas polares. Agora representam chuvas extremas e ilhas de calor que já nos afetam muito. Estamos sentindo na pele os efeitos dos eventos extremos. Vivemos um novo momento de luta pela justiça climática”, afirmou.
Para concluir
A poucos passos dos salões climatizados onde chefes de Estado debaterão metas e mercados, a Cúpula dos Povos sinaliza que não há solução legítima para a crise climática sem justiça social e territorial. Em Belém, o contraste entre promessas de uma economia verde e a realidade vivida por quem mantém a floresta em pé expõe os limites do discurso oficial. A resistência organizada nas margens da COP30, materializada em espaços como a Aldeia COP, a Casa da COP do Povo e os galpões improvisados da UFPA, revela que as verdadeiras alternativas emergem de baixo — dos territórios, das cozinhas comunitárias, das assembleias populares e das redes de solidariedade. Nesse contexto, a Cúpula dos Povos não é apenas um evento, mas uma afirmação de que outro modelo de desenvolvimento é possível, necessário e urgente. Ao escancarar as contradições do multilateralismo climático e dar centralidade às vozes historicamente silenciadas, essa mobilização popular aponta um caminho: ou a transição ecológica será conduzida com os povos — e não apesar deles —, ou seguirá sendo apenas uma miragem num planeta em colapso.
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