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Ágora Digital

Da Gestapo ao ICE

O terror migratório da extrema direita e a repetição das sombras da história

Publicado em 09/05/2025 2:45 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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Na manhã cinzenta de Worcester, Massachusetts (EUA), um episódio brutal reacendeu feridas antigas e mostrou como o passado se infiltra, sorrateiro, no presente. Uma brasileira, ainda não identificada, foi arrancada de seu carro pelas autoridades do ICE – o braço imigratório do Estado norte-americano – diante de sua filha e de um bebê de dois meses. A menina foi imobilizada com o rosto no asfalto. A mãe, levada sem mandado judicial. O bebê, entregue às pressas a terceiros. O cenário, filmado e denunciado por vizinhos (assista ao vídeo), beira o inominável. Mas não é inédito. É a imagem mais recente de um projeto político que, sob o disfarce da legalidade, opera à semelhança das polícias políticas que marcaram os regimes autoritários do século XX.

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A comparação não é retórica. Quando Donald Trump reassumiu a presidência em janeiro deste ano, reativou com força total a engrenagem persecutória que marcou seu primeiro mandato. As ações do ICE deixaram de ser meramente administrativas e passaram a operar com lógica de extermínio simbólico: o objetivo é eliminar da vida pública os indesejáveis. Estudantes com visto válido, crianças em idade escolar, trabalhadores sem antecedentes criminais, mães, pais, adolescentes. Todos sob vigilância. Todos, potenciais alvos.

A prática de separação familiar como tática de coerção remete aos tempos mais sombrios da história moderna. A Gestapo, polícia secreta nazista, tornava-se onipresente ao transformar qualquer espaço – escola, casa, igreja – em território vulnerável. A diferença, como observa Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, não está apenas na brutalidade do ato, mas na sua banalização: “O mal pode ser profundamente banal quando executado em nome da obediência e da legalidade”.

Hoje, nos Estados Unidos, o ICE ocupa esse lugar. Já não se trata apenas de aplicar a lei migratória, mas de transformar corpos estrangeiros – sobretudo latinos, negros e muçulmanos – em inimigos públicos. Como nos tempos do macarthismo, o medo virou política de Estado. Como na África do Sul do apartheid, a identidade é um passaporte ou uma sentença. Como no Brasil da ditadura, o silêncio é imposto pela força.

Rosalba Hernández, uma mexicana vivendo há mais de 20 anos na Califórnia, personifica esse estado de exceção. Mãe de cinco filhos, quatro deles nascidos nos EUA, ela hoje carrega os documentos das crianças não por medo de terremotos, mas por temor da polícia migratória. “Você vai para o trabalho, mas não sabe se volta para casa”, diz. Não tem antecedentes criminais. Trabalha até 16 horas por dia. Contribui para a economia. Mas é tratada como ameaça.

O fenômeno é mais profundo do que a mera xenofobia. Estamos diante da militarização da vida civil, da criminalização da existência imigrante e da corrosão do espaço democrático. A revogação de diretrizes que protegiam escolas e igrejas da ação do ICE – implementada nos primeiros dias do segundo mandato de Trump – foi a senha para transformar os espaços de aprendizado em zonas de guerra ideológica.

O caso da estudante turca Rumeysa Ozturk, detida por agentes mascarados em Boston, e os mais de 300 vistos estudantis cancelados nos últimos meses, revelam que nem a condição legal protege mais da perseguição. Universidades que abrigaram protestos pró-Palestina foram alvos preferenciais. Professores denunciaram alunos ao ICE. Em Oklahoma, uma norma exige comprovante de cidadania para matrícula escolar, criando um ambiente de intimidação.

O medo se espalha como névoa. Estudantes abandonam as aulas. Famílias evitam sair de casa. Crianças choram à porta das escolas com medo de não ver os pais ao final do dia. Como observou o sociólogo Achille Mbembe, no conceito de necropolítica, o poder de decidir quem vive e quem morre – física ou simbolicamente – é o que define os regimes autoritários modernos. Nos EUA de Trump, esse poder se exercita diariamente contra os imigrantes.

Mas nem tudo é silêncio. A organização Unión del Barrio patrulha madrugadas em Los Angeles e San Diego para alertar a comunidade sobre a presença do ICE. A jovem Rebecca Garza, filha de mexicanos, lidera ações em sua escola para informar estudantes sobre seus direitos, mesmo sendo reprimida por isso. A solidariedade dos vizinhos em Worcester impediu, ainda que temporariamente, que o terror se naturalizasse.

É preciso nomear o que se passa: não é política migratória; é perseguição política. A criminalização do imigrante é o veículo pelo qual o projeto de extrema direita tenta instaurar o medo como norma. Como alerta Noam Chomsky, “o medo é o instrumento mais eficiente de controle social, especialmente quando dirigido contra grupos vulneráveis”.

Frente a isso, não cabe neutralidade. A democracia – real, plural, laica, antirracista, sexualmente livre e baseada em direitos humanos – está sendo desafiada por dentro. O trumpismo, como outras expressões do neofascismo global, aposta na erosão institucional e na degradação da empatia como estratégia política.

A história já mostrou aonde isso leva.

Que nunca nos falte memória. Nem coragem.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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