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Especial

MAIORIA INVISÍVEL

Eles não gritam, mas decidem o rumo do Brasil

Publicado em 17/10/2025 3:35 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Muito além da gritaria das redes e da disputa entre petistas e bolsonaristas, existe uma maioria silenciosa que pouco aparece no noticiário, mas tem nas mãos o futuro político do país. Representando 54% da população, os chamados “Desengajados” e “Cautelosos” não se alinham com os polos ideológicos dominantes. São majoritariamente pobres, têm baixa escolaridade, desconfiam das elites e, embora conservadores nos costumes, defendem políticas sociais. Ignorados nos debates, ausentes das manifestações e indiferentes à guerra cultural, são eles que vêm decidindo eleições — e podem definir o rumo do Brasil em 2026.

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O senso comum, amplificado pelas caixas de ressonância das redes sociais e pelo calor do debate político, tem nos convencido de que o Brasil está irremediavelmente polarizado, cindido em duas metades viscerais: petistas de um lado, bolsonaristas de outro. Essa dicotomia, na visão de muitos, seria suficiente para explicar não apenas a disputa eleitoral, mas a opinião da maioria dos brasileiros sobre todos os grandes temas políticos.

Bem, essa é a versão que gera manchetes e engajamento. Mas ela é, como toda simplificação, enganosa, segundo uma ampla pesquisa realizada pela ONG More in Common em parceria com a Quaest, coordenada por Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo.

Ela desmonta essa interpretação e revela um panorama mais complexo e cheio de nuances. A polarização, na verdade, não é um fenômeno de massa que abarca toda a população, mas está concentrada nas pontas do espectro político, em minorias que, por serem extremamente vocais e engajadas, dominam o debate público e abafam a voz de uma vasta maioria.

Segundo Ortellado, a pesquisa buscou “investigar o fenômeno da polarização política em quatro sentidos consagrados: polarização das opiniões sobre temas políticos, polarização das identidades políticas, alinhamento das opiniões com identidades e polarização afetiva”.

O Brasil, segundo o estudo, não se divide em dois que se veem como petistas ou bolsonaristas, direita ou esquerda, mas em seis segmentos ideológicos. E o pulo do gato está exatamente no tamanho desses grupos.

Se os grupos mais engajados continuam a gritar nas redes e a se engajar em manifestações, o poder de decisão ainda repousa sobre uma imensa maioria de brasileiros pobres, conservadores em seus valores, que veem importância nas políticas sociais, mas são desconfiados das elites. Foram mais de dez mil entrevistados com uma margem de erro de apenas um ponto.

A maioria que ninguém ouve: os “invisíveis”

Os segmentos que formam as pontas polarizadas são pequenos. À esquerda, os Progressistas Militantes representam cerca de 5% da população. À direita, os Patriotas Indignados somam aproximadamente 6%. São esses os grupos mais engajados e ruidosos. Eles, inclusive, puxam consigo dois outros grupos de apoio, mais numerosos e menos engajados: a Esquerda Tradicional (14%) e os Conservadores Tradicionais (21%).

Segundo Ortellado, “Conservadores e Patriotas são bem parecidos nas opiniões. Nos grupos focais que fizemos, eles têm discursos muito semelhantes. A diferença é que os Patriotas Indignados têm identidade mais forte, participam mais da política e se definem mais como bolsonaristas”.

Juntos, no entanto, todos esses grupos somam 46% da população. Ocorre que os outros 54%, a tal maioria silenciosa, são compostos por dois segmentos gigantes, que o estudo batizou de Desengajados e Cautelosos. Cada um deles corresponde a 27% da população brasileira. O primeiro é mais progressista e o segundo, mais conservador, mas esses rótulos não explicam seu perfil ou comportamento.

“O que define esses segmentos intermediários é que eles estão sob um efeito bem mais suave da ação dos grupos polarizados. Se o que move o grupo mais conservador é a questão da moral, da ordem, dos valores familiares e o que move o grupo mais progressista é a justiça social, os grupos do meio assimilam as duas coisas a mesmo tempo, em nuances”, explicou Ortellado ao UOL.

Esses dois segmentos são chamados pela pesquisa de os “Invisíveis” porque não estão polarizados na maioria das questões investigadas e preferem se afastar da política ruidosa. E é o pensamento desse bloco majoritário que precisa ser decifrado, pois é ele quem, no final das contas, detém o poder de decisão em qualquer eleição.

“Os Progressistas Militantes e Patriotas Indignados, de um lado e de outro, são respaldados por grupos maiores de Esquerda e Conservadores. Mas o meião, apesar de contar com 54%, é o grande ausente do debate público. Esse campo intermediário é silenciado no debate público”, aponta Ortellado.

Nos grupos focais realizados para a pesquisa, essa maioria afirmou que não é despolitizada, mas foi afastada da política. Ela tem uma opinião de mundo elaborada, preocupada com políticas sociais e valores, mas não compartilha posts políticos, não participa de manifestações e muitos nem vão votar.

Isso faz com que os segmentos de esquerda ou direita se sobressaiam e que a percepção coletiva sobre o debate político brasileiro ignore as opiniões dessa maioria. Em suma, quem é barulhento, aparece. Mas não significa que é maioria.

O perfil social da desmobilização

A desmobilização desses grupos não é sinônimo de despolitização, mas sim de um afastamento da política atual.

Os Desengajados (27%) são o grupo menos escolarizado (apenas 6% têm curso superior) e o mais pobre (65% têm renda menor que R$ 5 mil) — e, portanto, será especialmente beneficiado pela isenção do Imposto de Renda proposta pelo governo. É também o segmento com maior proporção de pessoas que se declaram pretas (13%) e que já vivenciaram a insegurança alimentar (12% não teve o que comer). Estão na base da pirâmide socioeconômica e são os mais afetados pela precariedade, preocupando-se com a segurança econômica e os serviços públicos de saúde e combate à pobreza.

Sua distância da política eleitoral é evidente: 30% votaram branco, nulo ou não foram votar nas eleições de 2022. Apenas 15% consideram manifestações políticas importantes. Sua falta de identificação partidária é a maior entre todos os grupos (65% não simpatizam com partido nenhum, embora 21,5% simpatizem com o PT). E, embora 72% se identifiquem com valores conservadores, 46% não se definem nem como petistas nem como bolsonaristas.

Já os Cautelosos (27%) partilham parte dessa realidade: depois dos Desengajados, são o segmento menos escolarizado (11% com superior) e mais pobre (55% com renda menor que R$ 5 mil). Também é o com mais nordestinos (31%) e população rural (17%) e, assim como os Desengajados, 12% não tiveram o que comer em algum momento da vida. Os Cautelosos apresentam uma identidade mais marcante como conservadores (81%). Contudo, eles demonstram identidades desalinhadas, sendo 45% petistas e 40% de direita.

É um grupo que se destaca pela grande desconfiança das elites, em especial as intelectuais.

Em resumo, os dois grupos de invisíveis no debate público têm mais incidência de baixa escolaridade, de baixa renda e da cor negra, enquanto que as pontas do debate público são mais escolarizados, mais ricos e mais brancos.

As “Guerras Culturais” não chegam ao miolo do povo

A pesquisa mostra que mesmo nos temas que são o motor da polarização, as chamadas “guerras culturais”, que incluem moralidade, família, sexualidade, drogas e punição a criminosos, a maioria invisível adota posições não polarizadas.

A polarização nesses temas é frequentemente agravada pelas redes sociais. Como observa a Academia Brasileira de Ciências: “A polarização na sociedade moderna é agravada pelo sucesso dos sistemas de recomendação, que nos levam a crer ainda mais naquilo em que já acreditamos”.

A posse de armas é um bom exemplo dessa moderação. Enquanto 93% dos Patriotas Indignados e 81% dos Conservadores Tradicionais concordam que “o cidadão de bem deve ter direito à posse de arma”, e apenas 9% dos Progressistas Militantes concordam com isso, os segmentos invisíveis se colocam no meio: 38% dos Desengajados e 55% dos Cautelosos concordam com a posse. Há uma variação muito maior nas posições dos seis segmentos do que na simples divisão por voto entre Lula (34% de concordância) e Bolsonaro (68% de concordância).

“Normalmente a gente lê pesquisa de opinião contrastando eleitor do Lula com o do Bolsonaro. E embora isso explique um pedaço da dinâmica social, ela tende a uma leitura dicotômica que ignora as nuances”, afirma Pablo Ortellado.

Outros temas de costumes confirmam esse cenário de moderação, analisados com base em concordância ou discordância com declarações:

Punitivismo (“Os direitos humanos atrapalham o combate ao crime”): Desengajados se dividem (50% de concordância e 50% de discordância). Cautelosos tendem mais à concordância (69%).

Cotas raciais (“Cotas raciais são uma forma de racismo”): Desengajados concordam em 54%; Cautelosos, 67%.

Feminismo (“A ideologia feminista é uma ameaça para a família brasileira”): 69% dos Desengajados discordam; 54% dos Cautelosos concordam.

O anseio pela trégua

Apesar de toda a gritaria das minorias, a pesquisa avalia que há um cansaço com o conflito e o desejo por união é um sentimento crescente e presente em todos os segmentos.

Uma ampla maioria de brasileiros acredita que o país tem mais coisas em comum do que diferenças. Nos Desengajados, esse percentual é de 70%, e nos Cautelosos, de 73%. O desejo por uma política menos beligerante é avassalador: uma ampla maioria, que atinge 92% nos Desengajados e 96% nos Cautelosos, gostaria que “todos os partidos políticos trabalhassem juntos para resolver os problemas do país”.

Não necessariamente há polos segregados, mas fatores temporais, políticos e conjunturais que moldam o grau de tensão entre grupos sociais. Isso reforça a ideia de que a polarização, embora ruidosa, não é permanente — e pode ser superada.

Os 54% que ninguém ouve podem não estar debatendo no X, mas sua moderação e anseio por união são o motor silencioso das eleições.

A permanência da democracia no Brasil não depende apenas das instituições formais ou da resistência dos setores mais politizados. Depende, sobretudo, da capacidade de mobilização e consciência crítica dessa maioria silenciosa, que hoje forma o verdadeiro centro de gravidade do país. São cidadãos que, embora distantes do debate público, carregam em suas experiências concretas — de pobreza, exclusão e invisibilidade — os efeitos mais brutais da desigualdade estrutural brasileira.

E é justamente sobre essa base vulnerável que projetos autoritários têm investido, instrumentalizando valores como ordem, família e fé para legitimar ataques à liberdade, à pluralidade e aos direitos civis. Diante disso, o desafio não é apenas vencer uma eleição, mas disputar sentidos, restaurar o valor da política como instrumento de emancipação coletiva e romper com o ciclo histórico de manipulação e apatia. Em 2026, o voto não será apenas um direito: será um ato de resistência.

Principais achados das pesquisas sobre o comportamento político da maioria não polarizada no Brasil

  1. O Brasil político não está dividido apenas entre esquerda e direita

A população brasileira se organiza em seis grandes segmentos ideológicos:

Progressistas Militantes (5%)

Esquerda Tradicional (14%)

Desengajados (27%)

Cautelosos (27%)

Conservadores Tradicionais (21%)

Patriotas Indignados (6%)

Os dois grupos mais polarizados (Progressistas Militantes e Patriotas Indignados) representam apenas 11% da população, embora dominem o debate público.

  1. 54% da população está fora da polarização ativa

São os chamados “invisíveis”, compostos pelos grupos dos Desengajados e Cautelosos.

Embora silenciosos, são socialmente conscientes, não despolitizados, e têm opiniões formadas sobre justiça social, valores conservadores e o papel do Estado.

  1. Esses grupos combinam valores progressistas e conservadores

Valorizam políticas sociais, mas também expressam forte preocupação com segurança, ordem e valores familiares.

Exemplo: 72% dos Desengajados se identificam com valores conservadores, mesmo com 21,5% simpatizando com o PT.

  1. Baixo engajamento político e alto índice de abstencionismo

30% dos Desengajados não votaram, votaram branco ou nulo em 2022.

Apenas 15% consideram manifestações políticas relevantes.

Mais de 60% não se identificam com nenhum partido político.

  1. Baixa escolaridade, renda e exclusão marcam o perfil dos invisíveis

Desengajados: 65% têm renda inferior a R$ 5 mil, 6% têm ensino superior, 13% se declaram pretos, e 12% já passaram fome.

Cautelosos: 55% com renda abaixo de R$ 5 mil, 11% com ensino superior, 31% são do Nordeste, 17% vivem em áreas rurais.

  1. Os invisíveis decidem eleições

Em 2022, foram cruciais para a vitória de Lula, mesmo com baixa mobilização.

Segundo a Genial/Quaest, a melhora na aprovação do governo Lula entre maio e outubro de 2024 ocorreu quase exclusivamente entre os não alinhados politicamente.

  1. A polarização é limitada e pontual

Segundo Ortellado, os estudos mostram que a polarização se dá mais por engajamento afetivo e identitário do que por divergências profundas de opinião sobre todos os temas.

A pesquisa “As flutuações de longo prazo da polarização no Brasil” aponta que a polarização varia com o contexto político e não é estrutural ou permanente.

  1. A maioria quer menos conflito e mais cooperação

92% dos Desengajados e 96% dos Cautelosos desejam que todos os partidos trabalhem juntos para resolver os problemas do país.

70% e 73% (respectivamente) acreditam que o Brasil tem mais coisas em comum do que diferenças.

  1. Há resistência à radicalização ideológica

Em temas como posse de armas, direitos humanos, cotas raciais e feminismo, os “invisíveis” expressam opiniões moderadas ou ambivalentes, sem adesão cega a bandeiras políticas de qualquer lado.

  1. Interesse pelas eleições cresce apenas na reta final

Só 16% dos não-alinhados estão prestando atenção na eleição de 2026 ou planejando se informar ainda em 2025.

A grande maioria só começa a se informar durante a campanha ou na última hora, reforçando a importância da comunicação política no período eleitoral.

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