Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Especial

TRABALHAR PARA VIVER

Por que a direita teima no mote contrário: viver para trabalhar?

Publicado em 17/04/2026 2:41 - Semana On e BBC Brasil

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Há momentos em que uma pauta específica deixa de ser apenas um projeto em tramitação e passa a expor as fissuras mais profundas de um país — e o debate sobre o fim da escala 6×1 se tornou exatamente isso: um confronto aberto entre o desejo de milhões de trabalhadores por condições mínimas de descanso e uma engrenagem política e econômica que reage com cautela, resistência e, por vezes, alarmismo. Enquanto o Congresso hesita entre acelerar ou frear a proposta, pressionado por um Executivo que aposta no tema como vetor político e por uma opinião pública amplamente favorável, empresários, economistas e parlamentares travam uma disputa intensa sobre custos, produtividade e o próprio modelo de desenvolvimento brasileiro. No centro dessa tensão, emergem perguntas que vão além da jornada semanal: qual é o verdadeiro limite entre eficiência econômica e dignidade humana? E até que ponto o país está disposto a reorganizar seu tempo de trabalho para refletir as transformações do século XXI? É a partir desse embate — técnico, político e social — que se desenha uma das discussões mais reveladoras do Brasil contemporâneo.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP

A tramitação da proposta que trata da extinção da escala 6×1 – modelo em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos e descansa apenas um – sofreu um revés na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, após um pedido de vista coletiva apresentado pelos deputados Lucas Redecker (PSD-RS) e Bia Kicis (PL-DF). A medida adiou a análise do parecer do relator, deputado Paulo Azi (União-BA), e postergou a discussão para o fim do mês, segundo previsão da presidência do colegiado.

Nesta fase, cabe à CCJ avaliar exclusivamente a admissibilidade das propostas — isto é, se atendem aos critérios constitucionais e legais para prosseguir no Legislativo. O relator se posicionou favoravelmente à constitucionalidade, mas indicou a necessidade de aprofundar, em etapas futuras, aspectos como regras de transição e possíveis compensações ao setor produtivo.

O adiamento ocorre em um contexto de articulação política mais ampla para frear o avanço do tema. A utilização de instrumentos regimentais para retardar votações, conhecida como obstrução, tem sido empregada por parlamentares contrários à medida, sobretudo da oposição. Esse tipo de estratégia inclui requerimentos sucessivos, verificação de quórum e uso prolongado da palavra, com impacto direto no ritmo de deliberação em comissões-chave como a CCJ.

A resistência não se limita ao momento atual. Em 2024, durante discussão preliminar sobre o tema, o deputado Marco Feliciano (PL-SP) já havia sinalizado o uso do chamado “kit obstrução” para impedir até mesmo a realização de audiência pública proposta por Erika Hilton (PSOL-SP). À época, o debate ainda se restringia à coleta de subsídios, mas foi alvo de críticas contundentes, incluindo a rejeição à ideia de jornadas mais curtas.

Na ocasião, Feliciano defendeu abertamente um modelo baseado na intensificação do trabalho, associando longas jornadas ao crescimento econômico — argumento que contrasta com a literatura recente sobre produtividade e qualidade de vida.

Estudos internacionais relativizam essa associação. Levantamento do National Bureau of Economic Research indica que, embora a média global de jornada semanal esteja em torno de 42 horas, países de renda média concentram maior proporção de trabalhadores submetidos a cargas superiores a 45 ou 50 horas. Já economias desenvolvidas tendem a se aproximar do patamar de 40 horas, com menor incidência de jornadas extremas.

O mesmo estudo aponta que jornadas excessivas são mais frequentes em contextos com menor regulação e proteção trabalhista, sugerindo que a extensão do tempo de trabalho está menos ligada à produtividade e mais a fragilidades institucionais.

Pressões econômicas e críticas ao modelo

Além da oposição parlamentar, o setor empresarial também manifesta reservas quanto às propostas em discussão. Representantes argumentam que a redução da jornada sem ajuste proporcional de salários pode elevar custos operacionais, com possível repasse ao consumidor final.

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, estima que o aumento de custos trabalhistas poderia resultar em reajustes de preços entre 7% e 8%. Para ele, o debate público ainda não incorporou plenamente os impactos econômicos da medida sobre o consumo e a dinâmica dos negócios.

Embora não rejeite integralmente o fim da escala 6×1, o dirigente defende uma discussão mais ampla e baseada em dados. Ele também aponta o trabalho intermitente — modalidade introduzida na reforma trabalhista de 2017 — como alternativa para flexibilizar relações de trabalho sem impor custos fixos adicionais.

No campo político, críticas semelhantes emergem. O deputado Kim Kataguiri (União Brasil) avalia que mudanças estruturais desse tipo podem gerar efeitos colaterais, como aumento da informalidade, sem garantir melhora efetiva nas condições de trabalho. Como exemplo, cita a ampliação de vínculos informais após a chamada PEC das Domésticas.

Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), defende que a relação entre empregador e empregado seja pautada por produtividade e remuneração por hora trabalhada, modelo que considera mais compatível com transformações recentes, como o avanço do trabalho remoto. O parlamentar também sustenta que alterações dessa natureza deveriam ocorrer por meio de emenda constitucional, e não por projeto de lei, para evitar questionamentos no Supremo Tribunal Federal.

Opinião pública e correlação de forças

Apesar das resistências, a proposta encontra respaldo significativo na sociedade. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em dezembro indica que 72% da população apoia o fim da escala 6×1. No entanto, essa maioria não se reflete integralmente no Congresso: entre deputados, 42% se declaram favoráveis, enquanto 45% são contrários.

Embora o índice de rejeição tenha diminuído em relação a 2025, quando atingia 70%, a adesão parlamentar ainda é limitada, revelando um descompasso entre opinião pública e representação política. Em comparação, outras pautas — como a tarifa zero no transporte público — registram maior aceitação entre os congressistas.

O cenário evidencia que o debate sobre a reorganização do tempo de trabalho no Brasil extrapola a dimensão técnica e se insere em uma disputa mais ampla entre visões de desenvolvimento: de um lado, propostas que buscam reduzir jornadas e redistribuir o tempo; de outro, a defesa de modelos baseados na flexibilização e intensificação do trabalho como vetor de crescimento econômico.

Fim de maio

A expectativa é de que o Congresso Nacional deverá se debruçar, até o fim de maio, sobre o projeto. Encaminhada ao Legislativo pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na terça-feira (14), a proposta estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, assegura dois dias de descanso remunerado e veda qualquer diminuição salarial decorrente da mudança.

Classificado pelo Executivo como matéria de “urgência constitucional”, o texto impõe ao Congresso um prazo de 45 dias para deliberação. Caso a Câmara dos Deputados não conclua a análise nesse período, a pauta legislativa fica travada para outras votações. Ainda assim, o comando da Casa pode optar por não levar o projeto ao plenário, o que, embora paralise parte das atividades, não garante a aprovação da proposta. Situação semelhante pode ocorrer no Senado Federal do Brasil caso o texto avance entre os deputados.

Paralelamente ao projeto do governo, tramitam na Câmara duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) com objetivo semelhante: uma apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), em 2025, e outra pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), protocolada em 2019. Por tratarem do mesmo tema, ambas foram apensadas e seguem análise conjunta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), responsável por avaliar a admissibilidade das matérias. Se superarem essa etapa, avançam para uma comissão especial antes de eventual votação em plenário — percurso que também inclui apreciação posterior pelo Senado.

Pressão sindical e articulação política

O envio da proposta ocorre em meio a uma tentativa de mobilização social liderada pelo governo. Na quarta-feira (15), o presidente recebeu, em Brasília, representantes de centrais sindicais durante a chamada “marcha da classe trabalhadora”, realizada na Esplanada dos Ministérios. Ao todo, foram apresentadas 68 reivindicações ao Executivo.

Em discurso dirigido às lideranças, Lula ressaltou a necessidade de engajamento das entidades para viabilizar a aprovação da medida no Congresso. “Vocês não podem abdicar da responsabilidade de lutar pelos trabalhadores que representam”, afirmou, ao destacar que iniciativas enviadas ao Legislativo exigem articulação e pressão social para avançar.

O presidente também descreveu o cenário como desafiador e alertou para a existência de grupos que defendem mudanças nas relações de trabalho em sentido oposto, citando propostas similares às adotadas recentemente na Argentina, onde houve flexibilização com possibilidade de jornadas de até 12 horas diárias.

Expectativas e divergências no campo trabalhista

Entre os representantes sindicais, a iniciativa do governo foi recebida de forma positiva. O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, defendeu que a redução da jornada pode estimular o mercado de trabalho, estimando a criação de até 4 milhões de empregos.

Araújo também apontou potencial para reconfiguração produtiva no país, com ênfase em uma indústria orientada à sustentabilidade socioambiental. Ao mesmo tempo, alertou para riscos associados à chamada “pejotização” — prática em que trabalhadores são contratados como pessoa jurídica, embora exerçam funções típicas de vínculo formal regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Na mesma linha, o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, avaliou que a proposta já reúne condições para ser implementada. Segundo ele, a mudança ampliaria o tempo disponível para atividades pessoais, como convívio familiar, estudos e cuidados com a saúde. Torres também destacou a adesão expressiva à mobilização em Brasília, com a participação de mais de 20 mil trabalhadores.

Transformações no mundo do trabalho

A pauta apresentada pelas centrais sindicais, segundo o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz, projeta diretrizes para os próximos cinco anos. Ele enfatizou a necessidade de adaptação diante das transformações estruturais no mercado de trabalho, impulsionadas por avanços tecnológicos e mudanças climáticas.

Ganz citou estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que indicam maior impacto da inteligência artificial sobre mulheres e jovens, além de efeitos diretos da emergência ambiental sobre diferentes setores produtivos.

Outros pontos levantados incluem a proteção de trabalhadores por aplicativo e entregadores, mencionada pelo presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, que destacou a importância de políticas voltadas à saúde, à juventude e ao futuro do trabalho.

Já a presidenta da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST), Sônia Zerino, ampliou o escopo das reivindicações ao incluir o combate ao feminicídio como pauta prioritária da classe trabalhadora, defendendo ações baseadas em educação e conscientização social.

Nesse cenário, a proposta de redução da jornada e o fim da escala 6×1 passam a integrar um debate mais amplo, que envolve não apenas condições de trabalho, mas também os rumos do desenvolvimento econômico e social do país.

Bem-estar, produtividade e mudanças globais no trabalho

A defesa da redução da jornada de trabalho tem se estruturado, entre apoiadores, a partir de três eixos principais: qualidade de vida, reorganização produtiva e alinhamento com tendências internacionais. A avaliação predominante é que o atual modelo impõe desgaste excessivo à força de trabalho, com efeitos diretos sobre saúde, rendimento e estabilidade no emprego.

No entendimento do governo federal, a proposta encaminhada ao Congresso dialoga com transformações recentes no mercado, especialmente aquelas impulsionadas por avanços tecnológicos e ganhos de produtividade. Em nota oficial, o Palácio do Planalto sustenta que jornadas mais equilibradas tendem a reduzir afastamentos, elevar o desempenho e conter a rotatividade, além de favorecer uma melhor distribuição do tempo entre trabalho e vida pessoal.

A argumentação também recorre a experiências internacionais. Países latino-americanos como Chile e Colômbia já implementam processos graduais de redução da carga horária semanal, enquanto na Europa modelos com 40 horas ou menos predominam há décadas. Casos como o da França, com jornada de 35 horas, e de economias como Alemanha e Holanda — onde a média efetiva é inferior a 40 horas — são frequentemente citados como referência de reorganização do tempo de trabalho sem prejuízo à produtividade.

No plano político, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) tem se destacado como uma das principais vozes em defesa da mudança. Autora de uma proposta que prevê redução ainda mais ampla da jornada, para 36 horas semanais, ela enquadra o debate como uma questão de dignidade e reconhecimento do trabalhador como agente central da economia. Em intervenções no Congresso, tem enfatizado que a discussão ultrapassa o campo econômico e alcança dimensões sociais e humanas.

Entre os argumentos mobilizados, está a possibilidade de ampliação do tempo disponível para atividades fora do trabalho, como convivência familiar, educação, lazer e práticas religiosas. A deputada também associa a proposta à redução de desigualdades, ao apontar que parcelas mais ricas da população, em geral, trabalham menos horas e concentram maior renda. “Não é uma rejeição ao trabalho, mas à exploração”, sintetizou em discurso no plenário.

Fora do Parlamento, o debate tem sido impulsionado por mobilização social. O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ) ganhou projeção ao liderar uma petição pública que já reúne milhões de assinaturas e ao participar da criação do movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Ex-balconista de farmácia, ele trouxe para o centro da discussão relatos sobre o desgaste associado a rotinas com apenas um dia de descanso semanal.

Azevedo argumenta que a redução da jornada pode produzir efeitos econômicos indiretos, como estímulo ao consumo, ao ampliar o tempo livre da população. Segundo ele, experiências internacionais indicam que trabalhadores com mais disponibilidade tendem a consumir mais, o que pode retroalimentar a atividade econômica.

O vereador também critica o que classifica como uma estratégia de amplificação de riscos por parte de setores empresariais contrários à proposta. Para ele, há um discurso de “pânico econômico” que ignora transformações já observadas em outros países. Em tom comparativo, chega a associar a resistência atual a reações históricas a mudanças estruturais nas relações de trabalho.

Nesse contexto, a defesa do fim da escala 6×1 se insere em uma narrativa mais ampla de revisão das formas de organização do trabalho, na qual produtividade, bem-estar e distribuição do tempo passam a disputar espaço com modelos tradicionais baseados na extensão da jornada.

Pesquisa indica que maioria dos pequenos negócios não prevê efeitos adversos

Em meio ao debate sobre a reorganização da jornada de trabalho no país, dados recentes apontam que a resistência entre pequenos empreendedores pode ser menos homogênea do que sugerem setores críticos à proposta. Levantamento conduzido pelo Sebrae revela que 62% dos responsáveis por pequenos negócios não antecipam efeitos negativos com o eventual fim da escala 6×1 — sendo 51% indiferentes quanto ao impacto e 11% otimistas em relação a possíveis ganhos.

A pesquisa, realizada entre fevereiro e março, abrangeu microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, com margem de erro de 1,1 ponto percentual e nível de confiança de 95%. Os resultados indicam uma leve mudança de percepção em relação ao ano anterior, quando a parcela que não previa impactos adversos era menor, sugerindo uma gradual acomodação do tema entre os empresários.

Embora a maioria não projete prejuízos, a análise segmentada revela diferenças relevantes conforme o porte das empresas. Entre microempresas, predomina a avaliação de neutralidade, enquanto, entre empresas de pequeno porte, cresce a proporção dos que temem consequências negativas — sinalizando que estruturas mais complexas podem enfrentar maiores desafios de adaptação.

A leitura setorial também evidencia variações importantes. Em áreas como educação, economia criativa e artesanato, a percepção favorável ou neutra supera com ampla margem as expectativas negativas. Já segmentos como agronegócio, comércio varejista e serviços ligados à alimentação apresentam maior divisão, refletindo especificidades operacionais e margens mais sensíveis a custos trabalhistas.

Estratégias de adaptação e reconfiguração operacional

Entre os empresários que projetam impactos negativos — cerca de um quarto dos entrevistados —, predominam estratégias de ajuste voltadas à recomposição de custos e reorganização interna. O aumento de preços aparece como a principal resposta, seguido por mudanças na gestão de turnos e processos produtivos.

Há também menções à redução do quadro de funcionários e à ampliação de vínculos mais flexíveis, como a contratação de microempreendedores individuais. Parte dos entrevistados considera diminuir o horário de funcionamento, enquanto uma fração ainda avalia cenários sem definição clara de resposta.

Opinião pública e pressão institucional

Os dados do Sebrae dialogam com pesquisas de opinião mais amplas. Levantamento do Datafolha, divulgado em março, aponta que cerca de 71% da população apoia o fim da escala 6×1, indicando respaldo social significativo à proposta.

Esse cenário ocorre em paralelo à intensificação do debate no Congresso Nacional, onde propostas de emenda constitucional e iniciativas legislativas buscam reduzir a jornada semanal sem alteração salarial. A movimentação do Executivo para acelerar a tramitação da matéria, em um contexto de calendário eleitoral, adiciona pressão sobre parlamentares e amplia a visibilidade do tema.

Ao reunir percepções empresariais e opinião pública, os dados sugerem um quadro mais nuançado do que o embate político costuma indicar: embora haja preocupações legítimas sobre custos e adaptação, uma parcela expressiva dos pequenos negócios não identifica, ao menos neste momento, riscos significativos associados à mudança — o que tende a influenciar o rumo das negociações nos próximos meses.

Brasileiro trabalha pouco?

Quando economistas e empresários falam sobre o possível fim da escala 6×1, uma palavra surge com frequência: produtividade. “A gente tem que ser verdadeiro: aumenta o custo, sim; gera desemprego por causa desse aumento; o país perde produtividade”, afirmou Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em entrevista à GloboNews em 11 de março.

“Nenhuma nação foi capaz de enriquecer e pagar melhor sem antes promover ganhos de produtividade relevantes. A discussão que deveríamos estar pautando como obsessão nacional é como ganhar produtividade para pagar mais, melhor, e trabalhar menos”, disse Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), em entrevista à BBC News Brasil em fevereiro.

Mas o que é a produtividade? Por que ela se tornou central no debate sobre o fim da escala 6×1?

E por que alguns economistas criticam esta centralidade, argumentando que limitar o debate sobre o fim da escala 6×1 a isso pode ser insuficiente?

1. O que é produtividade e como é calculada

Produtividade do trabalho é a quantidade de bens e serviços que um trabalhador gera, em média, na economia com o seu trabalho, define Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

“Se você pensar num Starbucks: quantos clientes o trabalhador consegue atender em um dia? Essa é a produtividade dele”, exemplifica Naercio Menezes Filho, professor do Insper.

“Se pensar numa indústria automobilística: quantas partes do carro ele consegue botar num automóvel por dia? É um conceito bem intuitivo.”

Como é difícil ter acesso aos dados de cada empresa, em economia, a produtividade é medida usando o Produto Interno Bruto (PIB), valor gerado por todas as atividades econômicas do país.

O PIB é dividido por trabalhador ou horas trabalhadas — esta forma é usada, por exemplo, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para comparar a produtividade entre países.

A produtividade do trabalho é, por fim, o resultado da produtividade por hora de trabalho, multiplicada pelo total de horas trabalhadas.

2. Qual a posição do Brasil no ranking da produtividade

Segundo dados da OIT para 175 países, o Brasil ocupa apenas a 86ª posição entre as nações mais produtivas do mundo, considerando a produtividade por hora trabalhada, logo à frente da China (87ª).

O país, no entanto, fica atrás de grandes economias como Estados Unidos (12º), Alemanha (13º) e Reino Unido (22º), mas também de pares latino-americanos, como Chile (53º), Argentina (55º), México (81º) e até mesmo de Cuba (82º).

No topo da lista, estão Irlanda, Luxemburgo e Noruega.

Fernando de Holanda, da FGV, avalia que diversos fatores contribuem para a posição desfavorável do Brasil na comparação internacional, como a baixa qualificação da mão de obra e infraestrutura precária.

Também pesam um ambiente de negócios ruim (com elevada burocracia e tributação complexa, por exemplo) e falhas de mercado que pioram o funcionamento da economia — como incentivos mal desenhados e para setores específicos da atividade, desigualdade no acesso a crédito, entre outras.

Esses fatores reduzem a eficiência das empresas e levam a uma má alocação de recursos na economia, prejudicando a produtividade do país.

Menezes Filho, do Insper, cita ainda o reduzido nível de investimento do Brasil — influenciado pelos juros altos e baixa taxa de poupança — como outro fator que também afeta a produtividade, já que o estoque de capital (como máquinas, equipamentos, edifícios e infraestrutura) e a adoção de novas tecnologias também influenciam no quão produtivos são os trabalhadores.

Outros economistas têm apontado, porém, que a própria forma como a produtividade é mensurada, usando como base o valor adicionado da economia, dividido pelas horas trabalhadas, contribui para a baixa posição do Brasil no ranking.

Isso porque a economia do país é baseada em grande medida na produção agrícola e mineral, e em serviços de baixa complexidade, o que resulta em um valor adicionado menor e, consequentemente, em uma produtividade mais baixa que a de países cuja economia é baseada em uma indústria de alta intensidade tecnológica e serviços mais sofisticados, de maior valor agregado.

Isso não significa que os brasileiros trabalhem menos horas ou se esforcem menos do que os trabalhadores de economias avançadas, observam esses economistas.

No ranking da OIT de média de horas trabalhadas por semana para 167 países, o Brasil ocupa a 93ª posição com uma média de 38,9 horas trabalhadas semanais.

Apesar da baixa posição também neste ranking, o país fica à frente de economias avançadas como EUA (37,5 horas), França (35,5 horas) e Alemanha (33,3 horas) e de vizinhos como Uruguai (36,8 horas) e Argentina (36,5 horas).

No topo deste ranking, com o maior número de horas trabalhadas semanais, estão Butão (54,4 horas), Emirados Árabes Unidos (50,8 horas) e Sudão (50,8 horas), países cujas economias são marcadas por elevada informalidade e peso da agricultura na economia (no caso de Butão e Sudão), e pela forte presença de trabalho de estrangeiros pouco regulamentando (no caso dos Emirados).

Assim, estas não são necessariamente nações cujas economias são consideradas exemplos a serem seguidos por outros países.

Em um estudo recente, o economista Daniel Duque, também pesquisador do Ibre FGV, utilizou uma base de dados disponibilizada pelos economistas Amory Gethin e Emmanuel Saez para analisar quanto os brasileiros trabalham em relação ao que seria esperado, dado o nível de desenvolvimento e o perfil demográfico do país — ou seja, a composição da população por diferentes idades.

Utilizando uma base de 146 países, ele encontrou que os brasileiros trabalham em média 1,2 hora por semana a menos do que o padrão sugerido pelo modelo.

Em comparação, os EUA trabalham 0,9 hora a mais, assim como Rússia (1,6 hora) e África do Sul (1,7 hora). Países como Colômbia (4,1 horas a mais) e China (4,2 horas) são exemplos extremos, com semanas de trabalho de mais de quatro horas acima do padrão, quando controlado por produtividade e demografia.

Na outra ponta, países europeus ricos como Alemanha (-1,8 hora), França (-3,6 horas), Dinamarca (-5,5 horas) e Noruega (-6,6 horas), são exemplos de nações onde, assim como no Brasil, se trabalha menos do que o sugerido pelo modelo.

“Não se pode dizer que o brasileiro trabalha pouco, porque não existe um nível certo de se trabalhar”, observa Duque.

“Os EUA trabalham um pouco mais do que o esperado, a Europa trabalha relativamente menos, e todos são países desenvolvidos, então não existe um ‘modelo certo'”, afirma o economista.

“Não significa que temos que trabalhar mais para sermos desenvolvidos, é uma questão de preferência [da sociedade]. O que o dado mostra é que o brasileiro talvez tenha uma preferência por ser uma país mais perto da Europa, do que de outros países desenvolvidos.”

3. Por que a produtividade importa

“A produtividade é fundamental quando falamos de bem-estar”, afirma Fernando Holanda, do FGV Ibre.

“Não há nenhum país na história com elevada oferta de bens e serviços para sua população em que a produtividade seja muito baixa”, observa.

Menezes Filho acrescenta que a produtividade influencia diretamente no PIB per capita (por pessoa), a mais importante medida de bem-estar dos países.

“Quando o PIB per capita aumenta, tem mais riqueza para distribuir para cada pessoa, mantida a desigualdade constante”, afirma.

“E o PIB per capita depende da produtividade — o PIB por trabalhador — e do número de trabalhadores em relação ao total de pessoas do país.”

O professor do Insper observa que, até recentemente, o Brasil aumentou muito o número de pessoas trabalhando, porque o país tinha uma população jovem.

“Nasciam mais jovens, essas pessoas iam trabalhar e o país crescia. Então, mesmo sem aumento da produtividade, aumentava o PIB per capita”, afirma.

“Agora, já estamos em um país que está envelhecendo, então a demografia não está mais a nosso favor e não será mais possível aumentar o PIB per capita só aumentando o número de trabalhadores na população. Então, é preciso aumentar a produtividade de cada um desses trabalhadores.”

Assim, para o país se tornar mais rico e desenvolvido no futuro, só existem duas maneiras, resume Menezes Filho: mais gente trabalhando ou maior produtividade.

“Por isso a produtividade é agora tão fundamental”, afirma.

“O Paul Krugman, que é um economista famoso [ele foi vencedor do Nobel de Economia em 2008], disse uma frase que se tornou emblemática: ‘produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo’.”

4. Por que produtividade se tornou central no debate sobre o fim da escala 6×1?

Fernando de Holanda é um dos economistas que têm trazido o tema da produtividade para o debate sobre o fim da escala 6×1.

Em um estudo publicado em maio de 2025, ele buscou avaliar o impacto sobre a produtividade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe a redução da jornada máxima de trabalho no país, de 44 horas, para 36 horas semanais.

Considerando a jornada média de trabalho do país, que era de 38,4 horas semanais em 2024, ele observa que a introdução de uma jornada máxima de 36 horas reduziria a jornada de trabalho em 6,2%. Isso reduziria de forma proporcional o total de horas trabalhadas e, com isso, encolheria também o PIB em 6,2%.

Holanda pondera, porém, que trata-se de um exercício estático (isto é, que mantém todas as demais variáveis constantes), e que é de se esperar que as empresas tomem medidas para mitigar esse impacto — mudando sua forma de trabalhar ou de fazer contratações, por exemplo — o que pode tornar o efeito final da política na economia diferente do calculado.

Ele também observa que, caso a redução da jornada máxima seja para 40 horas, como tem sido discutido no Congresso e é defendido pelo governo Lula por ser uma proposta mais plausível de ser aprovada, o impacto seria menor.

Em um outro artigo, publicado no jornal Valor Econômico em fevereiro, Holanda destaca que uma queda na jornada de trabalho máxima de 44 horas para 40 horas ou 36 horas reduziria as horas trabalhadas em 9% e 18%, respectivamente.

Sem uma redução equivalente de salários, as opções elevariam o salário-hora em 10% e 22%, respectivamente, representando um aumento de custos para as empresas.

“Essa elevação de salários depende de ganhos de produtividade para ser sustentável”, argumenta Holanda, no artigo.

Ele observa que, entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,6% ao ano no Brasil, enquanto a produtividade do trabalho (resultado da produtividade por hora de trabalho, multiplicada pelo total de horas trabalhadas) avançou 0,3% ao ano neste período.

A diferença, segundo ele, se deve à redução da jornada de trabalho trazida pela Constituição de 1988, que determinou a diminuição da jornada máxima de 48 horas para 44 horas semanais.

“Sem ganhos de produtividade, a elevação do salário-hora pode ter impacto negativo sobre a informalidade”, observa o economista.

Uma parte importante da informalidade é explicada pela baixa produtividade de trabalhadores que, por conta de sua baixa qualificação, não conseguem produzir o suficiente para se alocarem no mercado formal, diz o pesquisador.

Outros fatores que explicam a informalidade, segundo economistas, são desigualdades regionais, custos e burocracia da formalização, fiscalização insuficiente e a emergência de novas formas de trabalho.

“A elevação dos custos deve aumentar esse contingente na economia.”

5. Por que debate deve ir além da produtividade, segundo outros economistas

Outros economistas têm criticado a centralidade da produtividade no debate sobre o fim da escala 6×1. Eles também avaliam que a mudança na jornada de trabalho pode ter o efeito contrário àquele estimado em alguns estudos, elevando a produtividade dos trabalhadores.

“Quando se reduz a jornada, isso pode aumentar a produtividade do trabalhador”, defende Naercio Menezes Filho.

“Porque ele tem que trabalhar menos horas, vai ficar menos estressado, a qualidade de vida dele vai melhorar. Tudo isso tende a contribuir para um aumento da produtividade, que pode compensar o aumento de custo que as empresas vão ter.”

Naercio observa que, reduzindo as horas trabalhadas, mas mantendo o salário dos trabalhadores, há de fato um aumento do salário-hora e um crescimento do custo para as empresas.

Esse aumento de custo foi estimado, em um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 7,84% em média, no caso de uma jornada de 40 horas semanais.

No estudo, os economistas do Ipea comparam essa alta no custo do trabalho, com aquela que ocorre quando há aumentos reais (ou seja, acima da inflação) do salário-mínimo no país — que chegaram a 12% em 2001, 7,6% em 2012 e 5,6% em 2024.

“Quando se fala de aumento do salário-mínimo, também vem toda essa questão da produtividade”, observa Joana Simões, uma das autoras do estudo do Ipea.

“E conseguimos observar na economia, nesse passado recente, que esses aumentos do salário-mínimo não vieram acompanhados de todas aquelas previsões catastróficas. Foram aumentos que foram absorvidos pelo mercado de trabalho.”

No estudo do Ipea, os autores criticam estudos como o de Holanda, que, segundo eles, “estimam grandes impactos negativos sobre o PIB”, o que não estaria respaldado na experiência histórica brasileira ou internacional, na visão dos autores.

“Esses estudos consideram que a redução de horas [trabalhadas] vai significar uma redução proporcional de PIB, mas sem considerar que, com esse cenário de redução de jornada, as empresas devem repensar sua organização interna, reduzir desperdícios, implantar mudanças tecnológicas e reorganizar turnos de trabalho”, enumera Simões.

“Ou seja, tem uma série de fatores de mudança na gestão do tempo que as empresas provavelmente vão considerar e isso vai contribuir para aumentar a produtividade, o que vai ajudar esse impacto do aumento do custo da hora trabalhada a ser absorvido por aquele setor.”

Menezes Filho cita ainda outros argumentos em favor da redução da jornada máxima de trabalho.

Ele observa que, embora as firmas menores possam ter mais dificuldade em absorver a alta de custos, para as empresas maiores, não deve haver grandes problemas.

Isso porque as grandes empresas aproveitam que o trabalhador depende daquele emprego, para pagar um salário menor do que o valor da contribuição produtiva dele para a empresa. Os economistas chamam isso de “poder de monopsônio”, explica Menezes Filho.

Em artigo recente, o economista cita estudo de Mayara Felix, professora em Yale (EUA), que estimou que os trabalhadores brasileiros levam para casa apenas 50 centavos de cada dólar que geram de valor para as empresas onde trabalham, parcela menor do que a de trabalhadores de outros países.

“Então, aumentando o salário-hora, chega-se mais próximo da produtividade real desse trabalhador”, argumenta Menezes Filho.

“Nesses casos, você nem precisa ter um aumento grande da produtividade, porque o salário pago atualmente está abaixo da produtividade real.”

O professor do Insper e a economista do Ipea citam também o exemplo da redução de jornada de trabalho trazida pela Constituição de 1988, que determinou a redução da jornada máxima de 48 horas para 44 horas semanais, e que não resultou em aumento do desemprego, segundo estudo.

Menezes Filho destaca ainda que a redução de jornada pode aumentar o tempo de convivência dos trabalhadores com seus filhos, com potenciais impactos no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado escolar das crianças. Isso pode aumentar a produtividade futura do país, afirma.

“O fato de a produtividade ser baixa ou alta não tem muito a ver com você introduzir ou não a [mudança de] jornada”, argumenta Menezes Filho.

“A produtividade pode ser alta ou baixa, se reduz a jornada, aumenta o custo de trabalho do mesmo jeito. Assim, não é questão do nível da produtividade, mas se ela vai mudar depois da [redução de] jornada. São duas questões diferentes”, afirma.

“A produtividade do Brasil é baixa e tem crescido pouco? Tem. Precisa ter maior produtividade em nível para você reduzir a jornada? Não necessariamente.”

Para o professor do Insper, aumentar a produtividade deve ser uma preocupação do país sempre. “Se queremos ter um país mais rico, desenvolvido, com menos pobreza e desigualdade, e as pessoas consumindo mais, aumentar a produtividade é um objetivo em si do país”, afirma.

Daniel Duque, do FGV Ibre, por sua vez, avalia que o fim da escala 6×1 deve aumentar a produtividade dos trabalhadores na hora trabalhada, mas reduzir a produtividade total, já que eles vão trabalhar menos horas. Assim, ele antecipa que deve haver um efeito negativo sobre a economia, mas pequeno.

“Não vai alterar nossa trajetória de desenvolvimento”, avalia. “Existem vários outros caminhos para o aumento da produtividade.”

Ele cita como exemplos uma maior abertura comercial, avanços na educação, mudanças na composição tributária (com a redução de impostos sobre o trabalho e o consumo, por exemplo) e uma maior estabilidade institucional e fiscal.

“O que eu acredito que ocorre é que os empresários acham que esses fatores não vão mudar, então, eles precisam segurar o que eles podem, por exemplo, a produtividade total dos trabalhadores deles.”

Uma disputa estrutural entre pressão popular e resistência econômica

Há debates que ultrapassam o objeto imediato da discussão e passam a revelar as engrenagens profundas de uma sociedade. A controvérsia em torno do fim da escala 6×1 se consolidou como um desses casos. Em poucas semanas, o tema deixou de ser uma pauta trabalhista específica para se tornar um dos principais eixos de confronto político e econômico no país, evidenciando um choque direto entre demandas sociais e interesses consolidados.

De um lado, trabalhadores reivindicam algo elementar: dois dias consecutivos de descanso. De outro, setores organizados articulam uma narrativa que associa essa mudança a riscos sistêmicos, ampliando o tom de alerta sobre possíveis impactos econômicos.

Nesse cenário, o governo federal identificou potencial político na pauta e passou a atuar de forma mais incisiva, pressionando o Congresso diante da lentidão na tramitação das propostas. A estratégia inclui o uso de instrumentos regimentais para acelerar a análise legislativa e, ao mesmo tempo, expor publicamente o posicionamento dos parlamentares em um contexto eleitoral.

A crítica de setores empresariais à discussão em ano eleitoral, por sua vez, revela uma tensão recorrente na política brasileira. A proximidade com o eleitorado tende a influenciar decisões parlamentares — justamente o fator que, para defensores da proposta, torna esse momento decisivo para avançar na pauta.

Apoio social e transversalidade política

Os dados de opinião pública indicam que a demanda ultrapassou clivagens ideológicas tradicionais. O crescimento do apoio à medida, incluindo entre segmentos historicamente associados a posições conservadoras, sugere que o debate se deslocou do campo partidário para uma dimensão mais ampla, vinculada às condições concretas de trabalho.

Essa transversalidade ajuda a explicar por que lideranças identificadas com o campo progressista — como Rick Azevedo e Erika Hilton — impulsionaram o tema sem, contudo, restringi-lo a uma agenda ideológica específica. A pauta passou a ser apropriada como uma reivindicação difusa da classe trabalhadora, independentemente de alinhamento político.

Ao mesmo tempo, a proposta em discussão ganhou contornos mais moderados ao longo do debate. Em vez de mudanças abruptas, o foco recai sobre uma transição gradual para jornadas de 40 horas semanais, com manutenção de salários e prazo de adaptação — modelo já consolidado em diversas economias.

Narrativas econômicas e disputa simbólica

A intensificação da reação empresarial nas últimas semanas evidencia a dimensão estratégica do tema. Entidades patronais e representantes de setores como comércio, serviços e indústria passaram a difundir estudos e projeções que apontam possíveis efeitos negativos, como retração econômica e aumento da informalidade.

O repertório argumentativo não é inédito. Historicamente, debates sobre ampliação de direitos trabalhistas são acompanhados por previsões de impacto econômico adverso — uma dinâmica que remonta à própria formação das legislações sociais modernas.

Além da atuação institucional, esse discurso encontra eco em segmentos que reproduzem tais argumentos no espaço público, especialmente em redes sociais. Trata-se de uma disputa que não se limita a dados econômicos, mas envolve a construção de narrativas sobre produtividade, mérito e o papel do trabalho na sociedade.

Experiência cotidiana e desgaste do modelo atual

Apesar da polarização discursiva, a experiência concreta de trabalhadores submetidos à escala 6×1 funciona como elemento de contraponto. A rotina de seis dias consecutivos de trabalho, com apenas um dia de descanso — frequentemente consumido por demandas acumuladas — é apontada como fator de desgaste físico e mental.

Nesse contexto, a discussão deixa de ser abstrata e passa a se ancorar em aspectos como saúde, qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A rejeição à escala, portanto, não se apresenta como resistência ao trabalho em si, mas como contestação a um modelo considerado excessivamente oneroso para quem o vivencia.

Corrida política e redefinição de prioridades

O momento atual configura uma disputa contra o tempo. De um lado, o Executivo tenta converter apoio social em pressão institucional para viabilizar a aprovação da medida ainda no curto prazo. De outro, setores contrários apostam na diluição do debate, seja por meio de alertas econômicos, seja pelo adiamento das decisões.

Mais do que uma controvérsia sobre jornada de trabalho, o embate expõe uma divisão estrutural: a tensão entre interesses da classe trabalhadora e aqueles vinculados à organização do capital. Em meio à polarização política tradicional, esse conflito emerge como eixo subjacente, frequentemente ofuscado por disputas ideológicas mais visíveis.

No centro dessa discussão, permanece uma questão fundamental: qual é o limite mínimo de bem-estar que uma sociedade está disposta a garantir a quem sustenta sua base produtiva.

O que pode mudar com o projeto do governo Lula?

O projeto enviado pelo governo Lula altera a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). O principal ponto é a redução da carga horária semanal, que passa a ter limite de 40 horas, quatro horas a menos que a regra atual. O trabalhador teria direito a dois descansos por semana, mas não há determinação dos dias específicos, apenas indicação de que a folga deve ser, preferencialmente, aos sábados e domingos.

Pelo projeto, a escala valerá também para trabalhadores de comércio, domésticos, profissionais da área da saúde, aeronautas, atletas profissionais e outros. Áreas que têm funcionamento especial aos finais de semana podem continuar com suas atividades e deverão ter escala de revezamento, a ser organizada todos os meses.

Veja as principais alterações

Redução da carga horária semanal

  • A duração normal do trabalho passa a ter o limite de 40 horas semanais, mantendo o limite de oito horas diárias

Escala 5×2

  • O projeto prevê que o trabalhador passa a ter direito a dois repousos semanais remunerados de 24 horas seguidas cada. O texto não estabelece dias obrigatórios, mas diz que a folga deve ser, de preferência, aos sábados e domingos

Salário

  • A redução da jornada e a garantia dos novos descansos não podem levar à redução nominal ou proporcional dos salários, nem alteração dos pisos salariais vigentes. A regra se aplica a todos os trabalhadores, incluindo os de regimes especiais, trabalho avulso e os de tempo parcial

Escala 12×36

  • Fica mantida a escala 12×36 (12 horas de trabalho por 36 horas de descanso), limitada da 40 horas semanais, com dois dias de descanso na semana, por meio de negociação coletiva

Negociação coletiva

  • Segundo projeto de lei, as negociações coletivas que definem regras diferentes para jornada, folgas e compensações seguem valendo. Trecho da lei diz que as escolhas dos dias de folga, por exemplo, respeitarão “as peculiaridades de cada atividade ou negociação coletiva de trabalho”

Hora extra

  • O limite diário de horas extras continua sendo de até duas horas, que podem ser compensadas em outros dias ou de outra forma, conforme negociação coletiva. O texto trata especificamente da possibilidade de os menores de 18 anos também fazerem duas horas extras por dia, desde que compensadas depois

Para quem valerá a medida e a partir de quando?

  • A redução da jornada sem diminuição do salário está prevista para os contratos pela CLT vigentes em todo o país, mas para entrar em vigor precisa ser aprovada na Câmara e no Senado e ter a sanção do presidente Lula
  • A medida abrange trabalhadores no comércio, empregados domésticos, atletas profissionais, aeronautas, radialistas e profissionais da saúde, entre outros

E então?

Se há algo que o debate sobre o fim da escala 6×1 escancara é que a discussão sobre produtividade, custos ou competitividade não pode ser dissociada da vida concreta de quem sustenta a economia com o próprio corpo e tempo. Ao longo das últimas décadas, o Brasil naturalizou jornadas extensas em um contexto de baixa produtividade estrutural, como se a solução estivesse em trabalhar mais — e não melhor. No entanto, os próprios dados mostram que países mais ricos não são aqueles que exigem mais horas de seus trabalhadores, mas os que conseguem organizar o trabalho de forma mais eficiente, protegida e humana.

Reduzir a jornada, nesse sentido, não é um luxo ou concessão, mas uma escolha civilizatória: reconhecer que descanso, saúde mental, convivência familiar e tempo livre também são componentes essenciais da riqueza de uma nação. Ao insistir em um modelo que esgota pessoas para compensar falhas estruturais da economia, o país corre o risco de perpetuar desigualdades e limitar seu próprio potencial. A questão que permanece, portanto, não é apenas econômica, mas moral e política: até quando o desenvolvimento será medido apenas pela quantidade de horas trabalhadas, e não pela qualidade de vida de quem trabalha?

SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON

DEUS QUER?


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *