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Especial
Acordo entre Caiado e Trump faz de terras raras moeda de troca
Publicado em 20/03/2026 3:09 - Semana On
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Em meio a uma reconfiguração agressiva do tabuleiro geopolítico nas Américas, o Brasil volta a encarar um velho fantasma sob novas vestes: a disposição de setores da extrema direita em subordinar interesses nacionais a projetos externos de poder. O avanço do trumpismo sobre a região — com pressões sobre a Venezuela, acordos militares que ampliam a presença dos Estados Unidos no Paraguai, alinhamento explícito com a Argentina de Javier Milei e ameaças recorrentes a países como Cuba e Colômbia — não apenas redefine o equilíbrio continental, como testa, uma vez mais, a capacidade dos países latino-americanos de sustentar sua própria autonomia.
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É nesse cenário que emerge, no Brasil, um movimento que vai além da afinidade ideológica e adentra o campo da prática política concreta. Diferentemente de setores da direita europeia — que, mesmo conservadores, preservam margens de autonomia frente a Washington —, o bolsonarismo parece não impor freios quando o tema é alinhamento externo. Ao contrário: revela uma disposição recorrente de abrir mão de instrumentos estratégicos, seja no campo diplomático, econômico ou territorial, em nome de uma adesão quase automática ao projeto geopolítico liderado por Donald Trump.
O episódio envolvendo o acordo sobre terras raras em Goiás não é um ponto fora da curva — é sintoma. Ele se insere em uma engrenagem mais ampla, na qual recursos estratégicos, cadeias produtivas e decisões soberanas passam a ser tratados como ativos negociáveis em um jogo que não se decide em Brasília, mas nos centros de poder global. E isso ocorre justamente no momento em que minerais críticos — essenciais para a indústria tecnológica, energética e militar — se tornam o epicentro de uma disputa entre potências.
A história latino-americana oferece paralelos incômodos. Desde o período colonial, passando pelos ciclos extrativistas e pelas intervenções diretas ou indiretas ao longo do século XX, a região foi reiteradamente posicionada como fornecedora de riqueza e importadora de dependência. O discurso muda, os atores se atualizam, mas a lógica persiste: acesso a recursos em troca de promessas de desenvolvimento que raramente se concretizam em soberania.
No Brasil, esse dilema ganha contornos ainda mais agudos. De um lado, um governo federal que sinaliza a necessidade de reposicionar o país nas cadeias globais, agregando valor e preservando autonomia. De outro, iniciativas que tensionam esse projeto ao antecipar concessões estratégicas, frequentemente sem mediação institucional adequada. No meio desse embate, uma questão central se impõe: o país será protagonista de sua própria inserção internacional ou voltará a ocupar o papel de elo subordinado em uma engrenagem global?
Mais do que um debate sobre mineração ou investimentos, o que está em jogo é a própria ideia de soberania no século XXI. E, como sugere o momento atual, essa não é uma discussão abstrata — é uma escolha política em curso, feita em tempo real, com consequências que ultrapassam governos e atravessam gerações.
Terras raras e soberania em disputa
A assinatura do memorando de entendimento entre o governo de Goiás, liderado por Ronaldo Caiado (PSD), e a gestão de Donald Trump para exploração e desenvolvimento de terras raras acendeu um alerta em Brasília. Considerado “gravíssimo” por integrantes do governo federal, o acordo levanta dúvidas constitucionais, tensiona a política externa brasileira e expõe, mais uma vez, a disposição de setores da extrema direita em flexibilizar a soberania nacional em nome de alinhamentos geopolíticos.
O ponto central da controvérsia é direto: recursos minerais são, por definição constitucional, propriedade da União — e cabe exclusivamente ao presidente da República conduzir relações internacionais e firmar acordos com outros países, conforme estabelece o artigo 84 da Constituição. Ainda assim, Caiado anunciou a assinatura de um entendimento com os Estados Unidos que, entre outros pontos, prevê cooperação técnica, levantamento geológico conduzido por agentes estrangeiros e a criação de condições para um “mercado aberto” de minerais críticos.
Nos bastidores, o Itamaraty avalia acionar a Advocacia-Geral da União (AGU) para analisar a constitucionalidade do acordo. A preocupação não é apenas jurídica, mas estratégica: o memorando segue exatamente os parâmetros de uma proposta mais ampla apresentada por Washington ao Brasil — rejeitada até o momento pelo governo federal — que inclui restrições à venda desses minerais para a China, principal parceiro comercial do país.
A “zona cinzenta” jurídica e o avanço sobre recursos estratégicos
Formalmente, o governo de Goiás sustenta que o documento não tem caráter vinculante, tratando-se apenas de uma “declaração de intenções de boa-fé”. De fato, memorandos de entendimento são instrumentos comuns na chamada paradiplomacia — prática em que entes subnacionais buscam atrair investimentos e cooperação internacional.
Mas o caso em questão ultrapassa o trivial.
Como lembra o professor Márcio Ricardo Staffen, da Univali, “a competência para manter relações com Estados estrangeiros é privativa do presidente da República”. Na mesma linha, a advogada Kelly Gerbany Martarello reforça: “Estados não podem firmar acordos internacionais formais nem assumir compromissos diplomáticos em nome do país”.
Há, contudo, uma área cinzenta. O advogado Leonardo Branco pondera que memorandos são permitidos — desde que não impliquem vantagens econômicas, preferências regulatórias ou obrigações indiretas. É exatamente aí que o acordo com os EUA se torna sensível: ao prever facilitação de investimentos, integração com cadeias produtivas norte-americanas e levantamento geológico por agentes estrangeiros, o texto tangencia — ou ultrapassa — os limites da cooperação técnica.
Mais delicado ainda é o objeto do acordo. As chamadas “terras raras” são minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia, essenciais para a produção de semicondutores, baterias, equipamentos militares e tecnologias verdes. Em um cenário global marcado pela disputa entre Estados Unidos e China por essas cadeias produtivas, abrir espaço para ingerência externa nesse setor não é uma decisão trivial — é uma escolha geopolítica.
Do Barão do Rio Branco ao alinhamento automático
Historicamente, o Brasil construiu uma política externa baseada em autonomia, equilíbrio e pragmatismo. Desde o Barão do Rio Branco, no início do século XX, consolidou-se uma tradição diplomática que busca evitar alinhamentos automáticos e preservar margem de manobra internacional.
Essa tradição foi reafirmada em diferentes momentos — inclusive durante a Guerra Fria, quando o país evitou subordinação completa a qualquer bloco.
O que está em jogo agora é uma possível inflexão.
O alinhamento entre setores da extrema direita brasileira e o trumpismo não é novo, mas ganha contornos mais concretos quando se traduz em iniciativas que envolvem recursos estratégicos. A proposta norte-americana rejeitada pelo governo federal — e agora parcialmente incorporada no acordo com Goiás — evidencia uma tentativa de reorganizar cadeias globais de minerais críticos sob influência direta de Washington, com exclusão explícita da China.
Não se trata apenas de economia. Trata-se de poder.
América Latina como território em disputa
O episódio também se insere em um contexto mais amplo de reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina. A retomada de uma lógica de influência direta — evocando, ainda que implicitamente, a Doutrina Monroe — tem se manifestado por meio de acordos militares, pressões diplomáticas e articulações com governos ideologicamente alinhados.
Nesse cenário, países como Argentina, sob Javier Milei, assumem posturas de alinhamento explícito. Outros, como o Brasil, tornam-se terreno de disputa interna entre projetos de autonomia e de subordinação.
O caso de Goiás ilustra esse conflito em escala doméstica: de um lado, o governo federal resiste a um acordo que considera prejudicial à soberania; de outro, um governo estadual avança em direção oposta, buscando se posicionar como interlocutor direto de uma potência estrangeira.
Entre desenvolvimento e dependência
Defensores do memorando argumentam que a iniciativa pode atrair investimentos, զարգmentar cadeias produtivas e inserir o Brasil — ou ao menos Goiás — em setores estratégicos da economia global. O próprio Adriano Drummond Trindade, especialista em infraestrutura e energia, aponta a necessidade de uma política nacional robusta para minerais críticos.
O ponto, contudo, não é se o país deve explorar essas riquezas — mas sob quais condições.
A história econômica latino-americana é marcada por ciclos de exploração de recursos naturais sob controle externo, frequentemente acompanhados de promessas de desenvolvimento que não se concretizaram plenamente. Do ouro ao petróleo, passando pela borracha e pelo minério de ferro, a questão central sempre foi a mesma: quem controla, quem lucra e quem decide.
Soberania não é detalhe
O acordo entre Caiado e Trump não é um episódio isolado. Ele sintetiza uma disputa mais profunda sobre o futuro do Brasil em um mundo em transformação.
Ao tensionar os limites constitucionais, abrir espaço para ingerência estrangeira em recursos estratégicos e alinhar-se a interesses externos sem mediação federal, a iniciativa reacende um debate antigo — e cada vez mais urgente: até que ponto o país está disposto a negociar sua soberania?
A resposta, como ensina a história, não se mede apenas em termos jurídicos ou econômicos. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de uma nação de decidir seu próprio destino.
A disputa subterrânea: bilhões, diplomacia e poder
Se o acordo firmado por Goiás já acende alertas institucionais, ele se insere em um movimento mais amplo — e muito mais ambicioso — liderado por Washington. Trata-se de uma ofensiva bilionária, estruturada em múltiplas frentes, para garantir acesso privilegiado às reservas brasileiras de minerais críticos e terras raras, consideradas centrais para a economia e a segurança do século XXI.
O interesse não é casual. O Brasil detém entre 20% e 23% das reservas globais de terras raras, ficando atrás apenas da China — país que hoje domina tanto a extração quanto, sobretudo, o processamento desses insumos estratégicos. Em um mundo que transita para matrizes energéticas mais limpas e tecnologias cada vez mais sofisticadas, esses minerais tornaram-se peças-chave: estão em baterias elétricas, turbinas eólicas, chips, satélites e sistemas militares avançados.
Nesse contexto, a movimentação dos Estados Unidos ocorre em duas dimensões complementares. De um lado, há uma frente econômica robusta, marcada pela disposição de investir “dezenas de bilhões de dólares” em mineradoras que já operam — ou pretendem operar — no Brasil. De outro, uma frente política, que pressiona por um acordo bilateral capaz de reorganizar fluxos comerciais e cadeias produtivas sob influência direta de Washington.
Capital, controle e condicionantes
No campo econômico, a estratégia já começa a produzir efeitos concretos. O governo norte-americano passou a mapear empresas com direitos minerários no Brasil e iniciou aportes diretos em projetos considerados promissores.
Um dos casos emblemáticos envolve a mineradora Serra Verde, responsável por praticamente toda a produção brasileira de terras raras em 2025 — quase integralmente exportada para a China. O financiamento de US$ 565 milhões concedido por uma agência estatal norte-americana não apenas reforça a operação da empresa, mas também garante participação acionária e, consequentemente, influência sobre o destino da produção.
Outro movimento relevante foi o investimento na Aclara Resources, com projetos em Goiás, sinalizando uma aposta em iniciativas ainda em fase inicial — as chamadas “junior miners”, altamente dependentes de capital externo para sair do papel.
Mas esses investimentos não são neutros. Um dos requisitos impostos por Washington é claro: priorizar o abastecimento dos Estados Unidos e de seus aliados, restringindo o acesso da China a esses recursos. Trata-se, portanto, não apenas de financiar a produção, mas de redirecionar o fluxo global desses minerais.
Diplomacia sob pressão
Paralelamente, a Casa Branca intensifica a pressão política. Uma proposta formal de acordo foi enviada ao Itamaraty, nos moldes de entendimentos já firmados com outros países, como a Austrália. Entre os pontos previstos estão a definição de preços mínimos, mudanças regulatórias para acelerar licenças e, sobretudo, o compromisso de direcionar a produção para mercados alinhados aos interesses americanos.
O governo brasileiro, no entanto, resiste. A avaliação em Brasília é de que não há urgência em firmar o acordo — especialmente considerando a posição privilegiada do país como fornecedor de um recurso escasso e altamente demandado.
Mais do que isso, há uma objeção de princípio: a exigência de limitar relações comerciais com a China contraria a tradição diplomática brasileira de diversificação de parceiros. Hoje, Pequim não apenas é o principal destino das terras raras brasileiras, como também o maior parceiro comercial do país em termos gerais.
Entre dois polos — e um modelo em disputa
A tensão revela um dilema clássico, agora reposicionado no século XXI: o Brasil será um fornecedor de matéria-prima ou um protagonista nas cadeias de valor?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sinalizado que pretende romper com o padrão histórico de exportação de commodities sem agregação de valor. Em declaração recente, criticou o modelo adotado no passado com o minério de ferro — vendido a baixo custo e reimportado na forma de produtos industrializados muito mais caros — e defendeu a internalização das etapas de processamento.
Essa posição encontra respaldo entre especialistas. O diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Julio Nery, aponta que a disputa atual tem um objetivo central: garantir fornecimento estável. Já o professor Sidney Ribeiro, da Unesp, alerta que o país precisa evitar repetir um padrão extrativista que pouco contribui para o desenvolvimento tecnológico interno.
A lógica da escassez e o novo tabuleiro global
A urgência norte-americana tem explicação. Em meio à escalada de tensões comerciais, a China chegou a suspender exportações de minerais críticos para os Estados Unidos, expondo a vulnerabilidade de setores estratégicos da indústria americana. O episódio funcionou como um gatilho.
Desde então, o tema passou a ocupar posição de destaque na estratégia de segurança nacional dos EUA. O diagnóstico é direto: quem controla esses recursos — e, sobretudo, sua capacidade de processamento — define os rumos da indústria tecnológica, da transição energética e do poder militar nas próximas décadas.
A professora Elena Rodriguez, do Brics Policy Center, sintetiza o momento: trata-se de uma “corrida geopolítica muito bem estruturada” para redesenhar cadeias globais e reduzir a dependência do domínio chinês.
Os números reforçam a dimensão do desafio. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), a demanda por esses minerais pode crescer até 1.500% até 2050 — um salto que supera, com folga, a capacidade atual de produção.
O Brasil no centro — e sob pressão
Inserido nesse tabuleiro, o Brasil ocupa uma posição singular: é, ao mesmo tempo, peça-chave e campo de disputa. Diferentemente de outros países, possui reservas significativas, diversidade de parceiros e uma tradição diplomática que privilegia o equilíbrio.
Essa combinação, no entanto, exige escolhas estratégicas.
Como observa Julio Nery, não são apenas os Estados Unidos que buscam acesso a esses recursos — Europa, Japão e outros atores também disputam espaço. Nesse cenário, a capacidade de manter múltiplos parceiros pode ser uma vantagem decisiva.
O risco, por outro lado, está na captura dessa agenda por interesses externos específicos — sobretudo quando mediada por iniciativas fragmentadas ou desalinhadas da política nacional, como no caso do acordo firmado por Goiás.
No fim das contas, a disputa pelas terras raras brasileiras não se resume a contratos ou investimentos. Ela revela, com rara nitidez, uma questão mais profunda: quem definirá o papel do país na economia global do século XXI — e sob quais condições.
Lula destaca importância de terras raras
O presidente Lula defendeu ontem (19), em São Bernardo do Campo, no Grande ABC, que as terras raras e os minerais críticos existentes no Brasil são “a forma de recuperarmos a cidadania da América do Sul”.
“E agora eles querem nos explorar e fazer a mesma coisa que os espanhóis fizeram com minério de ferro e com ouro: levar e deixar os buracos que eles cavam. E dessa vez nós vamos nos juntar para dizer que os mineiros críticos e as terras raras serão uma forma de a gente recuperar a cidadania do povo latino-americano”, disse Lula.
A fala de Lula foi uma resposta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem demonstrando interesse em explorar esses minérios do Brasil. Para Lula, nenhum país estrangeiro poderia solucionar os problemas do Brasil, já que a resposta deve vir exclusivamente de nosso próprio território.
“A gente precisa adotar como princípio filosófico de vida que nós – e somente nós – poderemos resolver os nossos problemas, os problemas da nossa soberania, os problemas da integridade territorial e o problema da elevação de vida do povo brasileiro e do povo latino-americano”, concluiu.
Segundo Lula, não será Trump quem vai resolver os problemas da América do Sul. “Tem países que acham que o Trump vai resolver os problemas que atingem os países da América. Os espanhóis ficaram 500 anos e não resolveram. Os ingleses também ficaram por lá por um tempo e não resolveram. Os americanos não resolveram”, disse.
Brasil havia rejeitado proposta dos EUA
O governo Lula já havia recusado proposta dos EUA para a criação de uma reserva de mercado de terras raras aos americanos. A avaliação é de que o projeto limitava a autonomia do país na administração e destino dos minérios e perpetua uma assimetria no setor considerado como estratégico.
Em resumo, a Casa Branca queria um compromisso dos governos para que as reservas no Brasil e em outros locais sejam preservadas para o consumo dos EUA.
Um segundo aspecto é a garantia de que esses países, inclusive o Brasil, não privilegiem o comércio com a China.
A Argentina aceitou, assim como outros 13 países. Mas, para o governo brasileiro, tal proposta “não faz sentido”. O que Brasília quer saber é o que os EUA têm a oferecer e insiste que “não está desesperado”.
O governo considera que é o Brasil que tem os minerais cobiçados pelos EUA e que quer evitar uma relação assimétrica na qual o país se limitaria a ser um vendedor de matéria-prima.
Para o Palácio do Planalto, a aposta é que o setor de minérios será tão estratégico que os investidores vão buscar um equilíbrio para também atender às demandas do país onde estão as reservas.
Entre os pontos centrais do pacto está a criação de um sistema de controle de preços, a garantia de que barreiras não serão estabelecidas e que um acesso seja estabelecido às reservas do país que aceite o entendimento com a Casa Branca.
O governo brasileiro admite que o tema será colocado sobre a mesa pelos EUA no próximo encontro entre Lula e Trump (data a ser definida). O Brasil já indicou que está disposto a dialogar. Mas desde que não seja nessas bases. O governo ainda não quer que esse tema seja usado como barganha para a retirada de tarifas contra produtos brasileiros que o Itamaraty consideram que são injustificadas.
Além disso, o Brasil quer garantias de que haja um fluxo de investimentos no país para evitar que a economia nacional seja apenas fornecedora de matéria-prima para a produção de alta tecnologia dos EUA.
Sem a possibilidade de aceitar o pacote apresentado nesta semana, o Itamaraty quer apostar num acordo bilateral.
Nesse aspecto, a ideia é a de criar uma situação na qual os americanos poderiam investir, processar e comprar os frutos do processamento. E não apenas levar os minérios e, depois, revender ao Brasil tecnologia.
O Brasil ainda quer manter seu direito de colocar barreiras para impedir a exportação de minérios.
No acordo comercial entre o Mercosul e a UE, por exemplo, o bloco sul-americano se reservou o direito de impor taxas para evitar o fluxo para fora do país, caso considere necessário e estratégico para a política industrial.
E então?
No limite, a disputa em torno das terras raras brasileiras expõe menos um conflito comercial e mais uma encruzilhada histórica: permanecer como fornecedor periférico de riqueza estratégica ou assumir, enfim, o controle sobre o próprio destino econômico e político. A pressão externa — agora mais explícita, articulada e militarmente respaldada — encontra, internamente, setores dispostos a relativizar princípios constitucionais e a própria tradição diplomática brasileira em nome de alinhamentos que prometem muito e entregam, historicamente, pouco além de dependência.
Não se trata de rejeitar parcerias, mas de compreender seus termos, seus custos e suas implicações de longo prazo. Em um mundo no qual recursos naturais se convertem em instrumentos de poder e soberania tecnológica, abrir mão de autonomia decisória não é apenas um erro estratégico — é, sobretudo, uma escolha política com consequências estruturais. A pergunta que permanece, incômoda e inevitável, é se o Brasil aprenderá com sua própria história ou insistirá em repeti-la, agora sob o verniz contemporâneo de uma nova corrida global por recursos.
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