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Especial

DEMOROU

PF inclui Malafaia em inquérito sobre o golpe

Publicado em 15/08/2025 2:27 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A Polícia Federal (PF) incluiu o pastor Silas Malafaia no inquérito que investiga o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o comentarista Paulo Figueiredo. O caso, aberto em maio e sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes no STF (Supremo Tribunal Federal), apura supostas ações contra autoridades, contra o tribunal e agentes públicos, além de articulação para obtenção de sanções internacionais contra o Brasil.

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Malafaia organizou o ato de apoio a Bolsonaro em 3 de agosto, no qual o ex-presidente participou por vídeo transmitido em redes sociais de terceiros. A aparição resultou, no dia seguinte, na decretação de prisão domiciliar do ex-presidente.

Moraes decidiu abrir o inquérito após ministros do tribunal se queixarem do que consideraram falta de ações do Itamaraty na escalada de investidas do governo americano contra a corte a partir da atuação de Eduardo. Na avaliação de parte dos magistrados do Supremo, as ameaças mereciam um posicionamento mais enfático da chancelaria.

As condutas investigadas incluem coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

O pedido de abertura de investigação contra Eduardo partiu oficialmente do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O procurador-geral afirmou ainda que a ofensiva de Eduardo, por suas declarações públicas, aumentou à medida que o Supremo avança com o processo sobre a trama golpista -o pai, militares e aliados são réus na ação penal.

Um dos crimes citados na representação é o de coação no curso do processo, previsto no artigo 344 do Código Penal. O crime trata do uso de violência ou grave ameaça contra autoridade ou envolvidos no processo judicial, policial ou administrativo a fim de favorecer interesse próprio ou alheio.

Esse seria o caso de Eduardo, que abertamente promove sanções contra autoridades ligadas à ação penal no STF que julga Jair Bolsonaro. A especificidade do caso, entretanto, pode dificultar o enquadramento, na opinião de alguns especialistas.

O texto também fala sobre promover, constituir, financiar ou integrar organização criminosa e cita penas para quem impede ou embarace a investigação.

No ato da avenida Paulista no início de agosto em defesa da anistia a Bolsonaro, Malafaia criticou os presidenciáveis da direita que não compareceram à manifestação bolsonarista e afirmou que eles não estiveram presentes por “medo” do STF. O pastor transmitiu a manifestação em seu canal oficial do YouTube.

Em suas redes sociais, atacou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), chamando-o de “traidor”, por não assinar o pedido de impeachment de Moraes.

Em vídeo publicado no X (antigo Twitter), Malafaia disse, em tom indignado e histriônico, que foi informado da investigação pela televisão. Aos berros, disparou: “Eu só sei disso pela Globo News. Eu não recebo notificação nenhuma. Que país é esse, onde a Polícia Federal vaza alguma acusação contra alguém pra Globo e depois você vai ficar sabendo?”, disse.

No vídeo, ele diz ainda: “Estou sendo investigado pela Polícia Federal em um inquérito. Eu reconheço a Polícia Federal, que é uma honra para os brasileiros, só que tem uma Polícia Federal a serviço de Lula e de Alexandre Moraes. Eles me incluem no inquérito por obstrução de justiça, coação no curso do processo, organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático, ações contra autoridades e sanções internacionais contra o Brasil. Primeiro que eu não falo inglês, não conheço nenhuma autoridade americana…”

O pastor acusou a Polícia Federal de “perseguição”, relacionando a investigação às críticas que vem fazendo há quatro anos contra Alexandre de Moraes. “Escolheram o cara errado. Eu não tenho medo”, disse. “Eu vou botar para quebrar. Vocês não me calam. Não tenho medo de prisão e de investigação política e de pura perseguição”, bradou.

Bolsonaritas em fúria

Braço político de Malafaia e líder do PL na Câmara, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) classificou a medida como “afronta à democracia e um ataque direto à liberdade religiosa e de expressão”.

“Meu pastor é um dos maiores líderes cristãos do Brasil, com décadas de ministério e serviço ao povo, e jamais cometeu crime por organizar atos pacíficos ou expressar suas opiniões”, afirmou.

Em seguida, Cavalcante voltou a bajular Malafaia, chamando-o novamente de “meu pastor”. “O que estamos vendo é a criminalização de vozes conservadoras e a tentativa de intimidar quem ousa se posicionar contra os abusos do sistema. Minha total solidariedade ao meu pastor Silas Malafaia”.

Representante do lobby sionista, que usa figuras como Malafaia para angariar apoio no meio evangélico, o ex-Secom Fabio Wajngarten afirmou nas redes que “não se mexe com líder religioso” porque, segundo ele, “são sagrados.

Em outra publicação, Wajngarten diz que “perseguir um líder religioso é tão absurdo quanto colocar um Presidente em prisão domiciliar com tornozeleira”, aproveitando para adular o ex-presidente após os atritos com Michelle Bolsonaro.

Artífice da conspirata que motivou a abertura da investigação, Eduardo Bolsonaro se solidarizou com o cúmplice, que também está sendo investigado por possíveis crimes apurados de coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

“Estava demorando. Como previmos, Moraes segue dobrando a aposta. Desta vez para cima do Pastor Malafaia. Qual crime teria o Pastor cometido? Convidado os brasileiros para estarem pacificamente nas ruas se manifestando, só pode ser. O Brasil já virou uma Venezuela”, escreveu antes de compartilhar o vídeo com o chilique de Malafaia.

Apocalipse nos trópicos, da Netflix, irrita Malafaia

“Apocalipse nos trópicos”, novo filme da cineasta Petra Costa, que estreou mundialmente na Netflix no último dia 14, recebeu aplausos em salas de cinema, onde está sendo exibido desde 3 de julho. A obra desagradou a direita e os evangélicos conservadores.

O filme relata – e bem – a tragédia no Brasil com a eleição de Bolsonaro em 2018, antes da prisão de Lula; o conluio do então juiz Sergio Moro com o procurador Deltan Dallagnol para impedir a eleição do líder petista naquele ano; a tragédia da pandemia no país e a omissão do desgoverno bolsonarista; o circo montado em frente aos quartéis por manifestantes de direita com o apoio de militares; a armação do golpe para impedir a posse do atual presidente e os ataques do 8 de Janeiro.

Sobre o avanço do ativismo evangélico conservador e seu alinhamento com a extrema direita, a história é contada nas telas por meio de depoimentos e discursos do pastor Silas Malafaia, entrevistado por Costa. Malafaia, na entrevista, se revela. Dá sinais de que sonha com um teocracia evangélica no Brasil e exibe o seu viés autoritário, por exemplo, em momentos como o que foi flagrado dirigindo em meio à balbúrdia do trânsito carioca e, ao ser cortado por um jovem motoqueiro, deixou escapar que seus seguranças poderiam “dar um susto no rapaz”.

O pastor sabe utilizar muito bem a mídia. E aproveitou muito bem o espaço ofertado por Costa no documentário. Vendeu a sua imagem de um líder religioso e político poderoso – embora não seja o único no país –, bem como de um suposto articulador e estrategista no campo conservador, que daria as cartas no bolsonarismo e determinaria as condutas e ações do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua trupe.

Malafaia não é tudo isso. Mas propagar a ideia de principal líder religioso com esse imenso poder lhe interessa. Trará dividendos políticos a ele. Malafaia é hoje o mais midiático, o mais verborrágico e talvez mais barulhento e espalhafatoso pastor evangélico no país. É o que mais tem espaços na chamada mídia hegemônica, que costuma amplificar o seu discurso.

Mas não é o maior líder evangélico do país. Nem a sua igreja, a Assembleia Vitória em Cristo, a Advec, está entre as principais. É apenas um ramo, entre os menores, da Assembleia de Deus.

Somando os seus vários grupos, aí sim a Assembleia de Deus se torna a maior denominação evangélica do Brasil, com 12,3 milhões de fiéis, segundo os dados mais recentes do IBGE, de 2010, sobre o tamanho das denominações religiosas. Os ramos do Belém, em São Paulo, e Madureira são os maiores e os que mais elegem políticos no Brasil, exercendo assim mais influência.

Correntes evangélicas como a Assembleia de Deus Madureira, liderada pelo bispo Samuel Ferreira, e a Igreja Universal do Reino de Deus estão entre os grupos hoje com mais peso do que o de Malafaia. Sem contar que os batistas, presbiterianos e luteranos, além de várias outras igrejas pentecostais e neopentecostais.

O poder e a representatividade de Malafaia não vêm, de fato, só de sua igreja e de seu número de fiéis. Ele ampliou esse leque. É um televangelista de sucesso e produz hoje conteúdo nas redes sociais que pastores conservadores com pequena ou média projeção no país ajudam a espalhar.

Universal e Assembleia de Deus já articulam eleição de 2026

A movimentação política de importantes lideranças evangélicas já está em curso, mirando a eleição presidencial de 2026. Três das principais igrejas neopentecostais do país articulam estratégias para ampliar sua influência no Congresso e ocupar o vácuo deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre os planos, estão o apoio à possível candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência, a articulação de Ricardo Nunes para o governo de São Paulo e o retorno de figuras como o ex-deputado Eduardo Cunha ao cenário político.

À frente dessas articulações estão o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), o bispo Samuel Ferreira, presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus Madureira, e o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

“Hoje é possível identificar três grandes projetos em disputa. Esses projetos, no entanto, estão em constante rearranjo e recombinação”, analisa o teólogo Fábio Py, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro).

Segundo o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), pastor da Advec e aliado de Malafaia, a movimentação política das igrejas pode ser ainda mais ampla do que aparenta. “Há de oito a dez grandes representações evangélicas com projetos políticos estruturados. A Igreja Batista é muito forte, assim como os presbiterianos, os luteranos, as comunidades evangélicas e a Igreja do Evangelho Quadrangular, que é uma das mais organizadas e representativas”, afirmou ao Intercept Brasil.

Cavalcante afirma que esses grupos devem se unir em torno da sucessão presidencial, com um ponto em comum: o antagonismo ao campo progressista. “Todos se opõem a um projeto de esquerda, que tem dificuldade de dialogar com o segmento evangélico”, afirmou.

Apesar da intenção de convergência, há diferenças estratégicas entre as denominações. “Os batistas, por exemplo, se aproximam do poder, mas não têm um projeto próprio. Não lançam candidatos à Presidência e não se associam oficialmente a uma candidatura”, explica o pastor Sergio Dusilek, da Igreja Batista de Marapendi, no Rio de Janeiro.

Dentro desse universo, ganha relevância a disputa interna pela hegemonia na Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, com 12,3 milhões de fiéis, conforme o último Censo do IBGE, de 2010.

A Assembleia de Deus é formada por diferentes ramos. O maior é a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), liderada pelo pastor José Wellington Bezerra, com base no bairro do Belém, em São Paulo.

A força política do grupo é expressiva: 14 deputados federais e três senadores são ligados à CGADB, a maioria em partidos de direita ou centro. Apesar da robustez, o grupo costuma atuar com discrição. “O pastor Wellington nunca disputou para si o papel de porta-voz do segmento evangélico”, diz Dusilek.

Outros grupos também têm representação expressiva. A Assembleia de Deus Madureira, liderada por Samuel Ferreira, conta com sete deputados federais e um senador. A Advec, de Malafaia, soma quatro deputados, e a Assembleia de Deus de Belém, no Pará, ligada à Convenção das Assembleias de Deus do Brasil (CADB), liderada por Samuel Câmara, tem três parlamentares na Câmara.

Grupos menores buscam fortalecimento por meio da política. “A Vitória em Cristo, por exemplo, tem alcance além da Assembleia devido à projeção de Malafaia, cujo discurso atrai fiéis de outras denominações”, explica Sóstenes.

O atual presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), tem proximidade com Malafaia e já foi ligado à Madureira. “Ele é o nosso candidato em São Paulo, com uma mala direta de mais de 200 mil contatos de evangélicos conectados ao pastor Silas”, afirma Cavalcante.

Apesar da movimentação intensa, Cavalcante minimiza a rivalidade entre grupos evangélicos. “A igreja evangélica é plural. Há igrejas maiores, como mostram os dados do IBGE, e isso se reflete no parlamento. Mas não há uma hierarquia clara entre elas”, diz.

Malafaia tenta herdar espólio político do bolsonarismo

O pastor Silas Malafaia emergiu nos últimos anos como uma das principais vozes do bolsonarismo entre os evangélicos. Defensor de uma pauta conservadora, ele investe em consolidar sua influência política por meio de alianças com setores da extrema direita.

Malafaia esteve à frente de atos em defesa do ex-presidente Bolsonaro, atualmente inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e réu em processo que investiga tentativa de golpe após a derrota em 2022.

Embora já tenha apoiado o PT no passado, Malafaia adotou postura firmemente oposicionista ao presidente Lula e à esquerda. Com estilo inflamado e forte apelo midiático, ele usa sua visibilidade para atacar adversários e mobilizar fiéis.

Em paralelo, Malafaia expande sua estrutura. Inaugurou novos templos – o mais recente em Santo André (SP), em março – e intensifica a formação de pastores para ampliar a presença da Advec no território nacional.

Há especulações de que ele cogite se candidatar à Presidência ou compor chapa com nomes ligados ao bolsonarismo, como Michelle Bolsonaro ou Eduardo Bolsonaro. Mas lideranças evangélicas negam. “Ele quer estar próximo do poder, como conselheiro informal. Seu objetivo é influenciar, não ocupar cargo”, afirma o pastor Dusilek.

Samuel Ferreira aposta em bancada robusta e apoio estratégico

O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, também trabalha para ampliar seu espaço político. A meta é eleger um número expressivo de parlamentares em 2026, influenciando diretamente seus mandatos.

Um dos nomes centrais nessa estratégia é o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos), que busca retornar ao Congresso por Minas Gerais, com apoio da família Ferreira. Cunha chegou a ser preso na Lava Jato e teve seu mandato cassado em 2016.

Para fortalecer sua base, Samuel Ferreira investe em rádios e espaços na mídia. A 102.9 FM, em São Paulo, é um dos veículos usados pela igreja para ampliar sua comunicação. A proposta é também ceder horários a pastores de igrejas menores, em troca de apoio eleitoral.

Eduardo Cunha estaria replicando a fórmula. Em fevereiro, adquiriu um imóvel de 600 m² em área nobre de Belo Horizonte para instalar seu escritório político e uma rádio evangélica vinculada à Assembleia Madureira.

O posicionamento político do grupo, no entanto, é marcado por pragmatismo. O pai de Samuel, bispo Manoel Ferreira, já apoiou candidatos do PT em eleições anteriores, mas também se alinhou a Bolsonaro em 2018 e 2022.

Manoel e Samuel mantêm diálogo com Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes. Ambos estiveram na sede da Madureira, no bairro do Brás, em 9 de junho, em evento que reuniu políticos como Gilberto Kassab (PSD) e Jorge Messias (AGU), evangélico e membro da Igreja Batista.

Em março, Nunes participou da convenção da Madureira, ao lado de Samuel Ferreira, Silas Malafaia e do governador Ronaldo Caiado (União Brasil), também cotado para 2026. Já em fevereiro, Bolsonaro, Tarcísio e Nunes compareceram ao velório da bispa Keila Ferreira, esposa de Samuel.

Universal aposta em Republicanos e reforço da TV Record

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, foca em ampliar sua já expressiva estrutura político-midiática. Com mais de 100 empresas no grupo, incluindo a TV Record e o partido Republicanos, a instituição aposta alto nas eleições de 2026.

O Republicanos soma atualmente 44 deputados federais, quatro senadores e 433 prefeitos. Para mobilizar seus fiéis, a igreja investe em formação política por meio do grupo Arimateia e em podcasts voltados ao público evangélico.

Segundo ex-integrantes da Universal, o deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), presidente do partido, tem procurado líderes de outras igrejas menores para apoiar sua campanha de reeleição. A estratégia visa consolidar um bloco político com ampla capilaridade.

A Universal apoiou Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições, mas agora mantém cautela. Embora tenha atacado Lula na campanha de 2022, adota postura mais neutra no atual governo, buscando manter boas relações institucionais.

O objetivo, segundo analistas, é garantir espaço na gestão petista e assegurar benefícios, como publicidade estatal para a Record. A igreja historicamente anuncia seu apoio nas eleições apenas na reta final, conforme a conjuntura.

Atualmente, o Republicanos mantém um ministério no governo Lula: Silvio Costa Filho, à frente da pasta de Portos e Aeroportos. A legenda, contudo, afirma que a indicação foi pessoal do presidente.

A Religião no Poder: os riscos da fé politizada em tempos de redes sociais

A ingerência de Malafaia e demais chefões evangélicos na política brasileira desperta preocupações. Em democracias laicas, o Estado e a religião devem ocupar espaços distintos, ainda que dialoguem. Essa separação não representa hostilidade à fé, mas uma garantia: a de que nenhuma crença se sobreponha às liberdades civis e aos direitos fundamentais. Quando essa fronteira se esgarça — sobretudo em tempos de redes sociais e polarização —, o que se perde é o próprio espírito democrático.

Desde a Antiguidade, a instrumentalização da religião para fins políticos é uma prática recorrente. No Império Romano, o cristianismo foi adotado por Constantino não apenas por conversão pessoal, mas por sua utilidade política na unificação do império. No medievo europeu, a Igreja Católica controlava tanto consciências quanto territórios — foi árbitra de reis e senhora de reinos.

No Brasil, a herança colonial portuguesa legou uma Igreja Católica fortemente entrelaçada com o poder do Estado. Foi somente com a Proclamação da República, em 1891, que o país passou a adotar, ao menos formalmente, a laicidade — princípio reafirmado na Constituição de 1988, cujo artigo 19 veda à União, Estados e Municípios “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”.

Mas a letra da lei nem sempre alcança a realidade. O crescimento das bancadas religiosas no Congresso, principalmente a evangélica, transformou igrejas em potências políticas com influência direta na elaboração de leis e na definição de políticas públicas — muitas vezes guiadas por dogmas e não por dados, evidências ou o interesse comum.

O palco digital e o púlpito político

As redes sociais amplificaram um fenômeno antigo: a política da salvação. Líderes carismáticos, muitas vezes autodeclarados “ungidos”, mobilizam massas não pelo debate racional, mas pela promessa de um bem transcendente. É a política convertida em religião — e a religião convertida em campanha eleitoral.

Essa simbiose tem efeitos deletérios sobre o debate público. Ela cria bolhas de fé blindadas à crítica, onde adversários políticos são vistos como inimigos espirituais. Como afirmou a filósofa alemã Hannah Arendt, “o totalitarismo começa onde termina a dúvida”. E não há espaço para a dúvida no discurso que se apresenta como verdade divina.

Dados do Datafolha de 2022 indicam que 60% dos eleitores evangélicos afirmavam considerar as orientações de seus pastores na hora do voto. Isso não configura apenas uma preferência individual — é um indício de como líderes religiosos assumiram funções políticas, em nome de uma moral particular. Mais grave ainda quando esses líderes ocupam cargos públicos e utilizam a máquina estatal para legislar em nome da fé.

A fé quando se torna lei

Essa ingerência compromete políticas públicas essenciais. A resistência à educação sexual nas escolas, ao ensino de gênero e aos direitos da população LGBTQIA+ se baseia majoritariamente em argumentos religiosos. A filósofa estadunidense Martha Nussbaum, em seu livro Liberty of Conscience: In Defense of America’s Tradition of Religious Equality (Basic Books, 2008), alerta: “quando religiões moldam políticas públicas sem considerar a pluralidade das convicções, há uma negação do princípio democrático de igual respeito a todas as consciências”.

No Brasil, o debate sobre o aborto é outro exemplo. A legislação atual — herdada do Código Penal de 1940 — só permite o procedimento em três casos. Ainda que a Constituição assegure o direito à saúde e à dignidade, tentativas de ampliação do acesso ao aborto legal são constantemente barradas sob pressão de bancadas religiosas. Como resultado, o país registra cerca centenas de milhares de abortos clandestinos por ano, segundo a OMS e o Ministério da Saúde, muitos deles com graves consequências à saúde das mulheres pobres.

O risco de uma democracia ungida

A politização da fé enfraquece pilares centrais do sistema democrático: a liberdade de consciência, a racionalidade no debate público e a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Quando uma crença religiosa se torna critério de decisão estatal, cidadãos que não a compartilham tornam-se estrangeiros em sua própria pátria.

O cientista político argentino Guillermo O’Donnell, ao tratar da “cidadania de baixa intensidade” na América Latina, apontou que democracias formais podem conviver com profundas desigualdades de acesso a direitos. A religião no poder não corrige essas desigualdades — tende, ao contrário, a aprofundá-las, ao privilegiar uma moral em detrimento de outras visões de mundo.

O Estado laico é escudo, não espada

A laicidade não é inimiga da fé. Ela é, como escreveu o filósofo francês Henri Peña-Ruiz, “a liberdade de crer e de não crer”. É o que garante que um ateu, umbandista, evangélico ou judeu tenham exatamente os mesmos direitos. Não há democracia plural sem Estado laico.

Portanto, em tempos de redes sociais — onde o populismo religioso encontra terreno fértil para o messianismo político —, é urgente relembrar que a política deve ser feita com base na razão pública, não na revelação privada. Como advertiu o filósofo alemão Jürgen Habermas: “Em uma sociedade plural, os argumentos que sustentam leis e políticas devem ser acessíveis a todos, independentemente de sua fé”.

A fé pode inspirar valores, mas jamais pode ser a única régua da lei. O altar não é palanque, e o púlpito não pode substituir o parlamento. Num país verdadeiramente democrático, o caminho da salvação individual jamais pode guiar os rumos da coletividade.

GULA


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