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Especial

UM PAPA DA RESISTÊNCIA

Leão XIV desafia o nacionalismo cristão da extrema direita

Publicado em 09/05/2025 3:51 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A fumaça branca que subiu da Capela Sistina não anunciou apenas o fim de um conclave: ela marcou o início de um embate que ultrapassa os muros do Vaticano. Robert Francis Prevost, eleito papa sob o nome de Leão XIV, é ao mesmo tempo produto e resposta a uma era de polarização global, fundamentalismos religiosos e colapsos democráticos. Imigrante, agostiniano, conservador em costumes e progressista na justiça social, o novo pontífice já se tornou alvo da extrema direita americana — liderada por Donald Trump — que o acusa de marxismo, “wokismo” e traição. Mas sua eleição é muito mais que um gesto simbólico. É uma tentativa da Igreja Católica de reafirmar seu papel como ator moral num mundo à beira do abismo.

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Prevost é, à primeira vista, uma escolha surpreendente. Nascido em Chicago, ele trilhou um caminho singular até o Trono de Pedro. Missionário no Peru, naturalizou-se peruano, abraçando a identidade latino-americana de forma visceral. Poliglota, discreto e dotado de sólida formação intelectual, foi forjado na espiritualidade agostiniana — que valoriza a interioridade, a fraternidade comunitária e o serviço aos mais pobres — e destacou-se como um dos articuladores da reforma administrativa iniciada por Francisco.

Ao adotar o nome Leão XIV, Prevost se coloca deliberadamente como herdeiro da tradição de Leão XIII, o papa da Rerum Novarum (1891), documento fundador da doutrina social da Igreja. Em tempos de industrialismo brutal, Leão XIII ousou criticar tanto o liberalismo econômico quanto o socialismo revolucionário, defendendo o direito à propriedade privada, mas exigindo responsabilidade social dos ricos. Foi, como observou o historiador Étienne Fouilloux, “o papa que descobriu a questão operária”.

Leão XIV parece querer ser o papa que enfrentará a “questão civilizatória”: o risco de regressão ética e democrática sob o avanço de uma nova forma de barbárie — marcada pela desigualdade estrutural, pela exclusão social, pelo desmonte dos direitos e pela captura da fé por ideologias nacionalistas.

Um rugido latino-americano no coração do império

A eleição de um papa norte-americano parecia, para muitos setores do catolicismo conservador, a oportunidade ideal para “corrigir os desvios” do pontificado de Francisco. Era o desejo expresso de parte da ala trumpista da Igreja — que via com incômodo crescente a ênfase do argentino em temas como justiça social, ecologia integral, acolhimento a migrantes e críticas ao capitalismo financeiro.

Mas a resposta do conclave foi outra. Em vez de um papa alinhado ao nacionalismo cristão, elegeu-se um imigrante. Um papa americano, sim, mas que fala espanhol, que viveu e se formou pastoralmente na América do Sul, e que ecoa — embora em tom próprio — o espírito de Aparecida, Medellín e Puebla. É esse “rugido latino”, como ironizou um analista conservador, que agora emana do Vaticano.

Leão XIV não nega suas raízes americanas. Mas tampouco é refém delas. E é justamente essa ambivalência — esse pertencimento duplo, essa ponte cultural — que o torna um desafio incômodo ao nacionalismo cristão que floresceu nos EUA sob Trump, particularmente na forma da teologia do domínio, doutrina que postula que os cristãos têm mandato divino para controlar todas as esferas da sociedade, do governo à mídia, da economia à educação.

A extrema direita reage: “marxista”, “globalista”, “fantoche woke”

As reações não tardaram. Donald Trump, em um gesto diplomático, saudou a eleição de um papa americano. Mas os seus aliados foram menos contidos. Laura Loomer, conselheira informal de Trump, atacou Prevost como “fantoche marxista”. Steve Bannon, que durante anos tentou montar uma “academia do populismo” nos arredores de Roma, declarou que Prevost seria “infelizmente um dos mais progressistas”.

As críticas se intensificaram com a revelação de postagens antigas do novo papa, nas quais ele denunciava as deportações em massa promovidas por Trump e compartilhava documentos de Francisco em defesa dos migrantes. O influenciador Joey Mannarino afirmou: “Esse é pior que Francisco. Estamos ferrados.” Megyn Kelly alertou para o “perigo” de um papa jovem com potencial para reformas duradouras. E Charlie Kirk, líder conservador, acusou o novo pontífice de “propaganda sobre George Floyd”.

A retórica não é nova. Durante o pontificado de Francisco, parte da extrema direita tentou sequestrar o discurso católico, moldando-o ao gosto da ideologia MAGA (Make America Great Again), onde a moral sexual tradicional é exaltada, mas os direitos humanos são tratados como conspiração “globalista”. Leão XIV, mesmo sem romper com os dogmas, coloca-se na contramão desse projeto: reafirma a dignidade dos migrantes, denuncia o racismo estrutural e sinaliza uma Igreja que, como queria Paulo VI, deve ser “especialista em humanidade”.

Uma Igreja em encruzilhada

A eleição de Leão XIV deve ser lida também como movimento estratégico. Ao escolher um papa que conhece profundamente tanto a Igreja do Norte quanto a do Sul, o colégio cardinalício busca preservar a unidade da fé sem ceder ao reacionarismo. É um gesto de equilíbrio — mas também de resistência.

A Igreja vive hoje uma crise multifacetada. No Norte global, enfrenta o secularismo, os escândalos de abuso sexual, a fuga de vocações e a crescente irrelevância cultural. Nos Estados Unidos, embora os católicos representem 72 milhões de pessoas e um terço do Congresso, a fé institucional está sob cerco, dividida entre os que querem uma “Igreja fortaleza” e os que sonham com uma “Igreja em saída”.

Na América Latina, África e Ásia — onde a fé ainda pulsa com vitalidade — a Igreja é desafiada pela pobreza, pela violência e por igrejas neopentecostais que oferecem respostas simples a problemas complexos. Leão XIV carrega em si a síntese desse dilema. E também a possibilidade de superá-lo.

A missão de educar os ricos

A escolha do nome Leão XIV não é apenas homenagem. É uma convocação histórica. Leão XIII escreveu, em 1891, que a riqueza “torna-se mais sagrada quanto mais escassa for” e que “explorar a miséria é crime que clama aos céus”. Ao reler a Rerum Novarum hoje, percebe-se a atualidade de suas denúncias: concentração de renda, usura financeira, exploração do trabalho, desprezo pelos pobres.

Mas, como observou o sociólogo Pierre Rosanvallon, a injustiça contemporânea não é mais vivida apenas como desigualdade, mas como humilhação. Leão XIV herda o desafio de mostrar que a fé não é alienação, mas fermento de transformação. Como declarou em sua homilia inaugural: “Deus nos quer bem. Deus nos ama a todos. O mal não prevalecerá. […] A humanidade necessita de pontes”.

Não se trata de ingenuidade. Trata-se de uma decisão política e espiritual: enfrentar o caos do presente com a força moral de uma instituição que, apesar de suas falhas, ainda tem autoridade para convocar consciências.

Cidade dos homens, Cidade de Deus

A imagem que melhor define o momento talvez seja a de Santo Agostinho, citado pelo próprio Leão XIV: entre a “cidade dos homens”, marcada pela vaidade e pela violência, e a “Cidade de Deus”, feita de justiça e amor. O novo papa sabe que essa cidade não se constrói no céu, mas aqui — na política, na economia, nas ruas, nos campos de refugiados.

Leão XIII quis reformar os ricos para evitar o socialismo. Leão XIV precisará educá-los contra a barbárie. Num tempo em que se ergue muros ao invés de pontes, ele propõe a fraternidade. Numa era de manipulação digital, responde com silêncio contemplativo. Num mundo polarizado, insiste na paz desarmada.

O confronto com Trump, já em curso, será apenas o primeiro de muitos. Mas, ao contrário do ex-presidente americano, que usou inteligência artificial para vestir-se simbolicamente de papa, Leão XIV traz uma autoridade que não se falsifica. Porque foi forjada não no palco da vaidade, mas nas periferias do mundo.

Entre a diplomacia e o confronto

Ainda que a eleição tenha sido saudada publicamente por Donald Trump — “Que honra para nosso país”, escreveu o ex-presidente nas redes sociais —, a história entre o novo papa e o trumpismo é marcada por tensões explícitas. Em fevereiro de 2024, Prevost usou suas redes sociais para criticar o então vice-presidente J.D. Vance, figura de destaque na direita cristã americana. Compartilhou um artigo do National Catholic Reporter intitulado: “J.D. Vance está errado: Jesus não nos pede que classifiquemos nosso amor pelos outros”, em resposta a declarações do vice na Fox News, que relativizavam o acolhimento a imigrantes.

Dias depois, Prevost divulgou uma carta de Francisco aos bispos dos EUA, na qual o pontífice argentino criticava a política de deportações da Casa Branca como incompatível com os valores cristãos. A resposta do governo americano, à época, foi de indignação. No entanto, o então cardeal não recuou: voltou a criticar medidas antimigratórias, inclusive envolvendo o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e a deportação de um imigrante sem documentação.

No plano simbólico, a tensão entre o novo papa e a direita cristã se traduz também em estilos distintos de espiritualidade e poder. Leão XIV representa uma Igreja de “pé no barro”, como diria Dom Helder Câmara. Uma Igreja que sofre com os pobres, que caminha com os migrantes, que ouve as periferias — como prega a tradição da Teologia do Povo, influente na América Latina. Isso o distancia frontalmente da “teologia do domínio” que orienta setores do nacionalismo cristão nos EUA, cuja base doutrinária afirma que os cristãos têm o dever de governar o mundo segundo princípios estritamente morais, muitas vezes excludentes.

A encruzilhada dos católicos americanos

Com 72 milhões de católicos nos Estados Unidos — cerca de 20% da população — e um terço do Congresso se declarando fiel à Igreja de Roma, a eleição de um papa americano parecia, à primeira vista, uma vitória simbólica para os setores conservadores. Mas a decepção não tardou. A retórica de inclusão social, o histórico crítico às políticas migratórias e o alinhamento com Francisco em temas sociais tornaram-se alvo imediato de blogs ultraconservadores como The Federalist e CatholicVote.

Apesar de suas posições mais tradicionais sobre temas como aborto, sexualidade e estrutura familiar — em que criticou, por exemplo, a “simpatia da imprensa por estilos de vida homossexuais” e por “famílias alternativas compostas por parceiros do mesmo sexo” (segundo o The New York Times) —, Leão XIV deixou claro que não pretende fazer desses assuntos o eixo de sua gestão. O foco está nas margens: na crise dos refugiados, na emergência climática, na desigualdade econômica.

Essa combinação — firmeza doutrinária com justiça social — lembra a advertência feita pelo filósofo francês Jacques Maritain, católico e democrata-cristão, que via na união entre fé e direitos humanos uma via legítima de reconstrução da política moderna. Para Maritain, “uma civilização não se define pelo grau de avanço técnico, mas pela medida em que respeita a dignidade humana”.

Leão XIII, Leão XIV e o dilema da civilização

Ao evocar Leão XIII, o novo papa se inscreve em uma linhagem teológica que vê na ação política e social da Igreja um prolongamento do Evangelho. A Rerum Novarum, escrita em 1891, denunciava a exploração dos trabalhadores, a usura e a concorrência selvagem. Mas também condenava o socialismo, por considerar que ele atentava contra a propriedade e a ordem natural. Era uma posição intermediária, mas revolucionária: reconhecia a dignidade do trabalho, exigia salários justos, e via no Estado o guardião da justiça distributiva.

Hoje, Leão XIV parece herdar esse impulso, mas em um mundo onde os inimigos não são mais os “vermelhos” de outrora, mas as forças da desumanização. O teólogo alemão Jürgen Moltmann, em sua obra O Deus Crucificado, já advertia que o cristianismo que se alheia ao sofrimento dos pobres perde sua legitimidade histórica. Prevost, com sua espiritualidade agostiniana, parece tomar para si essa advertência: não se pode anunciar a “Cidade de Deus” sem enfrentar as dores da “cidade dos homens”.

O papa entre Trump e Francisco

Na prática, a eleição de Leão XIV também é um sinal de que Francisco influenciou decisivamente o rumo do conclave. Ao nomeá-lo chefe do Dicastério para os Bispos e promovê-lo ao colégio cardinalício, o papa argentino sinalizou confiança e reconhecimento. Seu gesto de incluir mulheres com poder de voto nas decisões episcopais, com apoio direto de Prevost, antecipou a abertura institucional que o novo papa agora terá de conduzir num cenário de crise.

Diplomatas da Santa Sé já admitem que a relação com Washington será delicada. A tentativa de Trump de capitalizar o “papa americano” como trunfo geopolítico pode colidir frontalmente com o ethos pastoral de Leão XIV. O Vaticano deve manter sua independência, ainda que pressione discretamente em temas como migração, racismo estrutural e liberdade religiosa.

No final, o verdadeiro dilema está diante dos fiéis: “Ou seguirão seu presidente, ou seguirão seu papa”, disse um ex-embaixador na Santa Sé, em condição de anonimato. Essa bifurcação — entre uma fé capturada pela política e uma fé que desafia o poder — poderá definir o papel da Igreja Católica no século XXI.

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