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Nos EUA e no Brasil, fundamentalismo religioso avança sobre a política

Publicado em 10/04/2026 4:36 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Quando a linguagem do poder abandona a diplomacia e passa a ecoar profecias, o que está em jogo deixa de ser apenas a condução de um conflito — e passa a ser o próprio sentido da política no mundo contemporâneo. A escalada militar dos Estados Unidos contra o Irã, sob o trumpismo, revela mais do que uma estratégia geopolítica: expõe a consolidação de uma aliança entre Estado, fundamentalismo religioso e projetos de poder que interpretam a guerra como destino e não como fracasso. Cercado por líderes espirituais que leem o presente à luz do Apocalipse, apoiado por aliados que transformam disputas territoriais em mandatos divinos e confrontado por vozes que tentam resgatar limites éticos à violência, o cenário que emerge é o de um sistema internacional tensionado por crenças absolutas — onde a distinção entre fé e política se dissolve perigosamente. Neste contexto, compreender como essas narrativas se formam, se articulam e se traduzem em decisões concretas não é apenas um exercício analítico, mas uma urgência histórica.

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Desde o início da escalada militar dos Estados Unidos contra o Irã, sob a liderança de Donald Trump, a retórica oficial passou a incorporar, de forma cada vez mais explícita, referências religiosas. O que poderia ser interpretado como estratégia política para mobilizar a base conservadora revela, em níveis mais profundos do governo, a presença de uma cosmovisão teológica que enxerga o conflito internacional como parte de um roteiro escatológico.

Nas últimas semanas, o discurso presidencial e de seus aliados ganhou tonalidades abertamente bíblicas. Parlamentares próximos ao governo passaram a defender, em termos religiosos, iniciativas legislativas que associam a identidade nacional dos Estados Unidos à ideia de uma nação sob um único Deus — incluindo propostas simbólicas ligadas às celebrações dos 250 anos do país.

Esse ambiente não se limita à retórica. Trump consolidou ao seu redor um grupo influente de assessores evangélicos que não apenas legitimam suas decisões políticas, mas as interpretam como expressão de uma vontade divina. Para esses atores, especialmente aqueles vinculados a correntes específicas do evangelicalismo norte-americano, os conflitos no Oriente Médio não são apenas disputas estratégicas: são eventos precursores do fim dos tempos.

Embora, para o próprio Trump, esse alinhamento possa funcionar como instrumento de mobilização eleitoral, para parte significativa desse círculo religioso a dimensão do conflito é essencialmente cósmica. A guerra deixa de ser apenas geopolítica e passa a ser compreendida como etapa necessária de um processo apocalíptico.

Essa visão já começa a se refletir na estrutura institucional do Estado. No Departamento de Defesa, sob a liderança de Pete Hegseth, observa-se uma crescente incorporação de práticas e símbolos religiosos na cultura militar. Relatos indicam a realização de encontros de oração, a promoção de lideranças alinhadas ao evangelicalismo mais conservador e tentativas de imprimir um tom explicitamente religioso à atuação das forças armadas.

A própria estética adotada por Hegseth não é neutra. O secretário tem associado sua imagem a símbolos históricos das Cruzadas, incluindo tatuagens com a cruz de Jerusalém e a expressão latina “Deus vult” (“Deus quer”), enquanto descreve os conflitos contemporâneos em termos civilizacionais e religiosos. Em uma oração conduzida no Pentágono, chegou a pedir apoio divino para a execução de “violência avassaladora” contra aqueles considerados indignos de misericórdia.

A radicalização desse discurso começa a gerar desconforto até mesmo em setores conservadores. Um comentarista de direita classificou Paula White-Cain, principal conselheira espiritual de Trump, como uma “líder de seita apocalíptica”, alertando para o peso crescente dessas correntes teológicas na formulação política.

No ecossistema midiático evangélico, o Irã é frequentemente interpretado não apenas como adversário estratégico, mas como peça de uma narrativa profética associada ao Livro do Apocalipse e à batalha do Armagedom. Nesse enquadramento, o sofrimento humano deixa de ser apenas uma tragédia e passa a ser visto como elemento necessário para a consumação de um plano divino.

A própria Paula White-Cain, que chefia o Gabinete da Fé da Casa Branca, sintetiza essa fusão entre política e teologia ao afirmar que se opor ao presidente equivaleria a se opor a Deus.

Essa convergência já ultrapassou o campo simbólico e passou a se materializar em decisões políticas. Poucos dias após ordenar ataques unilaterais contra o Irã, Trump reuniu cerca de vinte líderes evangélicos em um encontro reservado, no qual pastores oraram sobre o presidente, pedindo proteção e sucesso para a operação militar. No centro da cena estava White-Cain, figura-chave na interseção entre religião e poder dentro do trumpismo.

Sua trajetória ilustra essa transformação. Ex-televangelista ligada ao evangelho da prosperidade — corrente que associa fé a sucesso material —, White-Cain construiu influência tanto em igrejas quanto em meios de comunicação religiosos antes de se tornar conselheira direta de Trump. Durante o primeiro mandato, foi nomeada para liderar a Iniciativa de Fé e Oportunidade da Casa Branca, consolidando sua posição institucional.

No entanto, sua atuação vai além da política tradicional. Ela integra uma rede de lideranças evangélicas que há décadas interpretam conflitos internacionais como manifestações de profecias bíblicas. Dentro desse universo, guerras no Oriente Médio são frequentemente descritas como sinais dos “últimos dias”, e a instabilidade global é entendida como cumprimento de previsões religiosas.

Essa visão está ancorada no dispensacionalismo — uma vertente teológica que propõe uma leitura literal da Bíblia, divide a história em eras definidas pelo plano divino e prevê eventos como o arrebatamento e o reinado milenar de Cristo. Em abril de 2025, durante entrevista com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, White-Cain questionou diretamente se o mundo estaria à beira do Armagedom, associando os acontecimentos atuais a sinais dessa narrativa escatológica.

Outros nomes reforçam esse mesmo enquadramento. O pastor Travis Johnson, próximo ao círculo religioso de Trump, tem defendido publicamente a ideia de que o Islã constitui um sistema de conquista militar, posicionando o cristianismo norte-americano como força de resistência. Após ataques israelenses que atingiram lideranças iranianas durante o Ramadã, reagiu com sarcasmo nas redes sociais, evidenciando a naturalização da violência no discurso religioso.

Robert Jeffress, líder da Primeira Igreja Batista de Dallas e aliado histórico de Trump, sustenta uma visão que combina nacionalismo cristão e exclusivismo religioso, classificando o islamismo como uma fé “inspirada por Satã” e apontando para um suposto colapso inevitável dos Estados Unidos.

Na mesma linha, o pastor Greg Laurie associa diretamente eventos políticos contemporâneos a etapas do calendário profético, prevendo o arrebatamento seguido por um período de tribulação que culminaria no Armagedom. Para ele, o Irã ocupa o papel da antiga Pérsia bíblica, mencionada em textos proféticos como parte de uma coalizão que participaria do confronto final.

Essa retórica não se restringe à interpretação simbólica dos acontecimentos. Figuras emergentes, como Josh McPherson, defendem explicitamente a ideia de que forças armadas devem ser lideradas por indivíduos submetidos a uma autoridade religiosa, ao mesmo tempo em que descrevem o islamismo como uma ameaça existencial e defendem respostas militares radicais, incluindo deportações em massa.

O conjunto dessas vozes revela a existência de um ecossistema ideológico coeso, no qual guerra, religião e política se entrelaçam. Nesse contexto, adversários são frequentemente desumanizados, conflitos são elevados à condição de batalhas espirituais e a própria ideia de colapso global é reinterpretada como etapa necessária de redenção.

Essa convergência entre poder estatal e convicção religiosa já começa a preocupar setores institucionais em Washington. Parlamentares formalizaram pedidos de investigação sobre o Departamento de Defesa, alertando para o risco de que discursos religiosos extremistas estejam influenciando a cadeia de comando e moldando decisões militares.

O alerta encontra respaldo em estudos acadêmicos que indicam que a fusão entre poder político e certeza religiosa tende a intensificar conflitos. Quando guerras passam a ser interpretadas como inevitáveis ou divinamente ordenadas, tornam-se menos suscetíveis à negociação. A lógica estratégica cede espaço à identidade, e a diplomacia é substituída por noções de destino.

Nesse cenário, a distinção entre defesa nacional e guerra ideológica se torna cada vez mais tênue. Para militares em campo, a missão pode deixar de ser percebida como proteção do Estado e passar a ser interpretada como participação em um projeto religioso — com implicações profundas, inclusive no risco de violência sectária.

A consequência é um deslocamento perigoso: decisões militares deixam de ser orientadas pela contenção de conflitos e passam a ser justificadas pela sua intensificação. Em vez de buscar o fim das guerras, determinados discursos passam a enxergá-las como necessárias.

O risco, portanto, não é apenas teológico, mas concreto. Quando um Estado mobiliza sua máquina de guerra sob fundamentos religiosos, abre-se espaço para que a política externa deixe de responder a interesses racionais e passe a operar sob imperativos ideológicos absolutos.

Nesse ponto, a própria natureza da guerra se transforma. Já não se trata apenas de defesa ou estratégia, mas da instrumentalização do poder estatal em nome de uma visão de mundo que transcende a política — e que, justamente por isso, torna-se mais difícil de conter.

Eis os fanáticos que o Irã está vencendo

A radicalização ideológica que atravessa a política externa norte-americana encontra eco direto em seus principais aliados estratégicos — e ganha contornos ainda mais explícitos quando observada a atuação conjunta de Washington e Tel Aviv no atual cenário de guerra. Longe de se limitar a uma convergência de interesses geopolíticos, essa aliança vem sendo interpretada por seus próprios protagonistas como parte de uma missão de natureza excepcional, frequentemente revestida de linguagem moral absoluta e, em alguns casos, de caráter abertamente messiânico.

No centro dessa dinâmica estão lideranças que operam sob uma combinação particularmente instável de fatores: personalismo exacerbado, concentração de poder militar sem precedentes e a internalização de narrativas religiosas que atribuem sentido transcendental às decisões políticas. Essa tríade — frequentemente analisada por especialistas em comportamento político e psicologia social — ajuda a explicar a disposição para ações de alto risco e a escalada retórica observada nos últimos meses.

Estudos clássicos da psicologia política já apontavam que líderes com traços de grandiosidade, baixa empatia e percepção constante de ameaça tendem a interpretar conflitos internacionais como confrontos existenciais. Nesse enquadramento, a noção de adversário deixa de ser estratégica e passa a ser moralizada, o que amplia a tolerância à violência e reduz o espaço para soluções diplomáticas.

No caso recente, essa lógica se expressa de maneira concreta. Episódios envolvendo ataques a infraestruturas civis e o uso de linguagem desumanizante em discursos oficiais indicam não apenas uma escalada militar, mas uma mudança qualitativa na forma como o inimigo é construído. A ausência de manifestações públicas de pesar diante de vítimas civis, somada à celebração de ações ofensivas, reforça a percepção de que o conflito vem sendo conduzido sob parâmetros distintos daqueles tradicionalmente associados ao direito internacional humanitário.

Paralelamente, avaliações de inteligência que relativizam a existência de ameaças imediatas — como o avanço de programas nucleares — têm sido tensionadas ou ignoradas no discurso político. Esse descompasso entre dados técnicos e narrativa oficial evidencia um padrão recorrente em contextos de escalada: a construção de justificativas que independem da verificação factual e operam mais no campo da mobilização ideológica do que da análise estratégica.

Outro elemento decisivo é o impacto da concentração de poder militar, especialmente em lideranças que operam com reduzidos mecanismos de contenção institucional. A posse de arsenais de alta capacidade destrutiva, incluindo armamentos nucleares, altera a percepção de limites e riscos. Em vez de funcionar como fator de dissuasão, esse poder pode ser incorporado como instrumento de afirmação política — uma extensão da própria autoridade do líder.

Nesse ambiente, declarações públicas que sugerem a destruição sistemática de infraestruturas civis ou o colapso total de sociedades adversárias deixam de ser meras hipérboles retóricas e passam a integrar o repertório plausível de ação. O deslocamento discursivo é significativo: não se trata mais de conter ameaças, mas de redefinir o próprio horizonte do conflito.

Essa lógica encontra reforço em uma camada adicional de legitimação: a construção de uma identidade política associada a um propósito divino. Ao se apresentarem como instrumentos de uma missão superior, líderes políticos reduzem ainda mais o espaço para autocrítica e revisão de estratégias. Interromper uma ação militar, nesse contexto, pode ser interpretado não como decisão racional, mas como falha moral ou até espiritual.

Declarações públicas que associam sobrevivência política a desígnios divinos ou que interpretam eventos pessoais como sinais de eleição providencial reforçam esse enquadramento. Do outro lado, discursos que utilizam narrativas religiosas tradicionais para descrever operações militares — inclusive com referências a episódios bíblicos de punição e destruição — contribuem para elevar o conflito a um patamar simbólico difícil de reverter.

O papel do entorno político também é determinante. Em ambos os casos, observa-se a presença de círculos próximos compostos por figuras que não apenas corroboram essas visões, mas as amplificam. Trata-se de um ambiente pouco permeável a contestação interna, no qual a validação constante substitui o debate e reforça percepções já distorcidas.

No caso norte-americano, essa dinâmica se expressa na atuação de autoridades que incorporam linguagem religiosa à comunicação institucional, ao mesmo tempo em que classificam adversários como extremistas — uma contradição que evidencia o grau de sobreposição entre discurso político e crença.

Já no contexto israelense, a influência de setores ultranacionalistas e religiosos dentro do governo adiciona uma camada territorial e teológica ao conflito. Figuras que anteriormente ocupavam posições marginais passaram a exercer papel central na formulação de políticas públicas, defendendo abertamente a expansão territorial com base em interpretações religiosas e relativizando normas internacionais.

Esses atores têm atuado de forma sistemática para alterar realidades no terreno, seja por meio da expansão de assentamentos, seja pela reconfiguração administrativa de territórios ocupados. Em paralelo, declarações públicas que hierarquizam direitos com base em critérios étnicos ou religiosos reforçam o caráter excludente dessas políticas e ampliam tensões regionais.

A institucionalização dessas agendas transforma conflitos localizados em disputas de caráter estrutural, dificultando ainda mais qualquer perspectiva de resolução negociada. Quando reivindicações territoriais passam a ser justificadas como imperativos divinos, deixam de ser passíveis de concessão — e o conflito tende a se perpetuar.

Diante desse cenário, vozes dissonantes têm buscado resgatar princípios éticos universais. Lideranças religiosas de outras tradições, por exemplo, têm criticado abertamente a instrumentalização da fé para justificar a violência, defendendo uma leitura que privilegie a dignidade humana e a contenção do poder.

No plano internacional, cresce a mobilização de atores multilaterais que tentam reequilibrar o sistema por meio de iniciativas diplomáticas e articulações regionais. Esforços conjuntos envolvendo países do Sul Global e fóruns internacionais apontam para tentativas de reconstruir mecanismos de mediação e evitar uma escalada de proporções ainda maiores.

Apesar disso, os instrumentos tradicionais de governança global enfrentam limitações evidentes. Instituições criadas para regular o uso da força e prevenir conflitos — como organismos multilaterais e regimes jurídicos internacionais — vêm sendo tensionadas por decisões unilaterais e pela recusa em submeter ações militares a parâmetros estabelecidos.

O resultado é um cenário de crescente instabilidade, no qual normas antes consideradas fundamentais passam a ser relativizadas. Quando o uso da força deixa de exigir justificativa clara e passa a ser sustentado por narrativas ideológicas ou religiosas, o sistema internacional perde previsibilidade — e, com ela, capacidade de contenção.

A história recente demonstra que conflitos conduzidos sob essa lógica tendem a se prolongar e a produzir níveis mais elevados de destruição. A ausência de freios internos — sejam eles institucionais, morais ou estratégicos — amplia o risco de decisões irreversíveis.

Nesse contexto, a responsabilidade recai cada vez mais sobre a capacidade de atores externos de impor limites e reintroduzir racionalidade no processo decisório. O desafio, no entanto, é proporcional à gravidade do cenário: conter lideranças que operam sob a convicção de estarem cumprindo um destino maior exige não apenas instrumentos políticos, mas também a reconstrução de consensos mínimos sobre o papel da guerra no mundo contemporâneo.

Sem isso, o risco deixa de ser regional e passa a ser sistêmico.

O Papa na mira

Se a fusão entre religião e poder já tensiona os limites da política externa, o atrito entre Washington e o Vaticano expõe um novo eixo de conflito: o embate entre visões antagônicas sobre o uso da força no cenário internacional.

Nos bastidores diplomáticos, sinais de ruptura tornaram-se mais evidentes após críticas diretas do papa Leão XIV à escalada militar conduzida pelos Estados Unidos. O pontífice, que tem adotado uma postura firme contra a normalização da guerra como instrumento político, passou a alertar publicamente para o que descreve como um ressurgimento do belicismo no sistema internacional — um fenômeno que, segundo ele, estaria ganhando legitimidade preocupante entre lideranças globais.

Esse posicionamento provocou reações imediatas em Washington. Um episódio ocorrido no Pentágono, envolvendo o então núncio apostólico nos Estados Unidos, cardeal Christophe Pierre, ilustra o grau de tensão. Convocado para uma reunião com autoridades de defesa, o representante do Vaticano teria sido alvo de uma tentativa de pressão política para que a Santa Sé moderasse suas críticas e se aproximasse das diretrizes estratégicas norte-americanas.

Embora o Departamento de Defesa tenha posteriormente classificado o encontro como “respeitoso e profissional”, relatos de bastidores indicam que a conversa assumiu contornos mais delicados. Segundo analistas próximos à diplomacia vaticana, a menção inesperada ao período do papado de Avinhão — quando houve a coexistência de papas rivais sob influência política — foi interpretada como um gesto simbólico carregado de implicações. A referência histórica teria sido entendida como uma insinuação de que a autonomia do Vaticano poderia ser desafiada caso persistisse o desalinhamento.

Ainda que autoridades norte-americanas neguem qualquer tentativa de intimidação, o episódio revela a profundidade do desconforto gerado pelas críticas do papa. Desde o início de seu pontificado, Leão XIV vem se posicionando contra políticas consideradas coercitivas — seja na questão migratória, seja na condução de conflitos internacionais —, o que tem ampliado as fricções com a Casa Branca.

A divergência atingiu um novo patamar com a ofensiva militar contra o Irã. Em um gesto incomum, o Vaticano incentivou diretamente cidadãos norte-americanos a pressionarem seus representantes no Congresso para interromper os bombardeios. A iniciativa, descrita por especialistas como uma medida extrema dentro da tradição diplomática da Igreja, evidencia o grau de preocupação com a escalada do conflito.

Para analistas, trata-se de um movimento deliberado de alerta global. Ao intervir de forma tão direta, a Santa Sé buscou não apenas influenciar o debate político interno dos Estados Unidos, mas também chamar atenção para os riscos sistêmicos de uma guerra conduzida sob justificativas cada vez mais frágeis e permeadas por discursos ideológicos.

O núcleo da divergência, no entanto, vai além de desacordos pontuais. Está na própria concepção de guerra. Enquanto setores do governo norte-americano têm recorrido a uma retórica que flerta com referências religiosas para justificar ações militares, o Vaticano procura reafirmar uma tradição que rejeita a instrumentalização da fé como legitimadora da violência.

Esse ponto é particularmente sensível. Autoridades católicas manifestaram preocupação com declarações de integrantes do governo que descrevem o conflito em termos próximos a uma “guerra sagrada” — linguagem que remete a episódios históricos marcados por violência inter-religiosa e que a Igreja, nas últimas décadas, tem buscado explicitamente superar.

O receio é que esse tipo de narrativa produza efeitos duradouros, ampliando divisões religiosas e dificultando a convivência entre diferentes tradições. Ao associar conflitos contemporâneos a disputas de natureza espiritual, abre-se espaço para a radicalização e para a legitimação de ações que escapam aos parâmetros do direito internacional.

A resposta do Vaticano tem sido insistir em uma abordagem ética centrada na contenção. Lideranças católicas, tanto em Roma quanto nos Estados Unidos, têm reiterado que a guerra deve ser sempre o último recurso — e que, no caso específico da ofensiva contra o Irã, há dúvidas substanciais sobre se esse critério foi respeitado.

Declarações de autoridades religiosas norte-americanas reforçam esse ponto. Questionamentos sobre a ausência de esgotamento das vias diplomáticas e sobre a legitimidade moral da intervenção indicam que o desconforto não se limita ao plano internacional, mas atravessa também instituições internas ao próprio país.

Apesar das tensões, há esforços em curso para evitar um rompimento mais profundo. Representantes diplomáticos de ambas as partes têm buscado reabrir canais de diálogo, destacando interesses comuns e tentando conter a escalada retórica. Esses movimentos, contudo, ocorrem em um contexto de desconfiança crescente e divergências estruturais.

O que emerge desse quadro é mais do que um desacordo entre um governo e uma instituição religiosa. Trata-se de um confronto entre duas visões de mundo: de um lado, uma lógica que admite — e em certos casos valoriza — o uso da força como instrumento central de política externa; de outro, uma perspectiva que busca reafirmar limites éticos e normativos diante da guerra.

Essa fratura amplia ainda mais a complexidade do cenário internacional já tensionado. Ao deslocar o debate para o terreno moral e religioso, o conflito deixa de ser apenas uma disputa entre Estados e passa a envolver narrativas concorrentes sobre legitimidade, justiça e o próprio sentido da ação política.

Num ambiente em que essas dimensões se sobrepõem, o risco não está apenas na continuidade das hostilidades, mas na erosão dos referenciais que historicamente permitiram contê-las.

Sionismo cristão: base ideológica que sustenta o alinhamento religioso com Israel

A retórica religiosa que permeia a política externa dos Estados Unidos e de seus aliados não se constrói apenas no alto escalão do poder. Ela encontra sustentação em uma base teológica mais ampla e consolidada ao longo de décadas: o chamado sionismo cristão.

Relatos recentes indicam que essa visão já ultrapassou o campo simbólico e alcançou inclusive o ambiente militar. Nos Estados Unidos, uma organização de monitoramento recebeu centenas de denúncias de membros das Forças Armadas que afirmam ter sido informados por seus superiores de que a ofensiva contra o Irã faria parte de um plano divino associado ao Armagedom — a batalha final entre o bem e o mal segundo interpretações cristãs.

Esse tipo de narrativa está diretamente ligado ao sionismo cristão, uma corrente que combina elementos religiosos, políticos e culturais para sustentar um apoio quase incondicional ao Estado de Israel. A ideia central é que o território israelense representa a “terra prometida” e que sua defesa constitui não apenas uma escolha política, mas um dever espiritual.

Na prática, essa concepção estabelece uma equivalência simbólica entre o Estado moderno de Israel, seu governo e a identidade judaica, frequentemente ignorando distinções históricas e políticas. Para seus adeptos, apoiar Israel seria condição para receber bênçãos divinas, enquanto qualquer oposição poderia ser interpretada como afronta ao próprio plano de Deus.

A difusão dessa perspectiva não é recente. Embora tenha ganhado visibilidade nos últimos anos, especialmente com o fortalecimento de correntes ultraconservadoras, sua consolidação remonta a transformações ocorridas no campo evangélico a partir da década de 1990.

No Brasil, esse processo seguiu uma trajetória própria. Segundo o teólogo e ativista Ronilso Pacheco, o fenômeno não surgiu como um projeto político estruturado, mas como uma incorporação gradual de elementos culturais e simbólicos associados ao judaísmo dentro das igrejas evangélicas.

Esse movimento incluiu desde a adoção de símbolos como a bandeira de Israel e o shofar — instrumento ritual judaico — até a incorporação de termos em hebraico e práticas litúrgicas inspiradas no imaginário bíblico. Ao longo do tempo, essas referências foram se naturalizando no ambiente religioso, criando uma familiaridade que posteriormente facilitou a adesão a discursos mais explicitamente políticos.

A expansão desse repertório simbólico ocorreu paralelamente ao crescimento das igrejas pentecostais e neopentecostais, especialmente em contextos urbanos. Eventos religiosos, congressos e produções musicais desempenharam papel central na disseminação dessa estética, que passou a integrar a identidade de parte significativa do campo evangélico.

Diferentemente de uma simples importação de ideias, o processo envolveu trocas mais complexas. Embora influências norte-americanas tenham contribuído para a difusão do sionismo cristão, lideranças brasileiras também desenvolveram iniciativas próprias, incluindo caravanas frequentes a Israel e a construção de narrativas que associavam o país a prosperidade, resistência e proteção divina.

Essas viagens, frequentemente apresentadas como experiências espirituais, reforçaram a percepção de Israel como modelo a ser seguido. A sobrevivência do Estado israelense em meio a conflitos regionais passou a ser interpretada como evidência de intervenção divina, alimentando um imaginário que mistura geopolítica e fé.

Com o avanço das redes sociais e a ampliação dos meios de comunicação religiosos, esse conjunto de ideias encontrou terreno ainda mais fértil. O que antes circulava em espaços restritos passou a alcançar audiências massivas, contribuindo para a consolidação de uma visão de mundo que conecta diretamente religião, identidade nacional e política internacional.

Hoje, o fenômeno já não pode ser compreendido apenas como expressão cultural ou religiosa. Ele se tornou um componente ativo na formação de consensos políticos, influenciando percepções sobre conflitos internacionais e contribuindo para legitimar determinadas agendas — inclusive aquelas associadas à expansão territorial e à intensificação de guerras.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que discursos religiosos encontram ressonância em decisões de Estado. Mais do que retórica, trata-se de uma base ideológica que atravessa fronteiras e conecta lideranças políticas, militares e religiosas em torno de uma mesma narrativa: a de que certos conflitos não são apenas inevitáveis, mas necessários dentro de uma lógica maior que ultrapassa a própria política.

E então?

Ao final, o que essa engrenagem revela não é apenas uma inflexão ideológica de governos específicos, mas um deslocamento mais profundo e inquietante: a progressiva substituição da política — com seus limites, negociações e responsabilidades — por narrativas de destino absoluto, impermeáveis à dúvida e à contenção. Quando líderes passam a interpretar a guerra como expressão de uma missão divina, quando instituições assimilam essa lógica e quando parcelas significativas da sociedade a legitimam, o risco deixa de ser episódico e se torna estrutural. Nesse cenário, o conflito não tende a ser resolvido, mas perpetuado; não busca equilíbrio, mas consumação. A história mostra que alianças entre poder e certeza religiosa produzem não apenas guerras mais longas, mas também mais difíceis de encerrar. A questão que permanece, portanto, não é apenas como conter um conflito específico, mas se ainda existem, no sistema internacional, forças capazes de restabelecer a primazia da razão política sobre o fervor ideológico — antes que a própria ideia de limite se torne irrelevante.

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