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Especial
O trumpismo e a ameaça à democracia brasileira
Publicado em 22/08/2025 2:26 - Victor Barone
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“Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a encher de miséria a América Latina em nome da liberdade.”
— Simón Bolívar, 1829.
A relação entre os Estados Unidos e a América Latina sempre oscilou entre o paternalismo e a dominação. Desde a formulação da Doutrina Monroe em 1823 — cujo lema “América para os americanos” ocultava uma agenda expansionista — os EUA passaram a considerar o hemisfério ocidental como sua “zona natural de influência”. Sob esse pretexto, intervieram direta ou indiretamente em ao menos 47 episódios na região ao longo dos séculos XIX e XX, segundo levantamento do pesquisador John Coatsworth, da Universidade de Harvard.
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No caso brasileiro, a ingerência mais emblemática ocorreu em 1964, quando documentos desclassificados da CIA (Central Intelligence Agency) comprovaram o apoio logístico, político e militar ao golpe que depôs João Goulart, abrindo espaço para 21 anos de ditadura. O plano “Brother Sam” previa o envio de navios da Marinha norte-americana à costa brasileira em caso de resistência ao golpe — o que não foi necessário, mas revela a prontidão com que Washington interferia na soberania alheia em nome do anticomunismo.
Desde sua ascensão em 2016, Donald Trump promoveu uma reorientação brutal da política externa norte-americana. Rejeitando o multilateralismo e as instituições internacionais, como a ONU, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Tribunal Penal Internacional (TPI), Trump reafirmou a supremacia dos interesses americanos por meio do unilateralismo e da força retórica — e, por vezes, bélica.
Mais do que um presidente, Trump se consolidou como símbolo de uma ideologia autoritária transnacional: o trumpismo. Caracterizado pela mistura de nacionalismo xenófobo, negação de direitos humanos, guerra cultural e desprezo pelas instituições democráticas, esse modelo ganhou adeptos em diversos países — inclusive no Brasil, na figura de Jair Bolsonaro.
Segundo a cientista política Wendy Brown, professora da Universidade da Califórnia, o fenômeno populista de direita é “uma reação violenta à perda de privilégios simbólicos, alimentada por ressentimento e nostalgia de uma ordem hierárquica racial, de gênero e de classe” (In the Ruins of Neoliberalism, Columbia University Press, 2019).
Bolsonaro e Trump: afinidade ideológica, aliança estratégica
A aliança entre Jair Bolsonaro e Donald Trump é mais do que simbólica. Ambos promoveram o negacionismo climático, a hostilidade à imprensa, o desprezo pelo Judiciário e a militarização da política. Durante a pandemia da Covid-19, alinharam-se contra a ciência e as recomendações da OMS. O Brasil foi o único país sul-americano a apoiar formalmente a reeleição de Trump em 2020.
Em troca, Bolsonaro recebeu o status de aliado prioritário extra-OTAN, facilitando acordos militares e comerciais com os EUA. Mas o alinhamento mais perigoso foi na retórica de deslegitimação das instituições democráticas. Trump acusou fraude eleitoral antes mesmo do pleito de 2020. Bolsonaro, em simetria perfeita, questionou as urnas eletrônicas sem qualquer prova, abrindo caminho para o 8 de janeiro de 2023.
A CPI do 8 de Janeiro, instalada pelo Congresso brasileiro, identificou conexões entre grupos bolsonaristas e redes internacionais de extrema direita, com financiamento cruzado e apoio estratégico. Como apontou o relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o evento, “a retórica autoritária e as narrativas de deslegitimação institucional seguem padrões globalmente coordenados”.
A atual ameaça
Reeleito em 2024, Trump já deixou claro que sua segunda passagem pela Casa Branca será ainda mais radical. Sob o manto de uma pretensa defesa da liberdade de expressão e dos interesses de cidadãos norte-americanas, entrou em conflito direto com o Judiciário brasileiro, atacando diretamente ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e membros do programa Mais Médicos.
Ao mesmo tempo, think tanks ultraconservadores norte-americanos, como a Heritage Foundation e a Inter-American Institute for Democracy, intensificaram sua atuação na América Latina, financiando eventos, candidatos e campanhas digitais. Pesquisadores do Digital Forensic Research Lab (DFRLab) detectaram em 2023 uma rede de desinformação transnacional que impulsionou narrativas conspiratórias em países como Brasil, Argentina e Colômbia, todas alinhadas ao trumpismo.
Essa nova forma de intervenção não requer tropas — mas cliques, algoritmos e capital ideológico. Como escreveu o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “a dominação mais eficaz é a que se exerce com o consentimento daqueles que a sofrem” (La Domination Masculine, Seuil, 1998).
A escalada retórica, no entanto, não se restringe à guerra de narrativas. Nesta semana, Trump ordenou o envio de dois navios de guerra da Marinha dos EUA ao Caribe, sob o pretexto de “reforçar o combate ao narcotráfico na região”. As embarcações foram posicionadas próximas à costa da Venezuela, em um gesto que especialistas interpretaram como ameaça direta ao governo de Nicolás Maduro — revivendo os fantasmas da Operação Venezuela Freedom-2, planejada em 2020, durante seu primeiro mandato.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que os Estados Unidos estão preparados para “usar toda sua força” para frear o “fluxo de drogas em direção ao país”. “O regime de Maduro não é o governo legítimo da Venezuela. É um cartel do narcotráfico, na opinião desta administração. Nicolás Maduro não é um presidente legítimo. Ele é um líder fugitivo deste cartel, acusado nos EUA de tráfico de drogas para o país”, afirmou.
Embora o discurso oficial fale em “interesses de segurança nacional e contenção do tráfico internacional”, analistas apontam que a movimentação tem claros contornos políticos e funciona como recado geopolítico à região: os Estados Unidos de Trump estão dispostos a usar seu poderio militar para moldar, pela força ou pela dissuasão, o cenário hemisférico.
Trata-se, portanto, de um pacote ideológico e estratégico: Trump não apenas apoia lideranças alinhadas ao autoritarismo, mas sinaliza que pode mobilizar forças — diplomáticas, digitais e até navais — para proteger essas alianças. O Brasil, governado por uma frente democrática que tenta se reerguer institucionalmente, torna-se alvo preferencial de pressões indiretas e tentativas de desestabilização, especialmente no momento em que figuras ligadas ao bolsonarismo voltam a ganhar espaço político com o suporte de redes internacionais.
Essa política externa de confronto e imposição, ainda que envolta em justificativas de “segurança” ou “cooperação”, reflete o que o teórico da geopolítica Zbigniew Brzezinski já apontava nos anos 1990: “A hegemonia americana depende não apenas de força militar, mas da capacidade de moldar a percepção política e cultural dos aliados e adversários.” (The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, 1997).
E o Brasil? Democracia sob cerco
A democracia brasileira, embora resiliente, enfrenta desafios estruturais. A confiança nas instituições segue abalada: segundo o Datafolha (junho de 2025), 47% dos brasileiros acreditam que o sistema eleitoral “pode ser manipulado”, número que sobe para 71% entre eleitores bolsonaristas. Essa percepção é fruto direto da retórica de guerra cultural e desinformação promovida por agentes políticos e redes estrangeiras.
A atuação de Trump e seus aliados configura, portanto, uma intervenção indireta mas concreta. Trata-se de “soft power tóxico”, como definiu o cientista político Rubens Ricupero em entrevista à Folha de S.Paulo: “Não se trata de tanques na rua, mas de tanques de pensamento, de guerra digital, de financiamento político e, principalmente, de captura simbólica”.
A pergunta que ecoa é: o Brasil está preparado para resistir a uma nova forma de intervenção norte-americana — agora mediada por ideologia, tecnologia e redes políticas transnacionais?
A resposta depende da vitalidade de nossas instituições, da liberdade de imprensa, do fortalecimento da educação crítica e do compromisso com a democracia plural.
Como advertiu o historiador Timothy Snyder (Yale), em seu livro Sobre a tirania (Companhia das Letras, 2017): “As instituições não se protegem sozinhas. Elas caem uma a uma, a menos que sejam defendidas desde o início.”
Cabe ao Brasil não apenas lembrar sua história de dependência e resistência, mas agir no presente para impedir que o futuro seja escrito fora de suas fronteiras — e contra sua própria democracia.
Tijolos, turbinas e segredos
Se a lógica da guerra moderna já não se faz apenas com tanques e fuzis, mas com dados, influência e presença estratégica, então os Estados Unidos estão, no mínimo, preparando terreno sólido em Brasília.
O anúncio de um investimento de R$ 3,5 bilhões para a construção da nova sede da embaixada americana na capital federal não passou despercebido — nem poderia. O edifício, que terá mais de 21 mil metros quadrados distribuídos em três andares, será erguido a apenas 400 metros da Esplanada dos Ministérios e 1,5 km do Palácio do Planalto, o que coloca o governo dos Estados Unidos, literalmente, no coração do poder político brasileiro.
A suntuosidade e a localização do novo prédio contrastam com a justificativa genérica da “modernização” da infraestrutura diplomática. Embora o projeto só deva ser concluído em 2030, o nível de segurança da estrutura é tratado com o mesmo sigilo reservado a instalações militares — e com razão. A empresa responsável pela obra é a Caddell Construction, que acumula décadas de serviços prestados ao Departamento de Defesa dos EUA, incluindo instalações classificadas como “missão crítica”: penitenciárias de segurança máxima, centros de comando de guerra e prédios com blindagem contra explosões.
Para se ter uma ideia da natureza das atividades da Caddell, ela foi responsável pela sede da embaixada dos EUA em Cabul, no Afeganistão — erguida em plena zona de conflito, como fortaleza diplomática em meio ao colapso estatal. Em Brasília, a escala do projeto e sua proximidade com o núcleo político nacional levantam questões legítimas sobre o real papel que essa estrutura desempenhará no futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos — especialmente sob o governo Trump, cuja política externa já demonstrou desprezo aberto por soberanias nacionais quando interesses estratégicos estão em jogo.
Se o novo prédio da embaixada é um sinal visível da expansão estratégica americana, a movimentação recente de uma aeronave militar sigilosa em território brasileiro adiciona um componente mais sombrio à equação.
Na terça-feira, 19 de agosto, um Boeing 757 sem identificação visível pousou no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. A aeronave, modelo C-32B, é operada pelo 150º Esquadrão de Operações Especiais da Força Aérea dos Estados Unidos — unidade especializada em missões secretas, resposta rápida a crises diplomáticas e transporte de agentes da CIA e do Departamento de Estado.
Apelidado de “Gatekeeper” (“Porteiro”), o C-32B já esteve presente em eventos sensíveis, como a explosão em Beirute em 2020 e operações de evacuação em zonas de conflito. Equipado com sistemas de comunicação avançados, sensores e capacidade de reabastecimento em voo, o avião é projetado para operações clandestinas e autônomas em qualquer lugar do mundo.
A rota do voo — saindo de Nova Jersey, com escalas em Tampa (Flórida) e San Juan (Porto Rico) antes de pousar no Brasil — sugere planejamento militar e não diplomático. De acordo com o jornal O Globo, o motivo oficial seria o transporte de funcionários do consulado americano em Porto Alegre, mas até agora nenhuma autoridade brasileira ou americana explicou com clareza a missão.
A ausência de logotipo ou bandeira na fuselagem branca do avião, somada ao histórico de missões de inteligência, gerou preocupação entre analistas e diplomatas. O especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, da FGV, afirmou ao jornal Valor Econômico que “a movimentação de ativos militares em território estrangeiro sem explicação clara fere os princípios da reciprocidade diplomática e do respeito à soberania”.
Coincidência, contenção ou controle?
Num contexto em que Trump volta ao poder promovendo um alinhamento radical com líderes autoritários e reforçando narrativas de “guerra cultural”, a coincidência entre a construção da embaixada-fortaleza, a presença de aviões da CIA no Brasil e o apoio explícito ao bolsonarismo acende os alertas.
Não se trata de alarmismo, mas de análise estratégica à luz da história e dos sinais presentes. Como afirmou o ex-diplomata brasileiro Rubens Ricupero em entrevista à Folha de S.Paulo (2023): “O Brasil sempre teve momentos de vulnerabilidade diante dos EUA. A diferença agora é que essa influência vem travestida de afinidade ideológica, o que a torna ainda mais perigosa.”
No ambiente polarizado e institucionalmente tenso que o Brasil vive, qualquer movimentação externa que envolva inteligência, estruturas de poder e símbolos militares deve ser observada com rigor. Especialmente quando aliada a discursos de deslegitimação do Judiciário, ao financiamento de desinformação e à tentativa de reabilitação política de um ex-presidente inelegível.
A construção da nova embaixada e a passagem do “Gatekeeper” por Porto Alegre não constituem provas cabais de interferência — mas, no jornalismo e na geopolítica, raramente as evidências chegam como confissões. O que temos são indícios consistentes, conexões simbólicas e contextos históricos que impõem vigilância crítica.
O Brasil não vive mais sob tutela direta, como nos tempos da Guerra Fria. Mas tampouco está imune à nova forma de domínio — a guerra híbrida, na qual a soberania se esvai não por invasão militar, mas por cooptação política, tecnológica e simbólica.
Como alertou o filósofo italiano Giorgio Agamben em Estado de Exceção (2003): “O que define o poder contemporâneo não é a lei, mas a exceção permanente.”
Hoje, defender a democracia brasileira passa por reconhecer e denunciar essas exceções que se instalam silenciosamente — com concreto, turbinas e silêncio institucional.
Distanciamento estratégico
Em meio ao acirramento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington, novos gestos dos Estados Unidos na área militar estão sendo interpretados nos bastidores como sinais deliberados de pressão estratégica sobre o governo brasileiro. O cancelamento repentino de eventos conjuntos com as Forças Armadas brasileiras, somado ao silêncio diplomático diante dos convites para a Operação Formosa, acendeu alertas no Ministério da Defesa.
No dia 23 de julho, a Força Aérea Brasileira (FAB) foi oficialmente notificada de que os EUA haviam decidido cancelar sua participação na Conferência Espacial das Américas, prevista para ocorrer em Brasília entre os dias 29 e 31 do mesmo mês. Segundo nota da FAB, a decisão partiu unilateralmente do Southcom — o Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos — sem explicações públicas. A conferência, que em 2024 havia reunido dez países em Miami, tem como objetivo fomentar a cooperação no uso do espaço, tanto em sua dimensão militar quanto científica e econômica.
Embora o Comando Sul não tenha comentado o motivo do cancelamento, fontes da Defesa apontam que a medida faz parte de uma série de retaliações silenciosas à postura do governo Lula diante da política externa belicosa de Donald Trump — especialmente no contexto da crise comercial deflagrada após o Brasil buscar acordos com China e União Europeia à margem das diretrizes econômicas impostas por Washington.
As tensões também se refletem na Operação Formosa, principal exercício da Marinha brasileira, realizado anualmente no cerrado goiano. Desde 2023, a presença de tropas estrangeiras ganhou novo protagonismo: fuzileiros navais dos EUA e da China participaram lado a lado pela primeira vez, em um raro gesto de equilíbrio diplomático entre potências rivais. Para a edição de 2025, porém, nenhum dos dois países confirmou presença.
No caso americano, o silêncio é eloquente: nenhuma resposta oficial foi dada ao convite da Marinha brasileira. Já o governo chinês informou que não enviará tropas neste ano. Internamente, uma ala do governo Lula vinha pressionando a Defesa a reavaliar a presença militar americana em exercícios conjuntos, especialmente diante das sanções comerciais recentemente impostas pelos EUA ao Brasil. “É inoportuno treinar com quem impõe bloqueios ao nosso país”, teria sido o argumento repassado por assessores presidenciais, segundo fontes militares.
Apesar disso, oficiais-generais ouvidos sob condição de anonimato afirmam que, embora simbólicos, os gestos de distanciamento não representam um rompimento total na cooperação militar. Como exemplo, citam o envio recente de cargueiros norte-americanos a Campo Grande (MS) para o Exercício Conjunto Tápio, que simula cenários de guerra irregular e missões de paz. Também permanece em andamento a preparação da Operação Core 2025, marcada para novembro, cujo foco é a padronização de procedimentos em ações multinacionais.
No entanto, o ambiente é de desconfiança mútua. A visita ao Brasil, meses atrás, do chefe do Southcom, almirante Alvin Holsey, evidenciou o desgaste. Durante a missão diplomático-militar, os EUA solicitaram uma visita específica à base do Exército em Rio Branco (AC) — um pedido considerado “inusitado” por oficiais brasileiros, já que a unidade não costuma receber delegações internacionais. A tentativa de redirecionar a agenda a Manaus foi recusada pelos americanos, e Holsey limitou seus compromissos a Brasília, encerrando a missão sob clima de mal-estar.
Nos corredores do Ministério da Defesa, a avaliação é de que a aproximação militar do Brasil com a China — incluindo o envio recente de um oficial-general para atuar como adido militar em Pequim — também pesa nas reações de Washington. O cenário atual se assemelha a uma nova versão da guerra fria regional, com o Brasil no centro da disputa estratégica entre potências globais, num contexto de fragilidade institucional e crise política interna.
Um “novo continente”
A inflexão autoritária do governo Trump a seus vizinhos do “sul” não se limita às pressões bilaterais sobre o Brasil. A estratégia em curso mira reconfigurar politicamente todo o continente latino-americano, articulando um novo eixo de governos conservadores alinhados ideologicamente à Casa Branca — e funcionalmente aos interesses estratégicos de Washington.
Como analisou o jornalista Jamil Chade (UOL), a derrota do Movimento ao Socialismo (MAS) nas eleições presidenciais da Bolívia, após duas décadas no poder, foi comemorada abertamente em Washington. Para assessores próximos a Trump, trata-se de uma “primeira peça” no tabuleiro de um projeto mais ambicioso: retomar a hegemonia norte-americana na América Latina e conter o avanço de potências rivais como China e Rússia, especialmente em setores estratégicos como o de minerais raros e energias renováveis.
“É quase um novo continente, se compararmos ao que existia”, declarou uma fonte do governo Trump à Chade.
Essa visão escancara o desejo da atual administração norte-americana de redesenhar o cenário político latino-americano à sua imagem e semelhança. A projeção é de que, nos próximos dois anos, eleições cruciais — no Chile (2025), na Colômbia (2026) e especialmente no Brasil (2026) — sejam viradas de chave para consolidar um bloco conservador continental, centrado em três pilares: segurança, liberalismo econômico radical e alinhamento estratégico com os EUA e Israel.
O caso boliviano serve como exemplo de como essa articulação se dá não apenas no campo ideológico, mas também na disputa por recursos estratégicos. A Bolívia possui as maiores reservas conhecidas de lítio do planeta — cerca de 23 milhões de toneladas métricas, essenciais para a produção de baterias de veículos elétricos e tecnologias de armazenamento de energia. O especialista Diego von Vacano, do Wilson Center, destaca que o país “é hoje um campo de batalha na competição entre Estados Unidos, China e Rússia”.
Os dois candidatos que avançaram ao segundo turno — Rodrigo Paz e Jorge Tuto Quiroga — defendem agendas de austeridade fiscal, reaproximação com o FMI, alinhamento diplomático com Israel e estreitamento das relações com os EUA. Quiroga, inclusive, já declarou que pretende rever a política de integração com os BRICS e romper com o legado bolivariano de Luis Arce e Evo Morales.
O Brasil como última fronteira
Nesse tabuleiro continental, o Brasil é visto como a peça mais estratégica. Com suas dimensões territoriais, riqueza de recursos naturais, liderança regional e papel central nos BRICS, o país representa o maior obstáculo à consolidação de um novo eixo conservador pan-americano sob a liderança de Trump.
A administração norte-americana já não esconde que uma de suas prioridades é enfraquecer politicamente o governo Lula, minando sua credibilidade internacional e sua estabilidade interna. As sanções econômicas recentes, os ataques ao STF, os gestos diplomáticos hostis, a presença sigilosa de aviões militares da CIA, a construção de uma embaixada-fortaleza em Brasília e o cancelamento de eventos militares conjuntos não são eventos isolados — formam um padrão.
“A ofensiva contra o STF, a adoção de sanções e a desestabilização da economia poderiam abrir caminho para um enfraquecimento do governo Lula”, apontam consultores ouvidos por Jamil Chade.
A previsão do entorno trumpista é de que a popularidade do presidente brasileiro — momentaneamente elevada pela rejeição popular às sanções americanas — não será suficiente para garantir sua sucessão em 2026. Em paralelo, líderes da extrema direita brasileira já articulam pontes com Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile) e outros expoentes da nova direita autoritária latino-americana, todos conectados pela retórica da guerra cultural, do anticomunismo e do ultraliberalismo econômico.
Um cerco ideológico travestido de renovação
Essa articulação, embora promovida pelas urnas, não pode ser confundida com o avanço autônomo de novos projetos democráticos. Trata-se, como alertam diversos analistas, de uma ofensiva coordenada, na qual think tanks, fundações ultraconservadoras, redes de desinformação, igrejas transnacionais e plataformas digitais operam como vetores de influência geopolítica.
O discurso é de soberania e ordem, mas o objetivo é o mesmo do imperialismo clássico: reorganizar o continente em torno dos interesses de Washington. A novidade está na forma — agora baseada na manipulação simbólica, na erosão institucional e no controle da narrativa.
Como advertiu o cientista político argentino Atilio Borón: “O que está em disputa hoje na América Latina não é apenas um modelo econômico, mas a própria possibilidade de se pensar um futuro fora da lógica de submissão ao império.”
O inimigo interno
Ao longo desta reportagem, mostramos como a reeleição de Donald Trump inaugurou uma nova fase — mais agressiva, mais estratégica e mais ambiciosa — do projeto de reconfiguração geopolítica dos Estados Unidos, com impactos diretos na soberania brasileira e na estabilidade democrática da América Latina.
O envio de navios de guerra à Venezuela, o apoio político e digital à extrema direita brasileira, o cerco ao STF, as sanções econômicas unilaterais e os planos assumidos de interferência nas eleições brasileiras de 2026 não são episódios isolados. Eles compõem uma doutrina em movimento.
Essa doutrina, como alerta o jornalista investigativo Radley Balko em sua análise publicada recentemente no Intercept, é autoritária por vocação e expansionista por método. O trumpismo já ultrapassou os limites do populismo agressivo. Agora, ele testa os limites da democracia americana e seus mecanismos de contenção, com implicações globais.
No momento em que esta reportagem vai ao ar, Trump já enviou tropas federais para cidades americanas como Washington, Los Angeles e Baltimore, ignorando dados concretos de queda da criminalidade. A justificativa oficial é a segurança; o motivo real é o mesmo que levou tantos governos autoritários ao poder ao longo da história: projetar força, intimidar opositores e sufocar a dissidência.
Como aponta Balko: “Trump está testando os limites de seu poder — e, por extensão, da democracia dos EUA. Ele está tentando sentir até onde a Suprema Corte, o Congresso e a população o deixarão chegar. E até agora, conseguiu fazer tudo o que quis.”
Mais do que um presidente, Trump opera hoje como cabeça de um projeto autoritário internacional, articulando redes de poder que vão do Pentágono a plataformas digitais, de think tanks conservadores a líderes populistas da América Latina. Seu objetivo é reconstruir a ordem global a partir de uma nova hegemonia autoritária, baseada em militarização interna, repressão, negacionismo, culto à força e destruição do dissenso.
E se ele faz isso dentro de seu próprio país, onde a Constituição é tida como sagrada, o que esperar de sua atuação em países que historicamente foram tratados como zonas de influência, meros tabuleiros de sua estratégia hemisférica, como é o caso do Brasil?
A pergunta que o Brasil precisa fazer
A história não se repete, mas ela insiste em avisar.
Em 1964, os Estados Unidos não mandaram tanques para o Brasil, mas ofereceram apoio silencioso, estratégico e logístico ao golpe militar. Hoje, a tecnologia mudou, os atores mudaram, mas a lógica de dominação permanece: quem controla a informação, controla o poder; quem controla o medo, controla a população.
Diante disso, a pergunta que o Brasil precisa fazer não é se os EUA intervirão novamente, mas como, quando e por meio de quem essa intervenção se dará — e se nossas instituições democráticas estão preparadas para resistir.
Se Trump já anunciou seus planos com todas as letras, a responsabilidade agora é nossa: da imprensa, da sociedade civil, das instituições, da cidadania.
Porque, como alerta Balko, “Falar sobre autoritarismo enquanto ele ainda está em ascensão é um privilégio da democracia. Quando se instala de fato, falar deixa de ser uma opção.”
E no Brasil, ainda podemos falar.
A questão é: vamos escutar?
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