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O PERIGO MORA AO LADO

Trump articula extrema direita no cone sul

Publicado em 13/03/2026 4:01 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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A engrenagem política que começa a se mover em torno do Brasil não opera apenas no terreno da retórica ideológica — ela articula diplomacia paralela, redes internacionais da extrema direita e movimentos estratégicos de governos alinhados a Washington. Nos bastidores, sinais vindos de Estados Unidos, Argentina, Chile e Paraguai revelam a formação de uma frente política e geopolítica que, na prática, tensiona as instituições brasileiras às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

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A aproximação entre emissários do governo Donald Trump e o bolsonarismo, a concessão de asilo a envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro e a presença crescente de líderes ultraconservadores na região compõem um mosaico que, para diplomatas e analistas em Brasília, deixa de ser coincidência e passa a indicar coordenação. Em um continente historicamente marcado por interferências externas, os acontecimentos recentes reacendem uma pergunta incômoda: até onde vai a fronteira entre alinhamento ideológico internacional e ingerência direta na política interna brasileira?

O quadro ganha contornos ainda mais sensíveis quando essa ofensiva política se combina com movimentos estratégicos no campo militar e de segurança regional. A autorização para presença de tropas norte-americanas no Paraguai — com acesso amplo a um território que faz fronteira direta com o Brasil —, a pressão de Washington para classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e a mobilização de think tanks e redes políticas transnacionais indicam que a disputa eleitoral brasileira pode estar sendo observada, e possivelmente influenciada, muito além de suas fronteiras.

Outro eixo sensível dessa disputa geopolítica é a tentativa de Washington de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Ao transformar facções brasileiras em alvos da chamada “guerra ao terror”, Washington cria uma brecha jurídica para intervenções unilaterais sob o argumento de segurança internacional — um precedente que especialistas consideram perigoso para a soberania brasileira.

Quando essa pressão é observada em conjunto com a presença militar norte-americana recém-autorizada no Paraguai — país que faz fronteira direta com o Brasil — e com a articulação política da extrema direita regional, o quadro passa a ser interpretado em Brasília como parte de uma estratégia mais ampla de cerco geopolítico.

Na leitura de diplomatas e analistas, o risco não é apenas jurídico ou militar: trata-se da possibilidade de reproduzir na maior democracia da América do Sul mecanismos semelhantes aos já empregados pelo trumpismo em sua ofensiva contra a Venezuela, combinando pressão externa, narrativa de combate ao terrorismo e interferência direta na arena política de um país estratégico do continente.

Nesse contexto, o episódio envolvendo Darren Beattie torna-se uma peça simbólica — e reveladora — desse tabuleiro geopolítico. Enviado especial do governo Donald Trump para tratar da relação com o Brasil e conhecido por seu histórico de aproximação com círculos da extrema direita e grupos supremacistas brancos nos Estados Unidos, Beattie tentou visitar Jair Bolsonaro na prisão, em um gesto sem precedentes na diplomacia contemporânea entre os dois países.

A iniciativa, barrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após alerta do Itamaraty, ultrapassa o campo da mera curiosidade diplomática: ela expõe a tentativa de legitimar politicamente um líder condenado por crimes contra a ordem democrática brasileira e de reforçar a narrativa internacional de perseguição ao bolsonarismo.

Inserido no conjunto de movimentos que incluem articulações regionais da extrema direita, pressão política de Washington e rearranjos militares no entorno geográfico do Brasil, o episódio sugere algo mais amplo que um gesto isolado — aponta para um roteiro cuidadosamente montado para projetar influência externa sobre o cenário político brasileiro às vésperas de uma eleição decisiva.

Para o governo brasileiro, o risco não se limita ao debate político interno: ele toca diretamente na soberania nacional e na integridade do processo democrático. É nesse cenário de tensão crescente, alianças internacionais e disputas de narrativa que o Brasil se aproxima de uma eleição que poderá redefinir não apenas o futuro do país, mas também o equilíbrio de forças em toda a América Latina.

É esse conjunto de movimentos — diplomáticos, militares e políticos — que esta reportagem passa agora a examinar em detalhes.

Paraguai abre território a militares dos EUA

A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou, na terça-feira (10/03), um acordo bilateral com os Estados Unidos que autoriza a presença de militares e funcionários do Departamento de Defesa norte-americano em território paraguaio. A medida, formalizada por meio do chamado Status of Forces Agreement (SOFA), foi aprovada por 53 votos favoráveis, oito contrários e quatro abstenções, de um total de 80 parlamentares. Com o aval da Câmara — após já ter sido aprovado pelo Senado — o tratado segue agora para promulgação ou veto do presidente paraguaio, Santiago Peña.

Assinado em Washington em dezembro do ano passado, o acordo estabelece as condições jurídicas e operacionais para a atuação de tropas dos Estados Unidos no país sul-americano. Segundo o governo de Peña, a iniciativa busca fortalecer a cooperação em segurança e ampliar a capacidade de enfrentamento a ameaças como o narcotráfico, o terrorismo e ataques cibernéticos. A oposição, no entanto, afirma que os termos do tratado criam um precedente sensível ao conceder privilégios amplos às forças estrangeiras e limitar a jurisdição do próprio Estado paraguaio.

Embora autoridades governistas argumentem que o acordo não prevê a instalação de bases militares permanentes nem a cessão de território nacional, o texto autoriza a presença de tropas norte-americanas para atividades de treinamento, assistência técnica e cooperação humanitária. Na prática, o tratado cria as condições para uma presença militar frequente e com ampla liberdade operacional em território paraguaio — inclusive em regiões próximas à fronteira com o Brasil.

Os dispositivos do acordo chamam atenção pelo grau de autonomia concedido às forças norte-americanas. O texto estabelece que aeronaves, embarcações e veículos militares dos Estados Unidos poderão entrar, circular e deixar o país sem inspeções por parte das autoridades paraguaias. Também será permitido o transporte de equipamentos, armamentos e materiais militares sem controle aduaneiro.

O tratado prevê ainda que militares norte-americanos possam portar armas durante suas missões oficiais e utilizar uniformes em território paraguaio. Além disso, as forças dos EUA terão autorização para operar seus próprios sistemas de telecomunicações e utilizar frequências de rádio sem custos ou controle local, garantindo autonomia completa nas comunicações durante operações e exercícios.

Outro ponto sensível diz respeito às imunidades concedidas aos integrantes das forças norte-americanas. O acordo estabelece que militares e funcionários civis vinculados ao Departamento de Defesa estarão protegidos por privilégios equivalentes aos de diplomatas estrangeiros. Na prática, isso significa que eventuais crimes ou infrações cometidos por membros das forças dos EUA não poderão ser julgados pela Justiça paraguaia.

Benefícios semelhantes também se estendem a empresas contratadas pelo Departamento de Defesa norte-americano. O texto permite que companhias vinculadas ao governo dos Estados Unidos atuem no Paraguai sem restrições relacionadas à escolha de fornecedores ou prestadores de serviço. Essas empresas também ficam isentas de impostos e poderão importar equipamentos e tecnologias sem qualquer tipo de fiscalização aduaneira.

Especialistas em segurança e diplomacia observam que o acordo reforça a estratégia de Washington de ampliar sua presença militar na América Latina. Nos últimos meses, o governo do presidente Donald Trump tem intensificado iniciativas na região, incluindo operações militares no Equador e pressões diplomáticas sobre países sul-americanos em temas relacionados ao combate ao crime organizado e ao terrorismo.

No caso da região da Tríplice Fronteira — área que reúne territórios de Brasil, Paraguai e Argentina — o interesse estratégico dos Estados Unidos já havia sido sinalizado anteriormente. Em maio do ano passado, o Departamento de Estado anunciou uma recompensa de até US$ 10 milhões por informações que permitissem desmantelar redes financeiras associadas ao Hezbollah na região.

O programa norte-americano apontava suspeitas de que o grupo libanês obtinha recursos por meio de atividades ilícitas na área, como lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de narcóticos. A iniciativa foi interpretada por autoridades brasileiras como um possível indicativo de maior envolvimento de Washington na segurança regional.

A discussão ganhou novos contornos após interlocuções políticas envolvendo aliados do bolsonarismo no Brasil. Em 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu junto a interlocutores do governo norte-americano a tese de que organizações criminosas brasileiras poderiam ser classificadas como grupos terroristas — argumento semelhante ao que passou a circular em setores do Departamento de Estado.

Para analistas de política internacional, a combinação entre a ampliação da presença militar norte-americana no Paraguai e a tentativa de enquadrar facções brasileiras no escopo da legislação antiterrorismo dos Estados Unidos cria um cenário sensível para o Brasil. O receio é que a região da Tríplice Fronteira passe a ser tratada por Washington como uma área de interesse estratégico direto, com potenciais implicações para a soberania e a segurança regional.

Outro aspecto controverso do acordo aprovado no Paraguai é a limitação de mecanismos legais de contestação. O texto prevê que o governo paraguaio renuncie ao direito de reivindicar indenizações por eventuais danos, perdas ou destruição de propriedades decorrentes das atividades das forças norte-americanas. Eventuais disputas ou desacordos relacionados ao tratado deverão ser resolvidos apenas por meio de negociações diplomáticas entre os dois governos.

Para críticos do acordo, os termos estabelecem uma relação assimétrica entre os dois países e reforçam a dependência estratégica do Paraguai em relação aos Estados Unidos. Já para o governo de Santiago Peña, o tratado representa um instrumento de cooperação internacional necessário para enfrentar ameaças transnacionais cada vez mais complexas.

Enquanto o debate se intensifica em Assunção, o impacto da decisão também começa a ser acompanhado de perto por autoridades e analistas no Brasil. A presença ampliada da maior potência militar do mundo em território vizinho — especialmente em uma região sensível como a Tríplice Fronteira — acrescenta um novo elemento ao já delicado tabuleiro geopolítico da América do Sul.

Pressão de Washington para classificar PCC e CV

A manifestação do governo dos Estados Unidos sobre o crime organizado brasileiro reacendeu tensões diplomáticas entre Brasília e Washington. Em nota divulgada na terça-feira (10/3), o Departamento de Estado afirmou considerar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “ameaças significativas à segurança regional”. A declaração ocorre em meio à crescente discussão dentro do governo de Donald Trump sobre a possibilidade de classificar os dois grupos como organizações terroristas.

No comunicado, o governo norte-americano afirma que as duas organizações representam um risco regional devido ao envolvimento em atividades como tráfico internacional de drogas, violência e crimes transnacionais. Apesar da sinalização, Washington evitou confirmar oficialmente se pretende formalizar a designação das facções como entidades terroristas.

“O governo dos Estados Unidos não faz comentários sobre potenciais designações terroristas ou deliberações relacionadas a essas designações”, afirmou o Departamento de Estado. A nota acrescenta, no entanto, que o país permanece “totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas”.

A ambiguidade da declaração não reduziu a preocupação no governo brasileiro. Nos bastidores, diplomatas e integrantes da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a classificação das facções como organizações terroristas não teria respaldo técnico segundo a legislação brasileira. A principal objeção é jurídica: a Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) define terrorismo como atos destinados a provocar terror social por razões de natureza ideológica, política, religiosa ou discriminatória — critérios que, na interpretação do governo brasileiro, não se aplicam às atividades das facções.

Autoridades brasileiras sustentam que, embora violentas e altamente organizadas, as estruturas do PCC e do CV operam primordialmente com objetivos econômicos ligados ao narcotráfico e outras atividades ilícitas. “Nós não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade”, afirmou em 2025 o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, ao comentar a pressão diplomática americana sobre o tema.

A posição do governo brasileiro, no entanto, contrasta com o movimento que ganha força em Washington. Dentro do Departamento de Estado, parte dos formuladores de política externa defende enquadrar as facções brasileiras no mesmo regime jurídico aplicado a cartéis latino-americanos classificados como organizações terroristas estrangeiras — caso, por exemplo, do Cartel de Jalisco, no México.

Para diplomatas brasileiros, o risco dessa mudança vai além da dimensão jurídica. Nos bastidores do Itamaraty, há receio de que a classificação abra espaço para medidas unilaterais dos Estados Unidos sob o argumento de combate ao terrorismo e ao narcotráfico. Entre as possibilidades discutidas por especialistas estão sanções financeiras, bloqueio de ativos e até operações de segurança fora do território americano.

Autoridades brasileiras temem a reprodução de estratégias adotadas pelos Estados Unidos em outros países da região. Em operações passadas de combate ao narcotráfico, Washington realizou ações militares contra embarcações e estruturas criminosas em áreas próximas a países como Colômbia e Venezuela.

O episódio ocorre em um momento sensível nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Os dois governos negociam há meses a realização de um encontro bilateral entre Lula e Trump, ainda sem data confirmada. O presidente brasileiro chegou a mencionar publicamente a possibilidade de uma reunião em março, mas o encontro segue indefinido.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a discussão ganhou caráter emergencial. Desde o último fim de semana, Lula convocou reuniões com ministros e assessores para avaliar os impactos políticos, econômicos e diplomáticos que uma eventual designação das facções como organizações terroristas poderia gerar.

O governo brasileiro avalia que a medida poderia provocar efeitos relevantes em áreas como o sistema financeiro e o comércio internacional. Uma das preocupações levantadas por auxiliares do presidente envolve a possibilidade de monitoramento ou restrições a sistemas de pagamento brasileiros, como o Pix, sob o argumento de combate à lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado.

A controvérsia também se tornou tema de disputa política interna. Parlamentares alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro defendem que o Brasil adote a mesma classificação proposta por setores do governo norte-americano. No Congresso Nacional, tramita um projeto de lei que equipara crimes praticados por facções a atos de terrorismo. A proposta já foi aprovada pela Comissão de Segurança Pública da Câmara e ainda precisa passar pelo plenário da Casa e pelo Senado.

A iniciativa conta com apoio de parte da base bolsonarista, que argumenta que a mudança permitiria ampliar os instrumentos legais de combate ao crime organizado. O governo Lula, por sua vez, teme que a narrativa seja explorada politicamente por adversários e tente construir uma estratégia de comunicação para justificar sua posição contrária.

A tensão se intensificou após reportagens indicarem que a Casa Branca já teria preparado a documentação necessária para encaminhar ao Congresso americano a designação das facções brasileiras como organizações terroristas. A revelação levou o governo brasileiro a mobilizar rapidamente seus canais diplomáticos.

No último dia 8, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, telefonou ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, para tratar diretamente do assunto. Segundo relatos de autoridades ouvidas pela imprensa, Vieira argumentou que qualquer decisão desse tipo deveria aguardar um encontro presencial entre Lula e Trump.

Outros integrantes do governo brasileiro também passaram a atuar na tentativa de conter a iniciativa. Apesar da pressão diplomática, auxiliares do presidente avaliam que a ausência de um anúncio formal até agora não representa uma vitória definitiva, mas apenas um adiamento da decisão.

Enquanto o debate diplomático avança, o crescimento e a internacionalização das facções brasileiras continuam sendo um fator central na discussão. Investigações apontam que o PCC já possui presença em ao menos 16 países, enquanto o Comando Vermelho mantém operações e conexões criminosas em pelo menos oito na América Latina.

Para analistas de segurança internacional, o embate em torno da classificação das facções revela mais do que uma divergência jurídica. Ele expõe uma disputa mais ampla sobre os limites da atuação internacional dos Estados Unidos em temas de segurança e sobre os impactos que essa agenda pode ter na soberania e na política interna de países estratégicos da região.

Argentina concede refúgio a golpista

A decisão do governo argentino de conceder status de refugiado ao brasileiro Joel Borges Corrêa — condenado no Brasil por participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 — reacendeu o debate sobre a crescente politização do sistema de refúgio no país sob a presidência de Javier Milei. Para especialistas em direitos humanos e política migratória, mudanças promovidas pelo governo argentino nos últimos dois anos ampliaram o controle político sobre um mecanismo que tradicionalmente operava com base em critérios técnicos e jurídicos.

Corrêa, considerado foragido da Justiça brasileira, foi condenado a 13 anos e seis meses de prisão por envolvimento na tentativa de golpe que culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília. Após deixar o Brasil, ele foi detido pela polícia argentina em novembro de 2024, na província de San Luis, quando tentava cruzar a Cordilheira dos Andes em direção ao Chile. A defesa então apresentou um pedido de refúgio à Comissão Nacional para os Refugiados da Argentina (Conare), alegando que seu cliente seria alvo de perseguição política por parte do Supremo Tribunal Federal.

A solicitação foi aceita pela Conare em 4 de março, embora a decisão tenha sido divulgada apenas posteriormente. Com o reconhecimento do status de refugiado, Corrêa passa a ter proteção internacional em território argentino, o que impede sua extradição ou expulsão do país enquanto o status permanecer válido.

Para analistas, a decisão ocorre em um momento de reconfiguração institucional do sistema argentino de refúgio. Segundo o advogado Diego Morales, diretor da área jurídica do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), o governo Milei promoveu mudanças estruturais que alteraram o funcionamento da Conare e ampliaram a influência direta do Executivo sobre suas decisões.

“Milei tem distorcido o funcionamento da Conare, algo que inclusive denunciamos à Comissão Interamericana de Direitos Humanos no ano passado”, afirmou Morales. Entre as alterações apontadas por especialistas está a mudança na composição da comissão responsável por avaliar os pedidos de refúgio.

Uma das medidas mais controversas foi a extinção do Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), órgão que anteriormente tinha assento e direito a voto na Conare. Com sua dissolução, o espaço foi ocupado por representantes do Ministério da Segurança, pasta diretamente alinhada à agenda política do governo.

Além da alteração institucional, Milei também promulgou um decreto de necessidade e urgência que modificou critérios legais para concessão ou negação de refúgio. A medida foi adotada sem debate prévio no Congresso argentino, ampliando o poder do Executivo sobre decisões que historicamente envolviam avaliação técnica de especialistas e organismos da sociedade civil.

Para Raisa Cetra, co-diretora executiva da ONG Artigo 19 e ex-integrante do Cels em Buenos Aires, a transferência da política de refúgio para a esfera da segurança nacional alterou o enfoque tradicional da política migratória argentina.

“Antes, os pedidos de refúgio estavam sob responsabilidade do Ministério do Interior e eram tratados principalmente a partir de critérios humanitários e demográficos. Com as mudanças promovidas pelo governo Milei, a política passou a ser vinculada ao Ministério da Segurança, reforçando uma visão mais alinhada à agenda de segurança nacional defendida pela extrema direita”, explica.

Nesse contexto, a concessão de refúgio a um brasileiro condenado por participação em atos antidemocráticos é interpretada por analistas como um gesto político com implicações regionais. Para Cetra, a decisão envia um sinal diplomático ao governo brasileiro em um momento de intensificação das articulações entre líderes da extrema direita latino-americana.

“Essa decisão pode ser interpretada como um recado político ao governo Lula em um ano eleitoral no Brasil, especialmente no contexto de aproximação da Argentina com redes internacionais da direita radical”, avalia.

No plano jurídico internacional, o reconhecimento do status de refugiado pressupõe a existência de perseguição comprovada por motivos políticos, religiosos, étnicos ou raciais. Por essa razão, a concessão de refúgio por um Estado a um cidadão estrangeiro costuma ser interpretada como um juízo implícito sobre a atuação das instituições do país de origem do solicitante.

Embora a decisão da Conare argentina declare formalmente que o reconhecimento do status de refugiado não implica julgamento sobre o sistema judicial brasileiro, especialistas observam que, na prática, a medida acaba transmitindo uma mensagem política sensível.

Outro aspecto controverso envolve a quebra da confidencialidade do processo. Pelas normas internacionais de proteção a refugiados, as autoridades responsáveis normalmente não divulgam a identidade de pessoas beneficiadas por esse tipo de proteção, justamente para preservar sua segurança.

No caso de Corrêa, porém, a própria defesa do brasileiro decidiu divulgar a decisão da Conare à imprensa. Segundo Morales, episódios semelhantes já ocorreram anteriormente no governo Milei, quando o próprio presidente comentou publicamente casos de refugiados que tiveram seu status revogado.

“Esse tipo de exposição viola princípios básicos do sistema internacional de proteção a refugiados”, afirma o advogado.

A decisão argentina também reverberou no cenário político regional. Durante um encontro em Santiago, na posse do novo presidente chileno José Antonio Kast, Flávio Bolsonaro agradeceu publicamente ao presidente argentino pela concessão do refúgio.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar afirmou que Milei foi “o primeiro a reconhecer asilo político a um brasileiro na Argentina”. “Há esperança”, disse o senador ao cumprimentar o presidente argentino.

O gesto reforça a leitura de que o caso ultrapassa a dimensão jurídica e se insere em uma disputa política mais ampla envolvendo narrativas sobre os acontecimentos de 8 de janeiro e o julgamento dos envolvidos na tentativa de ruptura institucional no Brasil.

Para observadores da política regional, a concessão de refúgio a Corrêa simboliza a convergência crescente entre governos e movimentos políticos de direita na América do Sul. Em um cenário marcado por tensões diplomáticas e disputas narrativas sobre democracia e justiça, decisões como essa tendem a ampliar as fricções entre governos e a influenciar o ambiente político em um momento particularmente sensível para a região.

Posse de Kast no Chile reúne líderes da extrema direita

A posse de José Antonio Kast como presidente do Chile transformou-se em mais do que um ato institucional de transição de governo. Para autoridades brasileiras, o evento realizado em Santiago revelou mais sinais da articulação da extrema direita internacional sobre o cenário eleitoral brasileiro.

Inicialmente, o presidente Lula planejava comparecer à cerimônia como gesto diplomático e tentativa de manter canais de diálogo com o novo governo chileno, apesar das diferenças ideológicas. A presença do chefe de Estado brasileiro fazia parte de uma estratégia do Palácio do Planalto de evitar o isolamento regional diante do avanço de governos de direita na América do Sul.

O plano, porém, foi revisto após a confirmação de que o novo governo chileno havia convidado para o evento Flávio e Eduardo Bolsonaro. Para auxiliares do governo brasileiro, a presença dos dois parlamentares — associados diretamente à oposição ao governo Lula — poderia transformar a cerimônia em um palco político desfavorável ao presidente brasileiro.

Assessores alertaram que a composição do evento indicava a presença expressiva de líderes e representantes da extrema direita latino-americana. Nesse contexto, havia o risco de Lula aparecer em posição protocolar secundária, enquanto aliados do bolsonarismo ganhariam destaque em meio a um ambiente político claramente alinhado à oposição brasileira.

Diante desse cenário, o governo decidiu cancelar a participação do presidente na cerimônia. A avaliação interna foi de que a viagem poderia expor uma imagem de isolamento político do Brasil justamente em uma região onde o país tradicionalmente exerce liderança diplomática.

Nos meses anteriores à posse, Flávio e Eduardo intensificaram contatos com dirigentes e lideranças da direita latino-americana. Em Santiago, essa aproximação ficou evidente. Durante a cerimônia, o senador Flávio Bolsonaro registrou encontros e fotografias com diversas figuras influentes do campo conservador regional, reforçando a construção de uma rede política que ultrapassa o cenário doméstico brasileiro.

O evento chileno também reuniu representantes da direita europeia. Delegações ligadas a movimentos conservadores do continente participaram da posse de Kast, incluindo grupos políticos espanhóis associados ao legado do franquismo e aliados próximos do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

Nas redes sociais, alguns desses dirigentes chegaram a se referir a Flávio Bolsonaro como “futuro presidente do Brasil”, declaração que circulou amplamente em círculos políticos e chamou atenção de analistas em Brasília.

Para diplomatas brasileiros, o conjunto de movimentos observados em Santiago reforçou a percepção de que setores da direita internacional buscam ampliar sua influência na política latino-americana. No caso brasileiro, a presença simultânea de lideranças regionais e europeias alinhadas ao bolsonarismo foi interpretada como mais um elemento dentro de um cenário mais amplo de articulação política transnacional.

Embora eventos de posse presidencial tradicionalmente reúnam lideranças de diferentes países, a configuração política observada em Santiago chamou atenção por reunir, em um mesmo espaço, atores que vêm defendendo publicamente uma mudança de rumo político no Brasil.

Para integrantes do governo brasileiro, o episódio reforça a leitura de que a disputa eleitoral no país já começa a se projetar no cenário internacional — e que alianças políticas construídas fora das fronteiras nacionais podem desempenhar papel relevante no ambiente político da região nos próximos meses.

Supremacista branco e Bolsonaro

Outro episódio que chama a atenção sobre as articulações do extremismo de direita no cone sul foi o pedido de Darren Beattie para visitar Jair Bolsonaro na prisão. A solicitação acabou negada pelo ministro Alexandre de Moraes após manifestação do Itamaraty, que considerou a iniciativa potencialmente caracterizável como interferência em assuntos internos do país.

Beattie foi recentemente designado para atuar na formulação da política norte-americana para o Brasil e é conhecido por suas posições alinhadas à direita radical e a movimentos supremacistas brancos nos Estados Unidos. A tentativa de encontro com Bolsonaro ocorreu enquanto o ex-presidente cumpre pena de prisão após condenação por participação na tentativa de golpe contra o governo eleito.

No entendimento do Itamaraty, a visita de um representante oficial de um governo estrangeiro a um ex-chefe de Estado condenado e preso poderia ser interpretada como um gesto político sensível, especialmente em um ano eleitoral. Em ofício enviado ao Supremo Tribunal Federal, o chanceler Mauro Vieira alertou que a iniciativa poderia configurar “indevida ingerência nos assuntos internos do Brasil”.

Mais de um ano após o retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos, Washington ainda não nomeou formalmente um embaixador para Brasília. A ausência de um chefe de missão permanente tem levado a interlocução bilateral a ocorrer por canais menos tradicionais da diplomacia.

Ao designar apenas um representante baseado em Washington para tratar do relacionamento com o Brasil, a Casa Branca evita etapas diplomáticas formais — como a aprovação prévia do nome do embaixador pelo governo brasileiro — e ganha maior margem para conduzir contatos políticos fora dos canais institucionais tradicionais.

A atuação de Beattie contribuiu para ampliar o mal-estar diplomático. Antes mesmo de estabelecer interlocução formal com o Palácio do Planalto ou com o Ministério das Relações Exteriores, o enviado norte-americano buscou aproximação direta com figuras ligadas ao bolsonarismo. A iniciativa foi interpretada em Brasília como um sinal político pouco usual na prática diplomática.

Nos últimos meses, integrantes do governo Lula acreditavam que o tema envolvendo Jair Bolsonaro havia sido gradualmente superado no relacionamento bilateral. Após um período de forte tensão, Washington chegou a suspender parte das sanções impostas a autoridades brasileiras e recuou em algumas tarifas comerciais aplicadas ao país.

Ainda assim, dentro do governo brasileiro sempre houve avaliação de que a redução das tensões poderia ter caráter apenas tático. Uma ala da diplomacia brasileira defendia que o governo Trump buscava apenas neutralizar a oposição do Brasil a movimentos estratégicos da Casa Branca na América Latina — especialmente em relação à política norte-americana para a Venezuela.

Na tentativa de preservar um canal de diálogo com Washington, o governo brasileiro adotou postura cautelosa em temas sensíveis da política regional. Um exemplo citado por diplomatas foi a orientação para que integrantes do governo evitassem declarações públicas mais duras sobre a crise humanitária em Cuba, ao mesmo tempo em que Brasília organizava discretamente iniciativas de cooperação e assistência ao país caribenho, alvo de sanções norte-americanas.

A soma desses episódios revela um ambiente diplomático cada vez mais complexo. A combinação entre redes políticas transnacionais, disputas narrativas sobre democracia e ações de governos estrangeiros tem ampliado a percepção, em Brasília, de que o processo eleitoral brasileiro passou a integrar um cenário geopolítico mais amplo — no qual alianças ideológicas e interesses estratégicos internacionais se entrelaçam.

Democracia sob pressão em um tabuleiro geopolítico

Os episódios reunidos ao longo desta reportagem — a presença militar ampliada dos Estados Unidos no Paraguai, a pressão para classificar facções brasileiras como organizações terroristas, a concessão de refúgio político a envolvidos nos atos de 8 de janeiro na Argentina, a mobilização de redes internacionais da extrema direita e a atuação de emissários ligados ao governo Donald Trump — apontam para um fenômeno que vai além da disputa política cotidiana. Eles revelam como o processo democrático brasileiro passou a ser observado, disputado e potencialmente influenciado dentro de um cenário geopolítico mais amplo, no qual alianças ideológicas e interesses estratégicos se entrelaçam no continente.

A história da América Latina mostra que esse tipo de interação entre política interna e disputas internacionais não é novidade. O cientista político Abraham F. Lowenthal, especialista em relações entre Estados Unidos e América Latina, lembra que por décadas a política hemisférica foi marcada pelo que chamou de “presunção hegemônica” de Washington — a ideia de que os Estados Unidos tinham o direito de exigir alinhamento político da região em temas estratégicos. Essa lógica, embora transformada ao longo do tempo, nunca desapareceu completamente do horizonte das relações interamericanas.

Ao mesmo tempo, estudiosos da democracia contemporânea alertam que os riscos às instituições nem sempre se manifestam por meio de rupturas abruptas. Em muitos casos, eles surgem de forma gradual, por meio de pressões políticas, disputas narrativas e erosão institucional progressiva. Como observam os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, “democracias podem morrer não pelas mãos de generais, mas de líderes eleitos que subvertem o próprio processo que os levou ao poder”. Em outras palavras, o enfraquecimento da democracia frequentemente ocorre de forma incremental — em zonas cinzentas entre a política doméstica e as influências externas.

No caso brasileiro, a dimensão internacional da disputa política ganha importância adicional pelo peso geopolítico do país. Como maior democracia da América Latina, potência regional e ator central nas dinâmicas políticas do continente, o Brasil ocupa posição estratégica em qualquer rearranjo ideológico ou de poder na região. Isso significa que eleições brasileiras dificilmente serão observadas apenas como eventos domésticos: elas também funcionam como termômetro do equilíbrio político no hemisfério.

Nesse contexto, o que está em jogo vai além da competição entre projetos políticos internos. Trata-se da capacidade das instituições democráticas brasileiras de preservar sua autonomia diante de pressões externas, narrativas transnacionais e disputas geopolíticas cada vez mais intensas. A defesa da soberania democrática — entendida não apenas como controle territorial, mas como integridade das regras do jogo político — torna-se, assim, um elemento central para o futuro do país.

A história recente da América Latina mostra que democracias podem resistir a ciclos de polarização e pressão externa quando instituições permanecem fortes e sociedades civis atentas. Como lembra a literatura contemporânea sobre democratização, apesar das ondas globais de autoritarismo e retrocesso institucional, a democracia tem demonstrado notável capacidade de resiliência mesmo em ambientes internacionais adversos.

No fim das contas, o verdadeiro teste não está apenas nas disputas eleitorais que se aproximam, mas na capacidade coletiva de preservar princípios fundamentais: pluralismo político, respeito às instituições, soberania nacional e compromisso com os direitos humanos. São esses pilares que definem a vitalidade de uma democracia — e que determinarão, em última instância, se o Brasil continuará a exercer seu papel como referência democrática em uma região historicamente marcada por disputas de poder e tentativas de influência externa.

DE CABO A RABO


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