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Especial

OS AGROGOLPISTAS

Quem são os 142 empresários do agro por trás da tentativa de golpe?

Publicado em 27/06/2025 10:28 - De Olho nos Ruralistas

Divulgação a1

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A primeira menção explícita sobre o papel do agronegócio na tentativa de golpe de Estado de 2022 surgiu da boca do general da reserva Mario Fernandes, “número dois” da Secretaria-Geral da Presidência no governo Bolsonaro. Fernandes foi um dos cinco presos na Operação Contragolpe, da PF, e um dos personagens centrais na conspiração para assassinar Lula, Alckmin e Moraes.

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“Não sei se você já tá ciente do apoio que nós temos dado tanto ao pessoal do agro como aos caminhoneiros que estão aí na manifestação”, afirmou em áudio enviado no dia 8 de dezembro de 2022 ao Comandante Militar do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra de Menezes. Na conversa, Fernandes pedia uma intervenção do colega junto ao Ministério da Justiça, para que a PF não cumprisse a determinação judicial de dissolver os acampamentos golpistas.

Bolsonaristas fazem churrasco com carne doada por fazendeiros. (Paulo Francis/Campo Grande News)

Quais outras menções ao “pessoal do agro”? Em sua delação premiada, tornada pública no dia 19 de fevereiro de 2024, Mauro Cid afirmou ter recebido cerca de R$ 100 mil em espécie, repassados por um empresário do agronegócio. Com notas entregues em uma sacola de vinho pelo general Walter Braga Netto, que contou a Cid sobre a origem do valor: “O general Braga Netto entregou e comentou que era alguém do agro que tinha dado, mas eu não sei o nome de quem foi que passou pra ele”. O valor seria direcionado à compra de armamentos — não somente camisetas ou picanha, portanto — para executar o plano Punhal Verde e Amarelo.

No mesmo depoimento à Procuradoria-Geral da República, Cid confirmou uma suspeita da PF: a de que o núcleo ruralista cobrava os militares pela efetivação do golpe de Estado. O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro afirmou que foi procurado pelo tenente Aparecido Andrade Portela, outro militar próximo ao ex-presidente. “O pessoal que colaborou com a carne, estão (sic) me cobrando se vai ser feito mesmo o churrasco”, informou Portela. Segundo Cid, “churrasco” era um codinome para a consumação do golpe de Estado.

Mencionado na delação, o tenente Portela é hoje o primeiro suplente da senadora Tereza Cristina (PP-MS), ministra da Agricultura de Bolsonaro e vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), organização que ela já presidiu, a face institucional da bancada ruralista no Congresso.

Quando o caso veio à tona, logo após a prisão de Braga Netto, a parlamentarfoi escalada para defender o setor das acusações de financiar o golpismo. “Isso é colocar um setor inteiro quando, se aconteceu isso e se é verdade que é alguém do agro, mas não o setor”, afirmou em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o Estadão. “Do jeito que está sendo colocado parece que o agro queria financiar o golpe e eu nunca ouvi isso”.

Tereza Cristina fala como se nunca tivesse ouvido falar da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja). A organização apareceu em 2023 em um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre o financiamento do agronegócio aos bloqueios de rodovias. O documento detalha a atuação do Movimento Brasil Verde e Amarelo, liderado pelo então presidente da Aprosoja, Antonio Galvan. Alvo de inquérito por apoiar atos antidemocráticos desde 2021, Galvan é um importante líder do agronegócio em Mato Grosso; chegou a concorrer ao Senado pelo estado nas últimas eleições.

Mencionado na delação, o tenente Portela é hoje o primeiro suplente da senadora Tereza Cristina (PP-MS), ministra da Agricultura de Bolsonaro e vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), organização que ela já presidiu, a face institucional da bancada ruralista no Congresso.

O caminho que liga o Arco da Soja às movimentações golpistas passa pelas organizações de representação do agronegócio. Seis empresários investigados em processos relativos ao 8 de janeiro e aos acampamentos golpistas são dirigentes da Aprosoja, uma das organizações fundadoras do Instituto Pensar Agro (IPA), o braço logístico da bancada ruralista no Congresso. Entre eles, Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e do Sindicato Rural de Amambai (MS), onde protagoniza um conflito histórico contra o povo Guarani Kaiowá do Tekohá Kurusu Ambá.

Dos 142 fazendeiros e empresas identificados no levantamento, 74 estão baseados em Mato Grosso, 17 em Goiás e 13 na Bahia. Os três estados respondem por 71% dos nomes consolidados pelo observatório. A relação com o agronegócio é escancarada: juntos, eles compõem o principal corredor produtivo da soja no país, responsável por 47% da safra nacional. Os dez municípios líderes na produção do grão estão dentro desse “arco” — que corre paralelo, mais a leste, do Arco do Desmatamento na Amazônia.

Foi justamente desse eixo de onde saiu a maior parte dos caminhões identificados no QG do Exército em Brasília. E mais: 56 dos 234 veículos vistoriados tinham origem em Sorriso (MT), o maior polo produtor de soja do mundo.

O caminho que liga o Arco da Soja às movimentações golpistas passa pelas organizações de representação do agronegócio. Seis empresários investigados em processos relativos ao 8 de janeiro e aos acampamentos golpistas são dirigentes da Aprosoja, uma das organizações fundadoras do Instituto Pensar Agro (IPA), o braço logístico da bancada ruralista no Congresso. Entre eles, Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e do Sindicato Rural de Amambai (MS), onde protagoniza um conflito histórico contra o povo Guarani Kaiowá do Tekohá Kurusu Ambá.

DOS FINANCIADORES ÀS MULTINACIONAIS

Nos dois anos que se seguiram ao 8 de janeiro, a Justiça brasileira responsabilizou criminalmente 898 réus. Desse total, 527 foram condenados após prisão em flagrante dentro de prédios públicos e na Praça dos Três Poderes ou nos acampamentos ilegais em frente dos quartéis do Exército.

À exceção dos oito militares presos no curso das operações Contragolpe e Tempus Veritatis, os golpistas do 8 de janeiro são, em sua maioria, “peixes pequenos”. No rol de condenados nota-se a ausência de empresários que ajudaram a financiar não somente os acampamentos e os bloqueios rodoviários, mas também a conspiração golpista dos generais.

Quem é o empresário do agronegócio que doou R$ 100 mil para Braga Netto comprar armas? Quais os nomes dos fazendeiros que cobravam Mauro Cid e o tenente Portela quanto à concretização do golpe de Estado?

A resposta oficial a essas perguntas soa distante. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou não haver “megafinanciadores” dos atos golpistas: “Muitas vezes, na expectativa de algumas pessoas, haveria um ou dois, ou um grupo de megafinanciadores com vários milhões para essa atuação orquestrada para o golpe de Estado. A investigação provou que não, pelo menos nós não conseguimos identificar que isso tenha acontecido”.

Para quem acompanha de perto o sistema político ruralista no Brasil, é evidente que não há e não houve um financiador único, mas sim um ecossistema de empresários — muitos deles ligados ao agronegócio — que manteve a chama golpista acesa. Esse grupo não se extinguiu por um simples motivo: ele não foi responsabilizado.

Um exemplo disso vem da relação de proprietários de caminhões que estavam no acampamento no Quartel-General (QG) do Exército em Brasília ou em bloqueios de rodovias. Eles respondem por 91 das 142 entradas na lista. Esses empresários da logística são também fazendeiros — um dado crucial que passou ao largo de boa parte das análises publicadas à época.

O leitor pode se perguntar: quantos deles foram responsabilizados criminalmente? A resposta devastadora é: nenhum.

O relatório da CPMI do 8 de Janeiro, do Senado, destacou o papel central dos caminhões estacionados no pátio do Exército. Os veículos serviam de palanque, auxiliavam no trânsito de mantimentos e simbolizavam a força do movimento, que ameaçava “parar o Brasil”.

A CPI conduzida na Câmara Legislativa do Distrito Federal apontou contratantes de ônibus, banheiros e tendas utilizadas no acampamento. Alguns responsáveis pela infraestrutura montada em frente do QG do Exército, ao contrário do que sugeriu o diretor-geral da PF, possuem um patrimônio milionário e recebem financiamento de instituições como BTG Pactual, Santander, Rabobank, John Deere e XP Investimentos.

Outros são parceiros de multinacionais como a Syngenta, a gigante dos agrotóxicos. (Por sinal, a única empresa mencionada que atendeu aos pedidos de informação enviados por nossa equipe antes da publicação deste relatório. Veja mais abaixo a posição da empresa.)

A relação dos agrogolpistas com o capital e as megacorporações do agronegócio não pode passar batida. Esses bancos, que defendem uma governança ambiental e social (ESG, na sigla em inglês), acham justo financiar empresas de pessoas investigadas portentativa de golpe de Estado? Ou esses fatores escapam às suas barreiras de compliance?

O Brasil precisa saber quem são esses empresários e o que eles pensam sobre democracia.

OS AGROGOLPISTAS

A lista de fazendeiros e empresários do agronegócio envolvidos na tentativa de golpe de Estado não inclui a totalidade daqueles que fizeram coro às manifestações golpistas em redes sociais, ou que frequentaram os acampamentos em quartéis ao redor do país. A maior parte deles não foi sequer acionada judicialmente.

Em maio de 2023, no dossiê “As Origens Agrárias do Terror”, listamos alguns, entre eles políticos vinculados à Frente Parlamentar da Agropecuária — a face mais saliente da bancada ruralista.

Os 142 nomes consolidados pelo De Olho nos Ruralistas se referem àqueles que colocaram a mão na massa. Segundo documentos oficiais de órgãos de segurança pública, do poderjudiciário e das comissões parlamentares de inquérito, eles são os financiadores e organizadores dos atos antidemocráticos.

Entre eles estão os empresários que contrataram a infraestrutura para os acampamentos e os proprietários dos caminhões que tentaram cercar Brasília e travar o país, abrindo caminho para o golpe militar; os líderes setoriais que viabilizaram a ida de milhares de bolsonaristas ao 8 de janeiro; e os fazendeiros que deram guarida aos terroristas George Washington de Oliveira Sousa e Alan Diego dos Santos Rodrigues — aqueles que tentaram explodir o aeroporto de Brasília.

O que essa lista nos diz? Em quais grupos esses empresários se dividem?

Em novembro de 2022, enquanto o alto escalão do governo Bolsonaro tentava encontrar um caminho para se manter no poder, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) identificava 234 caminhões enfileirados junto ao QG do Exército em Brasília, promovendo buzinaços e dando apoio aos acampados que pressionavam por uma ação rápida e contundente das Forças Armadas para alterar o resultado das urnas.

Pelo menos 86 veículos eram diretamente ligados a empresas agropecuárias ou fazendeiros. Como veremos no capítulo seguinte, 28 pertenciam a apenas um clã familiar: os Bedin-Lermen.

Outra fatia considerável vinha de regiões com forte predominância do agronegócio: 146 dos caminhões, mais da metade, tinham placas do estado do Mato Grosso; 35 vinham de Goiás e outros 21 da Bahia

O nome das empresas nem sempre diz muito: Adrij Transportes, Aero Obeid, Comber Logística, Sipal Indústria e Comércio. Mas e os sócios?

De Olho nos Ruralistas analisou os quadros societários de todas as pessoas jurídicas listadas na investigação — incluindo 33 que tiveram as contas bancárias bloqueadas por decisão do Supremo Tribunal Federal — e identificou que, em 45 casos, os proprietários são também donos de imóveis rurais ou de empresas agropecuárias. Eles se juntam a 46 fazendeiros listados pela SSP-DF com caminhões registrados em seus CPFs.

Com 91 nomes, o núcleo dos caminhões — não confundir com a categoria profissional dos caminhoneiros — responde por 64% da lista consolidada neste relatório. Mais uma vez, ninguém foi condenado na Justiça: boa parte dos veículos haviam deixado Brasília quando as forças policiais realizaram dezenas de prisões no mesmo acampamento, após o 8 de janeiro de 2023.

Acampamento golpista próximo de Campo Grande. (Reprodução/Facebook)

Naquele ano, duas comissões parlamentares de inquérito tentaram aprofundar as investigações sobre os vândalos que invadiram a Praça dos Três Poderes, ou seja, investigando os mandantes. No Senado, a CPMI do 8 de Janeiro, investigou durante 5 meses a teia de articuladores por trás do quebra-quebra. O relatório final indiciou 13 fazendeiros.

Na Câmara Legislativa doDistrito Federal, a CPI dos Atos Antidemocráticos indiciou 136 pessoas — entre elas, seis fazendeiros — acusadas de contratar ônibus, tendas e banheiros químicos para garantir infraestrutura para os acampamentos em frente do QG do Exército em Brasília, às vésperas do 8 de janeiro.

Somam-se a esse registro outros onze nomes obtidos por meio de relatórios policiais estaduais, consolidados pela coluna do jornalista Fausto Macedo, do Estadão.

Ao todo, esse segundo núcleo, responsável por financiar os acampamentos golpistas no DF e em outros estados, concentra 30 nomes — 21% do total.

Aqui cabe um lembrete: comissões parlamentares de inquérito constituem um ato político e administrativo, mas não têm força de lei. Não há efeito jurídico a não ser que o Ministério Público Federal ou os MPs estaduais levem o caso à Justiça.

A lista que você verá nas próximas páginas se baseia exclusivamente em nomes implicados legalmente nas fontes oficiais. Nomes mencionados apenas em relatórios de inteligência, como o da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), divulgado pelo portal Congresso em Foco, não foram incluídos.

Salvo as exceções: aqueles que também foram indiciados em outros processos relativos ao golpismo no Brasil.

É o caso de Antônio Galvan, que presidiu a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) durante a era Bolsonaro. Responsável pela radicalização ideológica da organização, ele aparece junto a outros sete líderes do setor — entre presidentes de sindicatos rurais e dirigentes das Aprosojas regionais — que foram investigados na CPMI do 8 de Janeiro, no Senado.

Datado de 10 de janeiro de 2023, dois dias após a tentativa de golpe, o relatório da Abin aponta o Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA) como articulador, pelo menos desde 2021, de manifestações golpistas. Falaremos mais sobre o papel do MBVA no terceiro capítulo.

Além desses dirigentes, o núcleo do 8 de janeiro conta com cinco fazendeiros que foram alvos de busca e apreensão no inquérito na Operação Lesa Pátria. São eles: José Ruy Garcia, vereador de Inhumas (GO); Fernando Junqueira Ferraz Filho, primo do prefeito de Leopoldina (MG); Luciene Beatriz Ribeiro Cunha, pecuarista de Uberaba (MG); Geraldo Cesar Killer, de Bauru (SP), com quem foram apreendidos US$ 142 mil em espécie.

Quem fecha o grupo é Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e alvo da 26ª fase da Lesa Pátria. Ele é investigado por organizar comboios com ônibus e caminhões rumo a Brasília, além de estimular bloqueios de rodovias na região sul do estado. Um combo completo.

Ao todo, o núcleo do 8 de janeiro possui 18 nomes.

O quarto e último núcleo é numericamente menor, ainda que impactante. Ele é composto por três fazendeiros do sudeste do Pará. Foi de lá, do município de Xinguara (PA), que saiu o cearense George Washington de Oliveira Sousa, terrorista condenado por planejar explodir um caminhão-tanque com 60 mil litros de querosene perto do Aeroporto de Brasília, em 24 de dezembro de 2022. A bomba não detonou por falha técnica. A Polícia Federal apreendeu no quarto de hotel onde ele se hospedava fuzis, pistolas, revólveres, munições e artefatos explosivos.

Mostramos a conexão de George Washington com o agronegócio no dossiê “As Origens Agrárias do Terror”. No momento da prisão, George forneceu como contato de confiança o número de telefone do pecuarista Bento Carlos Liebl, dono de fazendas no sul do Pará, em área próxima da Terra Indígena Apyterewa. A família Liebl é proprietária de um conjunto de fazendas em São Félix do Xingu (PA) que totalizam cerca de 30 mil hectares. Parte dessas propriedades foi alvo de embargo pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento com uso de fogo.

Meses depois, um inquérito da Polícia Civil do Distrito Federal passou a investigar formalmente o casal Bento e Roseli Liebl por envolvimento no planejamento do atentado com explosivos. George foi condenado a mais de nove anos de prisão. Até o momento, os pecuaristas não foram denunciados formalmente pelo Ministério Público.

Segundo a Polícia Federal, além da ligação com a família Liebl, George Washington teria contado com apoio de Ricardo Guimarães de Queiroz, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Marabá. Ele foi preso em julho de 2023, em flagrante, durante a Operação Embarque Negado. Em sua casa, os agentes apreenderam dois revólveres sem registro de posse e munição. Guimarães foi vice-prefeito de Itupiranga (PA) entre 2017 e 2020.

Dono de 6 mil hectares entre Itupiranga e Marabá, Guimarães já foi multado por desmatamento e autuado por mantertrabalhadores em condições análogas à escravidão. Também organizou bloqueios e churrascos (notem a predileção gastronômica dos agrogolpistas) em frente do quartel do Exército, no Pará.

O ARCO (GOLPISTA) DA SOJA

No dia 16 de novembro de 2022, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) publicou uma lista com os nomes dos proprietários de 234 caminhões estacionados em frente do Quartel-General do Exército, em Brasília. Próximo do Eixo Monumental, o QG serviu de base de operações para os golpistas que invadiram a Praça dos Três Poderes no 8 de janeiro.

A lista da SSP-DF apresentava um dado importante para uma compreensão geográfica da intentona golpista liderada por Jair Bolsonaro. Dos 234 caminhões presentes em Brasília, 146 vieram de um mesmo estado, o Mato Grosso. Foi a identificação dos proprietários desses veículos que permitiu ao ministro Alexandre de Moraes decretar o bloqueio das contas bancárias de 33 empresas e 10 indivíduos suspeitos de financiar o trancamento de rodovias e dar suporte logístico aos acampamentos golpistas.

O levantamento realizado pelo De Olho nos Ruralistas soma uma nova camada a essa reflexão: desses 43 nomes, 30 estão diretamente ligados ao agronegócio. Todos eles, sem exceção, concentram sua atuação econômica em Mato Grosso.

Autointitulado “celeiro do Brasil”, o estado lidera o ranking de empresários do setor agropecuário investigados por participar em atos antidemocráticos. Ao todo, são 74 nomes — 52% do total. Em sua maioria, eles participaram da intentona golpista a partir do envio de caminhões para Brasília ou para os bloqueios rodoviários: 51 indivíduos e empresas se encaixam nessa categoria.

Boa parte deles está concentrada em uma área conhecida como Nortão. Não se trata de uma divisão administrativa, mas de um aglomerado de três macrorregiões, totalizando 36 municípios — quase todos na Amazônia mato-grossense. Economicamente fortalecida graças às exportações do agronegócio, essa região chegou a alimentar pretensões de se separar do restante do estado, formando uma nova unidade federativa: o Mato Grosso do Norte. Defendida por ruralistas no Congresso, a proposta nunca foi em frente.

Um terço dessa lista pertence a uma mesma família. Trata-se do clã Bedin, com dez membros arrolados entre os donos de caminhões estacionados no pátio do Exército. Segundo relatório da Abin, eles eram donos de pelo menos quinze veículos usados em bloqueios de rodovias e no QG em Brasília. A informação foi divulgada no dia 3 de outubro de 2023, durante depoimento do patriarca Argino Bedin na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro.

Questionado sobre o financiamento aos atos antidemocráticos, o empresário fez uso do direito ao silêncio. Durante a sessão, Argino chorou e foi consolado pelo então deputado federal — atual prefeito de Cuiabá — Abílio Brunini (PL). “O senhor ajudou com caminhões em protestos?”, perguntou o deputado. “Parabéns! Fazer protesto não é ilegal. Não se incomoda com essas coisas não, fique feliz, fique tranquilo”. Brunini demonstrou algum conhecimento de como pensam seus conterrâneos: “Acham que no Mato Grosso ele vai ser acusado ou ofendido? De modo algum, ele vai ser é aplaudido em Sorriso!”.

A profecia de Brunini se cumpriu. Quando retornou a Sorriso, quatro dias após seu depoimento, Argino foi ovacionado em um evento de gala organizado por políticos e expoentes do agronegócio mato-grossense. Ele subiu ao palco, com um sorriso amarelo, para ser homenageado em frente de uma plateia inflamada. O momento foi registrado em vídeo pelo vice-prefeito de Sorriso, Acácio Ambrosini (Republicanos).

Em 2022, quando tentou se eleger deputado federal, sem sucesso, Acácio recebeu uma doação de campanha de R$ 50 mil de um determinado empresário: Argino Bedin. O sojeiro realizou apenas dois aportes naquele ano: o segundo foi um pix simbólico de R$ 1 para Jair Bolsonaro.

Conhecido como “Pai da Soja” e um dos pioneiros de Sorriso, Bedin foi responsável pela emancipação do município em 1986. Entre 1987 e 1988, foi vereador. Hoje é dono de 16 mil hectares no norte mato-grossense.

Documentos enviados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) à CPMI do 8 de Janeiro apontaram que Roberta Bedin, filha de Argino, movimentou R$ 19,6 milhões entre 2021 e 2022. Seu pai, R$ 1,9 milhão. Segundo o relatório, os montantes tinham origem não identificada e sinalizavam que o dinheiro foi injetado em ações políticas.

Argino e Roberta estão entre os 43 empresários que tiveram as contas bancárias bloqueadas por suspeita de organizar e financiar atos antidemocráticos. Com eles aparece o primo Sérgio Bedin, que nas eleições de 2022 doou R$ 100 mil para a campanha de Bolsonaro à reeleição.

Outro primo, Luciano Bedin, depositou R$ 60 mil para o ex-presidente. 41 Outros seis membros da família figuram na lista de donos de caminhões encontrados no QG do Exército em Brasília: Rafael e Nilson Bedin, Ary Pedro Bedin e seu filho Evandro; além de Cristiane e Ângela Maria Bedin, sócias na Sorriagro Insumos Agrícolas.

Uma pergunta retórica: trata-se de uma organização pequena?

DIRIGENTES DA APROSOJA LIDERARAM MOVIMENTO GOLPISTA

O cerco a Brasília em 2022 não teve somente como base caminhões e tratores. As manifestações vendidas por Jair Bolsonaro e pelo núcleo militar do governo como um movimento espontâneo foram concebidas em uma engrenagem político-econômica. A mesma engrenagem que sustenta a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso.

Em julho de 2022, meses antes das eleições presidenciais, este observatório mostrou no relatório “Os Financiadores da Boiada” que a face institucional da bancada ruralista ocultava a participação de gigantes do agronegócio global, como JBS, Syngenta e Basf — empresas que mantêm parcerias e contratos de fornecimento com agrogolpistas, conforme vimos no capítulo anterior.

O dinheiro que financia o lobby ruralista circula a partir de associações setoriais, que repassam mensalmente suas contribuições ao Instituto Pensar Agro (IPA), responsável por escrever projetos de lei e orientar as ações da FPA em Brasília. Uma das principais organizações por trás do IPA é a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), co-fundadora do instituto em 2011. Até 2023, as duas organizações dividiam a mesma sede, em uma mansão no Lago Sul de Brasília. Atualmente, a associação dos sojicultores ocupa a 1ª vice-presidência no conselho de administração do Pensar Agro.

A Aprosoja é, de longe, a organização com mais representantes na lista de 142 empresários e líderes do agronegócio indiciados por envolvimento nos atos antidemocráticos: seis. Entre eles, presidentes e diretores. Eles não operaram à margem do sistema, mas como representantes diretos de um bloco que movimenta bilhões e influencia leis. O mesmo capital que sustenta seus latifúndios garante a blindagem política: um ciclo fechado, onde o poder econômico se impõe nas instituições e bloqueia qualquer responsabilização.

Foi no seio da Aprosoja que nasceu o Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA). Fundado em 2017 com o pretexto de reagir às pressões regulatórias e ambientais sobre a agropecuária, o MBVA funcionou, na prática, como plataforma de mobilização política para pautas antidemocráticas. Seu papel na convocação e articulação de manifestações golpistas foi reconhecido no relatório final da CPMI do 8 de Janeiro.

A escalada na radicalização do discurso do MBVA, segundo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), levou o grupo de fazendeiros a organizar, após a derrota de Bolsonaro nas urnas, bloqueios rodoviários e atos porintervenção militar em portas de quartéis. No Senado, os líderes do movimento foram indiciados por associação criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Quatro representantes ligados ao MBVA foram listados no relatório da CPMI do 8 de Janeiro. São eles: Antônio Galvan, que presidiu a Aprosoja Brasil entre 2021 e 2024; Alan Juliani, ex-presidente da Aprosoja Bahia (2017–2021); Joel Ragagnin, ex-presidente da Aprosoja Goiás (2021–2024); e Lucas Costa Beber, atual presidente da Aprosoja Mato Grosso. Os dois últimos também integram o time de vice-presidentes da Aprosoja Brasil.

Todos atuaram ativamente no Movimento Brasil Verde e Amarelo, impulsionando a mobilização ruralista em seus estados durante e após as eleições de 2022.

Além deles, a relação de agrogolpistas inclui Christiano da Silva Bortolotto, presidente da Aprosoja MS entre 2015 e 2017 e indiciado na Operação Lesa Pátria; e Giancarlos Bavaresco, conselheiro fiscal da Aprosoja MT no biênio 2018/2020, identificado como contratante de banheiro químico para o acampamento golpista de Brasília.

O PAPEL DOS SINDICATOS RURAIS

Sindicatos rurais desempenharam papel importante na articulação golpista que culminou nos atos de 8 de janeiro. Entre eles, aquele presidido por Christiano Bortolotto em Amambai (MS). Em Goiás, dois líderes sindicais foram apontados como peças-chave: Vitor Geraldo Gaiardo, ex-presidente do Sindicato Rural de Jataí, e Luciano Jayme Guimarães, ex-presidente do Sindicato Rural de Rio Verde.

Ambos foram identificados como integrantes ativos do Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA). Eles são suspeitos de financiar acampamentos em frente de quartéis e, após as eleições de 2022, de organizar bloqueios de rodovias e caravanas rumo a Brasília. O relatório da CPMI do 8 de Janeiro recomendou o indiciamento de Gaiardo e Guimarães por associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado.

Outro listado foi o pecuarista Renê Miranda Alves. Ele era vice-presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste (MS) quando foi apontado pela Secretaria de Segurança do Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) como um dos organizadores de atos em frente dos quartéis. Luimar Luiz Gemi presidiu o Sindicato Rural de Sorriso (MT) e foi mais um que enviou caminhão para o acampamento em Brasília.

E na região Sul? O Sindicato Rural de Castro, no Paraná, contratou um ônibus para transportar manifestantes a Brasília nos dias que antecederam os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Segundo o relatório final da CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal, a organização pagou R$ 20 mil pelo serviço.

Castro é sede da Castrolanda, uma das maiores cooperativas agroindustriais do Brasil. O município é considerado a maior bacia leiteira do país. Em 2022, a cooperativa faturou R$ 7,2 bilhões, produzindo 472 milhões de litros de leite.

Sindicatos rurais da região também operaram por meio do MBVA. O relatório da Abin apontou como líderes sulistas o arrozeiro gaúcho Juarez Petry de Souza, líder do movimento “Te Mexe Arrozeiro” e presidente do Sindicato Rural de Tapes (RS), e o sojeiro Valdir Edemar Frias, de Itambé (PR).

Em Roraima, o sojeiro José Luiz Zago e sua filha, Aline Helena Zago, foram identificados como líderes nos bloqueios em Boa Vista, conforme relatório da Abin. No Tocantins, o presidente do Sindicato Rural de Araguaína, Wagner Martins Borges, foi citado como líder local nas manifestações que contestaram o resultado eleitoral.

O PAÍS DAS CASTAS


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